A fachada do restaurante iluminava a calçada de vermelho e laranja, se misturando à cor das árvores. Lá dentro estava lotado. Uma fila de pessoas esperava por mesas à entrada. Espremi-me por entre elas, tomando cuidado para não fazer muito contato físico com os estranhos; a proximidade de Lucca já fora o bastante por uma noite.

Um rapaz se ofereceu para me levar até minha mesa, mas dispensei-o com um aceno de mão. Eu já estava vendo Teo, empurrando a gente para abrir caminho até mim.

—Nunca mais suma desse jeito. — Disse quando me abraçou.

—Não posso prometer nada – queixei-me, empurrando-o com gentileza, mas meu sorriso desapareceu aos poucos quando vi a expressão de Teo; ele parecia intrigado, como se eu tivesse tido a ousadia de aparecer ali.

Por baixo de seu braço eu vi Callum, o cabelo castanho cacheado penteado da melhor maneira possível. Ele tinha um sorriso de orelha a orelha.

Passei por Teo e o abracei, respirando fundo em sua camisa. Estava com o mesmo perfume de sempre; canela e pinho. Desde criança ele tinha aquele cheiro.

—Fiquei tão preocupado – ele disse contra meu cabelo, deixando sua voz abafada – Isaac me contou o que aconteceu naquele dia.

—Eu estou bem – respondi, segurando seus pulsos. Era estranho pensar nele como meu ex-namorado que era. Aquilo nem parecia ter acontecido. Se os meus próprios sentimentos estavam confusos, não conseguia nem imaginar como estavam os dele – Sierra também. Ela se recuperou rápido.

—O que? Ah, nao importa. Olha, você devia ir logo falar com eles – interrompeu Teo, apontando para o palco mais ao fundo do estabelecimento. A banda estava lá, reunida; Kev ajudava Joe, apoiado em suas muletas, a montar o teclado. Arthur afinava o baixo ao mesmo tempo que discutia com seu gêmeo, Andrew, que o ignorava e contava algo nos dedos. Todos pareciam muito concentrados, como sempre ficavam antes de uma apresentação – Estamos decidindo uma coisa importante e precisamos da sua opinião.

—Não pode ser depois? – Reclamei, franzindo o cenho – Jordan...

—Ele e Eleanor estão nadando em felicidade, vamos logo. – Teo agarrou meu braço e me puxou em direção à banda. Com o canto do olho finalmente avistei os dois; estavam à direita do palco, rindo e tomando vinho. Ele ainda não devia ter feito o pedido, pois não havia nenhum anel na mão da minha mãe. Ela estava linda, como sempre, apesar da idade; o cabelo cor de chocolate estava solto sobre os ombros e ela usava uma blusa e calça, simples. Parecia ansiosa, porém menos que Jordan. Eles ainda não tinham me visto.

No entanto, Joe, lá na frente, viu. Ele soltou uma exclamação e largou o suporte do teclado nos pés de Kev. Este gritou um palavrão, mas eu não sabia se era por minha causa ou pelo pé. Ethan e Dylan se viraram e sorriram alegres. Mesmo que gêmeos, não eram idênticos, mas muito parecidos. Tinham o mesmo queixo quadrado e olhos verdes. A diferença era que Ethan era louro, enquanto Dylan era moreno, além de ser mais bronzeado por passar horas surfando em Montauk.

—Andou desaparecida! – Dylan desceu do palco e me abraçou — Onde esteve?

—Tive uns probleminhas, mas está tudo bem – o nervosismo aflorava na boca do estômago. Tentei parecer animada – Ei, Teo me disse que vocês estavam resolvendo umas coisas. O que é?

Os cinco trocaram olhares rápidos. Franzi a testa, me virando para Call, mas ele havia sumido.

—Nós precisamos – começou Kev com cuidado, sentando-se de frente para mim – que você entre para a banda. Se você quiser, é claro, só que fazer audições demoraria muito e...

—Espera – pedi, ainda mais confusa. Nunca haviam pedido que eu oficialmente, fizesse parte deles – O que aconteceu? Se for algum problema grave, eu posso...

—Estou saindo. – Falou Kev, tão rápido, que achei que fosse mentira. Os outros quatro pareciam arrasados – Por isso que eu e Joe brigamos noutro dia.

—Mas...

—Quero terminar meus cursos – ele continuou – E agora que a banda está indo realmente bem, não vou ter tempo. Você sabe que amo a música, mas tambem quero passar mais tempo com a Awdrey, oficializar as coisas. Agora precisamos de você mais do que nunca.

Cinco pares de olhos me encaravam esperançosos. Alguma coisa, quente e fria ao mesmo tempo, parecia dar voltas dentro de mim. Aquilo estava se tornando apenas mais um evento na minha lista de “com o que me preocupar”.

—Preciso pensar — declarei depois de um momento de espanto — É que está acontecendo tanta coisa ao mesmo tempo... E também tem a escola, meu acampamento de verão...

—Ainda temos um mês — Dylan me acalmou, passando o braço musculoso pelos meus ombros — Você vai ter bastante tempo para se decidir.

—Tudo bem — expirei com força, sorrindo para Kev — Boa sorte com a Awdry.

Ele sorriu e se levantou, voltando a ajudar Joe. Os gêmeos se despediram, subindo para o palco. Me preparei para me virar, mas Teo segurou me braço. Ele parecia perturbado.

—Você tem muito o que explicar – sussurrou – Sabe disso, né?

—Não sei o quanto vou poder contar. Ainda não.

Ele crispou os lábios, semicerrando os olhos azul escuros.

—Vou arrancar isso de você, gatinha. E aliás, essa saia te deixou com uma bunda incrível.

Me permiti um riso seco. Ele deu as costas, antes me lançando um olhar acusador, e subiu ao palco. Após um momento paralisada, resolvi ir até a mesa onde estavam Jordan e minha mãe.

Teo nunca me pediu explicações. Nunca perguntou sobre o acampamento, os machucados que surgiam de repente ou a adaga guardada em minha cômoda. Ele nunca mesmo fez perguntas sobre meu pai, ou o verdadeiro motivo de termos nos mudado para Nova Iorque. No entanto, agora que estava com Christopher, alguma hora ele iria descobrir ou Chris contaria a ele. Não daria mais para esconder.

Encaminhei-me, ainda irrequieta, em direção à mesa onde estavam minha mãe e Jordan. E, agora, Callum se juntara a eles e os três riam juntos. Minha mãe avistou antes que eu chegasse à mesa. Ela se levantou, sorrindo, os olhos pareciam estar marejados. Estendi os braços e ela me abraçou, passando a mão no meu cabelo.

—Eu não sabia o que esperar — disse com a voz abafada. Ela se afastou, segurando meu rosto entre as mãos geladas — Pensei que você pudesse estar machucada, ou diferente...

—Foram só alguns dias — revirei os olhos, apesar de estar feliz por dentro — Estou bem.

—Podia ter tentado entrar em contato – Jordan havia se levantado, parando de braços cruzados ao lado de minha mãe. Os dois juntos, de cara fechada e apreensivos, pareciam uma barreira entre mim e a finita possibilidade de passar a noite sem ser repreendida por passar alguns dias fora de casa. Sendo que nem foi culpa minha.

Percebi que, atrás de Jordan, Callum me observava com uma expressão de interesse divertido. Ele ergueu o polegar e me mandou um joinha.

—Desculpe – retruquei – Por não ter ligado mais, e ter deixado vocês preocupados. Eu só... é que tinha coisa demais na minha cabeça...

—Ééé, aposto que tinha.

—Callum, cale a boca. O que eu quero dizer, é que eu não parei para pensar se vocês estariam esperando que eu ligasse e dissesse: “Olha, mamãe, ainda não morri! ”.

Minha mãe suspirou exasperada, me puxando para outro abraço.

—Eu fiquei com tanto medo – sussurrou, a voz abafada por conta do meu cabelo. – Sei que não é culpa sua, querida... – Percebi que, se ela dissesse mais alguma coisa, iria começar a chorar.

—Deixa pra lá – respondi, me afastando com delicadeza – Eu estou bem, estou aqui, não é? – Olhei de esguelha para Jordan – Mas só para saber, por acaso vou ficar de castigo?

—Vamos pensar a respeito – ele e minha mãe trocaram um olhar rápido – A menos que você queira passar horas extras na escola para recuperar toda a matéria perdida.

—Bem, eu e minha gangue estamos planejando colocar fogo no prédio enquanto cantamos Another Brick in The Wall— encolhi os ombros – Acho que prefiro o castigo.

Jordan sorriu de lado, trocando o peso de uma perna para outra. Pelo menos ele não parecia mais estressado.

—Estão todos perguntando sobre você – acrescentou – Querem saber se aconteceu alguma coisa.

Arqueei as sobrancelhas. Eles, preocupados comigo?

—E o que você respondeu?

—Que sua tia Mildred está morrendo e quer passar as últimas horas do seu lado.

—Jordan! – Censurou minha mãe, dando-lhe um tapa no braço.

—Eu não podia dizer a verdade sobre a nossa garotinha – ele me olhou pelo canto do olho e piscou. Era por isso que eu gostava de Jordan: mesmo tendo acabado de me repreender, ele me defendia logo em seguida. Se isso não era agir como um pai deveria, eu não sabia o que era – Iriam pensar que sou louco.

Minha mãe revirou os olhos. No entanto, ela estava claramente tentando evitar um sorriso.

—Podia ter inventado uma desculpa melhor, ao invés da “Tia Mildred”.

—Não costumo mentir.

Ela sorriu, e de repente assumiu uma expressão de leve espanto, como se houvesse se lembrado de alguma coisa importante.

—Quando você volta para casa com a gente? – Perguntou, a voz carregada de esperança e expectativa.

Senti o sangue esvair-se de meu rosto, meu corpo parecia ter congelado. Meu estômago pesava como se eu tivesse engolido chumbo. Uma coisa era tranquilizá-los. Outra era dizer que eu não voltaria para casa tão cedo, quando eles esperavam exatamente isso.

Fui livrada de ter que responder quando um bando de garotas soltou um berro conjunto. Com uma sensação de alivio, virei-me para o palco e vi Teo de pé em frente ao microfone, as sobrancelhas erguidas na minha direção. Rapidamente entendi a deixa.

—Call, vamos... – Exclamei quando eles começaram a tocar.

—Mas...

Avancei um passo, pisando forte em seu pé e puxando-o para fora da cadeira.

—Vamos estar por perto – prometi, olhando fixamente para Jordan, que parecia ligeiramente esverdeado – Já voltamos.

Arrastei Callum através da multidão, segurando fortemente seu pulso, a música ecoando em meus ouvidos. Eu lembrava daquela música. Havia escrito ela há uns dois anos. Sentei-me na primeira mesa vazia que encontrei e forcei Callum do ao meu lado.

—Sabe – ele começou, esfregando o pulso com marcas vermelhas e me encarando com a testa franzida. Eu observava a mesa de Jordan e minha mãe, não muito longe da nossa, por cima do ombro de Call – É um pouco triste pensar que eles vão se casar.

—O que? – Voltei-me abruptamente para ele – Porque?

—Sua mãe é gata.

—Ah, Call, não! – Exclamei, mas apesar de o comentário ter sido idiota, não consegui não rir daquilo.

—Espero que ela diga não.

—Ela jamais aceitaria você, cai na real!

—Porque? — Ele também ria — Eu sou charmoso, as mulheres mais velhas se jogam aos meus pés.

Passei as mãos pelo rosto, minhas bochechas doendo de tanto sorrir. Olhei para o casal feliz mais uma vez e senti uma pontada de angústia. Eles realmente eram felizes. Dava para ver quando riam, as mãos unidas sobre a mesa. Não que isso fosse ruim, é claro, mas com Callum ao meu lado aquela dúvida horrível voltava à minha cabeça: o que ele sentia por mim agora?

—Daya? — O sorrido de Call havia desaparecido subitamente — Qual o problema?

—Eu... — Um nó se formou em minha garganta — Nada não.

—Ei, pode me falar qualquer coisa — ele esticou o braço sobre a mesa, colocando a mão sobre a minha. Recuei meu punho com rispidez ao toque dele, meu coração apertando no peito quando vi a decepção estampada em seu rosto — Sabe disso, não é?

Fechei os olhos, apoiando o rosto nas mãos em concha. Deixei a música romântica me envolver por alguns segundos, a voz conhecida de Teo, o som das conversas e dos talheres batendo em pratos.

—Não sei mais o que pensar – sussurrei, a voz rouca – Eu estou confusa, Call... com tudo isso. Ficou tudo tão estranho depois que tudo começou. Especialmente você!

—Eu?— Ele ergueu uma sobrancelha – E o que eu fiz?

—Nada – minha garganta queimava – Nada, Callum, mas parece que você mudou, que eu mudei. As coisas não são mais as mesmas e você sabe disso.

Ele apoiou os cotovelos na mesa e suspirou quando passou as mãos pelo rosto, mantendo-as lá por uns segundos.

—Daya, eu sempre vou amar você, independente do que aconteça. Pensei que soubesse disso.

—Então você ainda... gosta de mim?

—Não – Callum não olhava para mim – Acho que... eu nunca estive apaixonado, realmente. – Ele esperou um pouco, mas quando não falei nada, continuou: — Quando namoramos foi como se eu percebesse que estava errado. Você é minha melhor amiga, fui um idiota em pensar que pudesse ter alguma coisa entre nós. A culpa não é sua. É minha. Eu fui precipitado.

—Por onze malditos anos.

—Sim – ele riu, esticando a mão para a minha. Dessa vez não me afastei – Estive me enganando por todo esse tempo. Parece que só não era para acontecer.

Callum me puxou para perto, me abraçando. Deitei a cabeça em seu ombro, olhando para o chão, pensando do jeito estranho que ele agia às vezes. Não era real. Eu não precisava me preocupar mais com o que ele sentia, com o que eu sentia quanto a ele. Depois disso, só havia mais um problema, e um bem difícil de resolver...

Desviei meu olhar do chão por um segundo e levei um susto. Jordan estava ajoelhado no chão, segurando as mãos de minha mãe que tinha os olhos marejados. Ela fazia que sim com a cabeça quando se inclinou e abraçou Jordan, o rosto enterrado na curva entre o ombro e o pescoço dele. As pessoas que notaram aplaudiram e Teo, que já havia terminado a música, ergueu os braços como em uma prece.

—Ela disse sim – murmurei, estática

—Mesmo? – Ele afastou-se para poder olhar, com as mãos nos meus ombros e as sobrancelhas erguidas – Vamos dar os parabéns?

Ri, pensando em dizer: “É claro que vamos, seu idiota”, quando uma sensação de grande inquietude assaltou-me. Distante, encoberto pelas salvas das pessoas, o alarme de um carro disparava. Se alguém ouviu, não devia estar dando a mínima. Aquilo era relativamente comum em Nova Iorque. Mas por algum motivo um formigamento estranho se espalhava pelo meu corpo, os nervos à flor da pele.

Callum deve ter notado, pois se empertigou todo ao meu lado. Ele também parecia tenso, atento, como se tentasse ouvir sobre a barulheira do restaurante.

A adaga presa à minha coxa ficou gelada. Meu coração retumbava dolorosamente no peito, socando as costelas, tentando abrir espaço. Levantei-me de ímpeto, as pernas dormentes. Eu ouvia, claro e perfeitamente, um uivo remoto e agudo, perverso. Abri a boca para gritar, mas minha voz parecia presa.

Estiquei a mão para Call, que se levantava, e ele apertou meus dedos. Olhei para o lado, mas minha mãe estava longe, fora do alcance. Foi quando as portas da frente se escancararam e o terror irrompeu lá dentro.

Uma massa grotesca de animais invadiu o salão. Lobos robustos e encharcados, os dentes brilhando feito facas na iluminação tênue, os olhos maliciosamente percorrendo as vítimas. Um deles se voltou diretamente para mim, as presas arreganhadas, as costas curvadas. Os outros, mais ou menos uns vinte, também se viraram, sacudindo a água do corpo ou salivando enquanto abanavam o rabo. Senti as pernas fraquejando sob tantas dezenas de olhos.

—Finalmente nos encontramos de novo — disse uma voz conhecida atrás da matilha. Um calafrio percorreu minha espinha — Eu não via mais a hora de... Ah, como dizer isso? — Elijah avançou, seus lobos abrindo caminho. Estava como da última vez. O mesmo terno, o mesmo cabelo negro e os mesmos olhos coloridos, além da cicatriz horrenda cortando o rosto. Não estava tão vermelha e grotesca quanto quando Isaac jogou um anel de prata em seu olho, mas ainda assim dava arrepios – Acabar com você, talvez.

—Ah, você não – murmurei apertando o cabo de minha adaga com tanta força que minhas juntas estalaram. Os lábios de Elijah se abriram em um sorriso rasgado, e os lobos rosnaram em conjunto.

—Pense pelo lado bom – ele riu – Deixei sus mamãe se resolver com o namorado. Você não está feliz por isso.

Contornei o ódio e o medo, deixando a imagem do lobisomem de lado, e notei que minha bolsa havia sumido. Eu devia ter chutado ela para longe quando me ergui. Se eu a encontrasse, Call podia pegá-la enquanto eu distraía Elijah. Se ao menos conseguíssemos ligar para o Reformatório...

—Fique longe deles.

—Não preciso mais dela, não agora que tenho você bem aqui. Foi mais fácil do que esperei.

—Não pense que vai continuar assim.

—Ah, é? – Elijah riu mais alto – Eu tenho um exército nas minhas mãos, Dayannya. Com Licáon do meu lado, e Aracne de volta... você tem uma causa perdida.

—Aracne? Você ressuscitou Aracne?

—Ah sim, foi fácil — ele fez um gesto de desdém com a mão — Quer conhecê-la?

—Não, obrigada...

—E que tal seus filhos e filhas? — Elijah abriu um sorriso de escárnio, distorcendo as faces magras — Eles estavam tão excitados para ter uma chance de te ver.

Um segundo depois, o teto e paredes pululavam de aranhas, todas maiores que um cão de porte médio. Negras e marrons elas avançavam em um mar de pernas e olhos. Notei que até mesmo os lobos se agruparam mais no centro do salão, longe dos bichos.

—Você é louco.

—Um visionário, Dayannya — Elijah abriu os braços — Pense no que poderíamos fazer com um exército desses. E há muito mais. Você só precisa se entregar.

—Se não? ...

—Te levo à força.

—Quero ver você tentar.

—Não vai querer me desafiar — ele estalou os dedos e um lobo, particularmente grande, pulou para cima de uma mesa — Não quando tenho reféns.

Agora as pessoas faziam silêncio, aterrorizadas. Alguns choramingos eram audíveis, mas, quebrando o silêncio, um berro feminino prorrompeu. Olhei para onde o dedo trêmulo de uma moça apontava e, novamente, minha voz falhou. Callum agarrou meus braços, me puxando para trás, mas meus olhos já estavam vidrados nos quatro pares de olhos bulbosos e negros que investigavam o local.

Uma enorme aranha, do tamanho de um filhote de elefante, se encontrava dependurada num canto escuro do teto. O clamor das pessoas foi morrendo quando a coisa se aproximou lentamente, batendo as pinças, arrastando suas oito pernas peludas. Engasguei quando a aranha ergueu as pernas, estalando suas quelíceras. Nunca achei que fosse possível uma aranha espumar e lançar olhares malignos — multiplicados por oito -, mas devia ser daquele jeito que elas ficavam quando eu erguia meu chinelo.

Fiquei absorta encarando a aranha. Apenas fui tirada de meu devaneio quando ouvi meu nome vindo do meio do grupo. Olhei naquela direção e vi Teo, aterrorizado, apontando para a frente. Meu coração saltou quando vi o lobo agachado sobre uma mesa. Ninguém prestava atenção nele. Só o notaram quando ele saltou.

A única coisa em que pensei, antes que estendesse minhas mãos por instinto, foi que precisava proteger aquelas pessoas. Nem me importei com o fato da névoa estar agindo sobre mim ou não, se iria encobrir o fogo, mas eu tinha que fazer alguma coisa. Por um instante desesperador não aconteceu nada, como se o mundo estivesse em câmera lenta, enquanto o animal saltava em direção ao grupo. Finalmente senti aquele calor familiar, mas não tão bem-vindo, correr meus braços em direção às mãos, fazendo as pontas de meus dedos formigarem. Fechei os olhos quando o fogo irrompeu, atingindo o animal que foi jogado contra a parede do restaurante enquanto queimava, se contorcendo no chão.

O silêncio tomou conta de tudo, exceto pelos ganidos de agonia do lobo e pelo crepitar das chamas. As pessoas assistiam horrorizadas, Elijah estava paralisado, furioso e, ao mesmo tempo, curioso. Me dei conta de que, ao invés de observar seu soldado, agora um pedaço distorcido de cinzas e ossos que exalavam fumaça, ele encarava a mim. Olhei para baixo e vi que o fogo ainda lambia minhas mãos, sem queimar, as labaredas se retorcendo entre meus dedos. Das poucas vezes que liberei o fogo, ele se manter por pouquíssimo tempo. Agora eu sentia como se tivesse total controle sobre ele, quando ir ou vir.

Ergui o rosto para Elijah.

—Acho que não vai querer me desafiar. Não quando tenho isso aqui.

Os montes de aranhas se afastaram, suas pernas contra o chão e o teto fazendo cliques e sons arrastados. Os lobos de Elijah se encolheram, alguns olhando precipitadamente para a saída. No entanto, Elijah não tirou os olhos de mim, os lábios crispados.

—É gostoso, não é? — Resmunguei, me aproximando devagar do grupo de pessoas, ficando a alguns metros de distância do lobisomem — Ficar encurralado. Saber que um movimento em falso e você queima.

—Eu não ficaria tão seguro de mim se fosse você.

—Está com medo? – Meu corpo tremia de ódio, meus olhos queimavam e o pavor tomava conta de mim. Por mais que eu tivesse o fogo, estava com medo.

—Você está? – Elijah riu baixinho, se afastando alguns passos lentamente – Ataquem.

O fogo saltou de minhas mãos como se tivesse vida própria. Uma parede branca de chamas se ergueu na minha frente, bloqueando a onda de aranhas que se adiantavam com rapidez. As que chegaram mais perto do fogo caíram no chão em espasmos, fumegando e retraindo as pernas. Através das labaredas eu via Elijah, os olhos arregalados. Eu mesma não devia estar muito diferente, com as mãos estendidas e paralisada no lugar. Estranhamente, o fogo não queimou as mesas ou cadeiras que tocara.

Depois de uns segundos, chocada e confusa, senti uma dor forte no abdômen. Era como se um gancho puxasse minhas entranhas, abrindo um enorme buraco em minha barriga. Minhas pernas estavam bambas quando me curvei de dor, os braços trêmulos ainda estendidos. Senti mãos segurarem meus ombros e logo em seguida me soltarem.

—Você está fervendo! — Callum olhava de um lado para o outro, amedrontado. As pessoas amontoadas no canto estavam encolhidas, cobrindo suas cabeças com os braços. Alguns se abraçavam, não se atrevendo a olhar para frente.

—Call, eu não vou aguentar — fiquei impressionada com o quanto minha voz estava fraca e rouca. Meus joelhos finalmente cederam, a dor ficava mais excruciante a cada segundo que se passava. Minha cabeça girava, meus braços pareciam feitos de chumbo. Pensei, por um momento, que estava tudo perdido — Não dá...

—Só mais um pouco — Callum se ajoelhou do meu lado, discando fervorosamente em meu celular, que ele finalmente havia encontrado. Colocou o aparelho junto à orelha, os dedos torcidos na camisa — Por favor... por favor, por favor, por favor... Droga!

Engoli, a boca seca. A dor estava ficando pior, eu tinha vontade de gritar, de deitar e esquecer tudo. Eu não sentia meus metros, meu corpo estava dormente, a não ser pela dor que aumentava e me consumia, parecendo me rasgar ao meio.

—Não vai dar tempo...

—Seja lá a besteira que você quer fazer, eu não vou deixar!

—Você não pode fazer nada — deixei os braços caírem ao lado do corpo, cerrando os punhos. O muro de chamas se extinguiu, deixando o caminho das aranhas livre. Imediatamente uma comoção entre elas começou. Elijah, mais ao fundo, parecia surpreso quando devolveu meu olhar, me encarando enquanto um sorriso frio se formava em seu rosto — Acabou.

Mesmo com o corpo dormente, ainda pude sentir quando uma das maiores aranhas passou as pernas em volta do meu pescoço, me erguendo do chão e me sufocando. Minha visão escureceu, eu praticamente não escutava nada. Abafado e sem sentido, eu tinha quase certeza de estar ouvindo meu nome. Por entre os pontos negros e vermelhos que cobriam minha vista, vi Elijah se aproximando a passos largos, seu rosto aberto em um sorriso vitorioso.

—Você tem razão — sussurrou quando estava na minha frente, próximo o bastante para que ele fosse a única coisa que eu conseguisse escutar perfeitamente — Acabou.