Filha da guerra

70 66. Após tanto tempo • Renesmee Black



O silêncio do quarto principal era interrompido apenas pelo som da nossa respiração pesada e compassada. A luz fraca dos postes de iluminação da propriedade atravessava a fresta das cortinas, cortando a penumbra e desenhando linhas suaves sobre o lençol desarrumado.

Eu estava deitada com a cabeça apoiada no peito largo de Jacob, sentindo a elevação ritmada da sua respiração sob a minha bochecha. O calor do corpo dele ainda queimava contra o meu, mas a intensidade febril e violenta de minutos atrás na sala de jantar dera lugar a um torpor calmo, denso e acolhedor. Os dedos grandes dele traçavam círculos lentos na minha nuca, o toque surpreendentemente delicado para mãos que carregavam tanto sangue e poder.

Respirei fundo, o aroma de sândalo e pele aquecida preenchendo meus pulmões enquanto a razão lentamente retornava ao meu peito.

— Jacob...? — chamei num murmúrio baixo, a voz ainda rouca pela exaustão.

— Hum? — resmungou ele, deslizando a mão até a curva das minhas costas e me puxando para ainda mais perto, sem abrir os olhos.

Ajeitei meu corpo na cama, erguendo o rosto devagar para encará-lo na penumbra. Os traços dele estavam suavemente relaxados, a testa sem as rugas de preocupação ou fúria que o acompanhavam ao longo do dia no comando da organização.

— Me desculpa — murmurei, o nó na minha garganta voltando a apertar, mas agora sem a raiva cega de antes. — Me desculpa por ter pensado... por ter achado que você seria capaz de vender a Sarah.

Jacob abriu os olhos devagar, encarando-me com a profundeza daqueles íris escuras que me conheciam por inteiro.

— Por achar que você faria com ela... o mesmo que fizeram comigo quando me entregaram a você — completei, a voz falhando ligeiramente na última frase.

Jacob cobriu a minha mão com a dele, apertando meus dedos com firmeza. Não havia ressentimento na postura dele, apenas um entendimento pesado e realista da história que nos trouxera até ali.

— Você não precisa pedir desculpas por proteger a nossa filha, Nessie — disse ele, a voz grave e baixa ecoando pelo quarto. — Eu sei de onde veio o seu medo. Sei o que você sentiu quando foi trazida para o meu mundo anos atrás, e sei a dor que você carrega por ter tido a sua vida traçada por um acordo. É por isso que eu entendo a sua fúria.

Ele se ajeitou no travesseiro, girando o corpo para ficar de frente para mim, os olhos cravados nos meus com uma vulnerabilidade que ele raramente se permitia demonstrar.

— Mas a Sarah não é você, e o mundo hoje é outro — continuou Jacob, o tom carregado de uma solenidade inabalável. — Eu fiz uma promessa no dia em que ela nasceu de que nenhuma aliança, nenhum conselho e nenhum homem nesta cidade ditaria as regras da vida dela. Se eu me tornei o homem mais temido deste território, foi para garantir que meus filhos tivessem a liberdade que nós não tivemos.

Sua mão subiu até o meu rosto, o polegar acariciando a minha bochecha com doçura.

— E eu também te devo um pedido de desculpas — disse ele, desfiando um suspiro pesado. — Eu perdi o controle na sala de jantar. Não devia ter gritado com você daquele jeito.

Deitei a cabeça no travesseiro novamente, deixando que o toque dele me envolvesse.

— Você me assustou — confessei num fio de voz.

— Eu sei — respondeu Jacob, inclinando-se para selar meus lábios com um beijo demorado, calmo e carregado de carinho. — Me desculpa, meu amor. Eu não vou gritar com você de novo.

Apertei o corpo contra o dele, escondendo o rosto na curva do seu pescoço. Senti a respiração dele desacelerar, o ritmo ritmado do seu coração me envolvendo em uma sensação de segurança que parecia um oásis no meio de tanto caos.

Mas o meu próprio peito continuava inquieto, acelerado por um segredo que queimava na minha garganta.

Minha mão, que repousava no peito dele, deslizou devagar para baixo, descendo pelo abdômen definido de Jacob até parar sutilmente sobre a curva da minha própria barriga, ainda plana sob o lençol.

Um frio na espinha percorreu meu corpo. As semanas de atraso, os enjoo sutis que eu vinha tentando disfarçar nos plantões do hospital, a confirmação silenciosa que eu obtivera naquela mesma manhã antes de ir até Rachel... Tudo estava ali, pulsando dentro de mim.

Eu estava grávida.

Um novo bebê. Um novo pedaço de nós dois prestes a vir ao mundo em meio à iminência de uma nova guerra no submundo.

A exaustão me dominava, mas o pânico de pensar na reação dele travava a minha língua. Como eu contaria aquilo a Jacob? Os gêmeos já tinham dezoito anos, totalmente inseridos nas complexidades e perigos da vida adulta, Noah marchando para a linha de frente do império e Sarah lutando com unhas e dentes por sua autonomia. Nós há tínhamos passado da fase de criar uma criança; nosso mundo estava consolidado, perigoso e instável.

Trazer uma nova vida para aquela casa, exatamente no momento em que a estrutura da família parecia prestes a racha sob a pressão dos negócios de Jacob, era um pesadelo e uma bênção que eu não sabia como gerenciar.

Jacob percebeu a mudança no meu ritmo respiratório. Sua mão pesada subiu pelas minhas costas, apertando-me com mais firmeza contra seu corpo.

— O que foi, Nessie? — murmurou ele, a voz rouca de sono contra meus cabelos. — Você ainda tá assustada?

Engoli em seco, fechando os olhos com força na penumbra do quarto, sentindo o peso invisível daquela nova vida entre nós.

— Não... — menti num fio de voz, mantendo a mão firmemente acolhida sobre meu ventre. — Só tô cansada, Jake. Só preciso descansar.

Ele suspirou, beijando o topo da minha cabeça sem desconfiar da tempestade que começava a se formar no meu silêncio. Puxei o cobertor até os ombros, me afundando no abraço dele enquanto o terror e a ternura se misturavam na escuridão.

•••

O som continuo da água quente caindo contra o box de vidro preenchia o banheiro espaçoso. Quando abri os olhos naquela manhã, o lado de Jacob na cama já estava frio, marcado apenas pela impressão do seu corpo no lençol. O Don de Seattle nunca dormia até mais tarde, especialmente quando a cidade exigia sua presença logo nas primeiras horas do dia.

Deixei a água escorrer pelas minhas costas, fechando os olhos e tentando afastar a névoa de exaustão que ainda pesava sobre mim. Minha mão desceu involuntariamente para a barriga, alisando a pele quente sob o vapor do chuveiro. O segredo continuava ali, silencioso e avassalador.

A porta de vidro do box deslizou devagar.

Abri os olhos a tempo de ver Jacob entrar, completamente nu, a água atingindo seus ombros largos e fazendo a pele morena brilhar instantaneamente. Ele não disse uma palavra; a intensidade nos olhos escuros dizia tudo.

— Pensei que você já estivesse no escritório com o Sam — murmurei, a voz um pouco rouca, enquanto a água molhava nossos corpos.

— O escritório pode esperar mais meia hora — respondeu Jacob, a voz grave ressoando no espaço pequeno.

Ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre nós e envolvendo minha cintura com os braços fortes. O calor da pele dele misturado à água quente fez meu corpo estremecer por hábito. Ele puxou meu quadril contra o dele, alinhando nossos corpos com uma urgência possessiva que eu conhecia bem. Jacob curvou o pescoço, encostando a testa na minha enquanto suas mãos subiam pelas minhas costas molhadas, prontas para retomar a paixão da noite anterior.

— Jake... eu preciso me arrumar pro hospital... — tentei balbuciar, sem muita convicção, enquanto os lábios dele buscavam a curva do meu pescoço

— O hospital não vai a lugar nenhum, Nessie — sussurrou ele contra a minha pele, a boca quente traçando um caminho lento até a minha saboneteira.

Ele se inclinou mais, esfregando o rosto no meu ombro e trazendo consigo o aroma concentrado do sabonete e do produto de barbear que usara minutos antes na pia: uma essência forte, amadeirada, com notas intensas de âmbar e especiarias que ele sempre usava.

O cheiro atingiu minhas narinas com a força de um soco.

No mesmo segundo, uma onda violenta de náusea subiu pela minha garganta, revirando meu estômago de forma incontrolável. O ar pareceu faltar no box.

— Jacob, não... — exclamei, a voz falhando em pânico.

Empurrei o peito dele com força súbita, desvencilhando-me do seu abraço de forma bruta. Abri a porta de vidro do box aos trancos, sem me importar com a água que espirrava pelo chão de mármore, e me ajoelhei desesperada em frente ao vaso sanitário, colocando tudo para fora em golfadas dolorosas.

Jacob ficou estático por um segundo no chuveiro, chocado pela rejeição repentina, antes de desligar a água e sair rapidamente atrás de mim, a expressão mudando instantaneamente da fúria desejosa para uma preocupação genuína e alerta.

— Nessie! — ele se ajoelhou ao meu lado no chão frio, segurando meus cabelos molhados para trás com uma mão e apoiando meu ombro com a outra. — O que foi?! O que aconteceu?!

Continuei debruçada, a respiração entrecortada, tentando me recuperar enquanto o suor frio cobria minha pele.

— É que... o meu estômago já acordou revirado. Deve ter sido alguma coisa do jantar de ontem. Aquele molho... acho que não me caiu bem.

Jacob continuou ajoelhado ao meu lado, os olhos escuros e afiados me analisando de cima a baixo com uma atenção minuciosa, tentando decifrar se havia algo mais por trás daquela palidez repentina.

— O molho? — repetiu ele, a voz ainda desconfiada, mas o tom aos poucos mudando para uma preocupação pura. Ele estendeu a mão e tirou uma mecha de cabelo molhado do meu rosto, tocando minha testa com a palma quente para checar minha temperatura. — Você não tá com febre, mas tá pálida feito um fantasma, Nessie.

— É só uma indisposição, Jake... — tentei soltar um riso fraco, sem graça, desviando o olhar para não denunciar o nervosismo. — A água quente do chuveiro só abafou o ambiente e piorou o enjoo.

Ele soltou um suspiro pesado, a tensão no seu corpo finalmente cedendo. Jacob me pegou nos braços sem esforço, me tirando do chão frio e me sentando na borda da banheira, antes de pegar uma toalha seca e começar a enxugar meus ombros com um cuidado quase maternal.

— Esquece o hospital hoje — ordenou ele, o tom de Don voltando com firmeza, mas transbordando zelo. — Você vai voltar pra cama e descansar. Eu vou mandar prepararem um chá leve pra você antes de ir pro escritório.

— Jake, eu posso trabalhar... — comecei a protestar por instinto.

— Você não vai a lugar nenhum nesse estado — cortou ele, selando minha testa com um beijo demorado e quente. — Fica quieta e cuida de você.

Olhei para ele enquanto ele se afastava para pegar uma toalha para si, sentindo o peito disparado. A desculpa do jantar tinha funcionado, mas o tempo estava correndo contra mim. O meu corpo já começava a dar os primeiros sinais, e esconder aquela nova vida de Jacob seria uma batalha que eu não conseguiria travar por muito tempo.

•••

A porta do quarto se abriu devagar. Noah e Sarah entraram, ambos vestindo roupas confortáveis, mas com expressões completamente opostas nos rostos.

Noah, parecia uma cópia exata do pai. A postura ereta, o olhar analítico e a aura pesada de quem já carregava a responsabilidade de um mafioso do alto escalão faziam com que ele parecesse anos mais velho. Ele se encostou no batente da porta, com as mãos nos bolsos da calça, rastreando cada detalhe do quarto e da minha fisionomia como se estivesse avaliando um perímetro de segurança.

Já Sarah trazia a doçura e a sensibilidade que eu tanto lutara para preservar nela. Ela correu até a borda da cama, sentando-se ao meu lado com os olhos cheios de uma preocupação genuína e dócil, a mesma expressão que eu costumava ver no espelho.

— Mãe... o pai disse que você passou mal no banheiro — murmurou Sarah, segurando a minha mão com delicadeza. — Você tá sentindo dor? Quer que eu pegue um remédio na farmácia?

— Não precisa, minha linda — sorri fraco, acariciando os dedos dela. — Foi só um mal-estar bobo. Alguma coisa que não caiu bem no estômago.

— Você não devia ter ido trabalhar ontem — interveio Noah, a voz grave e pausada, surpreendentemente parecida com a de Jacob quando ditava ordens — Você se exige demais, mãe. O meu pai tem estrutura suficiente para você não precisar se matar num plantão de hospital. A família precisa de você bem aqui dentro.

Olhei para o meu filho, sentindo um aperto agridoce no peito ao ver o quanto a mentalidade do pai já estava enraizada nele: para Noah, a proteção da família e a lealdade ao clã vinham acima de qualquer outra coisa no mundo.

Nesse momento, Jacob cruzou a porta do quarto. Ele já estava vestido com um terno escuro impecável, abotoando os punhos da camisa. A presença dele fez Noah se aprumar no mesmo instante, adotando a postura de um segundo no comando.

— Vamos, Noah. O Sam já tá esperando a gente no galpão do porto para revisar a carga da manhã — disse Jacob, a voz firme.

— Tô pronto, pai — respondeu Noah, ajustando o casaco e postando-se ao lado dele sem hesitar.

Jacob caminhou até a beirada da cama, inclinando-se para dar um beijo demorado na minha testa. O cheiro do sabonete ainda estava lá, mas o ar gelado do quarto ajudava a conter a náusea.

— Fica aí quietinha — murmurou ele contra a minha pele, o olhar demorado e protetor.

Em seguida, Jacob se virou para Sarah, que nos observava em silêncio.

— Sarah — chamou o Don, a autoridade cortando o tom carinhoso de antes. — Você não vai para a faculdade hoje.

Sarah abriu a boca para contestar, mas a rigidez no rosto do pai a fez guardar as palavras.

— Você vai ficar em casa e de olho na sua mãe — ordenou Jacob, olhando de Sarah para mim com um aviso implícito. — Se ela tentar inventar de levantar dessa cama para ir trabalhar ou sair de casa, você me liga na hora. Entendido?

— Entendido, pai... — respondeu Sarah baixinho, assentindo com a cabeça.

— Bom — Jacob deu um leve tapa no ombro de Noah, sinalizando para o filho segui-lo. — Qualquer coisa, me liguem.

Assisti aos dois homens da minha vida — o Don atual e o homem que Noah estava se tornando — saírem do quarto com passos pesados e sincronizados. Quando a porta se fechou, olhei para Sarah, que me encarava com um sorriso tímido e cúmplice, ciente de que a tarefa de me manter presa naquela cama não seria nada fácil.

— Mãe... agora que eles saíram, fala a verdade — pediu Sarah, num tom baixo e doce, apertando a minha mão entre as dela. — O que está acontecendo de verdade com você?

Senti o peito dar um nó. Tentei desviar o olhar para a janela, puxando o edredom um pouco mais para cima enquanto forçava um sorriso cansado.

— Eu já disse, Sarah. Foi só alguma coisa que comi ontem à noite que não caiu bem — tentei desconversar, mantendo a voz o mais firme possível. — Você sabe como meu estômago fica sensível quando fico muito tempo sem comer no plantão. Não é nada para se preocupar.

— Mãe, para — interrompeu ela carinhosamente, com um meio sorriso que mostrava o quanto me conhecia. — Você não está doente. Você está grávida.

O ar congelou nos meus pulmões. Olhei para a minha filha em choque absoluto, o estômago despencando como se o chão sob a cama tivesse sumido.

— O quê...? — balbuciei, a voz falhando por completo. — Sarah, do que você está falando...

— Mãe, não adianta tentar esconder de mim — disse ela, mantendo a serenidade, embora os olhos dela brilhassem com uma mistura de emoção e cumplicidade. — Eu presto atenção em você. Nas últimas três semanas você teve tonturas sutis no hospital quando se levantava rápido demais da bancada. Vi você empurrando a comida no prato no almoço de domingo, comendo metade do que costuma comer. E agora essa náusea do nada de manhã... Os sinais são claríssimos, mãe. Você é enfermeira, sabe que a lista de sintomas bate perfeitamente.

Fiquei estática, a boca entreaberta, sem conseguir articular uma única defesa.

— A verdade é que só o pai não percebeu ainda — completou Sarah, soltando um risinho fraco e carinhoso. — Ele vive tão cego tentando proteger todo mundo e gerenciando o império dele que não enxerga o que está debaixo do próprio nariz. Mas eu vi. E acho que Noah tem suspeitas também, só não quer falar em voz alta.

Soltei um suspiro trêmulo, cobrindo o rosto com as duas mãos enquanto as lágrimas de alívio e pavor finalmente transbordavam. Sarah me abraçou de lado, deitando a cabeça no meu ombro, me acolhendo no mesmo silêncio em que eu tantas vezes a acolhera.

— Eu tô com tanto medo, meu amor — murmurei, secando uma lágrima que escorria pela bochecha. — Faz tanto tempo... Dezoito anos, Sarah. Nós já tínhamos passado por essa fase. Você e o Noah já são adultos, o mundo do seu pai tá mais perigoso do que nunca, e a ideia de trazer um bebê para o meio desse caos de novo me apavora.