As portas de mogno se abriram, deixando entrar uma rajada de vento frio, varrendo para dentro água e folhas do jardim. Um lobo de pelagem castanha entrou, sacudindo a água da chuva de seu corpo robusto. As portas da mansão se fecharam com estrondo, ecoando pela casa, cessando o som da chuva. O lobo avançou lentamente pelo corredor, chegando à sala de estar enorme, uma mesa ampla em seu centro. Os sofás e a mobília foram arrastados para os cantos. Duas escadas de mármore levavam à sacada de vidro no andar superior. À esquerda da sala um pequeno corredor levava à um salão, ainda maior, com janelas de vidro altas e largas com vista para o jardim. Ao fundo era visível um portão branco elaborado. Mais longe ainda estava o mar, remoto, cor de chumbo.

A conversa, já baixa, cessou. Uma figura alta, um homem, ergueu-se de um dos sofás, aproximando-se do lobo a passos largos. O animal se encolheu, um ganido baixo saindo de sua garganta. O homem parou diante dele, emitindo um som de desgosto. O lobo se afastou dois passos e se ergueu nas patas traseiras; os membros se alongaram, o corpo mudou de forma. O focinho virou humano e os cabelos castanhos caíram nos ombros. Agora ele era um rapaz, o rosto cheio de hematomas. A blusa vermelha estava suja de sangue e a calça mais rasgada que antes. Malcoln, sem olhar para Elijah, tirou um elástico do bolso da blusa e prendeu o cabelo bagunçado e sujo.

—E então? — resmungou Elijah, apertando os olhos multicoloridos.

—A garota — a voz do licantrope era áspera como uma lixa — estava no bar daquele feiticeiro...

—Você levou um sexto do meu bando com você — Elijah rosnou, exibindo os dentes perfeitamente brancos -, e não pegou ela?

—Eram semideuses demais...

—O garoto de Netuno — berrou o outro, contando enraivecido nos dedos -, uma de Vênus, um de Minerva, e o resto não passava de crias de deuses menores! Dean já me contou tudo, seu estúpido!

—Eu só...

—O quê? Ficou com medo da menina? Ficou com medo de ser queimado?

Malcoln desviou o olhar, o canto da boca tremendo. Elijah rosnou e olhou por cima do ombro, gritando em grego antigo. Outra figura se aproximou, menor e mais esguia. A empousai, Gwendolyn, sorriu para Malcoln; O lobisomem ganiu, se afastando. Sua voz estava irreconhecível, parecia a mistura de ganidos, rosnados e o tom de agonia. No entanto, era perceptível que ele clamava por misericórdia. Gwen não sorria mais; estava tão branca quanto leite, o cabelo louro feito trigo contornando o rosto encoberto pelas sombras.

—Não vai doer nada — ela sussurrou antes de avançar. Um lamento e um baque surdo. O sangue espalhou-se pelo tapete claro.

—Não é possível — Elijah passou as mãos pelo rosto — Estão cada vez mais inúteis.

—Mas já sabemos aonde a garota vai estar — Gwen ergueu-se sobre o corpo de Malcoln, passando a costa da mão sobre a boca vermelha — Ela é tola o bastante para sair sozinha. E o namoradinho também, pelo visto.

—Mas ela pode mudar isso — Elijah estava desesperado — Ela pode ter visto tudo o que vai acontecer antes de mim...

—Nossa informante já garantiu que ela não vai saber de nada.

—Sente a presença dela?

—Ela não está sonhando, Elijah — Gwen sentou-se sobre a mesa entre um exército de pessoas brancas de xadrez e um de pretas. Ela pegou uma das pretas e virou entre os dedos — Morfeu bloqueou a mente dela. Se não pode ter sonhos, não pode mudar o futuro.

Elijah sorriu por entre os dedos, um sorriso rasgado. Ele se virou para um grupo grande de lobos , pelo menos duas dezenas, que descansava no salão, em frente as janelas embaçadas pela chuva. Os lobos ergueram as orelhas, atentos enquanto Elijah dava ordens em latim.

—Apenas mais um filhote de deus estará com ela — completou ele em inglês — Portanto, quero que a tragam para mim. Entenderam?!

Os animais uivaram e se ergueram. As portas da frente se abriram e o bando correu para a noite, desaparecendo além dos portões.

Gael, novamente, soltou um latido profundo, sentado ereto diante da porta do meu quarto. Terminei de calçar os tênis e me levantei, puxando as mangas do sueter sobre os puhos. Gael inclinou a cabeça para trás, varrendo o chão com o rabo. Latiu outra vez, conseguindo ser ainda mais barulhento.

—Você pode ficar quieto? — pedi enraivecida. Coloquei a mão na maçaneta e abri a porta; o lobo saiu em disparada do quarto, esbarrando o corpo enorme em minhas pernas. Soltei uma exclamação de surpresa enquanto caia para a frente.

Mãos fortes e cobertas por calos seguraram meus braços, impedindo que eu desse com a cara no chão.

—Já conheci meninas atiradas — disse a voz suave e quente de Isaac no meu ouvido, seu hálito soprando meu cabelo. Ele me endireitou, meu rosto muito perto do seu — Mas isso é um pouco demais, não acha?

—Não fiz por querer — alisei minha saia, evitando olhá-lo nos olhos. Minhas bochechas pareciam arder em brasas — E você percebeu, não diga que não — finalmente olhei para ele — O quê estava fazendo?

—Tive medo de que você estivesse estuprando Gael.

—Isso não devia ser sexy? — ergui uma sobrancelha, torcendo a barra da saia entre os dedos — Tipo pornô com cavalos?

—Na verdade acho pornô com cavalos algo repulsivo — ele franziu o rosto — Eles não gostam, sabia?

—Me esqueci do seu lado equino — murmurei dando as costas para ele e me dirigindo à escada. Não era a primeira vez que eu o via no dia. Passamos a tarde toda treinando, já que não tínhamos nada melhor para fazer. Meu pulso quebrado ainda latejava, no entanto estava melhor, no lugar. Felizmente, eu era destra. A mão esquerda não faria tanta falta.

—Porque você acha que eu sou esse garanhão? — Isaac seguia em meu encalço, sempre irritante. Não consegui reprimir uma pontada de felicidade em meu peito.

—Porque na maior parte do tempo você está sendo um verdadeiro cavalo.

Isaac abriu e fechou a boca, as sobrancelhas unidas em indignação.

—Boa resposta. Você me daria que raça?

—Um pônei fofo e bonzinho.

—Muito obrigado.

Olhei por cima do ombro, sorrindo. Um brilho dourado no pescoço dele me chamou a atenção e estremeci ao ver aquela corrente, ao lembrar que eu havia perdido a que ele me dera, a que fora de sua mãe. Eu fiz uma promessa, e não consegui cumpri-la. Senti a garganta seca, o estômago parecia congelado. Desviei o olhar dele e pulei o último degrau da escada em espiral, pousando desengonçada na sala de estar. Vozes vinham de detrás da porta da frente, junto com o bater de portas de carro. Isaac passou por mim e se dirigiu para o corredor atrás das escadas, fazendo um sinal para que eu o seguisse. A porta da garagem estava aberta e sombras se moviam por lá. Aquilo me lembrou de que, infelizmente, a única pessoa que consegui encontrar para me levar até o restaurante foi Lucca e Isaac ainda não sabia disso. Segui-o com cautela, sem fazer barulho no soalho de madeira.

Isaac empurrou com o ombro as portas entreabertas da sala de música; assim que ele deu um passo para dentro deixou escapar um ruído de dor e chutou o ar. Uma coisa peluda e tricolor saiu correndo em disparada. Pixel escalou as costas do sofá e pulou entre as almofadas. Virei-me para Isaac; quatro pontos vermelhos marcavam seu tornozelo.

—Você dá carne humana pra essa gata? — ele sibilou baixinho, indo até o piano — Não é a primeira vez que isso acontece.

—Às vezes — dei de ombros, desinteressada, e apoiei-me de braços cruzados na parede oposta ao piano, do lado das portas — Não sentiu falta de nenhum dedo?

Ele sorriu, aquele sorriso simples e sincero que fazia com que eu esquecesse o quanto as coisas estavam péssimas para nós. Os olhos dele brilharam por um segundo quando a luz refletiu nas íris azuis; não um azul opaco, uniforme. Para mim, lembrava os vitrais das igrejas, os muitos tons de azul se intercalando sutilmente do azul escuro para um tão claro quanto o céu de dia.

—Estou me sentindo mal por Darius — murmurei esfregando meu pulso, lembrando da noite anterior. Na hora fora tanta a adrenalina que eu nem pensei nos prejuízos causados ao bar — Praticamente destruímos o White Rabbit .

—Ele já está acostumado a isso — Isaac havia se sentado na banqueta do piano e cruzado as pernas. Agora massageava o tornozelo atacado — E eu acredito que as brigas atraiam clientes. Deixa o ambiente mais interessante.

—Mas ainda assim... — apertei os braços a minha volta, sendo consumida por remorso.

—Não precisa se preocupar com isso — Isaac sorriu tranquilizador — Conheço Darius, ele não liga para esse tipo de coisa.

Assenti, olhando para o chão. Tudo parecia estar ruindo naquele momento; o bar, a corrente perdida, os lobisomens. Nada estava dando certo. Isaac percebeu isso e franziu o cenho, apreensivo. Os lábios eram uma linha fina e rígida, o maxilar estava tenso.

—Ei, esqueça tudo, ok? — Ele se arrumou no banquinho, como se fosse levantar — Esqueça o que aconteceu ontem, esqueça que Elijah está planejando um atentado terrorista nesse momento...

—Isaac!

—Ué, ele pode estar inspirado. — Ele deu de ombros, puxando a gola da camiseta azul escuro como se esta estivesse lhe apertando a garganta — Não sabemos. Em suma, tente se concentrar em outras coisas, tipo aquele jantar em família. Aliás, você conseguiu alguém pra te levar? — A pergunta me atingiu como um soco. Eu esperava que não tivesse que contar isso à ele, levando em conta que ele e Lucca, pelo visto, se odiavam.

—Antes de responder, quero deixar claro que perguntei para todo mundo — garanti — Lucca vai me levar. Ele era o único disponível.

O queixo de Isaac caiu.

—Porque ele? Você não podia ter ligado para um de seus amigos?

—Os outros estavam ocupados — encolhi os ombros, meio que me desculpando — E eu pensei que você fosse sair antes de mim.

—Não, eu só vou mais tarde — ele mordeu o lábio, preocupado — Se quiser ainda posso te levar. Não confio em Lucca.

Fiquei me perguntando o que havia acontecido entre os dois para que eles não se gostassem daquele jeito.

—Não, eu só vou te atrapalhar — assegurei. Isaac se levantou e se aproximou de mim, parando do meu lado para fazer carinho em Gael. Eu nem havia percebido que ele estava ali — Vão precisar de você no parque. E além do mais, tome cuidado lá. Para não ser pego.

—Você também — ele ergueu os olhos para mim — Se é que me entende.

—Ah, pelos deuses, Isaac — revirei os olhos, o sangue subiu para o meu rosto — Não vou transar com ele.

—Tome cuidado mesmo assim. Com monstros, quero dizer — Ele olhou por cima do ombro, pausando as mãos — Como eu disse, Elijah pode estar motivado.

—Espero que não...

—Por precaução, mantenha Lucca por perto — ele pensou um pouco — Ou melhor, mantenha ele a uma distância segura.

—Callum vai estar lá.

—Dayannya! — Chamou Lucca da sala. Quase estremeci sob o som da voz dele — Vamos logo!

—Tome cuidado — pediu Isaac de novo, agora mais temeroso — Olha, precisamos conversar quando voltarmos. É importante.

—Claro, sem problemas. Enfim, tenho tudo sob controle — Já ia me virando — Ah, está bom? — Perguntei para Isaac, abrindo os braços, antes de dar as costas. Eu tinha vestido um sueter verde-acinzentado e uma saia plissada verde, uma bolsa pequena repousada em meu quadril. Isaac percorreu demoradamente os olhos por mim. Senti-me enrubescendo, porém, por algum motivo, não me senti incomodada. Um pensamento passou voando pela minha cabeça, de que eu realmente não me importaria se ele pusesse aqueles olhos azuis em meu corpo, e só o meu...

—Perfeito — disse por fim, se abaixando para ajustar a coleira de Gael, que tentou lamber seu rosto.

Meu estômago gelou. De repente senti vontade de ficar ali com ele e saber o que ele tinha a dizer. Eu também sentia urgência de esclarecer muitas coisas. Suspirei, quase sem saber o que fazer. Eu não podia simplesmente sair da sala e deixá-lo sozinho, mas também não podia deixar Lucca esperando.

Me aproximei dele com passos largos e decididos, me inclinando e beijando seu rosto. Não fiquei ali para ver sua reação, simplesmente fui embora de lá, atravessei a sala rapidamente e saí da casa. O vento frio me atingiu com força, meu cabelo chicoteando meu rosto. Três carros pretos e de aparência cara estavam estacionados na rua; um grupo de pessoas conversava, entre eles Dakota, Elias — que parecia petrificado -, Geoff, Sarah e a mulher ruiva que vi outro dia na biblioteca, Nicole. Todo o grupo estava armado. Ninguém me notou.

Localizei Lucca com o olhar, parado ao lado da picape do Reformatório. Fui até lá enquanto ele abria a porta do carro. Sentei no banco do passageiro ao seu lado, passando o cinto de segurança sem olhar para ele.

—Se tentar qualquer coisa — resmunguei arrumando minha saia sobre as pernas — juro que corto seus dedos fora e dou para a minha gata comer.

—Não vou fazer nada — ele garantiu dando a partida na picape. Olhei de lado para ele; estava com uma blusa azul escuro e jeans pretos, o cabelo louro escuro arrumado apesar do vento. Também usava um cinto de armas, munido com vários canivetes borboleta e facas de lançamento — Só quero conversar.

—Sobre o quê? — Perguntei desconfiada, fingindo remexer o conteúdo da minha bolsa.

—Sobre Isaac.

Ergui a cabeça.

—Você não é gay, é?

—O quê?! — Ele me encarou espantado. Um carro buzinou quando as mãos de Lucca escaparam momentaneamente do volante e a picape oscilou pela rua. Ele se segurou novamente, dando uma guinada que me fez ser jogada contra a janela — É claro que não, que raio de pergunta foi essa?!

—Ah — desviei o olhar dele para a rua — Nada. Apenas... Suposições.

—Uma suposição muito precipitada, não acha?

—Desculpe! — exclamei azeda — Não foi minha intenção!

Lucca torceu o nariz, me observando de soslaio. O sol batia em seus olhos deixando-os âmbar, de um jeito que parecia refletir as coisas a sua volta, inclusive eu. Ele era um rapaz bonito. Mas eu não sabia se essa beleza também espelhava em seu interior.

—Tá... — comecei constrangida — Então, o que foi?

—Só quero te prevenir — Lucca deu de ombros, displicente, fazendo um jogo rápido de pulso para mudar a marcha — quanto a ser iludida. Ele não é o que parece.

—Sua irmã pelo visto não sabia disso — resmunguei. Minha tentativa de tentar fazê-lo falar sobre suas desavenças com Isaac falhou.

—Peggy é um ótimo exemplo de garota ingênua.

—Acha que sou ingênua?

—Não. Mas Isaac também não é, ele sabe...

—Olha, eu confio nele — rosnei trincando os dentes, me virando no banco. Minha bolsa escorregou pelo meu braço, mas nem me importei — E tenho muitos motivos para confiar mais nele do que em você...

—É isso que estou querendo dizer! — Ele abriu as mãos sobre o volante — Isaac Belcourt cresceu ludibriando as meninas por simples prazer. Conheço ele ha muito mais tempo que você, Dayannya, e sei o que estou dizendo. Isaac não tem coração. Ou você acha que todo aquele charme é simples coincidência? E não minta, sei que você já foi galanteada por ele.

Eu sentia meus olhos vítreos na rua a frente. Meu coração parecia ter despencado de um abismo, sem volta. Eu jamais acreditaria em Lucca, eu mal o conhecia. Mas aquela conversa me assustou, não vou negar. Foi como se todos os desesperos e dúvidas se agravassem de uma só vez, confirmando o medo que eu sentia: eu era apenas mais uma na lista de Isaac.

—Dayannya...

—Cale a boca.

Ele piscou, estupefato, mas ficou quieto. Peguei meu celular na bolsa, batucando os dedos no aparelho sem saber para quem ligava. Eu não poderia conversar com Callum, com Lucca ouvindo, da mesma forma que eu não queria ligar para Isaac. Também não podia desabafar com Teo ou Sirena, e Sierra estava ocupada com Dakota. Ela com certeza ficaria histérica ou não me atenderia.

Respirei fundo, tentando me concentrar em qualquer coisa. A rua estava tomada pelas cores do outono; bronze, dourado e vermelho. Continuava enfeitada da noite anterior, apesar das abóboras e das luzes estarem apagadas. O sol pairava acima da linha do horizonte, tingindo o céu de rosa e laranja. Passamos a última meia hora em silêncio. Meu rosto formigava mais a cada segundo, a calada era desconcertante, sufocante. Parecia que o olhar de Lucca estava grudado em mim, mesmo ele estando concentrado na avenida adiante.

Cogitei a possibilidade de pedir para ele parar o carro, para que eu seguisse o resto do caminho de ônibus. Depois de alguns minutos, quando finalmente decidi que aquilo não dava mais, ele estacionou.

O restaurante ficava do outro lado da rua, à minha direita. Ergui a mão para abrir a porta, repleta de alívio. Um clique alto soou e arregalei os olhos, puxando a maçaneta com força; estava trancada.

—Lucca...

—Você é diferente, Daya. — Virei-me no banco. O garoto estava muito próximo, quase curvado sobre mim. Seu hálito cheirava a baunilha — Aprecio poder em uma garota. E você tem mais disso do que todas as outras — ele murmurou, levando a mão para o meu rosto.

—Abra o carro — pedi, me afastando com rapidez — Antes que eu...

—Tudo bem — ele ergueu as mãos, um sorriso torto no rosto. Apenas encarei-o com raiva e medo — Vou estar aqui fora esperando. — Destrancou as portas — E lembre-se do que eu disse.

Saí da picape as pressas, batendo a porta com força. Não olhei para trás enquanto caminhava a passos rápidos até o restaurante. Sentia um olhar fixo em minhas costas, mas presumi que fosse Lucca.

Porém, um pressentimento pior me consumia. Eu não esqueceria o que ele tão cedo.