Filha da guerra
65 61. A promessa II • Jacob Black
A iluminação do quarto privativo era fraca, mantida num tom penumbroso para não incomodar a recuperação. O som ritmado e contínuo do monitor cardíaco — bip... bip... bip... — preenchia o silêncio do ambiente, servindo como o único metrônomo que mantinha a minha sanidade intacta.
Eu não tinha me sentado em momento algum. Minha jaqueta manchada de sangue fora jogada em um canto do corredor, e eu agora vestia apenas uma camisa cinza limpa, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando meus braços cruzados sobre o peito. Meus olhos, fundos pelas olheiras de quem não pregava o olho há mais de vinte e quatro horas, estavam cravados no peito da Nessie, acompanhando a subida e a descida lentas da sua respiração.
No canto do quarto, uma jovem enfermeira checava o gotejamento do soro e dos analgésicos com as mãos visivelmente trêmulas.
— Esse som mudo ali — rosnei de repente, a voz grave e rouca quebrando o silêncio e fazendo a enfermeira dar um leve salto. Apontei o dedo direto para a tela do monitor. — O ritmo oscilou duas vezes no último minuto. Por que essa porra baixou de setenta e dois para sessenta e oito?
— S-Sr. Black... é perfeitamente normal — explicou a profissional, engolindo em seco e ajeitando os óculos com pressa. — A Senhora ainda está sob o efeito pesado da anestesia geral e dos sedativos para dor. À medida que o corpo relaxa no sono profundo, os batimentos e a pressão arterial tendem a estabilizar numa taxa um pouco mais baixa. Não há motivo para pânico.
— E aquela alteração no respirador? — insisti, dando dois passos lentos até a beira da cama, inclinando-me sobre o corpo da Nessie sem encostar nos tubos que a cercavam. — Ela soltou um arfar mais pesado agora há pouco. Ela tá sentindo dor? Se ela estiver sentindo um pingo de dor por incompetência da medicação de vocês, eu...
— Não, senhor! Eu garanto — interrompeu ela, checando a bomba de infusão no suporte aéreo. — A dose de analgésico está no limite máximo permitido. Esse suspiro mais fundo é um reflexo natural do cérebro retornando ao controle da respiração à medida que o anestésico começa a perder a força. Ela está começando a emergir do estado de sedação.
Travei no mesmo instante. A postura rígida de combate que me sustentava desmoronou numa fração de segundo.
— O quê? — minha voz perdeu toda a agressividade, virando um sussurro carregado de uma expectativa dolorosa, quase infantil. — Ela tá acordando?
— Os sinais vitais mostram que sim. O cérebro dela está respondendo ao término do efeito principal da anestesia. Pode levar alguns minutos, mas ela já está processando o ambiente
— Sai — ordenei, sem tirar os olhos do rosto pálido da Nessie. — Deixa a gente sozinho. Se esse monitor apitar qualquer coisa fora do normal, eu te chamo.
A enfermeira não esperou um segundo convite. Fechou a pasta de prontuários com cuidado e saiu em absoluto silêncio, encostando a porta pesada do quarto.
Aproximel-me da cabeceira. Puxei a poltrona de ferro para bem perto da cama e me sentei, inclinando meu corpo todo para a frente. Minha mão grande e quente, ainda marcada pelas pequenas escoriações do confronto no galpão, envolveu com um cuidado quase artesanal a mão fria e delicada da Nessie, onde o acesso venoso estava fixado.
— Nessie...? — chamei, num tom tão baixo e suave que nem parecia vir do mesmo homem que havia chacinado a família Volturi horas atrás.
Na cama, os cílios longos dela tremeram levemente. Um pequeno franzir de testa surgiu em seu rosto, demonstrando o desconforto da dor residual e da claridade fraca do ambiente. A respiração dela alterou o ritmo, e os dedos da sua mão esquerda deram um impulso trêmulo, roçando de leve contra a minha palma.
— Isso, meu amor... Abre os olhos pra mim — pedi, a voz falhando, tomada por um nó na garganta, enquanto levava a mão dela até os meus lábios para pressionar um beijo demorado nos nós dos seus dedos. — Eu tô aqui. O seu Jake tá aqui com você.
A névoa da anestesia ainda mantinha o olhar de Nessie turvo e desorientado. Os cílios dela tremeram, e a testa se franziu num vinco de dor velada enquanto ela tentava entender onde estava. O peito dela subia e descia devagar, e o som fraco que saiu da sua garganta me rasgou por dentro.
O estalo seco da porta se abrindo cortou o silêncio do quarto.
— Os parâmetros no painel do corredor alteraram — anunciou Carlisle, liderando a equipe médica para dentro do cômodo, acompanhado por duas enfermeiras e um cirurgião plantonista. — Ela está emergindo da sedação profunda. Precisamos checar a resposta pupilar, os reflexos e a drenagem abdominal.
Carlisle deu a volta na cama, posicionando-se do lado oposto ao meu. Eu sabia exatamente qual era a dinâmica ali. Ele era o pai biológico da Nessie, o homem que dera o sangue para ela nascer. A relação deles era fria, marcada por uma cortesia profissional que nunca chegou realmente perto de um vínculo de pai e filha. Ver aquele homem de jaleco, ajustando uma lanterna clínica com a precisão de um cirurgião distante, só fez meu sangue ferver ainda mais.
— Renesmee, consegue me ouvir? — perguntou Carlisle, mantendo um tom de voz calmo e controlado enquanto aproximava a luz do rosto dela. — Sou o Carlisle. Tente piscar duas vezes se estiver me entendendo.
Nessie soltou um gemido fraco de desconforto com a claridade direta nos olhos, tentando desviar o rosto.
Ver a dor dela fez o meu instinto de proteção explodir. Antes que Carlisle pudesse aproximar a lanterna mais um milímetro, meu braço cortou o ar, colocando-se firme entre ele e o leito.
— Apaga essa porra dessa luz — rosnei, a voz grave e perigosamente baixa, subindo da poltrona sem soltar a mão de Nessie por um único segundo.
O médico plantonista deu um passo à frente, ajustando a prancheta sob o braço e tentando impor uma autoridade que ele definitivamente não tinha ali.
— Sr. Black, precisamos realizar o exame físico de rotina. O protocolo da UTI exige que o acompanhante se afaste da cama para a ausculta e a palpação do abdômen...
— Eu não vou a lugar nenhum — cortei, cravando meus olhos negros nele com tanta fúria que o homem travou no lugar. — Vocês fazem o que tiverem que fazer nessa sala agora, mas eu não tiro o pé do lado da minha mulher. Se você tentar me mandar sair de perto dela de novo, eu te coloco pra fora deste prédio pela janela do terceiro andar.
O silêncio pesou no quarto. O plantonista engoliu em seco e deu meio passo para trás, sentindo o perigo iminente. Carlisle soltou um suspiro contido e fez um sinal discreto para que o colega recuasse. Ele conhecia meu temperamento e sabia perfeitamente que me desafiar naquele momento seria uma sentença de morte.
— Tudo bem, Jacob. Fique exatamente onde está — disse Carlisle, mantendo a voz serena enquanto calçava as luvas cirúrgicas. — Apenas segure a mão dela para garantir que ela não tente puxar a medicação se sentir um reflexo de dor.
— Pode deixar que eu sei cuidar da minha esposa — respondi, sem tirar os olhos do rosto de Nessie.
Inclinei-me sobre ela, ignorando a equipe médica que começava a checar os tubos e o curativo no abdômen dela. Pressionei meus lábios contra a testa fria de Nessie, sentindo o cheiro suave do cabelo dela sob o odor de antisséptico do hospital.
— Tô aqui, meu amor... — sussurrei no ouvido dela, apertando seus dedos delicados contra a palma da minha mão. — Ninguém vai encostar em você sem eu estar olhando. Você tá segura. O seu Jake tá aqui e não vai a lugar nenhum.
Carlisle aproximou-se devagar, mantendo movimentos previsíveis para não disparar nenhum alarme na minha guarda. Ele posicionou o estetoscópio no peito de Nessie e, em seguida, deslizou as mãos com extrema cautela até a borda do curativo compressivo no abdômen dela.
Senti o corpo de Nessie tencionar no mesmo segundo. Um gemido preso na garganta escapou dos lábios dela, e os dedos trêmulos que estavam na minha mão apertaram a minha pele com a pouca força que ela tinha.
— Eu sei, está dolorido — disse Carlisle, a voz mantendo aquele tom profissional e controlado, sem alterar o ritmo das mãos enquanto checava o dreno lateral. — O hematoma é grande, mas a sutura interna está intacta. O sangramento parou completamente.
— Termina isso logo, Cullen — ordenei, a voz num tom baixo e rasgado, o peito queimando enquanto eu via a testa dela se franzir de dor.
— Já terminei, Black — respondeu ele, afastando as mãos e puxando o lençol branco de volta para cobrir o corpo dela com cuidado. Ele retirou as luvas de látex, jogando-as no lixo hospitalar, e olhou diretamente para mim. — Os sinais vitais estão se estabilizando. A doação de sangue conteve o choque. Ela precisa de repouso absoluto. A medicação para dor vai mantê-la consciente, mas sonolenta pelas próximas horas.
Ele fez um sinal para o plantonista e para as duas enfermeiras. A equipe recolheu as pranchetas e começou a se retirar em silêncio, deixando apenas o som ritmado do monitor cardíaco preenchendo o cômodo.
— Eu estarei no meu consultório se houver qualquer alteração — acrescentou Carlisle antes de passar pela porta, parando por um segundo com a mão na maçaneta. — Ela teve muita sorte, Jacob.
— Não foi sorte — respondi sem olhar para ele, cravando meus olhos no rosto da minha esposa. — Foi o sangue da irmã dela.
Carlisle sustentou o olhar por uma fração de segundo, assentiu em silêncio e fechou a porta pesada, isolando o quarto do resto do hospital novamente.
Assim que o clique da fechadura ecoou, o silêncio voltou a nos cercar. Levei a mão livre ao rosto de Nessie, afastando os fios de cabelo acobreado que grudavam na sua testa suada.
Os olhos dela finalmente se abriram um pouco mais, lutando contra o peso das pálpebras. As pupilas estavam dilatadas por causa da medicação, mas o foco devagar foi se alinhando até encontrar o meu rosto.
— Ja... cob...? — a voz dela saiu como um sopro falho, quase inaudível, arranhando a garganta seca.
— Tô aqui, meu amor — sussurrei, encostando a minha boca na bochecha dela, sentindo o calor da pele voltar aos poucos. — Tô bem aqui. Você tá segura. O massacre acabou.
Ela piscou devagar, a expressão mudando gradativamente à medida que a consciência começava a varrer a névoa da anestesia. Lembrei do modo como ela tinha me olhado no galpão : a raiva, o choque de ter descoberto o plano, o pavor ao ver o sangue e a violência antes do tiro atingi-la.
Eu sabia que quando a dor física passasse, a tempestade entre nós viria com força total. Mas vendo o peito dela subir e descer, sentindo a respiração morna dela contra o meu rosto, eu não me importava com o julgamento que viria depois. Ela estava viva.
— Não fala nada agora — pedi, acariciando o contorno do rosto dela com o polegar. — Guarda as forças. Quando você estiver pronta, pode me xingar, me bater... faz o que você quiser. Eu aguento tudo. Mas agora só descansa.
Nessie fechou os olhos por alguns segundos, dando um longo suspiro, mas não soltou a minha mão. O aperto dela era fraco, trêmulo, mas presente. E aquilo era a única coisa no mundo que me mantinha de pé.
O ruído contínuo do monitor cardíaco parecia preencher cada fresta do quarto. Segurei a mão de Nessie com mais firmeza, sentindo os dedos dela tentarem retribuir o aperto com a pouca força que lhe restava.
— Shh... Não faz esforço, amor — pedi bem baixo, selando meus lábios contra a junta dos seus dedos. — Carlisle disse que você precisa poupar energia.
Ela negou com a cabeça num movimento quase imperceptível sobre o travesseiro. A garganta dela devia estar queimando por causa da intubação recente, mas a determinação naqueles olhos ainda meio anuviados pela medicação era inconfundível.
— Eu... eu sonhei, Jake — a voz dela saiu arranhada, fraca, um sopro de ar que exigiu um esforço brutal.
— Sonhou? — perguntei, ajeitando uma mecha do cabelo dela para trás da orelha, tentando manter a voz suave para não transparecer o nó que dava no meu peito a cada respirada funda que ela dava.
— Sonhei com as crianças em outro lugar ... em outro lugar — ela pausou, fechando os olhos por dois segundos longos para recuperar o fôlego antes de continuar. — Não tinha este hospital. Não tinha sangue. Não tinha... a máfia. Brincando com as crianças no gramado... acho que era em Londres. Numa casa grande, sem cercas elétricas. Sem homens armados na porta.
O meu peito apertou de um jeito que quase me tirou o ar. O peso da promessa que eu tinha feito para a Rebecca poucas horas atrás, no corredor frio lá fora, ecoou na minha mente como um trovão.
Apertei os lábios, sentindo a minha própria voz falhar quando tentei responder.
— Se é para lá que você quer ir, Nessie... eu aceito — disse, engolindo em seco, encarando o rosto pálido dela com uma submissão que eu nunca tinha demonstrado a nenhum ser humano na vida. — Mando os rapazes prepararem a logística para você e os gêmeos assim que o Carlisle te der alta. Você e as crianças vão ter a vida em paz que sempre mereceram.
Nessie abriu os olhos devagar. O brilho turvo deu lugar a uma clareza dolorosa e intensa, cravando-se diretamente na minha alma. A testa dela se franziu numa sombra de reprovação fraca, mas irredutível.
— Você não entendeu, Jacob... — sussurrou ela, com a respiração falha, forçando os dedos a pressionarem a minha palma. — No meu sonho... você estava lá.
Travei no lugar. O meu coração deu um baque seco contra as costelas.
— Nessie, eu sou o Don dessa porra toda... Eu carrego o sangue de metade dessa cidade nas mãos — murmurei, o desespero tentando se mascarar de racionalidade. — Eu te usei num plano, eu te fiz sangrar numa mesa de cirurgia. Eu achei que você quisesse distância de mim, que você quisesse me punir...
— Eu tô com raiva... e a gente vai conversar sobre cada parte do que você fez quando eu conseguir me levantar desta cama — cortou ela, a voz subindo uma fração de tom, carregada de uma teimosia linda e feroz. — Mas você vai junto, Jacob Black. Eu não vou para lugar nenhum sem você. Eu não vou viver em Londres, em Seattle ou no inferno sem a minha família completa.
Ela deu um suspiro pesado, o monitor cardíaco acelerando um pouquinho a frequência, e me puxou fracamente pela mão.
— O meu sonho só faz sentido... se você estiver lá com a gente. Como o pai do Noah e da Sarah. Não como o Don.
Ajoelhei-me ao lado da cama, encostando a minha testa no colchão, bem ao lado do corpo dela. Deixei que o lábio tremesse e que as lágrimas que eu passei a noite inteira engolindo finalmente caíssem, molhando o lençol hospitalar. A mulher que eu quase destruí com a minha guerra estava ali, coberta de tubos e feridas, me oferecendo a única salvação que eu jamais imaginei merecer.
— Tá bom, meu amor... — murmurei contra a pele fria da mão dela, a voz completamente rasgada pelo choro. — Eu vou com você. A gente vai para Londres. Eu juro por Deus que vou com vocês.
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