Filha da guerra
66 62. Londres • Jacob Black
Notas iniciais
18 de Junho de 2013
O sol de fim de tarde banhava o jardim dos fundos da nossa propriedade nos arredores de Londres, cobrindo o gramado verde e impecável com uma luz dourada e acolhedora. O som de risadas infantis misturava-se ao tilintar de copos de cristal e à música suave que saía das caixas de som espalhadas pela varanda.
Nenhum homem armado nas portas. Nenhuma sombra de carros suspeitos na esquina. Apenas a paz que eu havia prometido a Renesmee dez anos atrás.
— Noah! Não corre perto da piscina! — a voz de Nessie ecoou pela varanda, doce e firme.
Olhei na direção dela e senti o mesmo impacto no peito que sentia desde a primeira vez que a vi. Ela estava radiante num vestido leve de verão, o cabelo acobreado brilhando sob a luz do sol, segurando uma bandeja com taças de suco. O ferimento no abdômen era apenas uma cicatriz pálida que há muito deixara de doer, e os olhos dela transbordavam a serenidade de quem finalmente vivia a vida dos sonhos.
— Deixa o garoto, Nessie! É aniversário dele! — zoou Paul, surgindo de dentro da casa com uma garrafa de cerveja na mão, rindo alto enquanto arrumava a camisa social dobrada até os cotovelos.
Parte da nossa família havia viajado de Seattle especialmente para o aniversário de doze anos dos gêmeos. Rebecca, que assumira oficialmente a liderança da organização após a nossa partida, conversava animadamente com Emily e Sam perto da churrasqueira. Os filhos de Quil e Claire brincavam de passear com os cachorros no fundo do quintal, enquanto Sarah, agora uma mocinha de doze anos com os mesmos traços marcantes da mãe, tentava organizar os presentes na mesa principal.
— Doze anos, cara... — Sam se aproximou de mim, encostando na mureta da varanda e observando Noah tentar acertar uma bola de futebol no gol improvisado no gramado. — O garoto tá a sua cara.
— Espero que apenas na aparência — respondi num tom baixo, dando um gole no meu uísque. — A cabeça dele é mil vezes melhor do que a minha era na idade dele.
— Falando nisso... — Sam inclinou-se ligeiramente, baixando o tom de voz para que ninguém ao redor ouvisse. — A Rebecca trouxe os relatórios da operação no porto de Vancouver. O conselho dos conselheiros locais tentou criar atrito com os carregamentos na semana passada, mas o nome do Don ainda pesa o suficiente. Ela seguiu a sua instrução e cortou os suprimentos deles. O problema foi resolvido antes mesmo de virar guerra.
— Ótimo — murmurei, a expressão tornando-se fria por um milésimo de segundo, o olhar calculista do antigo Don de Seattle ressurgindo nas sombras antes que eu me recompusesse. — Mantém a linha de abastecimento limpa. Se eles tentarem se mexer de novo, Rebecca sabe o que fazer. Mas não quero que nenhum estilhaço dessa conversa chegue ao conhecimento da Nessie.
Para Renesmee, para os nossos filhos, eu era apenas Jacob Black: um empresário , investidor imobiliário de sucesso e um pai de família dedicado que havia deixado para trás o império de sangue e violência para viver na Inglaterra. Ela acreditava piamente que Rebecca governava Seattle com total autonomia e que a nossa vida de lá fora completamente trancada no passado.
Ela só não sabia que uma aranha nunca deixa de controlar a sua teia. Eu podia ter me mudado para o outro lado do oceano, mas o trono de Seattle ainda me pertencia em segredo, mantido sob rédeas curtas através das ordens silenciosas que eu enviava para Rebecca todas as semanas. A diferença era que, agora, o sangue e as decisões brutais ficavam a milhares de quilômetros de distância, blindando a minha casa de qualquer ameaça.
— Jake! — a voz de Nessie me tirou dos meus pensamentos.
Ela veio caminhando pela grama, sorrindo, e se encaixou entre os meus braços. Ajeitou a gola da minha camisa com carinho e encostou a cabeça no meu peito, fechando os olhos por um segundo para curtir o abraço.
— O que você e o Sam estão segredando aí com essa cara séria? — perguntou ela, erguendo o rosto e me encarando com aqueles olhos claros que continuavam sendo a minha única fraqueza. — Não me diga que estão discutindo futebol no meio da festa dos meninos?
Pressionei um beijo demorado na testa dela, sentindo o cheiro familiar de lavanda e baunilha que exalava da sua pele, envolvendo a cintura dela com o braço.
— Nada disso, meu amor — menti com uma facilidade impecável, abrindo um sorriso sincero ao ver Noah correr na nossa direção para nos puxar para a mesa do bolo. — Estávamos só comentando como o tempo voou... e como você continua sendo a mulher mais linda deste mundo.
Nessie deu um riso baixo, dando um leve tapa no meu peito antes de me puxar pela mão em direção à família reunida ao redor da mesa.
Enquanto todos começavam a cantar parabéns para os meus filhos sob o céu azul de Londres, apertei a mão de Renesmee contra a minha. O Don de Seattle continuava vivo nas sombras, protegendo o império à distância; mas ali, sob a luz daquele jardim, eu era exatamente o homem que ela tinha salvo naquele hospital dez anos atrás.
O som estridente do toque do telefone de Sam cortou o clima descontraído da varanda. Ele franziu o cenho ao olhar para a tela, dando dois passos para longe da mesa do bolo antes de atender.
— Fala, Maya — disse Sam, a voz inicialmente tranquila. Mas, à medida que ouvia a filha do outro lado da linha, a postura dele mudou drasticamente. As costas endureceram, o copo de cerveja foi esquecido sobre o parapeito e o rosto dele perdeu a pouca cor que tinha. — Como assim? Tem certeza disso?... Quem estava no comando da escolta?
Senti o ar congelar ao meu redor. Um arrepio frio subiu pela minha espinha. Apenas com aquele olhar que Sam me lançou por cima do ombro, eu já sabia.
— Desligou — murmurou Sam, caminhando a passos rápidos até mim. Rebecca, Paul e Quil se aproximaram no mesmo instante, sentindo a mudança abrupta de energia. — Explodiram o depósito principal do porto de Vancouver. O carregamento de armas e diamantes vindo da Ásia... foi tudo pro ar. Dois dos nossos homens morreram na hora.
— Puta que pariu — rosnou Paul baixinho, os punhos se fechando.
— Foi um ataque coordenado — continuou Sam, a voz num tom terrivelmente baixo. — A Maya disse que os sobreviventes viram a marca dos remanescentes dos Volturi. Eles estão se reorganizando.
Rebecca deu um passo à frente, os olhos brilhando em puro pavor e fúria. A aura de festa na casa simplesmente ruiu. Em uma fração de segundo, o instinto de guerra que mantínhamos adormecido há uma década despertou em cada um dos homens ali presentes.
— Escritório. Agora — ordenei, mantendo a voz firme e fria como aço, o Don assumindo o controle antes que o pânico se alastrasse. — Paul, fecha as cortinas da sala. Quil, checa o perímetro externo. Ninguém entra e ninguém sai.
Enquanto os homens e Rebecca começavam a se movimentar em direção à casa, afastei-me por um instante para pegar a chave do escritório no corredor lateral, perto da biblioteca.
Foi quando ouvi a discussão acalorada dobrando a esquina.
Renesmee tentava avançar em direção aos homens, a voz trêmula pelo pavor de ver a história se repetindo, mas Claire segurava o braço dela com força perto da porta de entrada.
— Solta o meu braço, Claire! Precisamos ligar pra segurança ou ver o que a Rebecca vai fazer! — a voz de Nessie estava alterada, o pânico estampado no rosto. — O Jacob não pode se meter nisso! Ele largou essa vida há dez anos, ele não tem mais nada a ver com essa guerra!
— Nessie, para! Por favor, para e escuta o que você tá dizendo! — pediu Claire, a voz embargada, exausta de sustentar a encenação pela qual todos fomos cúmplices durante uma década.
— Do que você tá falando?! O Jacob cumpriu a promessa dele! Ele deixou tudo pra Rebecca!
— O Jacob nunca deixou de ser o Don, Renesmee! — disparou Claire num tom rasgado, cortante, que fez o silêncio pesar no corredor. — Ele nunca largou o comando! Ele governa Seattle daqui, toda semana, todos os dias! Ele sempre teve a ver com isso!
Parei petrificado a dois passos delas, na penumbra do corredor.
Nessie congelou. A cor sumiu completamente do rosto dela, os lábios entreabertos num choque profundo à medida que as palavras de Claire perfuravam a ilusão de dez anos. Devagar, o olhar de Renesmee se desviou de Claire e subiu na minha direção, me encontrando parado ali, em silêncio.
Os olhos dela, antes cheios da paz que construímos em Londres, agora me encaravam com um misto devastador de traição.
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