Estava escuro. E fazia frio. Sentia algo gélido e liso sob minhas mãos. Tentei abrir os olhos cada vez mais, mas a escuridão não mudava. Eu não enxergava minha própria mão quando a balancei em frente ao rosto. Levantei-me lentamente, pisando com cuidado no chão gelado. Estava descalça, o que era estranho.

Dei um passo e meu corpo bateu em uma parede. Recuei, os braços estendidos, e tentei por outro caminho. Dessa vez consegui andar um bocado sem bater em nada, É uma sensação estranha, andar às cegas sem saber por onde vai, sem saber se há algum obstáculo à frente. No entanto, o que mais me surpreendeu era que eu não me sentia com medo, não sentia minha garganta se fechando como em todas as vezes em que estive no escuro. Era como se minha mente soubesse que aquilo não era real, como se soubesse que não estava escuro de verdade. Era como se houvesse luz, mas repentinamente eu não pudesse mais enxergar, mesmo com os olhos bem abertos.

Esbarrei em algo, na altura de minha barriga. Quando apoiei as mãos naquilo, senti que a superfície parceria madeira. Parecia uma mesa, comprida pelo que eu podia sentir. Não havia nada sobre ela. Afastei-me e continuei a andar, mas como estava confiante acabei indo rápido demais e fui pelo lado errado, dando com a cara na parede.

—Você está bem? — Disse uma voz feminina atrás de mim. Esfreguei minha testa dolorida antes de olhar para trás. Era Héstia, com seu longo manto marrom e olhos como fogo. Ela me analisava com o rosto sereno — Desculpe por isso. Foi o único jeito em que pensei pra conseguir falar com você.

—O que é isso? — O frio havia cessado. Porém continuava escuro e mesmo assim eu via Héstia perfeitamente — Que lugar é esse?

—Sua consciência — Héstia olhou à sua volta — A última vez em que esteve acordada estava pensando em um jeito de sair da casa. Mas como você não a conhece por inteiro, está tudo escuro. Você não tem senso de direção aqui. Já deve ter percebido isso.

—O que a senhora quer dizer com... A última vez em que estive acordada?

—Você está inconsciente há três dias — sua expressão era de pena — Mas por um lado isso foi bom. Me permitiu bloquear sua mente, e então Elijah não conseguiu te acordar, ou invadir seus pensamentos. Você está protegida — ela tocou a lateral da própria cabeça — aqui dentro. No entanto, aqueles do Reformatório de Long Island não conseguem ter achar, mesmo com a ajuda do filho de Hécate. Com a mente bloqueada, nenhuma poção ou feitiço dele surtirá efeito.

—Então... — Meu coração palpitava como o de uma ave assustada — Eles não vão...

—Estão dando tudo de si, eu garanto. Se não me engano, um deles está próximo. Não parou de te procurar todo esse tempo.

Acalmei-me aos poucos. Ainda havia esperança, eu não estava sozinha, afinal. Mas mesmo assim eu precisaria sair da mansão antes. Talvez encontrasse essa tal pessoa na cidade enquanto estivesse lá, procurando pelo Ponto.

—Era só isso? — Indaguei ainda meio tensa — O que queria falar?

—Não, eu só... na verdade, não há outro motivo real. Eu só queria te dizer que há um jeito de escapar. E que você não está sozinha.

—Não estou sozinha?

—Não tenha medo – ela ignorou minha pergunta – Você é esperta, só precisa de tempo. E precisa pensar rápido. Estão todos torcendo por você.

—Mas...

—Rápido.

Abri os olhos no momento exato em que a porta do quarto se abriu. Um homem troncudo e musculoso entrou, o rosto quadrado me encarando austero. Sua expressão mudou para surpresa de repente.

—Ah — a voz era grossa e rouca -, está acordada. — Ele mudou sua postura, ficando sério novamente. O cabelo loiro no corte militar o deixava parecido com um daqueles brinquedos de soldados -Precisa de algo?

Pisquei surpresa pelo modo prestativo com que ele falou, como se realmente se importasse. Quando vi-o, pensei que tivesse vindo apenas ver se eu já estava acordada, e se sim, me levar à força para Elijah. Eu precisava pensar rápido.

—Quero ir ao banheiro.

—Certo. — Ele abriu mais a porta. Seu corpo tomava conta de toda a passagem — Depois vamos descer. O pai quer ter uma conversa com você.

O pai?

Pus-me de pé com esforço. Minhas pernas estavam rígidas, o cabelo havia grudado no pescoço por conta do suor. Cambaleei grogue atrás do homem, que começou a me levar lentamente pelo corredor acarpetado. Examinei com pressa o espaço ao meu redor, aproveitando a despreocupação do homem quanto a o que eu podia fazer. Talvez ele pensasse que eu não fosse capaz de muita coisa.

Num ato de reflexo, passei a mão por uma mesa de canto, pegando o primeiro objeto que senti sob meus dedos. Callum me ensinou a fazer aquilo. Ele era mão leve, sempre realizava pequenos furtos com sucesso — como roubar bolinhos de chocolate light na cozinha do acampamento — e achou que um dia isso me seria útil. E ele estava certo. O homem à minha frente nem sequer percebeu o movimento.

Virei o elefante de mármore nas mãos. Era bem pesado, coberto por pedras âmbar. Talvez fosse o possível para deixar meu segurança particular atordoado, se eu atingisse-o na cabeça. E, se usasse força o suficiente, quem sabe eu não poderia deixá-lo inconsciente? Aproveitei a chance de testar quando ele parou, estendendo a mão para uma porta, possivelmente a do banheiro.

Fiz como no arremesso de disco no acampamento. Reuni toda minha força remanescente e girei o braço, jogando o elefante. Ele atingiu certeiro a cabeça do homem. Seus olhos reviraram e ele tombou para a frente, empurrando a porta e caindo estatelado no piso preto do banheiro. O elefante estava estilhaçado no chão.

—Ahá! — Comemorei, logo me repreendendo por ter feito barulho. Entrei, me demorando um pouco observando os arredores, a pia impecavelmente lustrada e a banheira branca e dourada, com pés em formato de patas. Foi difícil arrastar o resto daquele gorila para dentro do banheiro. Senti que teria cãibras mais tarde.

Vasculhei seus bolsos antes de sair e encontrei um molho de chaves. Testei algumas até encontrar uma que trancou aquele homem dentro do banheiro. Metade do plano estava concluída, e fora bem melhor do que imaginei que seria. Só faltava o resto, e eu não tinha idéia de como prosseguir.

Dei meu primeiro passo, em direção às escadas que levavam para baixo, quando uma porta se abriu ao meu lado. Um rapaz saiu, o rosto retorcido de escárnio, mas parecendo satisfeito. Novamente por reflexo, mais por susto, ergui a mão com força e acertei um pescotapa nele. Pegou exatamente onde eu queria, e como o outro, aquele rapaz caiu com os braços estendidos no chão. “Já foram dois” pensei, feliz comigo mesma, segurando a mão que latejava. Daí eu olhei para o quarto de onde o rapaz saíra.

Uma menina se encolhia do outro lado, debaixo da janela, os olhos castanhos arregalados na minha direção.Os braços pálidos estavam cobertos de hematomas roxos e amarelos, assim como o pescoço. O corpo inteiro tremia, seu cabelo loiro aparentava não ter sido lavado há semanas. Mas isso não a tornava irreconhecível.

—Peggy?!

***

Não foi tão difícil arrastar o corpo para dentro do quarto. Depois de colocá-lo largado ao lado da lareira, e amarrar suas mãos e pernas juntas com uma tira de lençol que rasguei, tranquei a porta e larguei-me na cama, olhando sem graça para Peggy. Ela mal havia se movido, continuando no mesmo lugar, abraçando as pernas junto ao corpo enquanto olhava com desprezo para o cara que eu amarrei.

—Hum... — Olhei em volta; o quarto era idêntico ao meu, exceto pela cama ser de solteiro. Havia tábuas nas janelas — Há quanto tempo está aqui?

Peggy demorou para responder, os olhos castanhos tristes fixados nos meu pés.

—Eu não sei. — Sobressaltei-me quando ela falou. Sua voz estava horrível, rouca e fraca — Um mês. Mais ou menos. — Olhou para o rapaz — Não tenho muita noção de tempo aqui.

—Hum — no momento, aquele parecia meu melhor argumento — Aaahn...

—Você não tem que tentar falar comigo — Peggy ralhou, seca, me assustando de novo. Ela me olhou de lado, então disse quase num sussurro — Desculpe.

—Não precisa... Hum. — Voltei-me para o homem no chão. Ele se mexera um pouco — Então... Você quer sair daqui?

—Que raio de pergunta foi essa?

—É, eu devia ter ficado quieta. — Aah, aquilo seria difícil.

—Tem um plano?

—Bem, na verdade eu tenho — retruquei, as mãos na cintura. Peggy tinha feito bastante coisa ruim comigo, tipo tentar me jogar no rio em um saco com um cão infernal, e lá estava eu tentando ajudá-la. Ela podia ser um pouquinho mais grata -, mas ele inclui só uma pessoa, então eu posso simplesmente ir embora e te deixar aqui, seria tudo muito mais fácil para mim! — Ela se encolheu, abraçando mais as pernas — Então, vai colaborar ou não, Antonelli? Eu tenho hora!

Novamente ela levou um tempo para me responder. Olhava para a parede com olhos vermelhos e cansados, como se já tivesse descartado a possibilidade de uma fuga há dias.

—Me desculpe – fungou, a voz falha e repleta de arrependimento. Eu não queria, mas a cada segundo que passava ali eu sentia mais pena de Peggy – Eu não devia ter sido tão idiota, eu...

Fiquei sem saber o que fazer, Peggy estava aos prantos, desamparada, e o homem no canto começava a acordar. Resolvi descer da cama e a abracei. Eu sempre fazia isso com Sierra, quando ela ficava iludida e levava um fora inesperado ou quando não conseguia passar em alguma matéria. Peggy retribuiu o abraço com força, soluçando com o rosto em meu ombro. Não foi tão desconfortável quanto eu achei que seria. Claro, era desconcertante tentar confortar alguém que há não muito queria me matar, mas era o que eu tinha que fazer. Héstia estava certa. Sou gentil demais.

—Eu sou tão imbecil!

—Já passou — murmurei, do que mesmo jeito que murmurava para Sierra, passando a mão nas costas dela — Está tudo bem.

—Como você consegue? — Peggy afastou-se, os olhos muito vermelhos e o rosto molhado — Eu fui horrível, e-eu... A minha família me odeia. Meu irmão me odeia pelo que fiz, eles nem sequer tentaram me procurar, me abandonaram, e você...

—Tudo bem – repeti, apertando a mão dela. Eu não pensei que isso tivesse acontecido. Geoffrey Antonelli não se parecia com alguém que abandonaria a própria filha – Não sou de guardar rancor. E eu tambem não posso te deixar aqui.

Ela chorou. Cobriu o rosto com as mãos, o corpo sacudindo.

—Me desculpe...

—Sem problema. Vamos dar o fora daqui, esse lugar tem cheiro de xixi de cachorro.

Peggy assentiu, enxugando as lágrimas com a camisa. Ajudei-a a se levantar, eu mesma tendo um pouco de dificuldade. Peguei uma tira de lençol em cima da cama. O cara no canto tentava esticar as pernas, piscando e murmurando desorientado. Usei a tira de tecido para amordaçá-lo.

—Fique quietinho, tudo bem? — Sussurrei quando ele arregalou os olhos, finalmente entendendo o que acontecera. Mexi em seus bolsos, encontrando um molho de chaves igual ao que eu tinha pego. Joguei-o para Peggy — Você vai precisar, caso algo aconteça.

—Caso...

—Não pense nisso — evitei olhar nos olhos dela enquanto destrancava a porta com as mãos trêmulas.

Esperei que ela saísse para trancar o quarto de novo. Eu estava de volta ao corredor, girando o molho de chaves no dedo com nervosismo. Um frio repentino pareceu entrar por uma janela e me envolver.

—Dayannya — Peggy me chamou, gesticulando com rapidez. Ela olhava de esguelha, escondida atrás de uma parede, a sala para onde as escadas levavam.

Coloquei-me junto a ela, olhando por cima de seu ombro. Lá embaixo os sofás haviam sido movidos de modo que abrissem um espaço amplo sobre o tapete felpudo, com a mesa grande sobre ele, as peças de xadrez nas mesmas posições de antes. Um dos sofás estava de frente para a lareira, e de lá de cima dava para ver Gwendolyn e Vincent juntos, conversando baixo. Gwen ria, enrolando o cabelo dourado no indicador.

—Que nojo.

—Eu queria tacar fogo nesses dois.

Peggy virou-se repentinamente, quase batendo a cabeça em meu nariz.

—Você pode, não pode?

—Ah... Eu não tinha pensado nisso.

—Hmpf. Típico.

—Desculpe, como?

—Vocês, gregos, nunca pensam.

Pisquei, ligeiramente surpresa. Eu pensei que pudéssemos sair de lá sem uma ofender a outra.

—Se eu conseguisse invocar o fogo agora, a primeira que eu queimaria seria você.

—O quê?

—Sinta-se honrada.

—Eles estão demorando. — A voz de Gwen ecoou, completamente audível. Peggy e eu paralisamos. — Vou ver o que está acontecendo antes que Elijah venha encher o saco.

—Espere — disse Vincent. Olhei a tempo de vê-lo puxando Gwen, quase de pé, para o seu colo. Quando ela caiu ele a beijou calorosamente, prendendo-a. Desviei o olhar.

—Obrigada, Vince — murmurei, aproveitando a chance para atravessar o mezanino. Peggy me seguiu com cuidado. Seria arriscado demais descer agora. Na verdade, já era arriscado atravessar o corredor.

Já dou outro lado, ouvi Gwen rindo. Ela sussurrou algo para Vincent e seus passos romperam abafados no mármore de uma das escadas.

Num ataque de pânico, abri uma porta e empurrei Peggy para dentro, trancando-a assim que entrei. Meu coração batia com força, o ar estava abafado, os saltos da empousa batiam no assoalho do andar em que estávamos, se afastando, o barulho martelando em minha cabeça.

—Você me machucou!

—Peggy – ofeguei, a mão no peito como se pudesse impedir meu coração de cair -, vá se lascar.

Larguei-me no chão, ofegante, e tirei o suéter, rasgado embaixo do braço. Era meu suéter preferido, otários. Eu faria Elijah comprar um novo. Esfreguei a testa, me sentindo exausta, e olhei ao redor. Estávamos em um armário de vassouras, as prateleiras, que deviam conter produtos de limpeza, sustentavam pilhas e mais pilhas de tralha. Peggy as inspecionava minuciosamente, remexendo com cuidado nas coisas. Um grito de raiva do lado de fora a fez se sobressaltar. O som de madeira se partindo foi seguido por uma discussão, e maior parte dela era composta por Gwendolyn esbravejando contra um dos guardas que eu havia prendido. Agora sim estávamos ferradas.

—Meu celular! — Peggy segurava o aparelho com as mãos trêmulas, seu rosto branco feito leite.

—Tem bateria?

—Só um pouquinho — ela colocou o celular na minha mão estendida e franziu a testa — Pra quem vai ligar?

Eu não sabia. A prioridade no momento era conseguir ajuda, mas eu queria também ligar para a minha mãe, saber se ela, Jordan e Call estavam bem. E além do mais, só sobrava 5 porcento da bateria, não daria tempo de fazer as duas ligações. Decidi conseguir ajuda. Não tínhamos muito tempo.

Digitei o número dele com dedos vacilantes, cada berro e passo no corredor fazendo um arrepio percorrer meu corpo. O frio invadiu minha barriga quando o celular tocou. Murmurei baixinho, como uma prece. E então parou. Não ouvi voz, estava apenas silencioso. Afastei o aparelho da orelha, com medo de que a bateria houvesse acabado, e no entanto lá estava: ligação rejeitada. O sangue rugiu em meus ouvidos.

—Ele desligou na minha cara?

—Ele deve pensar que sou eu — Peggy tremia muito, eu podia sentir mesmo que não estivéssemos nos tocando.

—Você... Liga pra ele?

—...

—Ok — antes de ligar novamente, mandei uma mensagem. Curta e rápida, mas eu esperava que ele entendesse. Ele tinha que entender. Segundos depois de enviar, foi visualizada. Meu sangue pareceu esquentar quando a bateria desceu a quatro porcento.

E tocou. O celular vibrava na minha mão, e desajeitada levei-o à orelha.

—Daya...?

Não aguentei. Assim que ouvi a voz de Isaac, tudo o que parecia estar me segurando até o momento desabou, junto com as lágrimas. Encolhi-me, soluçando e engasgando, sem conseguir proferir palavras, o peito dolorido. Parecia que Peggy tentava se aproximar e me confortar, mas não sabia o que fazer. Isaac estava quieto, tenso. Eu só queria abraçar ele e chorar em seu ombro, como já fiz várias vezes.

—E-eu estou com me-medo...

—Eu sei— ele parecia estar correndo, por causa de sua respiração pesada e o barulho repetido de passos — Também estou.

Mordi o pulso, tentando me controlar. Não podiam me ouvir.

—Onde você está?— Sua voz me acalmava. Respirei fundo e com força — Eu consegui... Informações, mas ainda não tenho como saber direito.

—Los Angeles — murmurei secando o rosto. A briga lá fora continuava — Estamos em Los Angeles. É uma mansão... Perto do mar, eu... Não sei direito.

—Vou pegar o trem, chego em alguns minutos.

—Quantos?

—Eu não sei, uns dez. Quem está com você? Vocês já saíram da casa?

—Peggy — o aparelho vibrou. Dois porcento — Estou com a Peggy, mas não conseguimos sair ainda, eu nem sei se vamos sair. E-eu estou desesperada, não sei o que fazer...

—Estou indo, vocês vão ficar bem, mas eu preciso que me encontrem na cidade.

—Já perceberam que fugimos, estamos... quase saindo da mansão. – Inspirei com força, as lágrimas ainda queimando em minha garganta. O medo crescia mais à medida que os segundos passavam – Desculpe. Eu devia ter ido embora logo, mas...

—Não é culpa sua.— Uma pausa – Por favor, toma cuidado. Já te perdi uma vez, e não quero que isso aconteça de novo.

—Me desculpe. Por tudo.

—Daya...

A tela do celular brilhou em azul e depois ficou preta.

—Não, merda!

Larguei o aparelho no chão e passei as mãos no cabelo, fechando os olhos com força. Então os uivos trovejaram em meus ouvidos. Eles estavam chegando. E nos encontrariam logo.