Filha da guerra
71 67. A filha do Don • Jacob Black
Junho de 2019
A fumaça pesada dos charutos flutuava sobre a mesa de jacarandá no meu escritório do galpão, misturando-se ao cheiro forte de café e óleo de arma. O mapa tático do centro comercial de Seattle estava estendido diante de nós, com os níveis do shopping e o complexo de salas de cinema marcados em vermelho.
Noah estava de pé ao meu lado, os braços cruzados sobre o peito, a postura ereta e a mandíbula travada. Olhar para o meu filho de dezoito anos era como me ver em um espelho mais jovem : frio, atento, assimilando cada detalhe da operação sem piscar.
— As salas do andar superior do shopping já foram completamente isoladas — começou Sam, a voz grave e pausada ditando o ritmo da reunião. Ele apontou para a planta do piso superior. — Reservamos a sala VIP principal para a família. A equipe do Jared já cobriu os acessos de emergência, as docas de serviço e os elevadores privativos que sobem direto do subsolo.
— Ninguém entra no andar do cinema sem passar pelo nosso raio X na garagem — interveio Jared, inclinado sobre a mesa, indicando os pontos de bloqueio. — O shopping é seu, chefe, mas em noite de estreia o fluxo de civis no térreo é gigante. A triagem lá embaixo vai ser implacável.
Mantenho os olhos fixos na planta. Aquele shopping era uma das minhas propriedades mais lucrativas na cidade, mas uma saída em família para um local público, mesmo sob o meu domínio, exigia uma logística de guerra.
Ainda mais naquela noite.
Renesmee tinha passado a manhã mal na cama, e embora ela jurasse que fora apenas uma indisposição alimentar, meu estômago continuava dando nós de preocupação. Ela precisava de uma distração, de um momento longe do clima pesado da nossa rotina. E juntar a família inteira era a única forma de arrancar um sorriso verdadeiro da minha esposa.
— Quantos homens no perímetro interno, Quil? — perguntei, a voz baixa e rouca cortando a sala.
— Vinte homens à paisana misturados ao público do shopping, Don — respondeu Quil, com um aceno firme. — Mais oito posicionados estrategicamente dentro da própria sala de cinema. O Solomon tá no comando do comboio blindado que vai transportar as mulheres.
Solomon deu um passo à frente, ajustando a abotoadura do terno.
— O comboio sai da mansão às sete em ponto — informou Solomon, o tom profissional de sempre. — Teremos três SUVs de escolta na frente e duas na retaguarda. A rota já foi varrida por batedores e está limpa.
— Ótimo — murmurei, apoiando as duas mãos na borda da mesa e me inclinando sobre os papéis. — Escutem bem. Não quero nenhuma falha nessa operação. A lista de presença é a minha família inteira. A Nessie vai estar lá. A Sarah vai estar lá. Minhas irmãs Rebecca e Rachel, a Emily, a Claire, e a Maya.
Olhei de relance para Paul, que estava encostado na parede perto da janela, brincando com um isqueiro de prata.
— Se um único estalo fora do normal acontecer naquele shopping, eu quero o andar inteiro em lockdown antes que qualquer uma das minhas mulheres perceba o que tá acontecendo — avisei, encarando Paul e Jared olho no olho. — O objetivo é que elas tenham uma noite tranquila de cinema. Elas não têm que ver arma, não têm que ouvir rádio estalando e não têm que sentir o cheiro de tensão. Entendido?
— Entendido, chefe — disse Paul, guardando o isqueiro e assumindo uma expressão séria. — Ninguém se aproxima nem a dez metros da sala VIP.
— Pai — Noah me chamou em tom baixo, atraindo minha atenção. — Eu vou no carro de frente com a escolta principal. Quero supervisionar a desembarque da mãe e da Sarah pessoalmente no subsolo.
Senti um orgulho sombrio inflar meu peito ao ver a iniciativa do garoto. Ele sabia exatamente o peso do sobrenome que carregava e a responsabilidade de proteger o sangue dos Black.
— Certo — bati a mão no ombro largo de Noah, apertando com firmeza. — Você assume a guarda da sua mãe e da sua irmã no trajeto interno. Jared e Solomon cobrem as saídas de emergência. A reunião tá encerrada. Todo mundo nos seus postos.
Os homens assentiram em silêncio, recolhendo os mapas e se dispersando rapidamente. Fiquei a sós com Noah na sala por mais alguns segundos.
Ajeitei as abotoaduras do meu paletó no hall de entrada, ajustando o tecido escuro sob medida. Noah estava ao meu lado, a postura ereta e a expressão dura, checando o relógio de pulso e mantendo os olhos atentos na porta de entrada. Ver o meu filho agindo com a disciplina de um verdadeiro capitão me enchia de um orgulho sombrio, mas a minha atenção se desviou no segundo em que o estalo suave dos saltos altos ecoou no topo da imensa escadaria de mármore.
Ergui a cabeça.
Sarah vinha na frente, arrumando um dos brincos, mas a presença da minha filha mal chegou a registrar no meu radar. No instante em que meu olhar travou em Renesmee, o resto do mundo simplesmente desapareceu.
A respiração trancou na minha garganta.
O descanso forçado parecia ter feito milagres por ela; a pele antes pálida agora exibia um tom corado e saudável, dando a ela uma aura radiante e viva. Mas o que fez o meu sangue ferver num misto de fascínio e fúria possessiva foi o vestido que ela escolhera. O tecido escuro e fluido se ajustava à cintura dela com uma precisão canalha, desenhando o contorno exato do corpo que me pertencia, enquanto o decote discreto deixava à mostra a curva macia do seu colo.
Daquele ângulo, ela não parecia a mãe de dois adultos de dezoito anos. Parecia uma tentação desenhada para me enlouquecer.
Dei três passos lentos em direção à base da escada, sem conseguir desviar os olhos dela nem por um milésimo de segundo. As pupilas dos meus olhos dilataram, e o ar que puxei veio impregnado com o cheiro doce da pele dela, sobressaindo a qualquer outro odor da casa.
— Mãe, você tá linda — ouvi a voz distante de Sarah elogiar, dando uma risadinha baixa ao perceber o meu estado.
Não dei a mínima. Estendi minha mão grande assim que Nessie alcançou o penúltimo degrau. No segundo em que os dedos macios dela tocaram a minha pele quente, fechei a mão ao redor dos seus dedos com uma firmeza possessiva, puxando-a para o último degrau e colando o corpo dela ao meu antes mesmo que ela pudesse protestar.
Inclinei-me sobre a curva do pescoço dela, sentindo o calor que emanava da sua pele, e rosei meus lábios na sua orelha, falando num tom baixo e rasgado, denso de uma ameaça que só nós dois entendíamos:
— Você tá me provocando, Nessie? — murmurei, a voz rouca contra a pele dela. — Esse vestido tá colado demais. Metade dos homens naquele shopping vai olhar pra você hoje, e eu vou ter que mandar arrancar os olhos de um por um antes de a sessão começar.
Senti um arrepio percorrer o corpo dela sob as minhas mãos. Nessie ergueu os olhos para os meus, e a ponta dos seus dedos subiu até a lapela do meu terno, ajeitando o tecido com uma audácia provocante que me fez apertar a cintura dela com mais força.
— É só um vestido discreto, Jake — respondeu ela num tom baixo e aveludado, sustendo o meu olhar sem piscar. — E você vai estar do meu lado o tempo todo. Ninguém vai ter coragem de olhar.
— É bom mesmo — rosnava eu, puxando o quadril dela contra o meu com uma autoridade bruta, deixando claro para qualquer um naquela sala a quem ela pertencia. — Porque se algum idiota no andar do cinema cismar de encarar a minha mulher por mais de dois segundos, a noite vai terminar em banho de sangue.
Noah pigarreou atrás de mim, quebrando o transe. Ele ajustou a abotoadura do próprio casaco e olhou para mim com a seriedade profissional de quem estava pronto para executar a operação.
— O comboio do Solomon tá a postos no pátio, pai — informou Noah, ignorando a tensão febril entre mim e a mãe dele. — A equipe do Jared confirmou que o subsolo do shopping tá totalmente isolado.
— Vamos — ordenei, sem soltar a cintura de Nessie por um único segundo.
Mantive o meu braço firme ao redor dela, guiando-a em direção às portas duplas enquanto o marido faminto e o Don implacável travavam uma batalha dentro do meu peito sob a penumbra da noite de Seattle.
•••
O aroma de pipoca amanteigada e o zumbido suave dos projetores preenchiam o andar VIP do cinema. O complexo inteiro estava trancado sob a nossa guarda; não havia um único estranho nos corredores, apenas a minha família espalhada pelas poltronas de couro reclináveis e os meus homens posicionados estrategicamente nas saídas de emergência.
Renesmee estava sentada ao meu lado, mas a atenção dela não estava na tela gigante que projetava os trailers institucionais. Na verdade, nenhuma das mulheres parecia se importar com o cinema.
Minha esposa, minha filha, minhas irmãs Rebecca e Rachel, a Emily, a Claire e até Maya estavam aglomeradas num canto da fileira do meio, inclinadas umas sobre as outras, trocando fofocas em sussurros rápidos e risinhos abafados. A cada instante, uma delas olhava de relance na minha direção e voltava a sussurrar com a mão na frente da boca.
Aquela movimentação estranha começou a arranhar a minha paciência. Olhei para o lado, onde Sam, Jared, Quil e Paul conversavam em tom baixo perto do corredor de acesso.
— Que porra tá acontecendo ali? — perguntei, a voz baixa e afiada, apontando com o queixo na direção do grupo de mulheres. — Do que é que elas tanto conversam e olham pra cá?
Sam deu um gole no refrigerante, franzindo a testa com genuína incompreensão.
— Sei não, cunhado. A Emily tá o dia todo no telefone com a Rachel, mas não me soltou uma palavra. Assunto de mulher, você sabe como é.
— É — resmungou Jared, cruzando os braços. — A mim elas não contam nada. Se a Claire souber de algum segredo, vai levar pra cova antes de me dizer.
Antes que eu pudesse pressionar Paul sobre o comportamento da minha irmã, o rádio no peito de Quil estalou com uma interferência abafada. O som do elevador ao fundo do corredor soou, e dois dos meus homens na porta da sala se tencionaram instantaneamente.
Um garoto magro, vestindo roupas casuais demais para o padrão do lugar, deu um passo para dentro da sala de cinema. Ele parecia visivelmente deslocado, hesitante, dando passos curtos enquanto olhava ao redor como quem tinha acabado de entrar numa toca de leões.
Imediatamente, Solomon e um dos seguranças deram um passo à frente, cortando a passagem do garoto e colocando a mão ostensivamente sob o paletó, prontos para arrancá-lo de lá à força.
— Ei! Para aí — rosnou Solomon, a voz ecoando pela sala escura. — Você tá no andar errado, moleque.
— Deixa ele passar! — a voz de Sarah cortou o ar, firme e alta, fazendo a sala inteira se calar.
Ela se levantou da poltrona no mesmo segundo, dando passos rápidos em direção ao corredor.
A minha reação foi imediata. Ergui-me da poltrona como um raio, os olhos travando no garoto desconhecido. Ao meu lado, Noah deu um passo à frente com uma velocidade assustadora, a postura rígida e o rosto cravado numa expressão de pura fúria.
— O que esse desgraçado tá fazendo aqui, Sarah? — questionou Noah, a voz saindo num rosnado baixo, a mão direita descendo por puro reflexo em direção ao cós da calça sob o paletó.
A reação do meu filho fez um alarme alto soar dentro da minha cabeça. Noah não perdia o controle à toa. Se o meu filho estava focado naquele moleque com o mesmo olhar de quando rastreávamos inimigos no porto, havia algo muito errado ali.
Dobrei a atenção, fechando os punhos e dando dois passos lentos na direção do garoto, sentindo a aura de Don assumir o controle do meu corpo. A tensão na sala subiu a ponto de sufocar.
Antes que eu pudesse avançar mais um centímetro ou arrancar uma resposta da boca da minha filha, senti dois braços macios envolverem minha cintura por trás. Renesmee se colou às minhas costas, os dedos dela apertando o tecido do meu terno com uma força desesperada.
— Jake... por favor, calma — pediu Nessie, a voz num sussurro trêmulo e suplício, colando o rosto nas minhas costas. — Escuta antes de fazer qualquer coisa. Por mim.
Senti o calor do corpo dela contra o meu, mas o nó no meu estômago só deu mais uma volta apertada. Olhei de relance para o garoto, para a minha filha que se postara ao lado dele com o queixo erguido, para a fúria estampada no rosto de Noah e para o grupo de mulheres que agora nos observava em silêncio absoluto.
A ficha caiu num estalo gélido. O sussurrar das mulheres, a autorização de Sarah, o pavor na voz de Nessie...
Eu não precisava que ninguém dissesse uma única palavra. Eu sabia, com a precisão de um tiro no peito, que não iria gostar nem um pouco do que estava prestes a acontecer naquela sala.
— Pai... — Sarah começou, a voz trêmula por um milissegundo antes de ela forçar uma firmeza desafiadora, sustentando o meu olhar. — Esse é o Theo. Theo Hayes.
Theo Hayes. O sobrenome bateu no meu peito como uma marretada. Não era um sobrenome do nosso meio, não trazia o peso da máfia nem das nossas alianças; era o nome de um garoto comum, de fora, alguém do lado limpo e intocado da cidade.
Sarah apertou com mais força os dedos do moleque, erguendo o queixo como quem se preparava para um pelotão de fuzilamento.
— E ele é o meu namorado.
A palavra ecoou pela sala como uma explosão num ambiente fechado.
Senti o corpo de Nessie endurecer ainda mais contra o meu.
Namorado.
Minha filha de dezoito anos. A minha princesinha. A garota que eu passei a vida inteira jurando que protegeria das garras de qualquer homem, trouxe a porra de um namorado para o meu cinema, sob a minha guarda, e jogou aquele nome na minha cara na frente de toda a minha família e dos meus homens.
— Theo Hayes... — repeti o nome, a voz saindo num tom arrastado, gélido e rouco, cortando a penumbra como uma lâmina afiada.
Dei um passo lento à frente, desvencilhando-me do abraço de Nessie, embora a mão dela ainda tentasse alcançar o meu braço. Olhei para o garoto de cima a baixo, deixando que o peso esmagador de tudo o que eu era e de tudo o que eu comandava naquela cidade caísse sobre os ombros dele.
— Você tem exatamente três segundos — murmurei, encarando o moleque no fundo dos olhos — para me dar um único motivo para não mandar o Noah sumir com você daqui antes de os trailers terminarem.
— Não vai fazer isso com o pai do seu neto — Sarah rosnou
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