Filha da guerra
64 61. A promessa • Jacob Black
O ronco do motor da Suburban ressoava como um trovão pela estrada de serviço, mas para mim parecia um eco distante, abafado pelo som ensurdecedor da minha própria respiração desgovernada.
Eu tinha o corpo da Renesmee colado ao meu no banco traseiro, uma das minhas mãos pressionando com força máxima a jaqueta dobrada contra o buraco de bala no abdômen dela, tentando conter o fluxo de sangue que teimava em escorrer entre os meus dedos. A pele dela, que sempre fora quente e cheia de vida, estava ficando assustadoramente fria.
— Acelera essa porra, Jared! — urrei para o banco da frente, a voz rasgando a minha garganta num tom que não parecia meu. — Acelera ou eu te mato, caralho!
— Tô no limite do carro, chefe! — respondeu Jared, cravando o pé no acelerador enquanto o veículo cortava os sinais vermelhos e costurava o trânsito da via expressa a mais de cento e oitenta por hora.
Olhei para o rosto dela. A iluminação amarelada dos postes da estrada passava num piscar de olhos pela janela, riscando as feições pálidas de Nessie. Ela não se mexia. Os olhos, aqueles olhos que eram o meu único ponto de paz neste inferno de vida que eu escolhi, estavam fechados.
Senti um nó cego apertar o meu peito até me tirar o ar. O tiro no meu abdômen, as suturas recentes que deviam estar rasgando por baixo da minha camisa com o esforço... nada disso existia. A dor física era um nada comparado ao pânico absoluto que me devorava por dentro.
Eu tinha montado a porra da estratégia perfeita. Tinha calculado cada passo, cada tiro, cada reação do Aro Volturi. Fui o estrategista, o Don, o monstro implacável que varreu os inimigos em minutos. Mas de que adiantava ser o dono dessa cidade imunda se a mulher da minha vida estava sangrando nos meus braços por causa da minha arrogância? Por causa do meu jogo?
— Nessie... por favor, meu amor. Por favor — comecei a sussurrar no ouvido dela, a voz falhando, embargada por um choro desesperado que eu não conseguia e nem tentava segurar. Encostei minha testa na dela, sentindo o suor frio na sua pele. — Fica comigo. Você tem que ficar. Os nossos filhos precisam de você... Eu preciso de você. Se você morrer, eu juro por Deus que queimo esta cidade inteira até não sobrar uma pedra sobre a outra e me jogo no fogo depois.
Apertei a jaqueta com mais força contra o ferimento dela, sentindo o líquido quente ensopar a minha mão.
— Fala comigo, Renesmee! Me xinga, me bate, me odeia por ter te usado no plano... faz qualquer porra, mas abre a mão! Segura a minha mão !
A mão dela pendeu inerte sobre o meu joelho. Sem resposta.
Girei o rosto para a janela, cravando o olhar no retrovisor enquanto avistávamos o portão de ferro do nosso complexo médico privado, um hospital clandestino de última geração, mantido com o dinheiro da organização exatamente para situações em que a polícia não podia saber de nada.
— Liga pra equipe médica agora, Sam! — ordenei, o desespero fazendo a minha voz falhar. — Manda o cirurgião preparar o centro cirúrgico! Se ela não tiver uma mesa pronta no segundo em que este carro parar, eu mato todo mundo que tiver de jaleco naquele prédio!
O SUV derrapou os pneus ao entrar na área de desembarque da emergência. Antes mesmo que Jared parasse o carro por completo, escancarei a porta lateral.
Quatro médicos e dois enfermeiros já corriam na nossa direção com uma maca dobrável. Ajeitei o corpo de Renesmee nos meus braços com o maior cuidado do mundo e pulei do veículo, sentindo uma pontada absurda de dor na minha própria ferida, mas nem sequer pisquei.
— Cuidado com a cabeça dela! — esbravejei, deitando-a na maca enquanto os médicos se posicionavam.
— Sr. Black, precisamos que o senhor se afaste... — começou o cirurgião principal, mas segurei o colarinho do jaleco dele com a mão manchada pelo sangue da minha esposa, puxando-o para perto do meu rosto.
— Escuta aqui, seu desgraçado — rosnei, com os olhos vermelhos e insanos cravados nele. — Ela é a prioridade máxima do universo. Você vai salvar a vida da minha mulher. Se o coração dela parar por um segundo que seja... o seu para logo em seguida. Entendeu?
— Entendido, Don. Vamos salvar a vida dela — respondeu o médico, engolindo em seco antes de se virar para a equipe. — Acesso venoso central agora! Pressão caindo! Vamos direto pro centro cirúrgico!
A maca disparou pelo corredor de luzes brancas e frias. Fui atrás, correndo ao lado dela, sem soltar a mão gelada de Nessie até a porta dupla de aço inoxidável se fechar na minha cara, separando o meu mundo do corpo dela.
Fiquei ali, parado no meio do corredor deserto, olhando para as minhas mãos cobertas pelo sangue de Renesmee, enquanto o silêncio daquele hospital começava a me sufocar.
O som contínuo do alarme da porta automática do centro cirúrgico ainda apitava quando ouvi passos rápidos e firmes ecoarem pelo corredor estéril. Girei o corpo com os punhos cerrados, pronto para avançar em qualquer um que tentasse me tirar dali, mas travei ao ver a figura alta e serena de Carlisle surgindo pela curva do corredor, ajustando o jaleco sobre a roupa social. O patriarca da família Cullen e o médico mais brilhante que Seattle já conheceu mantinha uma expressão grave, mas controlada.
— Jacob... — começou ele, erguendo as mãos numa tentativa silenciosa de me acalmar enquanto avaliava a minha camisa ensopada de sangue.
Eu não deixei que ele terminasse. Avancei os dois passos que nos separavam e dobrei os dedos na lapela do jaleco dele, a voz saindo rasgada, descontrolada, num rosnado desesperado de quem estava a um segundo de perder o juízo.
— O que você tá fazendo parado aqui, Carlisle?! — esbravejei, o peito subindo e descendo violentamente, fazendo as minhas próprias suturas queimarem sob a camisa. — A Nessie tá lá dentro! O Volturi atirou nela! Entra naquela porra de sala e salva a minha mulher! Salva a mãe dos meus filhos, pelo amor de Deus! Se ela morrer naquela mesa, Carlisle... eu juro por Deus que eu não respondo por mim!
— Jacob, se acalma. Eu já fui informado no caminho — disse Carlisle com uma firmeza serena, sem recuar um milímetro diante do meu pavor, colocando uma das mãos sobre o meu ombro. — Eu estou entrando agora para assumir a cirurgia. A equipe já está estancando a hemorragia. Vou cuidar da sua mulher. Me dá o espaço para fazer o meu trabalho.
Ele segurou meus pulsos, desvencilhou minhas mãos da sua roupa e se virou para a porta dupla do centro cirúrgico, higienizando as mãos com gel antisséptico no dispensador da parede antes de empurrar a barreira de aço e desaparecer lá dentro.
A porta se fechou. Fiquei sozinho com a minha respiração desgovernada e o odor de ferro impregnado na minha pele. Passei as mãos pelo rosto, deixando marcas de sangue na minha própria testa, e encostei as costas na parede fria de azulejos, deixando-me escorregar até o chão de concreto polido.
Poucos minutos depois, o eco de saltos e passos apressados quebrou a rigidez do corredor.
— Jacob! Meu Deus, Jacob!
Ergui os olhos e vi minhas irmãs, Rebecca e Emily, correndo na minha direção. O choque no rosto de ambas era evidente quando viram o meu estado: a roupa manchada, as mãos vermelhas, o olhar perdido de quem tinha visto o próprio mundo desmoronar.
— Como ela tá? Onde ela tá?! — perguntou Rebecca, dobrando os joelhos à minha frente, sem se importar em sujar a calça social, pegando minhas mãos trêmulas com as dela. — O Sam ligou pra casa... ele disse que você pegou o Volturi, mas que a Nessie...
— O Carlisle entrou — murmurei, a voz falhando, rouca e vazia, incapaz de manter a postura de Don na frente da minha família. — O desgraçado do Aro atirou nela antes de eu arrancar a cabeça dele... Foi minha culpa, Rebecca. Eu usei ela no plano. Eu fiz ela ser a isca.
— Shh, não fala isso, cala a boca — interveio Emily, ajoelhando-se do outro lado e me puxando pelo pescoço para um abraço apertado, enquanto chorava contra o meu ombro. — A Nessie é forte, Jake. Ela é a mulher mais forte que essa família já viu. O Carlisle tá lá dentro. Ele não vai deixar nada acontecer com ela.
Senti o abraço das minhas irmãs me envolver na tentativa de me manter inteiro, mas a minha mente continuava presa do outro lado daquela porta de aço, onde o sangue da minha esposa cobria o piso e o coração dela lutava para continuar batendo.
•••
O ar da sala de espera do hospital continuava pesado, impregnado pelo cheiro forte de antisséptico e pela tensão sufocante que se arrastava há horas.
A notícia do atentado e do fim do confronto com os Volturi se espalhara rápido pela cúpula da organização. Agora, o corredor estava lotado. Edward permanecia encostado na parede com o rosto sombrio, de braços cruzados ao lado de Alice e Jasper, que trocavam olhares apreensivos em silêncio. Mais ao fundo, Quil, Claire, Paul e Sam se mantinham de prontidão, vigiando as entradas como guardas de honra enquanto o destino da esposa do Don era decidido do outro lado daquelas portas.
Ao meu lado, Bella estava sentada em uma das poltronas, mantendo uma distância fria e calculada de mim. A relação entre a família dela e a minha sempre fora marcada por cicatrizes antigas e interesses diplomáticos do submundo, e a presença dela ali era puramente institucional, até aquele momento.
A porta dupla do centro cirúrgico se abriu bruscamente, fazendo todos na sala se colocarem de pé no mesmo instante. Um dos médicos da equipe de Carlisle saiu apressado, a expressão grave por trás da máscara cirúrgica.
— Sr. Black! — chamou o médico, correndo na minha direção. — A hemorragia abdominal foi contida, mas a senhora perdeu uma quantidade crítica de sangue durante a remoção do projétil. Precisamos realizar uma transfusão imediata.
— Então façam essa porra logo! — esbravejei, dando um passo à frente, com o pavor me dominando novamente. — O que vocês estão esperando?!
— O tipo sanguíneo da sua esposa é um fator extremamente raro — explicou o médico, visivelmente tenso sob a minha pressão. — Nosso estoque interno desse tipo específico esgotou durante o procedimento e o banco de sangue central da cidade vai demorar mais de uma hora para entregar. Se não conseguirmos um doador compatível aqui e agora, o quadro dela vai se tornar irreversível.
Girei o corpo imediatamente para os homens no corredor.
— Todo mundo no laboratório de triagem agora! — ordenei, a voz num urro que fez o corredor tremer. — Quem tiver o sangue compatível vai pra mesa agora!
— Ninguém aqui é compatível, Jacob — a voz seca de Bella cortou o silêncio do recinto. Ela se levantou devagar, ajustando o casaco. — Já fizemos os testes de tipagem da família anos atrás para os registros da organização. Nem você, nem suas irmãs, nem os rapazes do seu bando têm esse tipo.
Meu coração errou uma batida. Avancei na direção de Bella, parando a centímetros do rosto dela, os olhos negros queimando em puro desespero e fúria.
— Mas você é meia-irmã dela, Bella — rosnei, a voz falhando na dor. — Você tem o mesmo sangue da Renesmee. Você vai sentar naquela cadeira e vai doar até a última gota se for preciso para salvar a minha mulher.
Bella nem sequer piscou diante da minha ameaça. Ela me encarou com um olhar gélido, desprovido de qualquer medo, mantendo a postura ereta que sempre a caracterizou nas reuniões de cúpula.
— Você não me obriga a nada, Jacob — rebateu ela, num tom calmo, polido e visceralmente cortante.
Segurei o colarinho da jaqueta dela com violência, sem me importar com o movimento brusco de Edward ao fundo.
— A minha esposa tá morrendo lá dentro!
— Me solta, Jacob — ordenou Bella, sem alterar a voz, cravando os olhos nos meus. — Eu vou doar.
Ela fez uma pausa calculada, desencilhando as minhas mãos do seu casaco com um gesto firme.
— Eu vou entrar lá e vou entregar o meu sangue para os médicos. Mas deixa uma coisa bem clara na sua cabeça: eu não estou fazendo isso por você. E muito menos pela Renesmee, depois de tudo o que vocês nos causaram nessa guerra. Eu estou fazendo isso unicamente pela memória e pelo amor da nossa mãe, a Renée. Ela me mataria se eu deixasse a filha dela morrer por orgulho.
Sem esperar por uma resposta minha, Bella se virou para o médico, apontando para a porta da sala de triagem.
— Prepara a agulha. Eu sou o doador.
Enquanto Bella caminhava com passos firmes ao lado do cirurgião para iniciar o procedimento de emergência, fiquei parado no meio do corredor, em silêncio, sentindo o peso esmagador de saber que a vida de Renesmee agora dependia inteiramente do sangue da irmã que ela mal suportava.
O silêncio que seguiu a saída de Bella para a sala de coleta parecia pesar toneladas sobre o corredor do hospital. O tilintar distante de instrumentos cirúrgicos e o zumbido das luzes fluorescentes eram os únicos sons que cortavam a penumbra.
Apertei as mãos contra o rosto, sentindo o sangue seco de Renesmee crostar na minha pele. Toda a postura de Don, a frieza implacável e o domínio absoluto que eu exercia sobre Seattle pareciam ruínas inúteis. Eu era apenas um homem destruído pelo peso do próprio orgulho, esperando para saber se o amor da minha vida sobreviveria às minhas escolhas.
Passos suaves se aproximaram. Rebecca parou ao meu lado, sem dizer uma palavra de início. Com a delicadeza que só uma irmã mais velha possui, ela envolveu meus ombros com os braços.
Pela primeira vez em anos, não recuei. Não ergui a guarda. Deixei o meu corpo curvar-se para a frente, apoiando a cabeça contra o ombro dela, deixando que o cansaço e o desespero me dobrassem por completo.
— Calma, Jake... Calma — sussurrou ela, acariciando meu cabelo, a voz carregada de um carinho materno. — O sangue da Bella já tá entrando lá. O Carlisle tá com ela. A Nessie vai voltar pra você.
Respirei fundo, sentindo o cheiro de antisséptico e a dor sufocante da incerteza no meu peito. Afastei o rosto devagar, olhando diretamente nos olhos de Rebecca. Havia uma clareza dolorosa no meu olhar, uma decisão nascida do horror de quase perder tudo.
— Se a Renesmee sair daquela mesa de cirurgia viva, Rebecca... — comecei, a voz saindo rouca, baixa e irrevogável. — Eu acabo com essa porra toda.
Rebecca franziu o cenho, surpresa com a gravidade do meu tom.
— Do que você tá falando, Jake?
— Eu entrego o comando da organização pra você — disse, segurando as mãos dela com firmeza. — Eu passo o título, os negócios, a liderança de Seattle... tudo. Eu assino o que for preciso. Pego a Nessie, o Noah e a Sarah e sumimos deste país. Vamos pra bem longe, para onde ninguém saiba o meu nome e onde meus filhos nunca precisem ver uma arma na vida.
Olhei na direção da porta do centro cirúrgico, onde o sangue da minha esposa estava sendo reposto gota a gota.
— Eu não quero mais esse trono, Rebecca — concluí, num tom de promessa solene. — Eu só quero a minha mulher viva. E se Deus me der essa chance, eu nunca mais coloco a vida dela em risco por essa guerra.
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