12 de Setembro de 2000 — Manhã


Residência da Família Cullen | Seattle , Washington


O sol do início da manhã mal conseguia atravessar a névoa densa que cobria as colinas do território controlado pelos Cullen. Diferente do caos urbano e barulhento do sul, o domínio de Carlisle Cullen era pautado por um silêncio cirúrgico, onde cada movimento era calculado e qualquer falha, punida com discrição e rigor.

No segundo andar da imponente mansão, no escritório de carvalho escuro e vidraças blindadas, Carlisle Cullen observava a névoa lá fora com as mãos cruzadas nas costas. Aos olhos do mundo exterior, ele era apenas um magnata influente do setor imobiliário e logístico, além de um grande médico voluntário; no submundo, era o Capo mais frio e estrategista que a zona norte de Seattle já vira.

A porta do escritório se abriu com um clique suave. Edward entrou com sua postura impecável, vestindo um terno sob medida impecável, embora seus olhos carregassem o cansaço e a tensão da noite anterior. Ele trazia uma pasta de couro e colocou-a sobre a mesa de centro.

— O relatório da madrugada no Clube Nocturna, pai — disse Edward, a voz baixa e aristocrática.

Carlisle não se virou de imediato. Manteve o olhar fixo no horizonte nublado.

— Jacob Black recusou a proposta do porto, imagino.

— Rejeitou e fez questão de deixar claro que Billy Black não aceita negociações feitas por intermédio de representantes — respondeu Edward, a mandíbula levemente contraída. — A tensão no camarote VIP quase saiu do controle. Se eu não tivesse recuado com a nossa escolta, teríamos tido um massacre em pleno andar superior da boate.

Carlisle finalmente se voltou para o filho. Seus olhos claros eram calmos, mas carregavam a autoridade pesada de quem governava um império criminoso há décadas.

— Você fez o certo em recuar, Edward. Um confronto aberto e sangrento dentro do Nocturna atrairia a atenção da polícia federal e prejudicaria nossos esquemas de importação no setor norte. Mas a insolência dos Black precisa de uma resposta diplomática e armada à altura. O porto de Seattle é nosso por direito desde o último acordo de paz, e Billy sabe disso.

— Nós perdemos o rastro de Jacob assim que deixamos a área VIP — continuou Edward, ajustando os punhos do paletó. — O lugar virou um caos pouco depois que saímos. Meus informantes disseram que houve uma movimentação estranha de homens armados nos andares superiores do clube, mas não conseguimos confirmar o que aconteceu antes de a comitiva dos Black deixar o local. Seja lá o que Jacob foi fazer depois da nossa conversa, ele fez em absoluto silêncio.

Antes que Carlisle pudesse analisar a falta de informações sobre os passos de Jacob, três batidas firmes na porta de madeira interromperam a conversa.

O segurança de confiança dos Cullen colocou a cabeça para dentro da sala, com a postura rígida e o olhar alerta.

— Capo... temos uma visita inesperada no portão principal. Charlie Swan está na propriedade e solicita uma audiência urgente com o senhor.

Carlisle e Edward trocaram um olhar rápido e denso. A família Swan, embora mantivesse a aliança formal com os Cullen e os Black contra a ameaça dos Volturi, raramente enviava seu próprio patriarca sem um agendamento prévio e escolta de guerra.

— Faça-o subir imediatamente — ordenou Carlisle, caminhando para trás de sua mesa executiva e indicando com um gesto que Edward se mantivesse ao seu lado.

Poucos minutos depois, Charlie Swan passou pela porta do escritório. O líder do clã Swan trazia no rosto as marcas do tempo e de uma dor antiga que nunca cicatrizara por completo. Ele vestia um sobretudo escuro, o olhar severo e a postura de um homem que carregava o peso de um império construído sobre cinzas.

— Carlisle — cumprimentou Charlie, com uma inclinação de cabeça contida. Ele olhou para Edward por uma fração de segundo. — Edward.

— Charlie — Carlisle respondeu, apontando para a poltrona de couro em frente à sua mesa. — É uma surpresa ver você na zona norte a esta hora da manhã. A que devo a honra da sua visita?

Charlie permaneceu de pé, recusando a cortesia. Ele deu um passo à frente, apoiando as mãos espalmadas sobre a borda da mesa de carvalho de Carlisle.

— O equilíbrio entre as nossas famílias está ruindo, Carlisle. Os Volturi estão se movimentando no sul, recrutando pequenas gangues e cercando nossas rotas de suprimento. A trégua que mantemos há dezoito anos está com os dias contados se não fortalecermos as nossas estruturas de poder.

— Nós sabemos da ameaça dos Volturi, Charlie — interveio Edward, com a voz firme. — Mas os Black continuam pressionando nossas fronteiras no porto. Se nos desorganizarmos internamente, daremos aos Volturi exatamente o que eles querem.

Charlie virou o olhar para Edward, e uma expressão calculista tomou conta de suas feições.

— É exatamente por isso que estou aqui, Edward — disse Charlie, o tom de voz baixando, carregado de uma gravidade política irrevogável. — Os Black estão ficando gananciosos sob o comando de Billy e Jacob. Se queremos manter a hegemonia da cidade e esmagar qualquer investida dos Volturi, a aliança entre Swan e Cullen precisa se tornar inquebrável. Não através de acordos comerciais de papel... mas através de sangue.

Carlisle ergueu uma sobrancelha, cruzando os dedos sobre a mesa.

— O que você está propondo, Charlie?

Charlie olhou diretamente nos olhos de Carlisle e, em seguida, encarou Edward com extrema seriedade.

— Um casamento arranjado. Minha filha e herdeira, Isabella, e o seu filho, Edward.

Um silêncio pesado e mortal tomou conta do escritório dos Cullen. Edward estancou, a mandíbula travando enquanto absorvia o peso da proposta.

— Unir as linhagens Swan e Cullen em um matrimônio definitivo — continuou Charlie, sem piscar. — Isabella assumirá o controle do nosso setor em breve. Se ela e Edward se casarem, nossos territórios se fundirão no maior império criminoso que esta cidade já viu. Nem os Black e nem os Volturi ousarão dar um único passo contra nós.

Carlisle manteve a expressão impassível, processando o valor geopolítico daquela oferta, enquanto Edward dava um passo à frente, com os olhos faiscando pela imposição de ver seu futuro selado em uma mesa de negócios.



Mansão da Família King | Zona Sul de Seattle, Washington


O som de vidro se despedaçando contra a parede de carvalho ecoou pelo quarto espaçoso do segundo andar. O vaso de cristal importado virou mil pedaços no chão, mas a raiva que queimava no peito de Renesmee não diminuiu nem um milímetro.

Ela andava de um lado para o outro como um animal enjaulado. O vestido que usara na noite anterior ainda estava amassado, os cabelos desalinhados e os olhos vermelhos, não de choro, mas de uma fúria cega e incontrolável.

— Ele me vendeu, mãe! — o grito de Renesmee cortou o ar pesado do quarto. A voz dela tremia de indignação, erguendo as mãos no ar. — Aquele desgraçado que se diz meu pai me negociou como se eu fosse um pedaço de carne num balcão! Para a máfia! Para um assassino de terno!

— Renesmee, por favor, fale baixo... — Rosalie pediu em um sussurro desesperado.

Rosalie estava encolhida perto da porta do quarto, a mão trêmula segurando a gola do seu próprio sobretudo para esconder as marcas roxas recentes no pescoço. O rosto da mulher, que um dia ostentara uma beleza radiante, carregava a palidez e o esgotamento de dezoito anos de abusos sistemáticos sob o teto de Royce.

— Falar baixo?! — Renesmee parou e encarou a mãe, os olhos faiscando. — Você ouviu o que ele disse no escritório, mãe?! Aquele homem... o tal de Jacob Black... ele esmagou os ossos da mão do Royce na minha frente e o Royce sorriu e ofereceu a própria filha para salvar a pele! E você quer que eu fale baixo?!

Renesmee avançou até a cama, agarrando a mala que tentara fazer na noite anterior. Ela puxou o zíper com violência.

— Eu vou embora daqui agora. Eu não vou esperar a comitiva dos Black vir me buscar como se eu fosse um troféu de dívida. Se o Royce quer se matar com as dívidas dele, que morra sozinho!

— Você não vai a lugar nenhum, Renesmee! — Rosalie correu e segurou os pulsos da filha, a voz embargada pelo pavor absoluto. — Você não entende? Se você tentar fugir, Royce vai matar nós duas antes que você consiga cruzar o portão!

— Deixa ele tentar! — Renesmee tentou se soltar, a teimosia e o orgulho falando mais alto que o medo. — Eu prefiro morrer tentando sair desse inferno do que ser entregue para um monstro como o Jacob Black!

— Escute a sua mãe, garota!

A voz grave e arrastada de Royce King ecoou do corredor antes mesmo que a porta fosse escancarada.

Royce passou pelo portal com a mão direita atada em um enfaixe improvisado de tiras de pano manchadas de sangue. O rosto estava pálido, a mandíbula machucada pela bota de Jacob e os olhos injetados de uma loucura perigosa. Ele exalava o cheiro forte de uísque barato e pânico.

Renesmee se colocou de pé imediatamente, dando um passo à frente para encarar o pai. O ódio em seu olhar era tão denso que faria qualquer homem recuar, mas Royce avançou com a mão esquerda erguida.

— Você devia me agradecer, sua ingrata! — Royce rosnou, cuspindo ao falar, caminhando a passos pesados na direção dela. — Eu mantive um teto sobre a sua cabeça por dezoito anos! Dei roupas, comida e o sobrenome King! E na primeira vez que você serve para alguma coisa nesta casa, vai ficar de drama?!

— Você é um nojento! Um covarde! — Renesmee esbravejou, erguendo o queixo sem recuar um único centímetro. — Você não é meu pai, você é um verme que usou a própria filha para salvar o próprio pescoço de um tiro na cabeça!

— Cale a boca! — Royce deu mais um passo, levantando a mão esquerda aberta para desferir um golpe com toda a força no rosto de Renesmee.

Antes que a mão dele atingisse a garota, Rosalie se projetou na frente de Renesmee, segurando o braço de Royce com todo o peso do seu corpo.

— Não encoste nela, Royce! Por favor, não! — Rosalie implorou, as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto traumatizado. Ela se colocou entre os dois, usando as próprias costas como escudo para proteger a filha. — Bata em mim se você quiser! Faz o que quiser comigo, mas não encoste nela!

— Me solta, sua inútil! — Royce a empurrou com brutalidade, fazendo Rosalie colidir contra a quina da penteadeira e soltar um gemido de dor.

— Mãe! — Renesmee se abaixou para socorrer Rosalie, mas a mãe a segurou com força nos braços, impedindo que a garota avançasse contra Royce.

— Não faça nada, Renesmee... por favor, me ouça... — Rosalie sussurrou de forma dolorosa no ouvido da filha, os olhos supliciantes. — Não piore as coisas. O Royce está louco. Se você provocar ele agora, ele aciona a segurança da casa.

Royce ajeitou o terno amassado com a mão boa, arfando pesado enquanto encarava as duas no chão.

— A comitiva dos Black estará aqui em menos de uma hora — disse Royce, a voz fria e carregada de uma ameaça definitiva. — Jacob Black vai levar você, Renesmee. E se você der um único passo fora da linha, se tentar fugir ou envergonhar o nome King antes de entrar naquele carro... eu juro por Deus que faço a sua mãe pagar por cada segundo de insolência sua.

Ele apontou o dedo trêmulo e ensanguentado para o rosto de Renesmee.

— Você vai vestir algo descente e vai descer quando os carros chegarem. Você é a garantia de vida desta casa agora.

Sem esperar resposta, Royce virou-se e saiu do quarto, trancando a porta pesada por fora com um clique duplo de chave.

O silêncio que se seguiu no quarto foi avassalador. Renesmee abraçou a mãe, sentindo o corpo de Rosalie tremer de pavor contra o seu. A raiva em seu peito ainda queimava, mas agora estava misturada com o amargo frio da realidade: ela não tinha escapatória. Se fugisse, a mãe pagaria com a vida.

Renesmee olhou para a porta trancada e, depois, para a janela que dava para a entrada da propriedade. O barulho distante de motores pesados se aproximando pela estrada de cascalho sinalizava que o tempo acabara.

Os carros da máfia Black haviam chegado.