Filha da guerra
72 68. Revelações • Jacob Black
— Não vai fazer isso com o pai do seu neto — rosnou Sarah
A frase de Sarah rasgou o silêncio da sala de cinema como uma lâmina de aço gelado. O tempo pareceu parar. Os projetores no teto continuavam a rodar, lançando feixes de luz trêmula sobre o carpete escuro, mas o ar no andar VIP simplesmente desapareceu.
O rosnado que estava preso no fundo da minha garganta morreu instantaneamente, transformando-se num vazio gélido e ensurdecedor.
Neto
A palavra ecoou no meu cérebro como o estalo de uma execução. Olhei para Sarah. A minha princesinha, a garota que eu guardava do mundo sob sete chaves, encarava-me com o queixo erguido e os olhos marejados, os dedos ainda cravados na mão daquele moleque insignificante.
Ao meu lado, Noah deu um passo em falso, travando no lugar como se tivesse levado um tiro no peito. A expressão de fúria cega do meu filho se desfez em choque absoluto, o olhar dele oscilando de Sarah para o tal Theo com uma rigidez homicida reprimida a custo.
Atrás de mim, um arquejo coletivo cortou a fileira do meio. Minhas irmãs, Rebecca e Rachel, cobriram a boca com as mãos. Emily deu um meio passo à frente antes que Sam segurasse o braço dela com a mão trêmula. Paul e Jared pareciam estátuas de pedra no fundo do corredor, com as mãos paralisadas sob a lapela dos paletós.
A autoridade do Don de Seattle, o controle implacável que eu mantinha sobre toda aquela cidade, ruiu em um único segundo diante do sangue do meu próprio sangue.
— O... o quê? — a voz de Noah saiu num fiapo áspero e inacreditável, quebrando o transe. Meu filho deu um passo lento em direção a Sarah, a mandíbula tremendo de fúria contida. — Do que porra você tá falando, Sarah?!
Theo deu um passo trêmulo para trás, a pele cinzenta de puro pavor, mas Sarah se colocou firmemente na frente dele, usando o próprio corpo como escudo contra o irmão e contra mim.
— É isso mesmo que você ouviu, Noah — desafiou ela, a voz embargada, mas de uma coragem visceral. — Eu tô grávida. Três meses
O chão pareceu fugir dos meus pés. Voltei meus olhos devagar para Renesmee, esperando ver o mesmo choque e pavor que destruíam o meu peito naquele instante.
Mas Nessie não piscou.
Ela se desvencilhou das minhas costas e deu passos firmes até se postar exatamente ao lado de Sarah. Minha esposa segurou o braço da nossa filha, entrelaçando seus dedos nos dela e encarando a mim e ao Noah com o olhar mais protetor e inabalável que eu já vira em toda a minha vida. As lágrimas escorriam silenciosas pelas bochechas dela, mas não havia dúvida nem medo na sua postura. Ela estava apoiando a filha.
A ficha caiu num estalo devastador.
O sussurrar das mulheres na entrada do cinema. As conversas abafadas no corredor. A postura protetora da Nessie desde o momento em que aquele moleque cruzou a porta.
Ela já sabia. Minha esposa já sabia de tudo e decidira ficar do lado da nossa garota.
— Nessie... — murmurei, a minha voz saindo tão baixa e rasgada que mal pareceu minha. O som trazia o peso de um homem cujo império inteiro fora atingido por um golpe interno. — Você sabia disso?
— Eu soube hoje, Jacob — respondeu Nessie, mantendo a voz firme e ajeitando-se à frente de Sarah, cobrindo a nossa filha contra a minha fúria. — E não vou deixar você nem o Noah agirem como dois animais no meio desse cinema. A Sarah é nossa filha. Ela precisa da gente agora, não do Don de Seattle criando um massacre.
Girei o olhar para o tal Theo. Ele encolhera os ombros, os olhos arregalados fitando o homem mais perigoso da cidade como se encarasse a própria sentença de morte. Ele era um cara comum, sem cicatrizes nas mãos, sem a menor ideia do peso que aquele sobrenome carregava. Um garoto que tinha ousado tocar na minha filha.
A raiva cega subiu pelo meu pescoço, queimando meu peito, fazendo as veias dos meus punhos saltarem. A vontade era de avançar, de arrancar aquele moleque dali e fazê-lo pagar por cada segundo de dor que estava causando à minha família.
— Noah — ordenei, a voz gélida como o fundo do oceano, a mão descendo involuntariamente em direção à arma sob o paletó.
— Pronto, pai — respondeu Noah na mesma hora, dando mais um passo à frente, pronto para avançar sobre o garoto.
— Jacob, não! — Nessie deu dois passos rápidos para a frente e cravou as duas mãos no meu peito com força.
O toque dela parou o meu avanço no mesmo instante. Eu podia ser o Don mais temido da costa oeste, podia mandar em centenas de homens armados até os dentes, mas o toque das mãos de Renesmee contra o meu peito sempre fora o meu limite. A única ordem que eu jamais conseguia desobedecer
— Olhe para mim — pediu Nessie, a voz abaixando para um tom doce, mas carregado de uma autoridade que me dominava por completo. Ela segurou o meu rosto com as duas mãos, forçando meus olhos a encontrarem os dela. — Olhe para mim, Jake. Você não vai tocar nesse garoto. Você me prometeu hoje cedo que cuidaria da nossa família. A Sarah tá assustada. Se você destruir o pai do filho dela agora, vai destruir a nossa filha junto. É isso que você quer?
Fechei os olhos com força, respirando fundo enquanto o ar queimava meus pulmões. O nó na minha garganta era sufocante. A fúria contra o moleque continuava viva, pulsando em cada veia do meu corpo, mas a súplica no olhar da minha mulher e a firmeza com que ela protegia a nossa filha quebravam qualquer impulso violento.
Eu faria qualquer coisa por Nessie. Sempre fiz. E se ela decidira ficar do lado de Sarah, eu engoliria o meu próprio orgulho, mesmo que isso me rasgasse por dentro.
Abri os olhos devagar, encarando minha esposa.
— Noah, para para trás — ordenei, a voz num rosnado baixo, sem tirar os olhos de Nessie.
Noah travou o passo, olhando para mim em choque absoluto.
— Pai... você vai deixar esse desgraçado...?
— Eu mandei ir para trás, Noah! — rosnei mais alto, cortando o meu filho. Noah trincou os dentes de pura frustração, mas recuou dois passos, mantendo os punhos fechados.
Girei o rosto devagar em direção ao garoto. Theo parecia prestes a desmaiar de pavor.
— Você — disse eu, apontando o dedo na direção do moleque, a voz saindo gélida e perigosa. — Agradeça a Deus por essa mulher estar de pé na minha frente. Porque se dependesse de mim ou do meu filho, você não sairia vivo deste andar.
Olhei para Sam e Solomon no fundo do corredor.
— O filme não vai passar — ordenei, ajustando o paletó com mãos ainda trêmulas de raiva. — Nós vamos para a mansão. Agora.
Nessie soltou um suspiro profundo de alívio, passando a mão pelo meu braço com carinho enquanto se virava para abraçar Sarah, que chorava baixinho. Encarei as duas, o peito pesado como chumbo, tentando processar o caos que acabara de se instalar na minha vida.
•••
O hall da mansão parecia um caldeirão prestes a explodir. No instante em que as portas duplas se fecharam com um estrondo, a tempestade de vozes que eu vinha sufocando dentro do carro irrompeu com força total no mármore.
— Isso é um absurdo! Uma desonra completa com o nome da família! — vociferava Noah, tirando o paletó e jogando-o no sofá com violência. Ele se virou para o tal Theo, que se encolhia perto da entrada sob a escolta rígida de Sam e Jared. — Você entrou na nossa casa, olhou na cara do meu pai e achou que podia fazer o que quisesse com a minha irmã?!
— Noah, cala a boca! — gritou Sarah, os olhos vermelhos de tanto chorar, colocando-se de novo na frente do moleque. — A vida é minha! Eu não sou uma propriedade para vocês ficarem decidindo o que eu faço ou deixo de fazer!
— Você é uma Black, Sarah! — rebateu Noah, dando dois passos ameaçadores na direção dela, com as veias do pescoço saltadas. — E esse moleque não tem onde cair morto! Ele não é ninguém!
— Parem vocês dois! — a voz de Maya cortou o espaço com a firmeza de quem era a mais velha das primas. Ela deu um passo à frente, ajustando o casaco e encarando os primos menores com autoridade. — Discutir como dois histéricos no meio do hall não vai resolver a cagada que já tá feita!
— Não vai resolver?! — berrei, a minha voz ecoando pelas paredes de pé-direito alto com tanta força que fez os lustres de cristal vibrarem. Eu caminhava de um lado para o outro como um bicho enjaulado, as mãos trêmulas de pura fúria. — Um desgraçado de fora entra no meu território, engravida a minha filha de dezoito anos e vocês querem que eu fique calmo?! Esse moleque só tá respirando ainda porque a mãe de vocês me pediu!
— Senhor Black, por favor... eu amo a Sarah... — tentou balbuciar o garoto, a voz trêmula de gélido pavor.
— FECHA A PORRA DA BOCA! — urramos eu e Noah em exata sincronia, fazendo o moleque dar um salto para trás.
— Jacob, pelo amor de Deus, para de gritar com ele! — interveio Emily, cruzando os braços e tentando conter a agitação. — O garoto tá pálido, vai desmaiar no meio da sala!
— Que desmaie e morra aqui mesmo! — rosnou Paul, encostado no batente da porta com os braços cruzados e a mandíbula travada. — Facilita o nosso trabalho de limpar o chão.
— Sarah...— O garoto pronunciou o nome d aninha filha assustado com a ameaça de Paul
— Ninguém vai encostar um dedo nele! — Sarah soluçava alto, puxando Theo pelas mãos. — Se vocês fizerem alguma coisa contra ele, eu pego as minhas coisas e sumo desta casa para sempre!
— Você não vai a lugar nenhum! — bradei, apontando o dedo rígido para a minha filha. — Você vai ficar debaixo do meu teto até eu decidir o que fazer com essa bagunça!
— CHEGA! — o grito de Renesmee tentou cortar o caos, mas a voz dela saiu estranhamente fraca, abafada pelo falatório que continuava se multiplicando.
— Mãe, não defende ela! — protestou Noah, girando sobre os calcanhares. — Ela foi irresponsável! Destruiu o futuro dela por causa desse coitado!
— Eu não destruí nada, Noah! — devolveu Sarah, aos prantos. — Eu tô gerando uma vida!
— Uma vida no meio desta guerra?! — avancei mais dois passos, o peito queimando de ódio. — Você não tem noção do perigo! Um bebê agora é um alvo nas costas de todo mundo nesta família!
Nessie deu um passo à frente para intervir entre mim e os meninos, abrindo a boca para impor ordem. Mas as palavras travaram na garganta dela.
Girei os olhos em direção à minha esposa a tempo de ver o rosto dela perder toda a cor. A pele corada de poucas horas atrás deu lugar a uma palidez fantasmagórica. Nessie levou a mão à têmpora, o corpo vacilando enquanto os olhos dela perdiam o foco.
— Jake... — murmurou ela num fio de voz quase imperceptível.
As pernas dela dobraram. O corpo de Nessie começou a despencar em direção ao chão de mármore.
— NESSIE! — o urro rasgou a minha garganta.
O Don de Seattle, a raiva do namoro da Sarah, o ódio do moleque... tudo evaporou num milissegundo. Meu corpo se projetou para a frente por puro reflexo, cruzando o espaço entre nós e aparando o corpo macio da minha mulher nos meus braços antes que ela atingisse o piso frio.
O silêncio caiu sobre o hall como uma guilhotina. Noah travou no lugar, a fúria sumindo do seu rosto, substituída por um choque aterrorizado ao ver a mãe desacordada. Maya deu um passo rápido à frente, cobrindo a boca em sobressalto.
— Mãe! — gritou Noah, correndo até nós.
Ajoelhei-me no chão trazendo Nessie contra o meu peito. Os lábios dela estavam sem cor, a testa coberta por um suor frio. Dei leves batidinhas no rosto dela com a minha mão grande, o pânico tomando conta de mim com uma violência que me sufocava.
— Nessie! Nessie, olha pra mim! Meu amor, acorda! — esbravejei, a minha voz falhando em desespero absoluto. — Chamem um médico! Sam, liga pro hospital agora! Porra, o que tá acontecendo com ela?! Ela tá passando mal de novo!
— PAI, CUIDADO COM ELA! — o grito de Sarah cortou o meu desespero. A minha filha se ajoelhou no chão ao nosso lado, chorando desesperadamente ao ver o estado da mãe.
— O que ela tem, Sarah?! O que tá acontecendo com a sua mãe?! — exigi, apertando Nessie contra mim, os meus olhos descontrolados buscando respostas. — Ela passou mal ontem, passou mal agora... Que porra de doença é essa que vocês tão escondendo de mim?!
Sarah olhou para a mãe desacordada, depois para o meu rosto tomado pelo terror, para Maya e para o irmão que observavam a cena em choque.
— NÃO É DOENÇA, PAI! — gritou Sarah, deixando as palavras escaparem no meio dos soluços. — SEGURA ELA COM CUIDADO! A MÃE TAMBÉM TÁ GRÁVIDA!
O mundo parou.
Minhas mãos paralisaram no rosto de Nessie. Senti o sangue congelar nas minhas veias. Ao meu lado, Noah deu um passo para trás, a boca aberta em absoluto estarrecimento, enquanto Maya arregalava os olhos, sem conseguir emitir um único som. Até os meus homens no fundo da sala pareceram parar de respirar.
— O... o quê? — murmurei, a minha voz sumindo num fiapo fraco e incrédulo, enquanto olhava da minha filha para a minha mulher desacordada nos meus braços.
— Ela tá grávida, pai! — repetiu Sarah, secando as lágrimas com as costas da mão. — A mãe tá esperando um bebê seu!
Abaixei os olhos devagar para Nessie, o meu peito subindo e descendo descontrolado enquanto a minha mão repousava, trêmula e em choque, sobre a barriga plana da mulher da minha vida.
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