*Isaac*

–Estou me sentindo péssimo. — Revirei a pequena corrente de ouro entre meus dedos, o pingente balançando levemente com a brisa. O relicário estava posto sobre meu joelho dobrado, refletindo o céu do fim do dia e ficando cor-de-rosa meio dourado.
Quanto mais eu olhava para ele, mais me parecia convidativo jogá-lo no lago.

–É claro que está, você praticamente roubou a menina — ralhou Darius em meu ouvido — Por acaso parou para pensar em como ela ia se sentir?

–Não...

–Pois saiba que ela ficou muito chateada. pensa que perdeu a corrente e não sabe como te contar! — Ele parecia realmente enfurecido, como se não tivesse sido idéia dele tirar a corrente do pescoço de Dayannya sem que ela percebesse — Você podia ter pedido para ela, tenho certeza de que ela não iria se importar...

–Darius — interrompi -, cale a boca ou vou desligar o celular.

–Não, não, estou sozinho — pude imaginá-lo apoiado no balcão do White Rabbit, batucando os dedos na madeira — Vamos conversar mais um pouco. Abriu o relicário?

Não respondi. Já vinha enrolando quanto à peça desde que descobri-a. Eu queria abrí-lo, ver o que havia dentro, mas tinha medo do que encontraria. Tinha medo de descobrir a verdade sobre minha mãe, por mais que isso estivesse me destruindo. Balancei a correntinha de ouro mais uma vez, pendurada no meu indicador. Darius fazia silêncio ao telefone, tendo como único sinal de presença sua respiração, chiando em meu ouvido.

–Achei você.

Meu celular escorregou, caindo em um monte de folhas secas abaixo do galho em que eu estava pendurado. Quase caí também, me segurando com força no tronco da árvore atrás de mim antes que eu me desequilibrasse por completo. Eu apertei a corrente e o relicário em minha mão livre com tanta força que as juntas dos meus dedos estavam brancas, minha palma doendo.
Na árvore ao meu lado, Nicole McCann me observava com as sobrancelhas arqueadas, o cabelo ruivo preso em um coque frouxo. Senti um certo alívio ao ver que era ela, mas mesmo assim guardei as duas correntes no bolso antes que ela visse. Nicole era uma amiga de longa data, ela e o noivo foram os semideuses que me encontraram no deserto quando fugi de casa com nove anos. Os dois me acolheram e me trouxeram para o Reformatório de Long Island, e nos encontrávamos sempre que possível.

–Estava chato lá — ela continuou, meneando a cabeça em direção ao píer, onde Elias esperava sentado, balançando os pés acima da água. Os semideuses que vieram para proteger o sátiro, e lutar caso fosse preciso, estavam escondidos ao redor, encobertos pela névoa assim como eu. Mas eu podia dizer onde estavam, exatamente, Dakota e Sarah.
Era como se eu sentisse a presença deles ali — Dake me disse que você estaria aqui e pelos deuses, Isaac, diga alguma coisa!

–Desculpe, eu... — Passei as mãos pelo rosto, expirando por entre os dedos — Estou distraído.

–Puxa, nem percebi! — Ela franziu o cenho, aparentando preocupação — O que aconteceu? Com quem estava falando?

Essa era uma das características das quais eu menos gostava nos adultos. Eles sempre querem saber onde você estava, com quem estava, o que havia de errado. Claro, isso devia ser inevitável devido ao fato de nós, adolescentes, não sermos muito confiáveis. Mas que era irritante, era.

–Darius. — Dava para ouví-lo berrando do outro lado da linha, lá em baixo, no montículo de folhas douradas — E eu estou bem, é só a doce expectativa do derramamento de sangue.

–É, você não mudou.

–Porque eu mudaria?

Mas eu sabia a resposta. A última vez que vi Nicole havíamos brigado, por uma coisa boba. Isso fora umas três semanas antes de eu morrer — ninguém jamais vai ter idéia do quanto é estranho dizer, ou até mesmo pensar, “quando eu morri” — e então surgir de repente no meu funeral, com a maior cara de tacho. Me senti desconfortável. Realmente, nunca parei para pensar se as outras pessoas achavam que eu havia mudado. Lá no fundo, alguma coisa mudou mesmo.
Rever meu pai após tantos anos, pensar que estive a poucos metros de vagar pela imensidão, sem voz, sem esperança, chamando pelos que amo. Sem vida. Às vezes, durante a noite, eu acordava com calafrios e dores no peito. Sentia a espada me rasgando.
Limpei a garganta quando Nicole desviou o olhar, sem graça.

–Quer saber, esqueça. Como vão as meninas?

–Com saudades — ela sorriu, mas sua tentativa de parecer alegre se transformou em um sorriso amarelo, amargo — Marion queria vir, mas achei melhor deixar as três com Caleb. Ah, e Pietra está com raiva de você. Ela disse que foi mancada aquilo ter acontecido.

–Não morri porque eu quis. — Por incrível que pareça, essas palavras podem soar ridiculamente dolorosas — Eu queria vê-las. Pedir desculpas.

–Elas entendem. Naomi especialmente, você sabe que ela é bem madura para a idade.

Assenti, puxando a gola da camiseta. Aquilo era um hábito que acabei desenvolvendo por conta do stress. Sempre que ficava nervoso, desconfortável ou incomodado, era como se eu estivesse me sufocando e precisasse de espaço.

–Vincent está demorando — resmunguei, novamente tentando mudar de assunto. Eu gostava das meninas.
Realmente gostava quando elas vinham para Long Island por minha causa, e também queria mesmo passar um tempo com elas e me desculpar por tudo o que estava acontecendo, mas no momento aquilo era um assunto delicado. No funeral, depois que “voltei dos mortos”, consegui um minuto com Marion, a mais velha das três. Ela não me soltou até Reyna chegar, querendo explicações — Já devia ter chegado há meia hora.

Nicole olhou para a mesma direção que eu, franzindo a testa. Elias torcia seu gorro vermelho entre os dedos, olhando em volta. Dava para ver o quanto estava nervoso, amedrontado.

–Talvez ele não precise mais de recrutas — disse depois de um tempo — Ou esteja em outro lugar, mais escondido.

Nicole me estudava pelo canto do olho, brincando com o cadarço da bota

–Para onde aquela sua amiga estava indo? Vi ela mais cedo, saindo com Lucca.

–Dayannya? — Dizer o nome dela parecia deixar um gosto amargo em minha boca. Estava cada vez mais difícil conviver com ela, e nos últimos trinta minutos eu quis deixar o Central Park e ir atrás dela. A idéia de que deixei ela sozinha com Lucca agora martelava em minha cabeça, e isso me deixava ainda mais culpado — Foi ver os pais, alguma coisa assim.

–Hum. Ela parecia bem legal.

–Ela é.

–E é bonita.

–Hum-hum.

Nick sorriu, balançando as pernas penduradas no galho.

–Você gosta dela?

Eu encarava a árvore à minha frente. Era muito mais do que só gostar, mas eu não queria dizer isso para Nicole.

–É, acho que sim. Como amiga, sabe?

–Claro. — Ela voltou-se para frente, e então olhou de novo para mim, um meio sorriso nos lábios — Eu tenho uma coisa pra te contar.

–Finalmente decidiu que prefere a mim ao Caleb? — Dei de ombros — Eu sabia que isso ia acontecer um dia, sou irresistível. E ninguém supera meu beijo francês.

–Não, seu idiota! — Ela ria, o rosto ficando corado lentamente. Apesar disso, ela parecia orgulhosa — Eu estou grávida. De novo.

–Nick, parabéns! — De repente, me senti mais animado. Aquela era uma notícia ótima, mesmo que desse para Sarah mais um motivo de chamar os McCann de “fábrica de filhos” — Já sabe o sexo?

–Sim. É um menino, finalmente — o sorriso dela se tornou triste — E já escolhemos o nome. Depois que... Aquilo aconteceu.

Eu sabia que a conversa voltaria para esse assunto.

–Vai ser Isaac — ela disse, baixinho — As meninas escolheram. Era uma... Homenagem, porque a gente não sabia...

Nicole soluçava. Ela virou o rosto, passando as mãos por ele. Senti um aperto forte no peito, quase descendo da árvore para ir reconfortá-lá. Ela estendeu a mão em um gesto vago.

–Estou bem — seu rosto estava muito vermelho — Estou bem, só... Puxa, foi um choque e tanto quando eu te vi na praça.
– Os lábios dela tremiam quando ela olhou de novo para mim, os olhos marejados — Eu fiquei tão feliz. E nem consegui falar com você depois disso.

–Estou aqui agora, não estou? — Minh boca e garganta estavam secas, eu não sabia o que dizer — Nick...

–Senti sua falta — ela sorriu — Todos nós sentimos. Você é da família.

Assenti, desviando o olhar. Não pensei que pudesse fazer falta. Não quando o que eu tinha de inimigos era o dobro de amigos. Mas só Nicole dizer isso — depois de Sarah, Dakota, Chris, Sirena, Daya, até Darius — já foi o bastante pra fazer eu me sentir melhor. Realmente, ela era parte da minha família. Todos eles eram.

Meu celular tocou lá em baixo, cortando o silêncio. Pulei do galho, sentido Nick me observar desconfiada, e peguei o aparelho do chão. O nome de Dayannya piscava na tela.

–Isaac? — Mal atendi e Callum já falava, afobado — Graças aos deuses, você tem que vir logo, por favor...

Parecia que meu coração despencava enquanto eu ouvia o som ao fundo do restaurante. Choramingos, móveis sendo arrastados.

Não esperei Callum dizer qual era o problema. Guardei o celular, disse uma coisa rápida para Nicole, para que ela não se preocupasse, e corri para onde havia estacionado minha moto.

***

*Daya*

A mão de Gwen desceu com força em meu rosto, suas unhas me arranhando. Já estávamos naquilo há quase uma hora; ela queria que eu dissesse a localização do Reformatório, eu não dizia, e ela me batia. Minha pele estava ardendo feito fogo, minha cara parecia estar inchada.

–Vince, querido — ela se virou, ficando de costas para mim e encarando Vincent, que estava apoiado na lareira, a cara fechada enquanto me assistia apanhar -, faça alguma coisa!

–Você já pode resolver seus problemas sozinha.

A empousa voltou-se para mim, mãos na cintura, os anéis enormes e cheios de pedras brilhando nos dedos. Brincos dourados balançaram em suas orelhas, combinando com o vestido de veludo creme e a echarpe de pele branca. Fiquei imaginando que, quem quer que fosse que morava ali, devia ser muito rico.

–O que está olhando?

–Gostei do vestido — resmunguei, amarga, pensando se devia ou não cuspir sangue nele.

–Quer um? — Ela sorriu, as presas expostas — Tem um monte aqui, eu não ligo se você quiser um deles. Tem um verde lindo, acho que combina...

–Gwendolyn — Vincent parecia cansado de estar ali — Por favor.
Ela fez um muxoxo.

–Você nunca quer falar sobre roupas, e quando tem alguém aqui com quem eu posso conversar...

–Depois — ele pediu — Está bem?

Gwen suspirou, puxando a echarpe dos ombros e jogando na cama atrás de mim. Quando cheguei, as aranhas me arrastaram por uma das escadas que levava ao andar superior e me jogaram em um quarto. Era espaçoso, com uma lareira de mármore acesa e uma cama de casal com pilares. Longas e pesadas cortinas claras cobriam as duas janelas francesas. Um espelho no alto da lareira, de frente com a cama, me permitia ver uma parte da minha testa, o cabelo caindo sobre ela.

–Devo admitir, esse lugar é um saco — exclamou Gwendolyn, me arrancando de meu devaneio — Quer dizer, é uma casa ótima. Você viu o jardim? Bom, é maravilhoso, mas com tantos lobos aqui a gente não consegue nem ficar na sala de estar. Tudo tem cheiro de cachorro molhando. E nem podemos sair daqui, eu estou morrendo de fome.

–Porque me trouxeram aqui? — Interrompi. Foi a primeira vez que consegui dizer uma frase sem ser atacada — Que lugar é esse?

–Los Angeles — Gwen respondeu, se deliciando com o nome — A “Cidade dos Anjos”. Foi difícil acharmos um bom lugar, mas... — Ela abriu os braços, como se abarcasse toda a mansão — Cá estamos.

Engoli em seco, tentando me manter em pé. Quanto mais eu soubesse sobre aquela casa, melhor seria caso eu conseguisse fugir — o que eu começaria a planejar quando aqueles dois me deixassem em paz.

–E você está aqui para uma negociação — continuou com desdém — Quando Elijah conseguir o que quer, não vamos mais precisar de Reformatório nenhum.

–Então você me bateu por nada?!

–Foi divertido.

Respirei fundo mais uma vez, pensando.

–É o que é essa negociação?

Gwendolyn bufou, revirando os olhos, como se estivesse lidando com uma criança chata.

–Não sou idiota, eu não vou dizer.

–Porque você não sabe o que é.

–É claro que sei o que é.

–Então você está com medo de
que eu descubra o que e fuja.

–Você nunca fugiria daqui, francamente — ela rolou os olhos para o alto novamente, o rosto muito vermelho.

–Se não tem como eu fugir...

–Eu não vou dizer, saco!

Notei que Vincent estava de sobrancelhas erguidas, olhando fixamente para mim. Resisti ao impulso de encará-lo de volta.

–Então não vou colaborar — falei e sentei-me decidida na cama, os braços cruzados.

–Como é?

–Quando Elijah quiser falar comigo, eu não vou sair daqui.
E vou trancar a porta. E não importa o que vocês façam, não vou abrir.

Antes que Gwen abrisse a boca, completei:

–E posso me matar. Elijah nunca vai ter o que quer.

O rosto dela estava branco, os olhos vermelhos. Suas mãos tremiam ao lado do corpo enquanto ela se segurava para, provavelmente, não pular no meu pescoço.

–Gwen...

–Vincent, me deixe pensar! — Berrou enfurecida. As unhas vermelhas estavam enormes, afiadas como navalhas, igual às presas. Ela se virou para mim, os olhos semicerrados — Você é mesmo uma menininha insuportável.

–Aprendi com o melhor.

–Você tem sorte — retrucou, uma garra afiada apontada para o meu rosto — de Elijah te querer viva por enquanto, senão... — Ela fez um gesto como se esmagasse minha cabeça, a expressão uma mistura de concentração e ódio — Senão...

–Gwen, se acalme...

–Estou calma!

–Não parece — falei baixinho. Eu tentava me manter calma também, mesmo que minha vontade fosse entrar debaixo da cama e não sair de lá. Eu estava com medo. Com medo do que eles pudessem fazer comigo,com medo da tal negociação.

–Cale a boca! — Ela inspirou com força, passando as mãos no rosto — Vince, eu acho... Ela.não vai conseguir sair daqui...
Vincent não disse nada, os braços ainda cruzados, olhando para o chão.

–É o seguinte — Gwen colocou uma das mãos na cintura, a expressão entediada — Vamos te levar para o Olimpo, quando começarem a se preocupar com você. Elijah vai te levar na frente, nosso exército nos protegendo — ela fez uma pausa — E vamos destruir a fogueira no palácio. Apagar o fogo. Sem o fogo do Olimpo, os deuses não vão aguentar. Vão ficar fracos. E como você vai acabar sendo a única fonte, teremos os deuses aos nossos pés. Farão o que quisermos. — Um sorriso rasgado brotou em seu rosto — Enquanto nós tivermos você, temos todo o mundo na palma na mão. E se tentarem algumas coisa, Elijah não vai pensar duas vezes antes de rasgar sua garganta. E quando o Olimpo ruir, vamos destruir as proles dos deuses. Vamos destruir os acampamentos e trazer os monstros do Tártaro, vamos...
Dominar o mundo. Você entendeu?

Engoli em seco, olhando fixamente para ela. Meu coração batia rápido enquanto eu absorvia tudo o que a empousa acabara de dizer.

–Entendeu!?

Assenti freneticamente, sentindo a garganta queimar. Gwendolyn finalmente se virou, me lançando um olhar frio antes de abrir a porta e sair. Vincent preparou-se para seguí-la, mas estiquei o braço e agarrei seu pulso. Ele não se virou.

–Você quer mesmo isso? — Minha voz estava trêmula — Quer mesmo destruir o acampamento, sua casa...

–Não vamos destruí-lo — sussurrou, seco, ainda sem olhar para mim — se você e os deuses se comportarem. — Virou-se , livrando o braço do meu aperto — Você vai se sentir melhor aqui, garanto, quando entender a nossa causa. Pode ajudar a comandar a Nova Era. Mas eu faço tudo — sua voz ficou mais grave, ameaçadora — para ver Isaac Van Garden queimar.

E saiu, tenso. Assim que a porta se fechou, a tranca girando do outro lado, corri para uma das janelas e abri as cortinas. Lá fora um jardim se estendia por baixo de um céu negro, riscado de nuvens cinzas. A casa, envolta por uma cerca branca quase indistinguível na falta de luz, parecia ficar numa escarpa e, da esquerda de onde eu estava, era possível ver o mar, estendendo-se escuro e liso como chumbo. Afastei-me, deixando as cortinas abertas, a visão da cidade colorida e iluminada ao longe sendo embaçada pela minha respiração no vidro.

Recuei mais, até onde eu estivera antes. Deixei minhas costas escorregarem pela coluna atrás de mim até que eu estivesse sentada no chão. Estava silêncio no quarto, a não ser pelo crepitar baixo das chamas na lareira. Fiquei encarando o fogo, tanto que meus olhos chegaram à lacrimejar. Ou talvez fosse apenas a vontade de deitar em posição fetal no chão e chorar até que tudo isso acabasse.

Call já devia ter ligado para alguém. Eu tinha que lembrar disso. É claro que eu não ia alimentar esperanças de que fossem me salvar, não sabiam onde eu estava. Eu teria que sair sozinha da casa e encontrar o Ponto de Los Angeles. Talvez ficasse em um lugar afastado da cidade, como em Boulder, no Colorado. Mas primeiro eu teria que começar a pensar em.um jeito de escapar. Não seria fácil. Enquanto era trazida para o quarto, pude ver a quantidade de homens que rondavam a sala e o corredor do andar superior, sem contar a tropa de lobos que descansava em um cômodo ao lado do hall de entrada. Se eu quisesse sair, teria que ser despercebida, mas era quase impossível não ser notada em um lugar daqueles.
Fechei os olhos, a cabeça recostada na cama, rosto e corpo doendo. E sem mais forças, adormeci contra minha vontade.