Filha de Apolo - Electricity
1 Verdade ou Desafio
O carro seguia em alta velocidade pela pista molhada pela recente chuva. O céu cinzento, sem graça, parecia cimento endurecido. Não havia sinal do sol.
À direita do carro uma cerca se erguia, baixa, protegendo os veículos do penhasco que parecia não ter fim. A luz diurna refletia intensamente no capô preto e brilhante do carro que, sozinho, fazia seu caminho, oscilando e quase batendo nas pedras do lado esquerdo da pista.
Então, com uma guinada repentina, o carro foi em direção a cerca, arrebentando o metal enferrujado. O automóvel caiu em direção ao desconhecido, se perdendo rapidamente nas sombras.
Frustrada, joguei o controle do Xbox no colo de Callum e cruzei os braços. Já era a terceira vez que aquilo acontecia. Por mais que eu tentasse, era praticamente impossível ganhar uma corrida de rua em um jogo estúpido de videogame.
—Você chega lá — disse Teo, rindo interiormente. Revirei os olhos e coloquei um doritos na boca.
—Já sabemos quem não vai conseguir a carteira de motorista — Sierra ergueu uma sobrancelha. Ela e Teo haviam dado um jeito de sentarem espremidos na poltrona velha.
—Isso é só um jogo — murmurei, meu rosto quente.
—Se fosse a vida real, você já teria sido presa não sei quantas vezes — Callum reprimia um sorriso, fazendo uma careta ao tentar não rir. Teo e Sierra sequer fizeram esforço em não mostrar que acharam graça. Soquei o braço do meu melhor amigo, também ex-namorado, e revirei a caixa de jogos, fingindo estar desinteressada. Mas, na verdade, aqueles comentários importavam muito. E se eu não conseguisse a carteira? Eu me questionava desde que completei dezesseis anos e podia tirar a licença para dirigir.
—É só brincadeira — Teo se levantou e me abraçou quando percebeu que eu estava emburrada — Mas, cá entre nós — ele sussurrou -, você é péssima nesse jogo.
Empurrei-o, rindo, e me levantei para atender o telefone na mesinha entre a cozinha e a sala de estar. O número era da casa de Callum.
—Call, acho que é a sua mãe.
Callum foi até lá e pegou o telefone. Voltei para a sala, lhe dando privacidade, e encontrei Teo e Sierra cochichando. Eles riram brevemente e então se fingiram de sérios quando me viram.
—O que você acha de uma festa do pijama? — sussurrou Teo para mim. O telefone ficava logo atrás do sofá, e Callum conversava com.sua mãe em. Tom de voz muito baixo.
—Na minha casa? Eu convidei vocês?
—Bem, já estamos aqui — Teo sorriu, travesso — E eu trouxe o verdade ou desafio.
—E o Livro do Castigo? — o livro do castigo era um caderno velho das Bratz, cheio de punições para quem não quisesse cumprir um desafio ou então mentisse na “verdade”. Cada castigo era muito bem elaborado, todos muito vergonhosos. O último que fiz foi flertar com um policial da ronda noturna. Ele não parou de me ligar por uma semana.
—Está aqui — ele apontou para a sua mochila, no chão ao lado de Gael, que estava enrolado confortavelmente em frente ao aquecedor. O vapor quente soprava os pelos negros do lobo. Gael havia ganhado uma coleira de couro preto e macio, adornada com ferrões de latão lustroso. Ele tinha gostado bastante dela, tornara-se inseparável de sua coleira nova.
Gael de repente ergueu a cabeça, muito alerta. Ouvi um ruído suave de fora da janela e abri as cortinas. Pixel, a gata de rua que sempre ia para a minha casa, estava com as patinhas da frente apoiadas no vidro, fazendo um som abafado, os olhos grandes e verdes pedindo para eu deixa-la entrar. Ergui a janela e peguei a gata tricolor no colo, onde ela se acomodou, ronronando deliciada.
Gael cheirava meus braços com curiosidade. Ele não parecia ter problema nenhum com gatos, pois Pixel estendeu uma pata e deu um peteleco no focinho do lobo. Ele apenas balançou a cabeça e continuou farejando.
—Você ainda cuida desse saco de pulgas? — exclamou Sierra, enojada. Callum havia voltado e agora fazia carinho em Pixel.
—Ela é limpinha — larguei a gata no sofá e me voltei para Callum.
—Eu preciso ir — ele disse, me dando um beijo no rosto — Minha mãe está preocupada, eu demorei demais.
—Você pode ir me buscar amanhã? — perguntei enquanto ele guardava seu jogo de corrida — O Jordan vai estar ocupado.
Os olhos de Callum brilharam de aversão, mas foi repentino. Desapareceu logo em seguida, porém seu nariz estava ligeiramente torcido. Ele parecia tenso.
—Sem problema — ele se despediu de Teo e Sierra, acenou para Gael, e saiu. Gael rosnou baixinho. Ele ainda não gostava de Call, mas a relação dos dois havia melhorado um pouco. Assim como havia melhorado entre Callum e Isaac.
Isaac.
O garoto não saia de minha cabela. Eu me pegava pensando nele a toda hora, em qualquer lugar. No dia anterior, durante a aula de geografia, a professora falou sobre o oceano. Isso me fez ter ânsias de saudsde, me fazendo desejar que ele estivesse ali comigo. A última vez que nos vimos foi há uma semana, mas parecia tanto tempo.
Percebi que Pixel se esfregava nas minhas pernas. Ela devia estar com fome. Fui até o balcão debaixo da pia da cozinha e peguei a ração de gato barata, colocando em uma tigela. Pixel atacou a comida.
—Vamos jogar aqui, ou no seu quarto? — perguntou Teo, tirando da mochila o Livro de Castigos, uma garrafa pequena e um maço de cartas cor-de-rosa. Nosso estilo de jogo era um pouco diferente no normal. Alguém girava a garrafa e, se a garrafa caísse em mim, por exemplo, eu podia escolher entre verdade ou desafio. Se quem girou a garrafa não rtivesse nenhuma idéia, eu pegava uma carta qualquer. Era como uma roleta russa.
—Vamos no meu quarto, pra minha mãe não escutar a gente — falei, já me dirigindo para lá. Ele é Sierra vieram atrás, assim como Gael. Pixel ficou na cozinha. Depois de comer, ela gostava de dormir em cima do aquecedor.
Fechei a porta e me sentei na minha cama, cruzando as pernas. Sempre gostei do meu quarto. Eu tinha uma beliche, apesar de ser filha única. As paredes eram pintadas de verde claro. Os móveis eram feitos de madeira branca lustrosa, com enfeites cor-de-rosa. Meus cobertores tinham a estampa florida, como a cortina da janela que dava para a escada de incêndio. Debaixo da janela havia uma espécie de banco alcochoado embutido na parede, com almofadas roxas, da mesma cor que um pufe grande ao lado da minha estante cheia de livros. Um grande espelho tomava conta da penteadeira quase vazia em termos de maquiagem. Para mim, meu quarto era o melhor lugar do apartamento.
Teo sentou no chão, de frente para a cama. Sierra se jogou ao meu lado e Gael enroscou-se no pufe. Teo colocou as cartas em duas pilhas embaralhadas e posicionou a garrafa no espaço que sobrou. O Livro de Castigos estava sobre sua perna, pronto para ser lido caso algum de nós merecesse.
—Eu começo — disse Sierra, girando a garrafa. Ansiosidade tomou conta de mim. E nervosismo. Eu detestava quando era a vítima, sempre escolhiam para mim as piores perguntas, desafios e punições.
A garrafa de vidro girou hipnoticamente no chão. O gargalo finalmente parou na direção de Teo. Imediatamente eu e Sierra começamos a cochichar, decidindo qual seria a verdade e qual seria o desafio. Lembrei-me de Christopher. Eu havia dado a ele o número de Teo, e vice e versa. Sempre quis saber se eles se falavam.
—Quero verdade — disse Teo, coçando a palma da mão.
—Você está ficando com o Chris? — perguntou Sierra, contendo um riso. O rosto de Teo ficou escarlate, os olhos azul-escuro arregalados.
—Quero desafio.
—Eu te desafio a contar com quem está ficando.
Ele não podia escapar, a menos que pedisse o castigo por vontade própria. Infelizmente, foi o que ele fez. Sierra revirou os olhos, folheando o caderno, até parar em um castigo que lhe pareceu interessante.
—Faça o “Nu Revelado”
Esse era um dos piores. O castigado devia tirar as roupas, até ficar só com as partes de baixo, e então dar uma volta pelo cômodo, não importava qual. Teo se levantou e tirou as roupas, ficando apenas com sua cueca do Batman, e começou a desfilar pelo quarto. Eu e Sierra não conseguimos segurar o riso. Nunca me foi incômodo ver Teo sem roupa. Aliás, nos trocávamos na frente um do outro com frequência. Era como se fossemos apenas duas meninas indo ao shopping escolher uma lingerie nova.
Ele terminou o percurso pelo quarto e se vestiu. Sierra se acabava de rir, os olhos lacrimejando.
—Muito bem, mocinhas, minha vez — Teo girou a garrafa. Por um momento indeciso, o gargalo girou lentamente entre mim e Sierra. No entanto, parou definitivamente apontando para mim. O rubor subiu pelo meu pescoço e rosto.
—Sabe, Daya — Teo sorriu. O sorriso me pareceu desumano, ou talvez fosse apenas o medo do que vinha em seguida — Eu sempre quis saber quem é aquele garoto sobre quem sua mãe comentou.
Ah não, pensei. Era isso que eu temia. Eu sabia que Teo e minha mãe compartilhavam fofocas sobre mim, mas eu não sabia que ela já tinha contado a ele sobre Isaac, não detalhadamente. Bem, havia isso e a jaqueta que ele tinha me dado, pendurada atrás da porta. Quando tentei devolver, Isaac simplesmente me ignorou, então fiquei com ela.
—Eu não sei do que você está falando — minha voz saiu tão monótona que pareci um robô.
—Sabe sim. Qual é mesmo o nome dele? Começa com I, se não me engano.
—Isaac? — exclamou Sierra, animada.
—É, isso mesmo — Teo sorriu ainda mais — Vai, Dayannya, pode ir falando. Você gosta dele?
—O que? — Soltei um grito agudo e estremeci ao pensar que minha mãe poderia acordar — Não!
—Vou ter que escolher um castigo? – Teo fez biquinho, erguendo as sobrancelhas para mim e virando lentamente as folhas do caderno.
Mordi o lábio. Não podia ser nada tão ruim, podia? Seria, sem dúvida, melhor do que falar de Isaac. E o que eu falaria dele? Eu não queria confessar o que sentia por ele. Seria totalmente vergonhoso e aqueles dois não largariam do meu pé.
—Ouvi falar em algumas coisas sobre eles dois — Sierra sorria de orelha a orelha. Meu rosto fervia, como se eu fosse começar a pegar fogo. Isso era algo propenso a acontecer ultimamente. Eu não controlava o fogo ainda, mas já aconteceu várias vezas de eu queimar um lápis quando ficava com raiva.
—Sierra, não... – murmurei, suplicante, mas ela apenas arqueou uma sobrancelha – Tudo bem – respirei fundo, meu peito tremendo – Eu gosto dele. Só um pouquinho.
—E quanto é esse pouquinho?
—Tipo... – umedeci os lábios, olhando em volta – Muito.
Teo soltou um gritinho extremamente feminino.
—Quero conhecer ele!
—Não!
—Porque não, se eu vou ser o padrinho de casamento?
—Padrinho de casamento?!
—Temos que pensar no futuro!
—Ah é, senhor? – Meu rosto esquentou ainda mais, porém de raiva — Isaac me contou que o Chris passa um bom tempo no celular, mas ele não sabe o porquê. Só que eu sei.
Teo ficou inexpressivo. Sierra assistia entretida.
—Eles são amigos?
—São – coloquei as mãos na cintura – E é melhor contar agora o que está rolando entre vocês dois, Theodore Carter Júnior!
Os lábios de Teo ficaram brancos, mas seu rosto parecia um tomate.
—Nós só conversamos – o queixo dele tremeu – Só isso.
—Não acredito em você – estreitei os olhos, baixando minha voz até que virasse um silvo – Vocês estão saindo. Vejo isso em seus olhos, Theodore.
Teo olhou para a janela, como se cogitasse a possibilidade de sair por ali. Ele olhou de novo para mim, e então sorriu timidamente. Arregalei os olhos e Sierra cobriu a boca com as mãos.
—É um pouco mais do que estar só saindo.
Sierra gritou. Segurei o rosto dela. Cobrindo sua boca. Se minha mãe acordasse, eu estava morta. Nós três nos entreolhamos e começamos a rir. Aquela não foi uma revelação completamente chocante. Teo era gay, já aceitei isso. Mas eu não podia ver Christopher completamente homossexual. Ele tinha uma queda por Isaac, tudo bem, mas namorar Teo? Jamais imaginei que desse tão certo.
—Ele é legal. E inteligente – Teo corou – E fofo.
—Eu vou ser a madrinha – avisei, erguendo uma mão. Rimos novamente e ouvi passos lá fora, e então batidas na porta.
—Vocês poderiam falar mais baixo? – Perguntou a voz sonolenta da minha mãe. Teo e Sierra abafavam o riso.
—Desculpe! – Falei. Ouvi ela voltando para o seu quarto – É melhor dormirmos – sussurrei com um sorriso. Teo começou a guardar as coisas e eu e Sierra colocamos nossos pijamas. Logo estávamos deitados, Sierra na cama de cima e Teo no saco de dormir. Pixel havia insistido para entrar no quarto, e agora ela estava estirada no parapeito. Gael roncava suavemente no seu canto. As luzes estavam apagadas.
Eu me revirava na cama, sem conseguir dormir, mesmo quando já estavam em um sono profundo. Eu estava pensando em Isaac.
Ele não saia de minha cabeça, meu coração apertava de saudade.
Eu só conseguia pensar que menti quando disse que gostava muito dele.
Eu o amava.
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