Filha de Apolo - Electricity
20 Fuga do Inferno
*Isaac*
Gael pulou contra a porta, arranhando a madeira com as unhas, seus latidos ecoando na rua estreita. Desci da moto, a lateral do corpo latejando, mas não me importei. Se me concentrasse em outra coisa, conseguia esquecer a dor.
O lobo rosnava, o pelo negro e salpicado de chuva eriçado. Estava farejando por debaixo da porta, na qual bati. Se eu não conseguisse nada ali, não sabia mais o que fazer.
A porta abriu uma fresta. Um homem de uns quarenta anos espiou pela abertura. Tinha o rosto coberto por manchas rubras, cabelo ralo e olhos fundos e vermelhos. Seu hálito cheirava a cerveja.
—Estamos fechados – rosnou grogue, empurrando a porta. Pus o pé antes que antes que ele a fechasse.
—Não vou demorar – o homem não parava de bater a porta em meu pé, mas sem realmente impor força.
—Argh. Sabe que horas são, garoto?
—Não tenho relógio.
—As minhas meninas não trabalham a essa hora. Você devia ter marcado antes.
—Não estou aqui por causa delas. – Ele franziu o rosto e parou de empurrar a porta.
—Então o que você quer?
—Sei que já seguiu Elijah...
—Ah, não. – Ele se jogou com força contra a porta, fazendo Gael latir com apreensão – Não quero saber dele. Não faço mais isso.
—Por favor...
—Já disse que não! Vá embora, moleque!
Ele começava a me irritar.
—Não quero brigar...
—Até porque você não pode.
—Mas meu amigo pode – Gael rosnou baixinho para ele. O homem o encarou com cautela.
—Hum... – Ele estreitou os olhos, batucando com os dedos na parede. Então fechou a porta. Ouvi o tilintar de uma corrente antes de ele abri-la novamente, agora por completo – Está bem – ele abriu os braços para a entrada. Não era tão desarrumada quanto eu achei que fosse. Havia alguns sofás vermelhos nos cantos, e um quadro de avisos ao lado da escada que levava ao segundo andar. Fotos de mulheres estavam coladas nele, algumas com um adesivo vermelho por cima – Sinta-se em casa. Mas não pise no tapete, você está sangrando.
Gael entrou antes de mim, farejando o chão e a mobília. Fechei a porta atrás de mim com cuidado, evitando respirar muito. Só a entrada estava impregnada com cheiro de cerveja velha e cigarro.
—Lauren! – O homem parou na metade da escada ao gritar o nome — Pode me chamar de Seth, garoto. Prefere vinho ou rum?
—Eu não...
—Ah, Lauren, docinho — chegamos ao segundo andar, em uma sala ampla. Uma garota de uns dezesseis anos esperava atrás de um sofá, as mãos inquietas amassando a barra do vestido dourado e justo. Seus olhos castanhos se arregalaram quando ela me viu — Traga aquele Montilla que estou guardando em meu escritório, está bem? Vá rápido.
A menina se apressou por um corredor mal iluminado, puxando o vestido curto para tentar se cobrir mais.
—Ela é humana?
—Bem — Seth largou-se em um sofá, passando a mão no cabelo ralo e seboso -, não posso vender as especiais para meus clientes mortais, se é que você me entende.
Não ri, não falei nada. Assim que ele percebeu minha cara, parou imediatamente de rir e arrumou o colete vermelho.
—Não dá pra ficar escolhendo — continuou, olhando de soslaio para mim quando não me sentei — Tenho que pegar o que tem. E não é minha culpa se só o que estão vindo são crianças humanas. Pelo menos elas vendem direito.
Torci o nariz e olhei para a janela, vendo as recentes linhas de água escorrerem pelo vidro embaçado. A silhueta de Milwaukee brilhava contra o céu escuro e repleto de nuvens cor de chumbo. A garota, Lauren, voltou à sala, trazendo uma garrafa de rum em uma mão e dois copos na outra. Colocou-os em cima da mesa.
—Sirva — ordenou Seth, sem nem mesmo olhar para ela. Lauren encheu os dois copos com mãos trêmulas, a respiração presa. Assim que se afastou, levando um copo para o chefe, Gael se esticou e farejou o copo restante, logo depois me lançando um olhar alarmante. Quando a menina o ofereceu a mim, recusei com um aceno de cabeça.
—Então — Seth me olhava com desconfiança — O que quer?
—Preciso saber onde Elijah está se escondendo agora.
—Não trabalho mais para ele, garoto, como eu vou saber...
Gael arreganhou os dentes, seus olhos dourados faiscando. Seth se arrumou no sofá ao mesmo tempo que fazia um gesto para Lauren ir embora.
—Ele muda todo mês. — O cafetão remexia o conteúdo em seu copo, mas não havia tomado nada até agora — Eu tenho um amigo que ainda trabalha com aquele sarnento, e que vem sempre me contar o que está acontecido, sabe? Bem, ele disse há... Não sei... Duas semanas, mais ou menos, que Elijah havia conseguido uma casa bem grande de uma família rica, mas eu não me recordo do nome da cidade... É um lugar famoso, acho que começa com “L”... Lo... Acho que era Londres.
—Londres?! — Minhas pernas cederam e me sentei na poltrona à minha frente, enroscando os dedos no cabelo. Aquilo não era possível. Não era possível que Elijah tivesse levado Dayannya para tão longe — Não pode ser Londres, ela não pode...
—Aah. — Seth sorriu entretido — Então tem uma moça no meio disso tudo. É gostosa?
—Isso não é da sua conta.
—Entendo – Ele lançou-me um sorriso malicioso e inclinou-se para frente, sobre os joelhos – Qualquer dia desse você podia traze-la aqui. Eu gosto de conhecer garotas novas, ainda mais as...
Em um movimento rápido saquei o revólver guardado no cós de meu jeans. Seth tinha os olhos fixos na arma, ligeiramente trêmula em minha mão.
—Você está me fazendo perder a paciência.
—Olha — Seth coçou a orelha, sem desviar o olhar. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto — Vou te dizer o que sei, ok? Esse meu amigo, sabe, falou comigo há alguns dias. Ele disse que Elijah tinha um plano bem elaborado, mas não me disse o que era. Nem ele sabe o que é. Disse que só os principais guardas de Elijah sabem, especialmente o gêmeo.
—Gêmeo?
—Seu amigo não te contou? — Ele ergueu uma sobrancelha, então abriu um sorriso de deboche na direção de Gael — Espere. Ele não pode, não é mesmo? Eu nunca imaginei que você fosse capaz de mudar de lado, Gael.
O lobo encolheu-se, as orelhas abaixadas. Ele passou a se mexer de um lado para o outro, cheio de nervosismo.
—Esqueça isso — resmunguei impaciente. Eu poderia tentar saber do que ele falava depois — Seu amigo não te contou mais nada? Nada sobre... Sei lá, a filha de Apolo...?
—Filha de Apolo? — De repente, Seth pareceu empolgado — A “Lança-Chamas”? Pegaram ela? Puxa, já não era sem tempo de tomarem uma atitude, que menina escorregadia, você não ac...?
Ele selou os lábios quando ouviu o clique da arma sendo engatilhada e o rosnar de Gael.
—Foi a ela que você se referiu antes? Então, deixa quieto... Meus pêsames.
—Ela não está morta. — Ao menos, eu queria acreditar nisso. Não fazia sentido Elijah levá-la com vida. Se ele a quisesse morta, teria acabado com isso no restaurante — Preciso encontrá-la logo, por isso vim até aqui.
—Isso explica sua cara — Seth franziu o cenho — Não dorme há quantos dias?
Eu sentia como se não dormisse há meses. Quando desci da moto há alguns minutos, vi meu reflexo de relance no espelho retrovisor; olheiras fundas abaixo dos olhos, marcas de cansaço pelo rosto e ombros caídos. Mas o que mais acabava comigo era saber que tudo o que estava acontecendo era minha culpa. Se eu não tivesse deixado Daya sair do Reformatório, nem por aquela mísera hora, eu não estaria há três dias procurando todos os lobisomens e monstros influentes em todas as cidades desde Nova York. Ninguém sabia nada sobre Elijah e, se sabiam, se recusavam a dizer algo. Eu tinha uma série de machucados novos que provavam isso. E, mesmo com a ajuda de mais cinco Reformatórios, cada um procurando em seu respectivo estado, conseguimos pouquíssima coisa.
Senti meu celular tocando. Eu não queria atender. Estava tão irritado a ponto de querer pegá-lo e jogá-lo pela janela.
—Não vai atender?
Bufei e peguei o celular, ficando mais estressado ao ver o nome piscando na tela. O que se passou na cabeça de Peggy para ela me ligar as duas da manhã? Bom, por um lado eu poderia saber o porque do sumiço dela e avisar Geoffrey, que havia me perguntado sobre isso há alguns dias. Mas também não era importante. Nem um pouco. Rejeitei a ligação.
—Que falta de educação...
—Você tem certeza — comecei, mudando de assunto — de que seu amigo disse mesmo “Londres”?
—Não de todo.
Meu celular vibrou em minha mão. Havia duas mensagens de Peggy. Seth esticava o pescoço para ver o que se passava. Ignorei-o e abri as mensagens:
Sou eu.
Atende, por favor.
Meu coração ficou preso na garganta. Levantei-me de um pulo ao mesmo tempo em que guardava o revólver de volta no lugar.
—Obrigado — exclamei a Seth enquanto me virava e descia as escadas — Pela ajuda. Mesmo.
—Já vai embora? — Ele bufou. Pulei os últimos cinco degraus, digitando com pressa uma mensagem para Chris, pedindo que ele pegasse minha moto — Semideuses são todos assim. Incrível.
Não dei-lhe atenção. Assim que saí da casa comecei a correr, Gael em meu encalço, em direção ao Ponto de Milwaukee, o celular no ouvido. Senti-me desabar assim que ela atendeu, seu suspiro de alívio preenchendo o vazio que eu sentia há dias.
*Daya*
—Eles estão perto — Peggy não parava quieta atrás de mim, choramingando e torcendo as mãos na barra da minha regata. Para uma oficial romana, ela era bem insegura — Eu posso sentir.
—Dios mio, cállate antes que ellos nos encuentren, chica!— Pedi já em desespero. Não sei se ela entendeu, mas se entendeu ou não, ficou quieta. Mais um pouco e, além de desatar a tagarelar em espanhol, eu acabaria descendo a mão na cara dela. Já bastava ter mais de sessenta lobos atrás de mim, não precisava de Peggy entrando em agonia — Quedate en silencio, vamos a salir de aquí. Solo espere un poco más.
—Eu não entendi o que você disse...
—Só cale a boca.
E esperamos. Colei a orelha na porta, ouvindo com atenção os lobos farejando o chão. Eu podia sentí-los chegando perto, seus focinhos raspando a porta. Dando-me um susto de fazer parar o coração, um dos animai uivou, muito próximo, seguido por mais três. E então eles correram, seus corpos esbarrando uns nos outros enquanto desciam as escadas.
Soltei um palavrão que teria feito Isaac passar fita adesiva em minha boca.
—Vamos, Peggy — levantei-me destrancando a porta, as chaves escorregando em minha mão. Abrí-a com o coração palpitando. O segundo andar inteiro estava vazio, a maioria das portas abertas, escancaradas. Sei. Era o pior plano do mundo sair correndo, com a mínima chance de conseguirmos escapar sem sermos pegas. No entanto, não tínhamos outra opção se não aquela. E, desculpe Conselho Olimpiano e todos os outros, mas rezei dez Ave Marias ainda lá dentro para que o fogo funcionasse caso algo não ocorresse do jeito certo, o que iria acontecer querendo ou não.
Peggy entendeu a deixa. Começamos a correr juntas, passando pelo corredor e descendo dois degraus de cada vez. As grandes portas de mogno estavam lá na frente, tão perto. Só precisávamos correr e passar por elas. Pelo que eu via pelas janelas da sala de estar, embaçadas pela chuva forte as cercas que protegiam a mansão eram escaláveis, caso o portão estivesse trancado, mas não dava para ver se havia fios elétricos no topo. Faltava só três degraus. Daí eu caí.
Minha boca atingiu o chão com força, o sangue explodindo de meus lábios e minha língua. Senti o ar se esvaindo de meus pulmões assim que caí e me encolhi instintivamente em posição fetal, tossindo e cuspindo sangue no assoalho. Havia algo pegajoso em meus tornozelos, prendendo-os juntos. Estiquei as mãos para eles e, mesmo com a visão embaçada de dor, pude ver os fios brancos e grudentos em meus dedos.
—Dayannya! — Peggy se abaixou do meu lado, puxando a teia de aranha de meus pés. Eu mal podia ouví-la. Não conseguia respirar direito. Estava atordoada demais para conseguir me levantar, mesmo com Peggy tentando me erguer. E além disso, já era tarde demais. Pelo canto do olho enxerguei Elijah se aproximando lentamente, os braços cruzados atrás das costas. Pontos coloridos manchavam minha visão, mas era ele. Eu tinha certeza.
—Indo a algum lugar? – Elijah parou a alguns metros, seu rosto iluminado por um sorriso de satisfação. Uma coisa do tamanho de um fogão caiu ao seu lado, erguendo o corpanzil nas oito pernas peludas. E podia ver meu rosto refletido múltiplas vezes nos olhos negros e bulbosos da aranha.
—Santa María madre de Dios.— Mais lobos chegavam, esgueirando-se pela sala como se caçassem um animal encurralado. Eu era o animal encurralado.
Arrastei-me pelo chão o máximo que pude até encostar as costas na parede para que eu ficasse o mais longe possível dos animais. Eu ainda tinha medo de cães, esses em especial. Meu coração batia como o de um coelho assustado, o medo sufocava minha garganta. Elijah se divertia com isso. E também parecia estar-lhe agradando me ver apavorada com o lábio sangrando e a total incapacidade de me mover. Era assim que eu me sentia: incapaz. Apesar do que Héstia me dissera, não havia jeito de fugir. E eu fui tola por acreditar que, por mais improvável que fosse, ainda houvesse esperança.
—Eu realmente não queria que fosse assim — Elijah aproximou-se alguns passos, sua aranha de estimação rebolando rápido atrás dele. Peggy estava estática ao meu lado — Esperava que você colaborasse, Dayannya. Seria tudo mais fácil.
Ele estava mentindo. Ele sabia que eu tentaria fugir e estava preparado para isso. Sempre estava. Nada nunca escapava dele...
Nesse momento uma lâmpada acendeu-se em minha cabeça, iluminando meus pensamentos. Eu podia escapar dele. Eu podia mudar tudo o que ele planejava, tudo o que ele vira para o futuro. Elijah esperava que eu continuasse impotente, que eu desistisse. Sim, eu estava fraca, mas não ia desistir. Eu não ia ceder. E aposto que nem passou pela cabeça de Elijah que eu estivesse determinada a dar a volta por cima.
Não falei nada. Continuei encarando-o, e isso pareceu confundi-lo. Era para eu ter dito alguma coisa?
—Sua nojentinha... — Gwen batia os pés com força vindo em minha direção, os punhos cerrados ao lado do corpo. Suas presas estavam expostas, os olhos vermelhos brilhavam no rosto branco feito papel.
—Gwendolyn — Elijah estendeu o braço, parando a empousa. Ela o olhou perturbada -, não.
—Mas...
—Eu disse não — ele não tirou os olhos de mim, me examinando de cenho franzido — Então é assim que funciona — murmurou, mais para si mesmo. Voltou-de para os lobos — Peguem-na. E não a deixem escapar.
Os lobos avançaram, rosnando e latindo enfurecidos. Peggy gritou ao meu lado ao mesmo tempo que eu. Senti meus membros esquentarem de uma vez antes do fogo explodir com toda sua força, como se tivesse vida própria, e cercar a mim e Peggy. Os lobos pararam no meio da corrida, derrapando pelo tapete e parando com os focinhos a milímetros do círculo de chamas.
—Não deixem ela fugir! — Elijah gritou, enfurecido. Sua voz ecoava desumana aos meus ouvidos, os olhos giravam em um turbilhão de cores — Não foi isso que eu vi! Ela mudou tudo, está desandando! Não percam a Filha de Apolo de novo!
Os lobos tentaram se aproximar. Contudo, sempre que chegavam perto, seus pelos ficavam negros e chamuscados e eles se afastavam ganindo. Foi como no restaurante. Eu não controlava o fogo, ele agia sozinho, me protegendo. O fogo podia ter saltado de mim, mas eu ainda p sentia queimando e se contorcendo em minhas veias. E, como antes, eu também sentia minha força se esvaindo de meu corpo, me enfraquecendo e me deixando tonta. E doía. Era como se uma garra tentasse puxar minhas entranhas pelo umbigo.
—Tá, então... — Ergui-me devagar, cambaleando, as pernas bambas. O ar parecia tremular a minha volta, meu corpo queimava com o calor — Eu já vou indo.
—Acaba logo com isso — a voz de Peggy soava débil e baixa, quase inexistente — Você pode queimar tudo...
—Ela não pode. — Elijah aparentava estar pronto para entrar em um colapso nervoso. Um chicote de ouro imperial pareceu ter aparecido do nada em sua mão, cerrada com.tanta força que as juntas estavam mais brancas que o normal — Porque ela é fraca. É só mais uma coisinha que não consegue fazer nada por conta própria.
O fogo se apagou. Peggy guinchou assustada enquanto eu encarava Elijah fixamente nos olhos. Sua expressão era uma mistura de incompreensão e satisfação. Todos os lobos emitiram um ruído em conjunto, se encolheram literalmente com o rabo entre as pernas e lançaram olhares de misericórdia ao seu mestre. Ele fingiu não notar a agitação, vinda até mesmo de Gwendolyn.
—Perdão — murmurei, a voz surpreendente calma e diferente do normal. Não parecia minha voz — Como?
—Você é uma menininha detestável — Elijah agora parecia perturbado. Ele também notara a mudança. Percebi de soslaio que Vincent estava parado em frente à cozinha, estático — Eu já estou cansado de você, e você vai colaborar comigo, querendo ou não. Eu não queria que fosse assim. Mas se você não tivesse tido a audácia de mudar tudo, não precisaríamos disso.
Elijah brandiu o chicote e milhões de farpas de ouro surgiram ao longo de seu comprimento, reluzindo à luz do lustre acima, vindo como uma cobra em minha direção. Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. 1) eu fiquei semiconsciente. Podia respirar e enxergar, mas não conseguia me mover. Ao invés disso, eu não controlava meu corpo ou meus movimentos. E 2) o fogo voltou, dessa vez mais forte e reluzente, sem nem mesmo avisar sobre sua chegada. Ele simplesmente me envolveu, as chamas saltando para a ponta do chicote e o devorando. Elijah soltou-o, de olhos arregalados. Pela primeira vez ele parecia um cãozinho acuado.
—Eu mataria você — a voz saiu de minha boca, involuntariamente. E não era minha voz. Definitivamente não era. Parecia muito ancestral e certamente assustadora. Minha voz não era nem um pouco assustadora. — mas você tem sorte, profanador, por ela não permitir. Eu já teria te queimado há éons.
O fogo avançou como marolas, fazendo Elijah cambalear para longe. Ele não parecia assustado, como Gwendolyn e seus lobos, mas sim com raiva, uma fúria crescente que se espalhava por suas faces. Ele estava se transformando.
As chamas, que refulgiam em um branco ofuscante, se juntaram em uma esfera e então envolveram minhas mãos, quentes e inofensivas.
Seja rápida. As palavras escorram em minha cabeça. Eu me sentia atordoada e confusa, e com certeza nem um pouco rápida. Vá.
Meus olhos reviraram e uma escuridão aveludada né envolveu antes que eu perdesse todos os sentidos.
***
Quando voltei a mim eu corria feito um torpedo por uma rua larga, Peggy ao meu lado empurrando os pedestres para nos dar espaço. Eu não lembrava o que havia acontecido, a não ser a mudança repentina de estado do fogo.
—O que aconteceu? — Gritei para Peggy por cima do som da chuva pesada e do trânsito. — Porque estamos correndo?
—Você não lembra? — Peggy derrapou em uma poça na calçada ao virarmos em uma ruela — Você foi incrível, parecia um... Não sei, um demônio.
Um demônio, repeti mentalmente repetidas vezes. Minha cabeça girava, o enjôo pareceu aflorar à boca de meu estômago.
—Não estou me sentindo muito bem — Senti minhas pernas fraquejarem pouco ante de dobrarmos uma esquina e algo duro se chocar contra meu nariz. Francamente, o que o universo tinha contra o meu nariz? Pelo menos dessa vez eu não caí, apesar de cambalear um pouco.
Ergui a cabeça, todo meu longo repertório de palavrões na ponta da língua, e engasguei. As lágrimas de acumularam num segundo em meus olhos aí me lançar nos braços de Isaac, soluçando com o rosto enfiado em sua camiseta. Ele estava mudo quando me abraçou de volta, apertado, como se quisesse garantir que ninguém fosse me tirar dele.
—Fiquei com.medo — confessou, os lábios encostados à minha cabeça — Algo podia ter acontecido com vocês...
Vocês. Uma raiva repentina cresceu em meu oeito fazendo minha cabeça girar em um turbilhão. Eu não conseguia administrar meus pensamentos direto. Era tudo estranho e confuso.
—Isaac — murmurei me afastando apenas o bastante para poder olha-lo. Seus olhos azuis se desviaram apenas por um momento na direção de Peggy — Você é um idiota pervertido.
Isso pareceu choca-lo, e a Peggy também. Mas para mim foi tão natural quanto comentar sobre o clima.
—Você sempre aparece quando eu preciso, você me persegue, seu...?
E de repente eu estava rindo, segurando com força demais nos braços cobertos dele. Meu rosto queimava, ruborizado, e apesar da chuva forte e do vento que soprava meu cabelo eu tinha calor.
—O que aconteceu com ela?
—Eu não sei — Peggy estava confusa e repreensiva — Ela estava normal até agora...
—Eu estou bem — retruquei soltando Isaac. Minhas pernas cederam no mesmo.momento e ele me segurou. Estávamos nós dois ajoelhados na calçada, meu rosto apoiado em seu ombro. Alcancei-o com os braços e é envolvi seu pescoço fortemente — Você tem pegada, sabia?
Isaac segurou meus ombros nus, com a intenção de se soltar, mas afastou as mãos rapidamente.
—Você está quente!
—Obrigada.
—Não, é de um jeito ruim. — Isaac tirou a jaqueta, colocando-a a minha volta e fechando o zíper. O espaço ali dentro esquentou feito um.saco de pipoca de microondas. Ouvi, ainda que abafado, Peggy soltar uma exclamação de horror. Isaac franziu o cenho enquanto me ajudava a ficar de pé. Ele devia ter percebido o porque de Peggy ficar tão surpresa — Isso não é importante agora. O Ponto está perto, nós...
—Você não vai me carregar?
—Ah... Agora não.
—Que bom — empurrei o peito dele com a ponta do dedo. Até o mínimo gesto parecia algo extremamente engraçado, e eu ria como uma idiota. Na verdade, eu estava idiota — Porque isso seria assédio sexual.
Ele começou a andar, me embalando em um dos braços e me dando apoio. Peggy seguia ao seu lado e os dois murmuravam baixinho, fervorosos. O ritmo da caminhada aumentava gradativmente, a tensão pairando no ar, e ocasionalmente eu soltava algum comentário estúpido e sem sentido, como: “Você gosta de toranjas?” ou “Vocês são dois pervertidos” ou “Estão me ignorando?”. Eles me ignoravam.
—Isaac — chamei em um sussurro. Ele nem sequer olhou para mim, e isso me deixou triste, acima de tudo — Eu não estou me sentindo bem... — um uivo ressou ao longe, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem — Cachorrinho!
O aperto a minha volta ficou mais forte. Isaac acelerou o passo e entrou em um beco, se agachando atrás de uma caçamba de lixo fedorenta e intensificando o abraço. Por mais atordoada que estivesse, eu não precisei do olhar que Peggy me lançou para que eu soubesse que tinha que ficar quieta.
Alguns segundos se passaram, nossas respirações se condensando no ar frio. Ouvi exclamações das pessoas e o som de dezenas de patas caninas chapinhando na água da chuva que se acumulava no chão. Eles farejavam o ar avidamente, mas o cheiro do lixo havia nos encobrido.
—Você é esperto — suspirei no ouvido de Isaac um minuto após os lobos terem passado. Um arrepio percorreu o corpo dele.
—A entrada do Ponto é aqui — ele disse se levantando comigo junto. Seu rosto estava corado — Vamos logo, antes que eles voltem.
—Eu não quero ir.
Peggy e Isaac pararam, olhando para mim.
—Mas...
—Eu não quero ir — cruzei os braços como uma criança fazendo birra – Você não manda em mim, e não pode... hic... me dizer o que fazer, entendeu, bonitão? E além do mais, você não me deu atenção a noite inteira, seu... Bobo, você só liga pra essa — soltei uma risada engasgada — mequetrefe. — Ri mais — Mequetrefe é uma palavra engraçada.
—Daya, por favor...
—Você não gosta de mim? — Eu ouvia uma vozinha cantar em minha cabeça — Eu pensei que você gostasse de mim, porque eu gosto de você — abri um sorriso embriagado — Eu gosto muito de você, sabia? Você é tão...
Não terminei a frase. Meu rosto ardeu, mas não de calor. A pele latejava em minha bochecha. Só então, de olhos arregalados, notei Peggy com a mão trêmula erguida, pronta para outro tapa.
—Recomponha-se! — Exclamou enfurecida, seu rosto ficando roxo. Ergui os olhos, atordoada, mas a névoa que bloqueava meus pensamentos sumiu. Eu enxergava com mais clareza, equilibrei-me sem dificuldade, minha mente estava desanuviada. Eu só me sentira daquele jeito uma vez, com sete anos, quando peguei uma febre fortíssima e tive alucinações. Só que dessa vez não vi nenhum elefante rosa.
Olhei vagamente para Isaac. O cabelo loiro enxarcado caia no rosto ruborizado e com cortes superficiais no queixo. Seus olhos azuis me encaravam intensamente e com curiosidade. Aqueles olhos azuis... ele ficava lindo daquele jeito, e eu quase esclarecera isso em alto e bom som.
—Aaah... — Segurei a cabeça com as duas mãos, a vergonha crescendo e o sangue borbulhando em minhas faces. Eu nem conseguia olhar para Isaac — Desculpe, desculpe, desculpe...
—Está se sentindo melhor? — Foi a primeira coisa que disse. Assenti — Ótimo.
Ele se virou e moveu um monte de caixotes de madeira, revelando um buraco baixo, próximo ao chão no muro do fim do beco. Peggy lançou-me um leve olhar de pena antes de sentar-se na beira do buraco e descer escorregando, desaparecendo no escuro.
—Pode ir — Isaac pousou a mão em meu ombro, tranquilizador, como se para garantir que ficaria tudo bem. Eu queria me virar e abraça-lo, e ficar assim por horas, absorvendo ele. E que Peggy se lascasse. Eu só queria ficar com ele. Contudo, por mais doloroso que fosse, eu sabia que não era a hora. Fiz que sim com a cabeça, sentando na beira do buraco. Olhei para as sombras do túnel em declive, e após fechar os olhos e respirar fundo, dei impulso e escorreguei por ele.
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