Filha de Apolo - Electricity
21 Mentiras
Notas iniciais
Bufei pela quinta vez só naquele minuto, incomodada por não estar me movendo. Eu sentia que precisava me mexer ou o sangue pararia de circular pela minha cabeça que latejava de dor.
–Se você está entediada — retrucou Peggy ao meu lado, olhando o céu escuro como breu passar em um borrão pela janela do trem -, pule pela saída de emergência. Com o trem em movimento.
–Porque você não pula? — Estiquei-me para tentar ver o que acontecia na frente do trem. Na verdade, para ver o que Isaac fazia. Estávamos ali há pouco mais de cinco minutos, e assim que entramos Isaac nos empurrou para o fundo e se sentou sozinho. Eu estava preocupada com ele. — Você sabe o que ele tem?
–Você é a namorada dele, você que devia saber.
–Eu estava alucinando, não tinha visto nada de errado nele — franzi o cenho — E ele não é meu namorado.
–Mas bem que você queria que fosse.
–Não queria, não...
–”Você não gosta de mim?” — Ela disse gesticulando de um jeito tosco e fazendo uma imitação fajuta minha — “Porque eu gosto de você. Gosto muito de”...
–Eu estava alucinando — vociferei, desferindo um tapa nela. Logo estávamos nos estapeando feito duas idiotas.
–Para, sua maluca! — Ela me empurrou e cruzou os braços, sussurrando: — Estão olhando.
Murmurei dizendo que todos aqueles enxeridos fossem arrumar algo para fazer. Cruzei também os braços sobre o peito, emburrada. Eu definitivamente não gostava de não ter algo para fazer. Depois de cruzar e descruzar as pernas, brincar com o cabelo e arrumar a saia inúmeras vezes para que o rapaz sentado ao lado parasse de olhar, me decidi:
–Eu vou lá ver ele.
–E vai me largar sozinha?
–Bem, eu só tomaria cuidado com aquele cara, ele é um safado — estava prestes a me levantar quando Peggy segurou meu braço.
–Você não se lembra de nada? Digo, do que aconteceu na casa.
Era um assunto bem repentino, eu não estava preparada.
–Ah... Não. O que aconteceu?
–Você lutou contra Elijah — ela engoliu em seco — Mas não parecia você. N-não que eu ache que você seja incapaz de lutar, mas... Era como se fosse seu corpo, mas o espírito fosse outro. Você não parece violenta, não daquele jeito.
Minhas pernas ficaram bambas. Como eu poderia continuar ali, mas com outro espírito? Talvez fosse por isso que eu conseguia, por um tempo, enxergar e ouvir, mas não podia me mover. Meus membros pareciam se mover por conta própria. Ou então, como sugeriu Peggy, fosse outro espírito dentro de mim. Isso também explicaria como nós conseguimos fugir e eu não tinha lembranças de nada.
“Seja rápida”, era a única coisa de que eu lembrava. “Vá”.
–Vai ver ele — Peggy disse me soltando e voltando a contemplar a noite — Ele estava machucado.
Isso foi o bastante para que eu me levantasse sem pensar duas vezes. O trem mal sacudia, o que era bom porque eu não queria cair com algum solavanco e acabar com a saia erguida. Eu usava shorts por baixo, pela preservação do bom senso, mas ainda assim seria vergonhoso. As pessoas não prestavam atenção em mim à medida que eu passava por elas, o que também era ótimo. Finalmente cheguei ao assento de Isaac e senti vontade de dar-lhe um tapa. Ele estava com a camisa erguida, pressionando um pano úmido em um corte em seu abdômen. Então eu entendi porque ele sentou na frente e nos deixou tão longe. Não havia quase ninguém nos lugares próximos, a não ser um menino enfiado em um game boy e uma senhora dormindo, mas ela parecia tão velha que talvez estivesse morta mesmo. Ninguém veria ele.
–Como você fez isso? — Exclamei, tentando me controlar. A senhora se mexeu e soltou um ronco digno de algum animal, por isso tive certeza de que estava apenas dormindo.
–Eu vou ficar bem, não é nada sério — ele respondeu, nada convicto, mordendo o lábio com força. O ferimento parecia fundo, a pele ao redor muito pálida e manchada de roxo e vermelho. O sangue brotava ao poucos, sendo logo sugado pelo pano.
–Não é sério? — Larguei-me ao seu lado, tirando o pedaço de tecido de sua mão e pressionado no ferimento do jeito insensível que a maioria das enfermeiras faz. Ele gemeu e agarrou meu pulso, com a intenção de me afastar — Você está ferido, provavelmente pegou uma infecção, e o que é isso? Mordida de lobisomem?
–É só um arranhão, eu não vou morrer.
–Talvez — enfatizei bem a palavra — não morra. Mas pode pegar tétano, ou outra doença. Arranhou onde? Em uma cerca enferrujada? Ou “arranhou” na garra de algum monstro?
–Zeus é pai...
Mordi a língua para não falar mais nada. Pressionei mais o tecido, meu rosto ficando quente. Eu estava brava com Isaac e comigo mesma por vários motivos, mas que realmente me fez querer esbofetea-lo foi o fato de começar a rir.
–Você se preocupa demais, Daya.
–É você que é muito descuidado! Quando vai aprender a tomar juízo!?
–O que é juízo?
–Imbecil.
–Delicada como um coice.
–Não é pra você me fazer rir, idiota — exclamei dando-lhe um tapa no peito, meus lábios tremendo. — Estou com raiva de você, então pelo menos finja estar chateado com isso.
–Eu não preciso fingir, não gosto quando você fica brava.
–Hm — ergui as sombrancelhas — Então porque se esforça tanto?
–Perseverança é o caminho para o sucesso.
Não pude deixar de rir. Isaac sorriu, satisfeito, e tirou o pano de minhas mãos.
–Deixe isso para quando chegarmos em Long Island. Não quero perder um de meus lindos olhos.
–Long Island? — Franzi a testa — Pensei que fôssemos descer no Acampamento Júpiter, é a próxima parada...
–Nao sabemos se já somos bem vindos lá — ele abaixou a voz — Você lembra o que aconteceu da última vez.
–Sim, mas...
–E Sarah pediu que eu te levasse de volta o mais rápido possível...
–Esse machucado vai piorar — interrompi-o, segurando seu pulso com força — Prefiro cuidar dele o mais rápido possível, e estamos quase chegando no Acampamento. Eu tenho certeza que vão entender, ainda mais depois daquilo — seu rosto pareceu ficar mais pálido com a menção do que aconteceu pouco tempo atrás. O meu também deve ter ficado — Por favor.
Ele suspirou, vencido.
–Se eu levar bronca...
–Não vai — a velocidade do trem diminuiu gradativamente até parar. Eu podia ver a estação pela janela; não estava tão cheia como da última vez em que estivemos ali. Mas seria incomum se houvesse uma multidão às duas horas da manhã. O que mais se destacava era um senhor idoso levando um pégaso baio de um lado para o outro — Eu assumo a culpa.
Levantei-me, fazendo um sinal para Peggy vir, e quase cai de novo. Isaac perguntou se eu estava bem e respondi que sim, apertando minha têmpora direita. Minha cabeça doía muito, meu estômago estava revirado. Tentei me endireitar, entretanto minhas pernas vacilaram e Isaac se levantou com agilidade para me segurar. Senti gosto de sangue ao tossir.
Eu conseguia ouvir Isaac dizendo para eu olhar para ele, para eu focar em alguma coisa. A senhora ao lado perguntava debilmente o que acontecera e senti Peggy me segurar pelo braço e ajudar a me erguer. Eu não respirava direito, meus olhos não se mantinham abertos e todos os meus membros pareciam gelatina. Parecia que só me restava forças para tossir sangue. Mal senti quando Isaac me carregou para fora.
“Você aguentou bem”, sussurrou a Voz em minha cabeça, solidária. “Agora descanse.”
***
Quando acordei eu estava em uma cama confortável com edredons me cobrindo até o busto e uma compressa fria em minha testa. Levei alguns segundos para perceber que estava em um quarto escuro, e não morta como eu me sentia. Daí meu cérebro processou que estava escuro.
Joguei as cobertas para o lado e plantei os pés no chão, saindo ao pulos de perto da cama. Foi surpreendente eu ter me movido com aquela agilidade, sendo que eu me recordava de ter desmaiado, sem forças nem mesmo para articular palavras. Porém, isso não me impediu de tatear o ar à procura de uma cômoda, encontrar um abajur e puxar a cordinha. A luz estava fraca, mas foi o bastante para me deixar mais aliviada.
Na cama ao lado um amontoado de cobertores se movia suavemente, e após observar por uns segundos percebi uma longa mecha loira sobre o travesseiro. Peggy se remexeu e resmungou algo ininteligível. Resolvi deixá-la em paz, ao invés de acorda-la para perguntar como chegamos à casa sem nenhum problema.
Depois de respirar fundo e chegar a conclusão de que eu não sentia dor em lugar algum, nem me sentia mal ou estranha, procurei mais um pouco pelo quarto e encontrei uma pequena pilha de roupas sobre a escrivaninha. Reuni-as em meus braços e caminhei cuidadosamente para o corredor sem luz, achando o banheiro pela memória.
Tomei um banho demorado, aproveitando a sensação de ter todas as partículas de Los Angeles sendo removidas de meu corpo. Enquanto ensaboava meu cabelo, usando força para tirar a oleosidade de três dias sem banho — aaah, que nojo -, lembrei de Isaac. De que meu plano era descermos ali para que eu cuidasse dele imediatamente, mas o cansaço e a tontura me venceram. Deixei as mãos escorregarem pelo cabelo até ficarem pendendo ao lado do corpo. Ele devia, com certeza, estar em agonia uma hora daquelas, e a infecção já devia estar muito pior. E, por falar nisso, quantas horas eu dormi?! Ainda estava escuro lá fora, e chovia, contudo ainda era preocupante. Eu esperava que, se já tivesse se passado um tempo, ele tivesse tido o bom senso de ir procurar um médico, curandeiro, o que fosse.
Terminei o banho às pressas, finalmente me dando conta de que o sutiã que foi separado para mim era muitos números maior que o meu. Resmungando, lavei minha roupa íntima e usei o secador de cabelo que encontrei no armário da pia para secá-las — e ao meu cabelo. Depois de me examinar no espelho, com meus cachos presos em um coque frouxo, me sentindo bem mais revigorada e de roupas limpas, abracei o kit de primeiros-socorros que, convenientemente, estava ao lado do secador e saí do banheiro, seguindo aos pulos para a escada para o andar de baixo, de onde vinha uma luz bruxuleante. Desci os degraus com o conteúdo do kit balançando em meus braços, sem me importar em fazer barulho. Quando cheguei lá embaixo encontrei Isaac sentado no tapete entre o sofá e a lareira terminando uma garrafa de whisky, direto do gargalo.
–No flagra.
–Não tinha nem metade. — Ele disse rapidamente, surpreso por ter sido pego, mas também parecendo aliviado — Não vou ficar bêbado. Como você está?
–Bem — ajoelhei-me ao seu lado, colocando a caixinha branca sobre as pernas. Notei de canto de olho que ele fizera um curativo improvisado no ferimento — E você? Está doendo?
–Melhorou um pouco depois que comi ambrosia — ele ergueu mais a camiseta para mostrar direito a área ferida, e quando me aproximei para tirar o curativo senti o aroma de shampoo masculino que vinha dele — Mas não consegui dormir muito por causa disso.
–Espero que não tenha piorado — murmurei apreensiva. Para falar a verdade, não estava tão feio quanto antes. Não sangrava mais, a pele ao redor continuava muito pálida e com aspecto morto, mas tirando isso também não havia pus, marcas roxas ou amareladas e estava limpo. Facilitaria muito meu trabalho — Que horas são?
–Hum... Quatro da manhã. — Isaac ergueu os olhos azuis, marcados de incerteza — Você esteve ardendo em febre desde que chegamos, tem certeza de que está tudo bem?
–Eu estou ótima — deixei agulha e linha prontas, feliz por ter todo o material de que fosse precisar. Iniciei a surura com muito cuidado, mas Isaac reprimia uma exclamação ocasionalmente, quando eu puxava a linha ou tocava na pele com a agulha. Antes de continuar passei uma pomada e esperei. Não queria que doesse demais.
–Então está bem o bastante para falarmos sobre o que aconteceu?
Eu sabia que ele ia cutucar a ferida. Só de lembrar as coisas que eu disse enquanto delirava meu rosto ficou tão quente quanto se eu ainda estivesse com febre.
–Alguém deve ter me dado alguma coisa, não lembro...
–Peggy já me contou uma parte — suas sobrancelhas louras se arquearam. Então não adiantava mentir — Ela disse que você lutou com Elijah.
–Eu não me lembro do que aconteceu — minha mão tremia ao manusear a agulha. Eu realmente eatava frustrada, não por Peggy ter compartilhado aquelas informações sem meu consentimento, mas por eu ter descido a porrada em Elijah e não me lembrar de nada — Juro.
–Acredito em você. Só não consigo acreditar nas coisas que a Peggy contou.
–É? — Instiguei, desviando o olhar para ele — E que coisas são essas?
–Ela disse que foi como se o espírito do próprio demônio tivesse tomado posse de seu corpo e... queimado tudo.
–Zeus...
–Foi essa a minha reação — disse ele indicando minha expressão de choque.
–Ela me disse, mas não detalhadamente — Murmurei, mais preocupada em dar o nó na linha e depois desenrolar a gaze — Pensei que depois de tudo o que passamos eu pudesse confiar nela.
–Ah, ela falou disso também — quando olhei, Isaac sorria com um pouco de orgulho, mas de mim — Disse que ficou surpresa no começo, mas que agora está muito agradecida por você ter feito aquilo.
–Ah. — Enrubesci — Eu não podia deixar ela lá. Mesmo depois de tudo.
–Isso é uma particularidade sua realmente louvável — Ao falar, os fios soltos do meu cabelo sopravam para o meu rosto, devido a posição nada favorável que tive que tomar para poder passar a gaze por trás de seu tronco -, mas pode ser uma desvantagem se você não souber usar.
–É, já me disseram isso. — Curvei-me sobre ele para a segunda volta. Sempre que sua respiração atingia minha nuca, ou minha orelha, um arrepio percorria meus braços e o rubor subia pelo pescoço. Não era ruim, de todo, levando em conta que eu não me importava de ficar perto dele, mas era desconcertante.
–Eu admiro muito isso em você. Não é egoísta, e sempre tenta fazer a coisa certa.
–É o melhor que eu posso fazer... — levando em conta que ferrei com a vida de todo mundo.
Finalizei o curativo e prendi com esparadrapo.
–Você ainda se sente culpada, né?
–Não dá pra não... — Me interrompi, sentindo-me sem fôlego de repente. Vi-me encarando o chão, minha garganta queimando. Eu não queria chorar de novo, estava cansada de chorar. Mas pensar naquilo repentinamente fazia todo o peso da culpa cair sobre mim, dando a sensação de que ia me esmagar.
Isaac segurou meu pulso, não com violência ou força exacerbada, mas sim um toque suave, convidativo. Ele falou alguma coisa, mas não prestei atenção. Quando ergui a cabeça nossos olhares se encontraram e ele se calou, nervoso.
Algo em sua expressão — e mais alguma coisa — fez eu me enclinar e, como se ele houvesse percebido minhas intenções, nossas bocas se encontraram na metade do caminho, um suspiro de alívio e urgência escapando de nós dois. Não senti meus membros enquanto nos beijávamos, apenas ele: seu gosto, o toque suave de seus lábios, a maciez do cabelo entre meus dedos. Tudo era ele. Eu finalmente pude respirar após o que pareceram séculos, como se beija-lo trouxesse uma lufada de ar fresco aos meus pulmões. Eu quis inteirar-me a ele naquele momento de prazerosa tontura e em um segundo eu estava em seu colo, agarrando-me a ele e sem a intenção de solta-lo tão cedo.
Estremeci de satisfação quando suas mãos caminharam pela minha cintura, quadril e coxas, contornando cada centímetro meu. Isaac gemeu em minha boca quando me movimentei sobre ele, me arrumando de modo que ficasse com o rosto acima do do seu, para poder observa-lo por entre os beijos, quando nos afastavamos apenas para respirar.
–Posso...? — Sussurrei segurando a barra da camiseta dele, sem conseguir completar a frase. Eu queria senti-lo descoberto, queria explorar seu corpo por conta própria.
Ele não respondeu. Afastou as mãos de mim e num movimento ágil tirou sua camiseta, deixando o cabelo bagunçado, Escorreguei os dedos pelo seu peito rijo, parando onde começavam as bandagens e refazendo o caminho até seus ombros, sentindo os músculos firmes dos braços. Minha cabeça girava em uma avalanche de pensamentos, a maioria envolvendo uma pequena comemoração.
Busquei a boca de Isaac em desespero, gemendo o nome dele ao nossas línguas se reencontrarem e se comprimirem uma a outra. Nunca tínhamos ido tão longe naquilo, e eu não tinha tempo para pensar a respeito. O mais importante era que eu estava gostando, e muito. Nos abraçavamos com força, nenhum centímetro nos separando. A urgência era tanta para estarmos juntos que eu não conseguia respirar, buscando-o, desejando-o intensamente. E era prazeroso saber que ele me queria com a mesma intensidade.
Notei, repentinamente, que estava deitada no chão em frente à lareira, Isaac sobre mim me prendendo pelos pulsos no tapete. Ele começou beijando o lóbulo de minha orelha, descendo lentamente por meu pescoço até o vão entre meus seios, indevidamente cobertos pela blusa de alcinha que eu usava. Suas mãos deslizaram pelos meus braços, parando em minha barriga e puxando a camiseta para cima. Meu corpo vibrava de excitação a cada toque dele em mim, fosse com as mãos ou a boca. Entretanto, todo o estímulo que eu sentia até ali sumiu quase que completamente.
Meus braços formigaram, quentes, o fogo da lareira se movendo mais rápido como se soubesse o que estava por vir. “Agora não, agora não!” implorei mentalmente, fechando os punhos como se pudesse segurar o fogo.
Resolvi que não ia parar. Eu tinha que aprender a controlar o fogo, e começaria agora. Envolvi a cintura de Isaac com as pernas, tomando cuidado com o machucado, e puxei-o para mais perto, entrelaçando os dedos em seu cabelo e pedindo, suplicando que continuasse. Isso foi o bastante para que voltassemos a nos beijar, com mais desejo e avidez. Isaac estava a pouco de tirar minha blusa quando um celular tocou do bolso da jaqueta dele, jogada no chão ali perto.
–É o seu — a voz de Isaac, baixa e rouca, fez um arrepio correr por cada pedaço de meu corpo. Quando olhei para ele seus olhos estavam negros, me devorando discretamente — Você devia atender.
Estiquei o braço, remexendo na jaqueta até que senti o celular vibrando. Isaac beijava meu pescoço com delicadeza, sem ver quando puxei o aparelho e uma coisa saiu junto. Ergui-me sobre os cotovelos, assustando ele, assim que vi o era.
–O que isso está fazendo aqui? — Exigi saber, mostrando a corrente de ouro pendurada entre meus dedos. O pingente verde balançava, refletindo a luz da lareira. Ele, Isaac, não se moveu, encarando a corrente como se soubesse que fizera algo muito idiota — Isaac! — Eu nem sequer imaginei que fosse dizer o nome dele aquela noite com aquele tom de voz, por isso eu mesma me assustei com minha agressividade — Você sabe o quanto eu fiquei preocupada achando que tinha perdido isso? Onde você achou?
Ele suspirou e passou a mão pela testa.
–Eu não achei, eu...
–Você pegou!?
–Me deixa explicar...
–Por que? — Empurrei-o com a perna, forçando-o a sair de cima de mim — Pra você mentir pra mim de novo? Achei que você tivesse me dado isso, por que você confia em mim. Pelo menos foi isso que você disse.
–Foi, mas...
–Não! — Pus-me de pé, só então percebendo o quanto eu tremia- Eu não quero ouvir, não quero ser enganada de novo! — Minha voz estava embargada e bem mais alta que o normal — Sobre o que mais você mentiu para mim? Pra quem vai dar isso agora? — Ergui a corrente, tremendo tanto quanto minha mão — Eu pensei que você confiasse, que gostasse de mim, mas parece que Lucca estava certo — respirei fundo, tentando me controlar — Você só queria me usar, e olha, foi bem convincente.
–Quando você falou com Lucca? — Ele murmurou, incrédulo e triste ao mesmo tempo. Mas com a raiva que eu sentia, enevoando minha cabeça, acreditei que fosse apenas fingimento.
–Isso não é da sua conta! — Atirei a corrente no peito dele, mas ele nem se importou de pegar do chão. Continuava me encarando com a mesma cara, tentando falar por cima de meus berros- Eu preciso saber o que você quer de mim, não dá mais pra continuar assim!
Ele me encarou, espantado, sem palavras. Senti uma lágrima pingar de meu queixo para o meu peito.
–Eu odeio você! — Bradei num ataque de fúria, sem querer ouvir o que ele tinha a dizer. Isaac calou-se, os olhos azuis desolados — Eu te odeio! Se eu soubesse que ia te conhecer jamais teria entrado naquele beco!
Não fiquei ali para saber se ele viria atrás de mim. Subi as escadas correndo, tropeçando nos meus próprios pés, e entrei no primeiro quarto do corredor, girando a chave após bater a porta. Desmoronei na cama atrás de mim, fechando os olhos com força e segurando os soluços. Aquilo fora a gota d’água para mim. Eu não queria saber a explicação dele, não queria saber o porque dele ter pego a corrente. Tudo o que ele dissesse podia ser mentira, assim como tudo o que já disse. Eu só sabia que me sentia traída. Quantas outras ele já ludibriou com aquela história, levou para a cama e depois jogou fora? Se é que ele já fizera isso. Eu podia estar enganada. Ou não. Peguei um dos travesseiros e pressionei-o contra meu rosto, gritando com todas as minhas forças.
“Magoada?” A Voz que falou em minha cabeça em Los Angeles voltou, numa mistura de falsa compaixão e frieza “Eu pensei que você já estivesse preparada pra isso.”
–Cale a boca — as lágrimas desciam quentes pelo meu rosto, como água fervida — Cale a boca...
“Você sabia que isso ia acontecer. Não sabia?”
–Me de-deixe em paz...
“Tão fútil. Já foi enganada tantas vezes e continua se magoando.”
–Para — tapei os ouvidos com as mãos, como se isso pudesse fazer a voz parar — Eu não quero ouvir.
“Taylor Posner. Dylan Cortez. Isaac Van Garden” ela riu mais alto “Esqueci algum? Como se chama mesmo aquele do baile de formatura?”
–Como você sabe disso? — Murmurei tirando as mãos dos ouvidos e colocando o travesseiro de volta no lugar. Fiquei olhando para o teto por um bom tempo antes da voz responder.
“Estamos juntas desde que você era só um bebê. Estamos unidas pelo destino. Sejamos francas, Dayannya, você nunca desconfiou?”
Não tirei os olhos do teto, digerindo aquelas palavras.
–Eu... Acho que a febre ainda não passou...
“Me desculpe por aquilo. Você não estava pronta ainda, mas se não interferisse já estaria no mínimo amarrada no porão, enquanto faziam só Zeus sabe o que com você.”
O céu tremeu com um trovão, o brilho dos relâmpagos cortando a chuva iluminando o quarto pela janela.
“Tá, talvez nem ele saiba.”
Sentei-me lentamente, sentindo-me sufocada.
–Eu preciso de ar...
“Coisa demais para assimilar? Desculpe. É que eu estava louca para conversar com alguém, faz séculos que eu não falo nada, estou até com a garganta seca... Espera, eu não tenho garganta...”
–Dá pra você calar a boca? — Retruquei indo em direção à janela e abrindo apenas o bastante para que a brisa fria e úmida entrasse — Mas que saco.
A voz finalmente calou-se. Enxuguei o rosto com as costas das mãos, observando a chuva que rasgava o céu negro e estrelado diminuir gradativamente. Todas as casas de Nova Roma estavam escuras, ninguém andava nas ruas. Eu estava atordoada com a breve conversa que tive com a voz em minha cabeça. Que agora, supostamente, eu deveria chamar de fogo. Porque, pelo que entendi era isso que era. Como, eu não sabia.
Bufei com frustração, logo em seguida tomando uma das decisões mais precipitadas da minha vida. Fui em direção ao guarda-roupa, cheio de roupa feminina de todos os tipos, e peguei o jeans com o número mais próximo do meu, um par de tênis simples e um moletom roxo escuro. Sirena teria que me perdoar mais tarde, caso ela sentisse falta dessas roupas, o que seria difícil já que estavam no fundo do móvel com um monte de outras opções na frente. Troquei a calça de pijama cinza que eu usava pelo jeans, vesti o moletom e calcei os tênis, respirando fundo antes de abrir por completo a janela. “Eu sabia que passar horas na parede de escalada um dia seria útil”, pensei comigo mesma enquanto me pendurava no parapeito da janela e jogava meu corpo para fora, me assegurando no peitoril molhado. Eu estava há quase quatro metros e meio de altura do chão e realmente torcia para que meus dedos não escorregassem e eu desse de cara na lama.
“Não está pensando em fugir, está?”
Na verdade, eu estava. Não conseguia mais ficar no acampamento, eu não tinha tempo, queria voltar logo para casa, para a minha cama. Talvez fosse melhor se tivéssemos ido direto a Long Island ao invés de descermos ali. Eu estava com tanta raiva — ou então, hipoteticamente, muito triste e me sentindo idiota pelos últimos fatos — que queria que Isaac houvesse pego uma infecção e simplesmente desaparecesse, e que seus restos fossem levados para bem longe de mim. Mas, como eu tenho um coração bom demais e cuidei dele, então eu teria que ir para longe.
Desci pela parede com cuidado, segurando nos pequenos e raros vãos entre os tijolos pintados de branco e fincando meus pés onde dava. Quando estava a um metro do chão, depois de muito esforço e com os dedos machucados e doloridos, soltei-me caindo na terra macia com um barulho suave. Puxei o capuz do moletom por cima da cabeça, apesar de meu cabelo já estar todo encharcado. Fui rapidamente para o fundo do quintal e pulei o muro baixo de pedra que cercava a casa. Assim que pus os pés na rua estreita, senti ao mesmo tempo medo e alívio. Medo pela possibilidade de algo de errado acontecer. E alívio por finamente estar livre.
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