11 de Setembro de 2000 — Final do Verão



Clube Nocturna | Seattle, Washington


O som abafado do grave que vinha da pista de dança fazia as garrafas de cristal tremerem sobre a mesa de carvalho do camarote VIP. No ambiente fechado, o cheiro de uísque caro, charuto importado e o aroma metálico de pólvora e óleo de arma criavam uma atmosfera sufocante. A névoa da fumaça pairava baixa sob a meia-luz avermelhada.

Nas pontas opostas do sofá de couro, a tensão não era apenas iminente, era quase palpável.

De um lado, Edward Cullen mantinha uma postura impecável e congelada, representando o pai, Carlisle Cullen, o líder da família que dominava a zona norte da cidade. Do outro, Jacob Black reclinava-se com uma postura falsamente relaxada, os braços abertos sobre o encosto do sofá, representando Billy Black e a hegemonia do território sul.

Ao redor deles, homens de terno escuro das duas facções mantinham as mãos estrategicamente posicionadas sob as lapelas dos paletós. Bastava um gesto errado, uma respiração mais alta, para que o camarote se transformasse em um matadouro.

— Carlisle está perdendo a paciência, Jacob — a voz de Edward cortou a música baixa do camarote. Era fria, aristocrática e desprovida de qualquer emoção. Ele colocou um maço de documentos de propriedade sobre a mesa de centro. — As rotas do porto eram da nossa família antes do acordo de paz. Seu pai continua interceptando o carregamento dos nossos fornecedores e fingindo que é erro de percurso.

Jacob deu um riso baixo, um som gélido que fez os homens dos Cullen tensionarem os ombros. Ele pegou o copo de uísque sobre a mesa, girando o gelo devagar, sem tirar os olhos escuros de Edward.

— Erro de percurso? Não seja ingênuo, Edward. Meu pai não erra rotas — Jacob falou, inclinando-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. O movimento revelou o cabo prateado da pistola personalizada presa ao seu coldre sob o sobretudo. — Se a carga caiu nas mãos dos Black, é porque os Cullen falharam em proteger o próprio perímetro. Nós cobramos a taxa de ocupação. Se você quer que Carlisle recupere o respeito no porto, traga uma proposta que valha o nosso tempo, não papéis de cartório.

Edward franziu o cenho com sutileza, descansando a mão direita com naturalidade sobre a mesa, a centímetros da sua própria arma.

— Nós não viemos barganhar por migalhas — respondeu Edward, a voz abaixando um tom, carregada de uma ameaça velada. — Se o império Black quer declarar guerra por causa de alguns contêineres, estejam prontos para o derramamento de sangue. Carlisle prefere ver o porto em chamas a ceder mais um metro para Billy Black.

O ar no camarote pareceu congelar. O som de duas travas de segurança sendo liberadas discretamente no lado dos Cullen ressoou como um trovão. Os homens de Jacob deram meio passo à frente, com as mãos prontas nas pistolas automáticas.

Jacob, no entanto, não piscou. Ele deu mais um gole no uísque, apreciando a queimadura no peito, e sorriu com puro desprezo.

— Guerra? — Jacob debochou, a voz grave e calma. — Vocês não aguentariam uma semana de guerra contra o meu pai. Mas relaxe, Cullen. Eu não vim aqui hoje para exterminar a sua linhagem na pista de dança de um clube.

Sem paciência para prolongar a discussão, Jacob fez um sinal gélido para seus homens. Edward, mantendo o olhar fixo e afiado, levantou-se com sua escolta e deixou o camarote em silêncio militar, desaparecendo na penumbra da área privativa.

Jacob ajustou o sobretudo preto sobre os ombros, caminhando devagar na direção da saída do andar superior. A área dos camarotes dava para um corredor mais estreito que ligava o setor VIP à pista de dança, iluminado apenas por luzes estroboscópicas e névoa colorida.

Naquela mesma área, alheia a qualquer tensão da máfia, Renesmee tentava acompanhar o ritmo acelerado de duas amigas que a tinham arrastado para comemorar seu aniversário de dezoito anos. O som alto e as luzes piscantes deixavam sua cabeça tonta; ela só queria um pouco de ar puro antes de voltar para casa.

— Meninas, devagar! A gente vai se perder na multidão! — Renesmee avisou, tentando desviar dos corpos que dançavam.

Ao se virar para olhar para trás e procurar uma de suas amigas que havia ficado para trás, Renesmee deu dois passos às cegas e colidiu com força contra uma parede sólida.

O impacto a fez dar um passo em falso para trás. A bolsa que segurava escorregou de suas mãos, caindo no chão acarpetado.

— Droga... me desculpa! — ela pediu rapidamente, levando a mão ao peito enquanto recuperava o equilíbrio.

Quando levantou os olhos, o ar sumiu de seus pulmões.

Não era uma parede. Era um homem extremamente alto, de ombros largos, vestindo preto absoluto. A presença dele não tinha nada a ver com os garotos da sua idade que frequentavam a boate. Ele exalava o cheiro inconfundível de chuva, fumo e algo perigoso que fez o instinto de Renesmee acender um alerta vermelho.

Jacob Black nem sequer balançou com o esbarrão. Ele olhou para baixo, encarando a garota que havia colidido contra seu peito. Os olhos escuros e gélidos dele varreram o rosto dela, os traços delicados, os lábios entreabertos pela surpresa e os olhos expressivos que o encaravam com uma mistura de susto e audácia.

Por um segundo, os homens de Jacob se moveram para afastá-la, mas Jacob levantou uma mão espalmada, detendo a escolta.

Ele se inclinou ligeiramente na direção dela. A diferença de altura era intimidadora, e o olhar dele era tão denso que parecia atravessá-la.

— Olhe por onde anda, garota — a voz de Jacob ressoou grave, baixa e arrastada, cortando até mesmo o som alto da música ao fundo.

— Eu já pedi desculpas — Renesmee respondeu, erguendo o queixo e sustentando o olhar dele, recusando-se a parecer acuada, apesar do arrepio que subiu por sua espinha.

Um pequeno sorriso sombrio, quase imperceptível, surgiu no canto dos lábios de Jacob. Ele se abaixou com uma elegância fria, pegou a bolsa dela do chão e a entregou na mão dela. Seus dedos roçaram os dela por uma fração de segundo, frios e firmes.

— Cuidado com quem você esbarra por aqui, gatinha. Seattle não é um lugar seguro à noite.

Antes que Renesmee pudesse dizer mais alguma coisa ou entender o peso daquelas palavras, Jacob passou por ela sem olhar para trás, acompanhado por seus homens de terno escuro. Ela ficou estática no meio do corredor, observando a figura imponente dele desaparecer na escuridão da saída VIP, sem ter a menor ideia de que aquele homem em breve mudaria sua vida para sempre.

Ele subiu o lance de escadas privativo que levava ao andar administrativo do Clube Nocturna, o império de Royce King, erguido sobre fundações de dívidas e sangue.

Dois seguranças de Royce tentaram bloquear a entrada do corredor principal, mas um simples gesto de cabeça de Jacob foi o suficiente: seus homens avançaram, dominando os dois guardas com coronhadas rápidas e silenciosas contra a parede. Jacob nem sequer desacelerou. Com um chute certeiro, ele arrombou as portas duplas de madeira de lei do escritório.

Dentro da sala iluminada por luzes amareladas e impregnada de fumaça de charuto barato, Royce King deu um pulo da sua poltrona de couro. O terno amassado e as garrafas de uísque baratas espalhadas pela mesa revelavam o estado de desespero do homem.

— Black! O que... o que é isso?! — Royce gaguejou, recuando até que suas costas colidiram contra a estante de livros. — Nós tínhamos um prazo até o fim do mês!

Jacob entrou devagar, fechando a porta atrás de si com um baque seco. Ele caminhou até a mesa de carvalho, pegou o copo pela metade que Royce deixara para trás e o virou de uma vez, apreciando o queimado do líquido ruim.

— Seu prazo acabou no segundo em que decidi entrar no seu clube, Royce — a voz de Jacob ressoou grave e mortal, preenchendo cada canto do escritório. Ele jogou o copo vazio sobre o tapete persa. — Meu pai cansou de esperar. Você deve vinte milhões de dólares para os Black. Dívidas de jogo, cargas extraviadas no porto e acordos não cumpridos. Eu vim buscar o pagamento.

— Eu não tenho esse dinheiro aqui! — Royce gritou, o suor frio escorrendo por suas têmporas. Ele se jogou de joelhos diante da mesa, a imagem da pura covardia. — Eu preciso de tempo, Jacob! Apenas alguns dias! Eu imploro!

Jacob se aproximou, apoiando as duas mãos sobre a borda da mesa e se inclinando sobre Royce. A aura de perigo que ele exalava fez o homem mais velho encolher os ombros.

— Não há mais tempo. Se você não tem o dinheiro, vou levar seu clube, suas propriedades e a sua cabeça como aviso para quem acha que pode calotear Billy Black.

Em um surto de desespero cego, vendo a morte diante dos olhos, Royce agarrou a borda da mesa e levantou o olhar ensandecido.

— Eu tenho algo melhor! Algo que vale muito mais do que dinheiro! — Royce articulou rápido, as palavras atropelando-se na sua boca. — Minha filha! Renesmee. Ela acabou de fazer dezoito anos hoje... está aqui no clube com as amigas. Ela é pura, intocada, perfeita! Eu entrego a garota para você e seus homens por uma noite inteira. Vocês fazem o que quiserem com ela, e em troca, você abate metade da minha dívida e me dá um mês!

Um silêncio sepulcral e sufocante baixou sobre o escritório.

Jacob estancou. Por um segundo longo e assustador, ele nem sequer respirou. Lentamente, uma expressão de desgosto profundo e visceral tomou conta do seu rosto esculpido. Ele deu um passo ao lado da mesa, ergueu a perna e fincou o salto pesado de sua bota contra o peito de Royce, chutando-o contra a parede com força desmedida.

Royce urrou de dor, caindo de lado, arfando no chão.

— Que tipo de verme desprezível, porco e miserável é você? — Jacob rosnou, a voz caindo para um tom perigosamente baixo enquanto caminhava na direção dele. — Vender o próprio sangue, a própria filha, só para salvar a própria pele podre por mais trinta dias? Você me dá nojo, King. Você é um lixo de homem que nem mesmo a morte vai querer limpar.

Nesse exato instante, a porta do escritório foi aberta devagar.

— Pai? O segurança disse que você estava...

Renesmee parou no portal, a frase morrendo em sua garganta.

A cena à sua frente fez o sangue de suas veias congelar. Seu pai estava caído no chão, segurando as costelas e implorando por misericórdia. E sobre ele, a imagem da pura ameaça, estava o mesmo homem de terno preto em quem ela havia esbarrado minutos atrás na boate.

Jacob virou a cabeça devagar ao ouvir a voz feminina. Seus olhos escuros e gélidos encontraram os de Renesmee.

Um silêncio tenso tomou conta do escritório. Renesmee olhou do pai para o homem alto, tentando processar o que estava acontecendo, enquanto Royce, no chão, abriu um sorriso grotesco e desesperado ao ver a filha.

— É ela, Jacob! — Royce gritou, apontando com a mão trêmula para Renesmee. — É ela! Pegue-a! A proposta está de pé!

Renesmee deu um passo para trás, o queixo caindo, a mente girando ao entender o horror das palavras do próprio pai. E no centro daquela sala, Jacob encarou a garota, não mais como uma estranha na pista de dança, mas como a única moeda de troca que salvaria ou destruiria a vida de Royce King naquela noite.