Filha da guerra

67 63. Nossa vida em Londres • Renesmee



A porta pesada do escritório finalmente se abriu no topo da escada, quebrando o silêncio tenso que pairava na casa.

Horas haviam se passado desde a ligação de Maya. Na sala de estar iluminada por lâmpadas amareladas e aconchegantes, o ambiente parecia quase normal, um cenário cuidadosamente montado para blindar os gêmeos. Noah estava sentado no tapete felpudo, concentrado no controle do videogame com os fones de ouvido no pescoço, o som da TV num volume baixo.

Eu estava no sofá, com o peito apertado e as mãos trêmulas, mas forçando um sorriso no rosto enquanto ajudava Sarah a arrumar as joias e pequenas caixas de presentes que ela havia ganhado da família.

— Olha essa, mãe... a tia Rebecca disse que era da vovó — disse Sarah, segurando uma correntinha de ouro delicada contra o pescoço.

— É linda, meu amor... combina perfeitamente com você — respondi, minha voz saindo quase automática, o olhar perdido no reflexo do espelho da parede.

O som de passos firmes descendo a escadaria me fez congelar por meio segundo.

Jacob surgiu no hall de entrada. Ele havia tirado a jaqueta e dobrado as mangas da camisa social, mas a rigidez na sua postura e o olhar sombrio no rosto entregavam o peso do que acabara de ser decidido lá em cima. Ao ver que eu estava na sala com as crianças, ele parou na soleira da porta, mantendo a distância.

— Noah, Sarah... — chamou Jacob, a voz mantida num tom surpreendentemente calmo e afetuoso, mascarando perfeitamente o monstro que eu acabara de descobrir que continuava vivo nele. — Já tá tarde. Hora de arrumar as coisas do aniversário e subir pros quartos. Amanhã tem aula cedo.

— Ah, pai, só mais dez minutos! O jogo tá na metade — reclamou Noah, sem tirar os olhos da tela.

— Noah. Agora — ordenou Jacob, num tom calmo, mas que não aceitava réplica.

O garoto suspirou, desligou o console e começou a recolher os jogos. Sarah guardou as caixinhas na bolsa de presentes, deu um beijo no meu rosto e depois no de Jacob antes de subir a escada acompanhada do irmão.

Assim que o som da porta do quarto deles se fechou no andar superior, o ar da sala pareceu sumir por completo.

A farsa ruiu em um segundo. Deixei o colar que segurava cair sobre a mesa de centro com um estalo seco. Levantei-me do sofá devagar, sentindo as lágrimas de raiva e traição queimarem no fundo dos meus olhos enquanto encarava o homem com quem eu compartilhei a minha vida e a minha cama durante os últimos dez anos.

Jacob deu um passo na minha direção, o olhar carregado de uma apreensão silenciosa.

— Nessie... — começou ele, erguendo as mãos num gesto cauteloso.

— Não fala meu nome — interrompi, a voz saindo num tom baixo, denso e venenoso. — Não dá mais um passo na minha direção, Jacob.

Jacob travou no meio da sala, as mãos ainda suspensas no ar. Por um segundo, vi a fraqueza passar por aqueles olhos negros, mas logo a postura rígida de quem sempre esteve no controle tentou se reestruturar.

— Renesmee, me escuta — começou ele, a voz num tom baixo, urgente, quase um rosnado contido para não ecoar até o segundo andar. — Eu sei o que você ouviu. Eu sei o que você tá pensando. Mas você precisa entender como as coisas funcionam de verdade.

— Como funcionam de verdade?! — soltei um riso seco, sem um pingo de humor, sentindo as lágrimas finalmente escorrerem quentes pelo meu rosto. — Você quer me explicar o submundo, Jacob? De novo?! Eu passei dez anos acreditando que você tinha largado aquela nojeira! Dez anos achando que a gente tinha construído uma vida limpa em Londres! E era tudo uma farsa. Cada sorriso seu, cada viagem, cada abraço... tudo financiado pelo sangue de Seattle!

— Não era uma farsa! — rebateu ele, dando um passo rápido à frente, a voz subindo de tom pela primeira vez. — A nossa vida aqui é real! A segurança dos nossos filhos é real! Você acha o quê, Renesmee? Que se eu simplesmente assinasse um papel e virasse as costas, aqueles desgraçados em Seattle iam nos deixar em paz?! Que os inimigos que eu acumulei numa vida inteira iam esquecer que você e os gêmeos existem?!

— Você prometeu! — gritei num sussurro desesperado, dando dois passos para trás, me afastando dele. — No hospital! Quando eu tava morrendo naquela mesa de cirurgia! Você jurou que ia deixar o trono pra Rebecca, que ia viver só como pai e marido!

— E eu dei a vida que você queria! — esbravejou Jacob, os punhos fechados ao lado do corpo, o peito subindo e descendo com violência. — Eu te dei a casa sem cercas elétricas, a liberdade pros nossos filhos correrem no gramado, a paz que você sempre sonhou! Mas pra manter essa ilusão intacta, alguém tinha que continuar com a mão no gatilho! A Rebecca é forte, mas Seattle ruiria em três meses sem a minha liderança nas sombras. E quando o império caísse, a próxima parada deles seria essa porta!

Ele se aproximou mais, o olhar desesperado, implorando pela minha compreensão com uma lógica perversa.

— Tudo o que eu fiz... cada ordem, cada relatório que eu assinei naquele escritório enquanto você dormia... foi por você! Foi pra garantir que nenhum filho da puta chegasse perto do Noah ou da Sarah! Eu não fiz isso por poder, Nessie. Eu fiz porque não existia outra solução! Se o preço da sua paz era eu carregar a sujeira sozinho no escuro, eu pagaria mil vezes!

— Não coloca a culpa da sua ganância na minha paz! — esbravejei, o choro me sufocando. — Você não fez isso por mim! Você fez porque você ama o controle, Jacob! Você ama ser o Don! Você preferiu mentir na minha cara durante uma década inteira a ter que abrir mão do seu império de sangue!

— Eu fiz por amor! — urrou ele, gesticulando com fúria contida, os olhos vermelhos de tensão. — Amor pela minha família! Você não tem noção do que é o mundo lá fora, Renesmee! Você vive nesse casulo de flor porque EU mantenho a guerra a dez mil quilômetros de distância!

— Então o seu amor é uma prisão! — decretei, a voz quebrando. Encarei o homem à minha frente, sentindo um abismo intransponível se abrir entre nós. — Você me usou há dez anos como farsa numa guerra, e continuou usando a minha vida como farsa dentro da minha própria casa. Eu não conheço você, Jacob. O homem com quem eu me casei... simplesmente não existe.

A palavra “monstro” nem precisava ser dita para que a sentença caísse sobre mim. A declaração de que o homem com quem eu me casara não existia destruiu a última barreira de controle que Jacob tentava manter.

O ar sumiu da sala. Os olhos dele se fecharam por um segundo e, quando se abriram, a fraqueza e a submissão deram lugar a uma frieza absoluta, perigosa e descontrolada.

— Não conhece? — rosnou ele, a voz saindo tão baixa que parecia vir do fundo da terra. — Você quer conhecer de verdade, Renesmee? Então você vai ver o homem com quem você é casada.

Antes que eu pudesse dar mais um passo para trás ou gritar, Jacob avançou e agarrou meu pulso. Não com força suficiente para me machucar, mas com a firmeza inquebrável de um metal trancado.

— Me solta! Jacob, me solta! — protestei, tentando me desvencilhar em pânico, mas ele me puxou pela sala, ignorando meus impulsos, e subiu os degraus da escada a passos largos.

— Você vai ver a verdade — ordenou ele, me arrastando pelo corredor do segundo andar até o seu escritório.

Entramos no cômodo. Ele bateu a porta pesada de carvalho e passou a chave na fechadura. Cambaleei para trás, massageando meu pulso, os olhos arregalados de horror enquanto o encarava perto da mesa de madeira.

— Você enlouqueceu de vez?! O que você tá fazendo?! — minha voz tremia, o choro preso na garganta.

Sem responder, Jacob caminhou até a imensa estante de livros de mogno que cobria a parede do fundo. Ele alcançou o painel oculto por trás de uma fileira de encadernações antigas e digitou a senha no teclado numérico. O estalo metálico ressoou pelo quarto, e a estrutura pesada da estante se deslocou para a frente, deslizando em um trilho silencioso e revelando uma passagem estreita.

Ele puxou a porta blindada e acendeu a luz do compartimento secreto. A iluminação fria de LED revelou uma sala pequena, sem janelas, impregnada pelo cheiro de papel impresso, metal e graxa de arma.

— Entra — ordenou ele.

— Não... — neguei com a cabeça, recuando até bater as costas na mesa. — Eu não vou entrar aí.

Jacob pegou na minha mão novamente, sem dar margem para escolha, e me puxou para dentro do bunker oculto. Prendi a respiração, meu olhar correndo em pânico pelas paredes cobertas de quadros de avisos, pastas confidenciais, relatórios de inteligência, monitores de vigilância em tempo real e dezenas de pastas etiquetadas por datas e nomes.

Em cima da bancada central, pastas abertas mostravam fotografias. Fotografias minhas.

— Você achava que essa casa em Londres era protegida por sorte? Por um anjo da guarda? — começou ele, a voz rasgada, pegando um maço de documentos de cima da mesa e jogando na minha frente. — Olha isso, Renesmee! Olha!

Abaixei os olhos, trêmula. A primeira foto mostrava a fachada da clínica comunitária onde eu trabalhara como enfermeira voluntária durante os primeiros anos em Londres. Em destaque, um homem de casaco escuro parado do outro lado da rua. Na foto seguinte, o mesmo homem estirado no chão de um beco, com um tiro na testa.

— Março alguns anos após chegarmos aqui, depois de você se formar. — murmurou Jacob, a voz tremendo de fúria contida. — Enquanto você achava que estava exercendo a sua “profissão honesta” cuidando de velhinhos, esse desgraçado, um infiltrado dos mercenários de Vancouver, passou três dias rastreando a sua rotina. Ele sabia o horário que você saía, o caminho que fazia até o ponto de ônibus. Ele morreu numa vala a quatro quadras do seu hospital antes de conseguir puxar um canivete da jaqueta.

Dei um passo para trás, cobrindo a boca com a mão. Meu olhar pulava desorientado de foto em foto.

Ele puxou outra pasta, jogando mais relatórios diante de mim.

— Outubro do mesmo ano. Você lembra quando a escola dos gêmeos ficou sem aula por dois dias por causa de um suposto “vazamento de gás”? — Jacob chegou mais perto de mim, a sombra da sua figura cobrindo a bancada. — Não teve vazamento nenhum. Um comboio com três homens armados foi interceptado no cruzamento da avenida principal por Paul e Quil a mando meu. Nós limpamos o asfalto antes do sinal ficar verde. E você... você achou que era paranoia da sua cabeça quando sentiu aquele cheiro de queimado no ar enquanto levava o Noah e a Sarah pra tomar sorvete!

As peças começaram a se encaixar na minha mente com a violência de uma avalanche.

Minha mente voltou no tempo, resgatando cada detalhe que eu tentara sufocar ao longo dos anos. Os carros que eu jurava ver estacionados na mesma esquina e que sumiam no dia seguinte... As vezes em que Jacob chegava tarde da noite alegando “reuniões de negócios” e cheirando a um perfume forte demais, que na verdade mascarava o odor de antisséptico ou pólvora... Os pequenos sustos que eu julgava serem fruto do meu estresse pós-traumático do confronto de dez anos atrás.

Tudo aquilo que eu tentara convencer a mim mesma de que era ilusão, pavor infundado ou paranoia de uma mente traumatizada... era real.

Cada detalhe. Cada suspeita. Cada arrepio na espinha.

— Meu Deus... — sussurrei, minhas pernas fraquejando tanto que precisei me apoiar na borda da bancada. A cor sumiu do meu rosto por completo. — Não era... não era coisa da minha cabeça.

— Nunca foi coisa da sua cabeça — respondeu ele, apontando para o painel de monitores que mostrava o perímetro externo da casa em tempo real, com sensores térmicos e dados de satélite. — Você viveu a sua vida perfeita, fez o seu trabalho, criou os nossos filhos numa bolha de vidro... porque enquanto você fingia que o mundo era um lugar bonito, eu estava aqui dentro, neste buraco, caçando e matando qualquer ameaça que ousasse olhar na direção da minha família.

Olhei para as mãos de Jacob. As mesmas mãos que me acariciavam à noite, agora associadas às fotografias de corpos, relatórios de execuções e rastreamentos sangrentos que cobriam a sala.

O silêncio no bunker ficou sufocante. A névoa da negação se desfizera por completo, e eu finalmente enxergava a dimensão da gaiola invisível em que vivera durante toda a última década.

Apoiei as mãos na borda da bancada de metal, sentindo a superfície fria contracenar com o calor sufocante do meu rosto. As fotografias sob meus olhos pareciam borradas pelas lágrimas, mas as imagens de corpos, relatórios de vigilância e a certeza da farsa continuavam nítidas demais na minha mente.

— E agora...? — perguntei, a voz saindo num fio fraco, quase rasgado. Levantei o olhar devagar para encarar o homem na minha frente. — O que vai acontecer agora, Jacob? Você vai continuar me trancando aqui dentro? Vai fingir que nada mudou e me mandar subir pro quarto como se nada tivesse acontecido?

Jacob não piscou. Ele cruzou os braços sobre o peito, a postura ereta do Don reassumindo cada centímetro da sua presença no pequeno bunker. O ar de marido devoto e arrependido evaporara por completo; restara apenas a figura fria do homem que tomava as decisões cruéis que o resto de nós tentava ignorar.

— Não — respondeu ele, a voz baixa, firme e implacável. — A brincadeira de casinha em Londres acabou, Renesmee. Nós vamos voltar para Seattle.

A palavra caiu entre nós como um golpe seco.

— O quê...? — dei um passo para trás, chocando as costas contra o painel de monitores. — Ficou louco?! Voltar pra Seattle? Depois de tudo o que a gente construiu aqui? Depois de dez anos?!

— Nós precisamos voltar — cortou ele, dando um passo curto na minha direção, sem alterar o tom. — A explosão em Vancouver foi um aviso claro. Os remanescentes dos Volturi sabem que eu estou gerenciando as coisas à distância. Eles acham que o Don ficou fraco porque se escondeu do outro lado do oceano numa mansão de luxo. A autoridade da Rebecca em Seattle tá sendo testada agora. Se eu não colocar os pés naquele lugar pessoalmente e mostrar que a ordem ainda é minha, essa guerra estoura na porta desta casa em questão de semanas.

— Não! Nós não vamos! — expressei meu pânico num sussurro desesperado, balançando a cabeça. — Eu não vou levar os meus filhos de volta praquele inferno! Eles vivem aqui, cresceram aqui! Eles têm amigos, escola... Eles não sabem de nada!

— Eles vão ter que saber — disparou Jacob, o tom cortante fazendo minha espinha gelar. — Não dá mais pra esconder a verdade das crianças, Nessie. Principalmente do Noah.

Travei no mesmo instante. O ar sumiu dos meus pulmões.

— Do Noah...? — murmurei, a voz falhando, o choque me paralisando por inteiro. — Do que você tá falando, Jacob? Ele tem doze anos! Ele é uma criança!

— Ele ainda só tem doze anos e é o meu primogênito — corrigiu Jacob, a expressão dura, sem um pingo de hesitação nos olhos negros. — Mas logo terá idade o suficiente, e precisa entender o peso do sobrenome dele.

— NÃO! — o grito rasgou a minha garganta, e eu me atirei contra o peito dele, empurrando-o com toda a força que eu tinha naquelas mãos trêmulas. — No meu filho não! Você não vai transformar o meu menino num assassino como você! Eu não vou deixar!

Jacob segurou os meus dois pulsos no ar com uma facilidade esmagadora, prendendo minhas mãos junto ao seu peito pesado. Ele não se moveu um milímetro com o meu empurrão, apenas curvou o corpo sobre o meu, os olhos queimando com uma intensidade aterrorizante.

— Ele é meu filho também, Renesmee! — rosnou ele contra o meu rosto, o hálito quente e a voz ríspida ecoando pelas paredes blindadas da sala. — E se ele não aprender a atirar, a liderar e a reconhecer um inimigo antes que o tiro venha, ele vai virar alvo! Você quer que ele continue vivendo num conto de fadas até o dia em que invadirem o quarto dele e colocarem uma arma na cabeça dele porque o pai dele não teve peito pra ensinar ele a se defender?!

As lágrimas escorriam sem parar pelo meu rosto enquanto eu tentava, inutilmente, me soltar do seu aperto.

— Ele é só um garoto... ele tava jogando videogame agora há pouco na sala, Jacob... — supliquei, a voz quebrando num choro convulsivo, meu orgulho e minha raiva se transformando em puro pavor materno. — Por favor... não faz isso com ele.

— Não pense nisso agora meu meu amor, ainda temos alguns anos antes que ele precise segurar uma arma. — Jacob acariciou meu rosto — Por enquanto, ele será treinado de outras formas. Mas, ele precisa estar apto pra se defender e defender você e a irmã dele caso eu não esteja por perto.





Notas finais
Coloquei no ar " A cor do outono" dêem uma passadinha lá e me contem o que acharam.