Filha da guerra
3 02. O pedido
12 de Setembro de 2000 — Manhã
Mansão da Família King | Zona Sul de Seattle, Washington
A comitiva de veículos pretos já tomava a entrada de cascalho da propriedade quando a porta principal da mansão foi aberta por Royce King. Ele se mantinha curvado, ostentando um sorriso servil e patético, enquanto escondia a mão direita terrivelmente enfaixada junto ao peito. Logo atrás dele, com a cabeça baixa e o corpo trêmulo, vinha Rosalie.
Renesmee fechava o grupo, descendo os últimos degraus com o queixo erguido e a postura rígida. Em sua mente, nada do que acontecesse ali poderia superar a monstruosidade que conhecia dentro de casa. Aqueles homens podiam ser criminosos armados, mas o único perigo real e tangível para ela ainda vestia terno caro e atendia pelo nome de pai.
A tomada da casa foi imediata. Os homens de terno escuro da família Black não esperaram por convites; espalharam-se pelo saguão como se inspecionassem um imóvel recém-adquirido em um leilão de falência. Um dos seguranças testou a firmeza de um vaso Ming com a ponta do dedo; outro abriu a cristaleira da sala de jantar sem qualquer cerimônia, retirando uma garrafa de conhaque raro e servindo-se diretamente no gargalo.
No centro do saguão de mármore, acomodado em uma cadeira de rodas adaptada de estrutura metálica escura, estava Billy Black. O patriarca do clã exalava uma autoridade ancestral e silenciosa — o tipo de poder que não precisava erguer a voz para congelar um ambiente. Ao seu lado, em pé como uma sombra colossal, Jacob Black ajustava o sobretudo preto, os olhos escuros varrendo o lugar com absoluto desdém.
— Capo Black... seja bem-vindo à minha humilde residência — declarou Royce, desdobrando-se em vênias, a voz falhando pelo nervosismo. — Como o senhor pode ver, tudo está perfeitamente em ordem para a transição. A casa é sua.
Billy nem sequer olhou na cara de Royce. Seus olhos profundos fixaram-se em Renesmee.
— A casa nunca foi sua, King — a voz de Billy ecoou rouca, baixa e impregnada de um peso esmagador. — Tudo sob este teto, até o ar que você respira, agora é apenas a garantia amortizada de uma dívida.
— Claro, claro... compreendo perfeitamente — balbuciou Royce, limpando o suor frio da testa com a mão boa.
Jacob deu um passo à frente, destacando-se da penumbra do hall. Ele segurava uma caixa retangular de veludo preto, ornamentada com detalhes em prata. Com um movimento calmo e calculado, ele caminhou até parar a poucos passos de Renesmee. A diferença de altura entre os dois era intimidadora, mas ela se recusou a dar um único passo para trás.
— Ontem à noite foi o seu aniversário de dezoito anos — disse Jacob, a voz grave e arrastada cortando o silêncio tenso da sala. Ele estendeu a caixa em direção a ela, abrindo a tampa para revelar um colar de diamantes negros que brilhava friamente sob a luz do lustre. — A casa dos Black não recebe seus membros de mãos vazias. Considere isto um presente de boas-vindas à sua nova vida.
Renesmee encarou a joia reluzente na caixa e, em seguida, subiu os olhos para encarar a frieza no rosto de Jacob. O desprezo em seu peito transbordou. Ela deu meio passo à frente e, com um movimento brusco e violento da mão, golpeou a caixa por baixo.
A caixa voou longe, e o colar de diamantes colidiu contra o piso de mármore, espalhando um som metálico e seco pelo saguão.
— Guarde o seu lixo e o seu suborno para quem se importa — cuspiu Renesmee, a voz vibrando de pura grosseria e soberba. — Eu não sou sua família, não sou sua convidada e não quero nada que venha das suas mãos imundas. Se veio me levar como refém da dívida desse covarde, me leve de uma vez, mas economize o seu teatro.
Um silêncio mortal caiu sobre a mansão. Os homens da máfia Black congelaram no lugar, as mãos instintivamente descendo para os cabos das armas sob os paletós.
Royce King empalideceu a ponto de parecer um cadáver. O pavor de perder a única barganha que salvava sua vida o transformou em uma fera acuada.
— Sua vadia ingrata! — berrou Royce, perdendo completamente o controle.
Movido pelo pavor e pelo ódio, Royce avançou dois passos e desferiu um tapa violentíssimo no rosto de Renesmee. O estalo seco ecoou pela sala, e a força do golpe fez o rosto dela virar para o lado, os cabelos caindo sobre os olhos enquanto o canto de seu lábio cortava e começava a sangrar.
— Eu vou te ensinar a ter modos na frente do Capo! — Royce gritou, erguendo a mão esquerda para desferir um segundo golpe e agarrá-la pelos cabelos.
Ele não teve a oportunidade. Com uma rapidez felina e aterrorizante, Jacob se intercala entre os dois. A mão de Jacob fechou-se ao redor do pescoço de Royce antes que o braço do homem pudesse descer. O impacto fez as costas de Royce colidirem com força contra a coluna de mármore do hall.
Jacob ergueu Royce a centímetros do chão apenas pela garganta. O homem mais velho começou a sufocar, os pés se debatendo no ar, os olhos saltando das órbitas enquanto tentava, em vão, arranhar os braços de ferro de Jacob.
— Eu avisei você no galpão, seu lixo — rosnou Jacob, a voz descendo para um tom assustadoramente calmo e letal. Ele se aproximou do rosto trêmulo de Royce, os olhos faiscando em fúria. — Ela não é mais sua filha. Ela não é mais sua para bater, vender ou encostar um único dedo. A partir do momento em que assinou aquele papel, a garota passou a ser minha propriedade. E ninguém toca no que é meu.
— Jacob... por favor... — engasgou Royce, o rosto ficando roxo pela falta de ar.
Com um gesto de puro desprezo, Jacob projetou o corpo de Royce para o lado, arremessando-o contra a mesa de centro de vidro, que se estilhaçou em centenas de pedaços sob o peso do homem. Royce urrou de dor, caindo sobre os cacos, sangrando e tossindo desesperadamente.
Rosalie soltou um grito abafado, levando as mãos à boca, enquanto Renesmee mantinha a mão na bochecha dolorida, o sangue escorrendo devagar pelo queixo, chocada com a violência estarrecedora e sem esforço do homem à sua frente .
Jacob nem sequer olhou para Royce agonizando no chão. Ele se virou para um de seus homens, que prontamente se abaixou, recolheu o colar de diamantes do chão e o devolveu às mãos do chefe.
Jacob caminhou até Renesmee. Ele parou a milímetros dela, ergueu a mão enluvada e, com a ponta do polegar, limpou devagar o filete de sangue no canto do lábio dela. O toque era incrivelmente firme, porém controlado.
— Você tem muita audácia para quem está entrando no inferno, garota — murmurou Jacob, o olhar cravado no dela. — Mas aprenda uma coisa hoje: a única pessoa a quem você deve prestar contas a partir deste segundo sou eu.
Ele se voltou para os guardas.
— Coloquem a garota no carro.
Dois homens avançaram e seguraram os braços de Renesmee com uma firmeza inquebrável.
Toda a soberba e a postura altiva que Renesmee sustentara até ali ruíram. O pavor que ela não sentira por si mesma transbordou em desespero pela mãe.
— Espera! Por favor, espera! — a voz de Renesmee embargo, alta e desesperada, cortando o barulho dos passos. Ela fincou os calcanhares no piso de mármore, tentando se soltar do aperto de aço dos guardas. — Não me levem sem ela! Por favor!
Jacob parou a poucos passos da porta dupla. Ele se virou devagar, o sobretudo preto balançando levemente, os olhos escuros e gélidos fixando-se no rosto transtornado da garota.
— Senhor Black , por favor... — Renesmee implorou, a voz falhando, lágrimas de puro pânico finalmente vencendo a barreira dos seus olhos e misturando-se ao sangue no canto de sua boca. Ela olhou para ele, engolindo todo o seu orgulho. — Eu faço o que você quiser. Eu assino o que você mandar, viro sua refém, sua serva, o que for! Mas não deixa a minha mãe aqui com esse monstro! Se vocês forem embora e me levarem, ele vai matar ela! Vocês viram do que ele é capaz!
Rosalie, do canto da sala, ergueu o rosto banhado em lágrimas, balançando a cabeça em negação.
— Não, Renesmee... não faça isso por mim, minha filha... — Rosalie murmurou, a voz fraca e dolorida.
— Por favor! — Renesmee insistiu, dando um passo involuntário na direção de Jacob, ignorando os guardas que a seguravam. Seu olhar era uma súplica crua. — Se você tem um pingo de humanidade, leva ela também!
Um silêncio tenso pairou sobre o saguão. Billy Black, parado em sua cadeira de rodas perto do portal, nem sequer piscou.
Jacob caminhou a passos lentos de volta até Renesmee. Ele parou bem diante dela, observando o tremor em seus ombros e o contraste gritante entre a garota insolente de minutos atrás e a filha desesperada que implorava a seus pés.
Ele desviou o olhar para Royce, que se contorcia entre os cacos de vidro no chão, e depois para Rosalie, quebrada e amedrontada perto da escada.
— Humanidade é uma fraqueza que não existe no meu mundo, garota — a voz de Jacob ressoou baixa, grave e desprovida de qualquer calor. Ele se aproximou do ouvido dela, o tom caindo para um sussurro terrivelmente calculista. — Mas útil... a utilidade existe. Uma refém que não tem nada a perder é perigosa. Mas uma refém que tem alguém para proteger... obedece.
Jacob se ergueu em toda a sua altura e fez um sinal frio com a mão para dois dos seus homens que acompanhavam a comitiva na retaguarda.
— Peguem a mulher. Ela vai no terceiro carro.
— O quê?! Não! — urrou Royce do chão, tentando se levantar enquanto tossia sangue. — Vocês não podem levar a Rosalie! Ela é minha esposa!
Jacob nem sequer se deu ao trabalho de olhar para o homem no chão. Apenas fez um gesto seco, e um dos seus seguranças desferiu um chute certeiro nas costelas de Royce, fazendo-o tombar de vez no piso manchado de vermelho.
Dois homens avançaram, pegaram Rosalie pelos braços com firmeza. A mulher olhou para a filha com uma mistura de choque e alívio de cortar o coração.
Renesmee soltou um suspiro profundo, o peito subindo e descendo descontroladamente. As lágrimas ainda escorriam por suas bochechas, mas a tensão sobre seus ombros cedeu ligeiramente. Ela encarou Jacob mais uma vez.
— Obrigado — ela sussurrou, a voz rouca.
— Não me agradeça — Jacob respondeu, o olhar gélido perfurando o dela, sem qualquer vestígio de piedade. — A partir de hoje, a vida e a segurança da sua mãe dependem exclusivamente do seu comportamento na minha casa. Se você der um único passo em falso, se tentar fugir ou me desafiar de novo... ela paga a conta.
Ele se virou de costas, caminhando em direção à tempestade que caía lá fora.
— Agora ande. Os carros estão esperando.
Segurada pelos guardas, mas com a mãe sendo conduzida logo atrás, Renesmee cruzou o portal da mansão dos King sob a chuva impiedosa de Seattle, sabendo que acabara de entregar a própria liberdade em definitivo para garantir a sobrevivência da única pessoa que amava.
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