Filha da guerra
4 03. Novo lar
12 de Setembro de 2000 — Tarde
Residência da Família Swan | Zona Oeste de Seattle, Washington
O som abafado dos pneus do sedan preto cortando o cascalho molhado anunciou a chegada de Charlie Swan à imponente propriedade da família. A chuva que castigava Seattle desde a madrugada havia dado lugar a uma névoa espessa, cinzenta e fria, que parecia abraçar a mansão de tijolos aparentes e janelas altas.
No andar superior, no amplo escritório com vista para os jardins perfeitamente aparados, Isabella Swan permanecia em pé diante da lareira acesa. Ela vestia uma calça de alfaiataria escura e uma blusa de gola alta, com os cabelos castanhos presos em um coque alinhado. Aos vinte e um anos, Bella já havia sido moldada para ser a herdeira do império Swan, calculista, observadora e educada para colocar o poder do clã acima de qualquer emoção.
O som das batidas firmes na porta de madeira nobre interrompeu o silêncio da sala.
— Entre, pai — disse Bella, sem se virar imediatamente.
Charlie Swan passou pelo portal, tirando o sobretudo encharcado e entregando-o ao segurança que fechou a porta logo em seguida. A fumaça do charuto que ele fumara no trajeto do território Cullen ainda impregnava suas roupas. Ele caminhou até a mesa de carvalho, servindo-se de uma dose generosa de uísque sem gelo.
— Onde você esteve durante toda a manhã? — perguntou Bella, virando-se devagar para encará-lo, cruzando os braços sobre o peito. — A reunião com os distribuidores do setor oeste estava marcada para as dez. Tive que conduzir as negociações sozinha.
— Eu estava na zona norte — respondeu Charlie, dando um gole longo no líquido dourado. Ele encarou a filha por cima do copo de cristal, os olhos severos analisando a postura impecável da jovem. — Estava no território de Carlisle Cullen.
Bella ergueu ligeiramente uma sobrancelha, um sinal sutil de interesse que raramente demonstrava.
— Carlisle? A tensão no porto piorou? O império Black tomou mais algum contêiner?
— A situação com os Black está prestes a sair do controle — Charlie declarou, caminhando até a lareira e parando a poucos passos de Bella. O fogo alaranjado lançava sombras longas sobre os rostos dos dois. — Billy Black está expandindo os limites e seu filho, Jacob, está agindo como um cão de caça descontrolado no sul. Se os Volturi decidirem atacar nossas fronteiras enquanto estivermos divididos entre o norte e o sul, as três famílias serão destruídas.
— E qual foi a solução que você e Carlisle encontraram? — Bella questionou, o tom de voz calmo, mas afiado. — Um novo acordo de paz escrito em papel que Billy Black vai rasgar na semana que vem?
Charlie deu um passo à frente, fixando o olhar diretamente no de Bella. A gravidade na expressão do pai fez o ar do escritório parecer subitamente mais denso.
— Não haverá mais papéis, Isabella. Para garantir a sobrevivência e a supremacia do nosso clã, nós precisamos nos fundir em definitivo com a família mais forte da cidade. Eu fechei uma aliança de sangue com Carlisle Cullen esta manhã.
Bella estancou por um segundo. A mente analítica da jovem processou as palavras do pai em frações de segundo .
— Uma aliança de sangue... — murmurou ela, o tom de voz baixando, a expressão congelando. — O que você fez, pai?
— O seu noivado está sendo negociado — revelou Charlie, a voz firme e irrevogável. — Você vai se casar com Edward Cullen.
O silêncio que se seguiu no escritório foi pesado e sufocante. Bella não gritou, não chorou e nem demonstrou qualquer desespero — fora treinada para nunca expor fraqueza diante das decisões do Capo. No entanto, a mandíbula travada e o brilho gélido em seus olhos castanhos deixavam evidente a tempestade que se formava em seu peito.
— Com Edward? — Bella perguntou, cada palavra saindo calculada, fria como gelo. — Você vendeu o meu futuro para a zona norte em troca de homens e armas?
— Eu não vendi nada, Isabella — Charlie rebateu, a voz subindo de tom, carregada da autoridade inquestionável do patriarca dos Swan. — Eu garanti que você seja a mulher mais poderosa de Seattle. A união da sua herança com o império de Edward criará um monopólio inquebrável. Os Black serão encurralados no sul e os Volturi nem ousarão cruzar a fronteira da cidade.
— Edward é um arrogante que pensa apenas em táticas militares e na vontade de Carlisle — disse Bella, dando um passo à frente, desafiando o olhar do pai. — Ele não me quer como esposa, assim como eu não o quero como marido. Nós fomos criados como rivais nas mesas de negociação.
— O amor não faz parte dos negócios desta família, e você sabe disso desde o dia em que aprendeu a atirar — cortou Charlie, apontando o dedo com firmeza na direção dela. — Edward Cullen é o herdeiro legítimo do norte. Você é a herdeira do oeste. Este casamento não é um romance, é a consolidação do maior império criminoso que este estado já viu. E a decisão já foi tomada.
Bella manteve o queixo erguido, sustentando o olhar severo de Charlie. Ela sabia que contestar uma ordem do pai naquele momento seria inútil. No mundo da máfia, casamentos eram cartadas políticas, e ela acabara de se tornar a peça principal do jogo dos Swan.
— Quando será a reunião formal? — perguntou Bella, a voz voltando à sua impassibilidade cirúrgica.
— No final do mês, na mansão dos Cullen — informou Charlie, suavizando ligeiramente o tom ao ver que a filha aceitara o fardo com a dignidade exigida. — Até lá, quero que você se prepare. Edward virá ao nosso território na próxima semana para alinhar os detalhes da segurança integrada das nossas rotas.
Bella deu as costas ao pai, caminhando até a grande janela do escritório que dava para a névoa fria de Seattle. Ela apoiou as pontas dos dedos contra o vidro gelado, observando os carros da escolta dos Swan patrulhando o portão principal.
— Se é a guerra contra os Black e os Volturi que vocês querem vencer através de mim... — murmurou Bella, a voz quase um sussurro para si mesma, seu reflexo no vidro mostrando um olhar sombrio e determinado — ...então certifique-se de que Edward Cullen esteja pronto para dividir o trono com alguém que não aceita ordens de ninguém.
Mansão da Família Black | Zona Sul de Seattle, Washington
O portão de ferro fundido do complexo dos Black abriu-se com um rangido pesado e metálico, dando passagem à comitiva de veículos blindados. Encravada nas colinas arborizadas do sul de Seattle, a propriedade da família Black parecia uma fortaleza militar inexpugnável. Muros de pedra alta, câmeras de vigilância em cada ângulo e homens armados com fuzis patrulhavam o terreno com olhar vigilante sob a névoa fria que substituíra a tempestade.
Quando os carros pararam diante da entrada principal, a porta de Renesmee foi aberta por um dos seguranças. Ela desceu em silêncio, encolhendo os ombros dentro do blazer amassado e manchado de sangue. Logo atrás, o segundo veículo encostou, e dois homens ajudavam Rosalie a desembarcar.
Ao ver dois guardas estranhos segurando os braços de sua mãe com firmeza, o instinto de proteção de Renesmee disparou.
— Tirem as mãos dela! — bradou Renesmee, dando três passos rápidos na direção de Rosalie e interpondo-se entre a mãe e os homens de terno escuro. — Eu disse para não encostarem nela!
— Acalme-se, garota — a voz de Billy Black ressoou, vinda da rampa de acesso onde sua cadeira de rodas metálica fora posicionada.
O patriarca dos Black empurrou as próprias rodas com calma, parando a poucos metros do grupo. A luz cinzenta da tarde destacava as linhas severas de seu rosto, os cabelos grisalhos presos e um olhar de águia que emanava uma autoridade ancestral e esmagadora. Ao seu lado, Jacob permanecia em pé como uma sombra colossal, os braços cruzados sobre o peito.
— Ninguém vai machucar sua mãe sob o meu teto — declarou Billy, a voz grave e rouca ecoando pelo pátio com o peso de uma sentença irrevogável. — Mas as regras da minha casa são ditadas por mim, não por uma refém dos King. Rosalie vai para a ala oeste. Lá ela terá abrigo, médicos e paz — coisas que o seu pai miserável nunca deu a ela.
— Não! Nós viemos juntas, nós ficamos juntas! — rebateu Renesmee, agarrando a mão de Rosalie com força desesperada. Seus nós dos dedos ficaram brancos. — Eu não vou para lugar nenhum sem a minha mãe! Vocês disseram que a trouxeram para garantir a minha cooperação, então não vão separá-la de mim agora!
Rosalie, tremendo e com o peito descontrolado, tentou puxar a mão suavemente, os olhos cheios de lágrimas de pavor.
— Renesmee... por favor, não os desafeie... — sussurrou a mãe, a voz falhando. — Eles estão nos dando um teto... o Royce não está aqui...
— Não, mãe! Eu não vou deixar eles trancarem você em um quarto sozinha! — Renesmee fincou os calcanhares no chão de cascalho, recusando-se a soltar Rosalie, encarando Billy com puro ódio e obstinação.
Billy franziu o cenho ligeiramente, avaliando o fogo nos olhos da garota. Um brilho frio de respeito e desdém cruzou suas feições enrugadas.
— Você tem a língua afiada e a audácia dos ignorantes, garota — disse Billy, com a voz caindo para um tom perigosamente calmo. — Acha que está em posição de fazer exigências? O seu sangue e a sua vida pertencem ao império Black desde o momento em que Royce assinou aquele papel. Se a sua mãe está viva e respirando este ar, é por pura concessão do meu filho. Não teste a minha paciência.
— Eu não me importo com os papéis do Royce ou com o seu império! — cuspiu Renesmee, a voz embargada pela raiva e pelo cansaço, mas sem recuar um único milímetro. — Se quiserem me separar dela, vão ter que me arrastar!
Dois guardas deram um passo à frente para intervir, mas Billy ergueu a mão espalmada, detendo-os.
— Jacob — chamou o velho Capo, sem tirar os olhos de Renesmee. — Diga à sua garantia de dívida o que acontece quando alguém decide desobedecer à palavra do patriarca.
Jacob deu passos lentos para a frente, parando ao lado da cadeira de rodas do pai. A presença do homem mais jovem parecia engolir todo o espaço entre eles. Ele olhou para as mãos entrelaçadas de Renesmee e Rosalie e, em seguida, cravou os olhos escuros no rosto machucado de Renesmee.
— Se você soltar a mão dela agora e caminhar até o salão, sua mãe terá a melhor suíte da ala oeste, com enfermeiras e comida quente em dez minutos — disse Jacob, a voz baixa, arrastada e mortalmente calculista. — Se você continuar lutando, eu mandarei colocá-la no andar inferior, trancada, e você não verá o rosto dela nem por fotos até que eu decida o contrário. Escolha, Renesmee.
A ameaça cirúrgica de Jacob bateu no peito de Renesmee como um soco. A respiração dela acelerou. Ela olhou para o rosto pálido e suplicante da mãe, que implorava em silêncio com o olhar para que ela cedesse.
O aperto nos dedos de Renesmee afrouxou devagar, contra a sua vontade, a amargura da derrota queimando em sua garganta.
— Isso mesmo — murmurejou Billy, acompanhando a rendição com o olhar severo. — A sabedoria começa quando se reconhece quem detém as rédeas do jogo. Levem Rosalie para a ala oeste. E levem a garota para o quarto no segundo andar.
Rosalie foi conduzida suavemente pelos homens, olhando para trás uma última vez antes de ser levada pela entrada lateral.
Renesmee permaneceu estática no pátio, com os calcanhares cravados na pedra fria, o canto do lábio ainda doendo e os olhos faiscando de uma raiva contida enquanto encarava pai e filho.
— O império dos Black pode ter comprado o meu corpo como garantia, Capo Black — disse Renesmee, dirigindo-se diretamente a Billy com o queixo erguido e a voz cortante. — Mas nem você e nem o seu filho vão quebrar a minha cabeça.
Billy deu um riso baixo e seco, um som sem qualquer alegria, enquanto girava as rodas da cadeira na direção da porta principal.
— Ninguém quer quebrar você, garota. Nós só queremos que você cumpra o seu papel. Bem-vinda à fortaleza dos Black.
Após Renesmee ser conduzida para o segundo andar por Sue e dois guardas, as pesadas portas duplas de madeira de lei do escritório de Billy foram trancadas por dentro. O ambiente era amplo, dominado por paredes revestidas de painéis escuros, uma grande mesa de carvalho e o crepitar baixo da lareira a lenha.
Billy Black posicionou sua cadeira de rodas perto da mesa central. Ao seu redor, de pé, estavam os homens de extrema confiança do clã: Quil e Embry nas extremidades, além de Jacob, que permanecia encostado na borda da mesa, cruzando os braços e observando o fogo da lareira com o olhar distante.
— A garota tem o gênio de uma fera acuada — comentou Embry, ajustando o coldre sob a jaqueta de couro. — Ela encarou você sem piscar, Capo. Se não soubesse que veio daquele covarde do Royce, diria que tem sangue de liderança nas veias.
— Ela não vem daquele covarde — cortou Jacob, a voz grave ressoando pela sala. Ele se voltou para os homens, os olhos escuros brilhando com um cálculo frio. — O próprio Royce confirmou isso de madrugada, quando estava no chão do galpão implorando para não levar um tiro na cabeça.
Quil assentiu, dando um passo à frente.
— Quando tentamos cruzar a certidão de nascimento dela nos arquivos de Seattle, o registro de dezoito anos atrás é uma farsa completa. Assinado por um médico comprado pelos King que foi encontrado morto três meses depois de ela nascer. Royce nunca teve uma filha legítima com Rosalie.
Billy bateu com a palma da mão espalmada sobre o braço da cadeira de rodas, exigindo o silêncio imediato de todos na sala. Os homens prontamente se calaram, voltando o olhar para o patriarca.
— Royce King é um parasita que viveu de mentiras a vida inteira — declarou Billy, a voz profunda e rouca ecoando com autoridade no escritório. — Quando o miserável percebeu que eu não aceitaria apenas o Clube Nocturna e os galpões do porto para quitar vinte milhões de dólares, ele jogou a última cartada que tinha na cartola. Ele jurou pela própria vida que a recém-nascida que adotara e criara sob o nome de Renesmee era, na verdade, a filha perdida de Charlie Swan.
Um silêncio pesado tomou conta da sala. Quil e Embry trocaram um olhar denso, enquanto Jacob manteve a expressão congelada.
— A bebê que desapareceu na noite do grande expurgo, quando a aliança das famílias ruiu em sangue — murmurou Embry, assimilando o peso da informação. — Se isso for verdade... Charlie passou anos procurando por um fantasma enquanto o inimigo a mantinha sob o mesmo teto.
— Royce manteve a garota como um seguro de vida para o caso de um dia o império King falir completamente — explicou Jacob, dando passos lentos pela sala. — Ele pretendia barganhar a menina com Charlie Swan quando estivesse no fundo do poço. Mas a dívida conosco cobrou o preço primeiro, e ele não teve escolha a não ser entregar o segredo para nós.
— E nós temos a confirmação disso? — perguntou Quil. — A garota sabe quem é?
— Ela não sabe de nada — respondeu Jacob com frieza. — Ela cresceu achando que era filha daquele verme e de Rosalie. Pensa que está aqui apenas como garantia de uma dívida de jogo de um pai irresponsável.
Billy inclinou-se para a frente em sua cadeira, com os olhos de águia fixos nos de Jacob.
— O que o King disse sobre o sangue de Renesmee é um trunfo que nós não podemos perder de jeito nenhum, Jake — disse Billy, a voz carregada de uma gravidade absoluta. — Charlie Swan fechando um acordo de casamento entre a outra filha dele, Isabella, e Edward Cullen. Se os Swan e os Cullen se unirem em definitivo por matrimônio, o território dos Black no sul será encurralado.
O patriarca fez uma pausa, o fogo da lareira refletindo em suas pupilas.
— Mas se nós tivermos sob o nosso teto a filha caçula de Charlie Swan... nós temos a chave para reescrever toda a geopolítica de Seattle. Podemos destruir a aliança entre as duas famílias ou forçar Charlie a se curvar diante da casa dos Black para ter a filha de volta.
— Com uma condição, pai — interveio Jacob, parando ao lado da cadeira de Billy, a postura ereta e a aura de perigo implacável. — Ninguém da zona norte ou do oeste pode saber que a garota está com a gente até que tenhamos total controle sobre ela. Se os Cullen descobrirem antes da hora, vão tentar matá-la para evitar que a herança dos Swan seja reivindicada por nós. E se os Volturi souberem, Seattle vira um campo de guerra aberto.
— Exatamente — concordou Billy, olhando nos olhos do filho. — Por isso ela fica trancada aqui. Nenhuma palavra sobre a origem dela sai deste escritório. E você, Jacob... você vai garantir que aquela garota continue viva, obediente e sob a nossa custódia. Ela é a arma mais valiosa que temos nesta guerra.
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