Filha de Apolo - Electricity
2 O Jeito Mais Doloroso
*Isaac*
A silhueta de Nova Iorque se destacava negra contra o céu vermelho. O Empire State Building era visível mesmo de Long Island, ainda mais porque eu me encontrava perto da Queensboro Bridge, empoleirado no telhado de um edifício baixo.
O odor do rio East seria insuportável se o prédio não fosse alto o bastante. Balancei as pernas, penduradas pela beirada, pensando se eu conseguiria saltar dali para o rio, caso precisasse. Esse pensamentos evaporaram quando ouvi uma tosse discreta atrás de mim.
—Isaac Nathaniel Belcourt?
Torci o nariz de desgosto. Nathaniel nunca fora meu nome preferido. Eu me perguntava o que meus pais tinham na cabeça quando me puseram esse nome.
—Só Isaac está bom — falei com suavidade, sem olhar para trás. Uma risadinha meiga e sutil veio da mulher e ela se aproximou parando ao meu lado. Era alta e magra, o corpo de uma mulher madura. Usava um vestido vermelho e leve, que balançava graciosamente com a brisa do rio. O cabelo liso e negro repousava sobre os ombros, escorrendo pelos braços finos. Tinha o rosto no formato perfeito de um coração e sobrancelhas ligeiramente arqueadas. Seus lábios da cor do vestido estavam erguidos em um sorriso de satisfação.
—Está acostumado a tanta intimidade, sr. Belcourt? — os olhos castanhos claros da mulher se iluminaram. Em seu pescoço desnudo, veias verdes como clorofila eram realçadas pela pele pálida feito a neve.
Ergui-me, me elevando meia cabeça acima da moça. Ela era realmente bonita, mas isso era natural das ninfas. Todas as que conheci eram lindas, inclusive Rose, porém esta tinha certa... Peculiaridade. Peguei sua mão enluvada e a beijei com delicadeza, vendo o rosto da moça ruborizar.
—Vejo que Netuno lhe ensinou a ser cavalheiro.
—Aprendi por conta própria — coloquei minhas mãos nos bolsos do sobretudo cinza-escuro. O vermelho nas faces da ninfa era ligeiramente esverdeado, o que fazia com que ela parecesse estar enjoada.
—Agora entendi porque minha senhora tem tanta apreciação pelo senhor, sr. Belcourt.
—Porque Vênus não veio? — franzi a testa. A própria deusa havia combinado de me encontrar ali. Eu não sabia que ela mandaria uma ninfa. Eu nem mesmo sabia que ela tinha ninfas que a serviam.
—Minha senhora tem suas próprias preocupações. Não havia tempo para vir — ela me olhou de cima abaixo, demoradamente — O que foi um completo desperdício.
Olhei-a impassível. Era comum receber flertes, eu nem mesmo ligava, mas estava indignado por Vênus não ter vindo.
—Se ela não podia vir, não deveria ter me chamado.
—Eu preferia que minha senhora tivesse marcado de se encontrar com você no parque — a ninfa encolheu os ombros, olhando enojada para o rio — Este lugar é horroroso.
—O que Vênus quer?
A ninfa voltou os olhos castanhos para mim, examinando meu rosto. Me senti desconfortável com isso, no entanto não achava que seria melhor com a deusa. A simples idéia de me encontrar com ela me deu calafrios. Foi tão inesperado. Porque ela havia feito o convite? Qual seria o verdadeiro motivo?
—Ela te acha intrigante, sr. Belcourt — a mulher sorriu singelamente — Você é mais complexo que os outros rapazes.
—Não entendo o que isso quer dizer... — ergui uma sobrancelha, esperando que ela dissesse seu nome.
—Charlotte.
—Poderia me dar uma dica?
Charlotte sorriu, os dentes muito brancos reluzindo contra o vermelho dos lábios.
—Minha senhora gosta de deixar os relacionamentos mais... Interessantes, se entendo o que quero dizer. E você, sr. Belcourt, consegue ser interessante sem esforço algum. Vênus acha intrigante a maneira como se envolve com as outras garotas.
Ela deu ênfase ao “outras”, como se houvesse uma única menina em especial com quem eu era diferente. E eu sabia exatamente quem era ela.
—Não é nada do que Vênus está pensando...
—Não? — Charlotte riu como alguém que riria de uma criança que fez uma pergunta tola — O amor não pode ser contido, sr. Belcourt. Não vai conseguir esconder por muito mais tempo que a ama.
—Ela é apenas uma amiga — meu rosto passou a ficar quente — Meu amor por ela não é nada mais do que fraternal.
Charlotte suspirou, balançando a cabeça lentamente. Eu comecei a sentir desgosto por ela.
—Você quer acreditar no que Netuno ensinou. Não sabe o que está perdendo, Isaac.
—Só estou me impedindo de me destruir — falei com frieza na voz. Isso deve ter surpreendido Charlotte, porque ela recuou um passo — E de destruir Dayannya. Se era só isso o recado de Vênus, foi perda de tempo.
—Sr. Belcourt, não sabe o que está dizendo...
—Eu sei, ninfa — estreitei os olhos. Notei que a respiração dela estava mais acelerada — Eu não a amo, nunca amei dessa maneira. E pode dizer isso a sua deusa. Ela está errada.
—Muito bem — Charlotte respirou fundo. Uma veia verde em seu pescoço latejava — Lamento saber que descobrirá isso do jeito mais doloroso, sr. Belcourt. Não queria que fosse dessa maneira — ela se virou para ir embora, mas na metade do caminho parou, olhando por cima do ombro — E, Isaac. Não importa o quanto tente. Sei que é um garoto teimoso. Você ganhou fama por isso no Olimpo — ela sorriu — Mas Vênus promete que dificultará as coisas. Ela gosta de deixar tudo mais interessante.
Então ela se virou e foi embora, definitivamente, deixando aquelas palavras pairando no ar. Meu coração estava acelerado, como uma ave tentando desesperadamente fugir de uma gaiola.
Fiquei ali, parado, olhando para a porta que dava para a escada. As estrelas surgiam no céu, ainda pontos quase transparentes.Meu telefone tocou, quebrando o silêncio devastador.
Senti uma ponta de decepção ao ver que era Callum. Alguma coisa teria acontecido com Dayannya? Eu não queria atender, mas meu instinto me dizia que tinha alguma coisa a ver com ela.
Relutante, e depois de revirar os olhos e resmungar muito, atendi, ainda pensando nas palavras da ninfa.
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