Filha da guerra

63 60. Céu estrelado • Renesmee



A tensão dentro daquele cômodo abafado era tão densa que parecia palpável. O cheiro de mofo, suor frio e óleo de arma impregnava o ar, lembrando-me a cada segundo de que estávamos no coração do submundo. Aquele era o universo de Jacob, um mundo sombrio, implacável e violento, onde a confiança era uma moeda rara e o sangue era a única garantia de lealdade.

Apesar do turbilhão de raiva, dor e mágoa que queimava no meu peito por ter sido transformada na peça de um jogo mortal sem o meu consentimento, a presença de Jacob ainda exercia um magnetismo avassalador sobre mim. Ele era o terror dos seus inimigos, mas, diante de mim, a intensidade do seu olhar oferecia a única âncora no meio daquele caos.

Jacob virou-se para Jared, a expressão tornando-se fria e operacional.

— Leve ela agora, Jared — ordenou, a voz grave ressoando com autoridade indiscutível. — Depois leve Renesmee para o utilitário nos fundos do galpão. Mantém ela em segurança na rota de fuga.

Em seguida, Jacob deu dois passos na minha direção. A mão grande dele subiu para a minha nuca, puxando-me com uma firmeza possessiva até que nossas testas se colassem. Senti o calor da sua pele e o ritmo acelerado da sua respiração.

— Presta atenção em mim, morena — sussurrou ele, a voz num tom baixo, intenso e carregado de uma urgência perigosa. — Quando o tiroteio começar lá fora, quando eu der o sinal, você se abaixa e não sai de perto do Jared por nada neste mundo. Você obedece a ele. Entendeu? Não tenta bancar a heroína. Me deixa fazer o meu trabalho.

O pavor congelou minhas entranhas, mas a verdade crua era uma só: no meio daquele pesadelo, apesar de tudo o que ele tinha feito, eu ainda confiava na capacidade dele de nos manter vivos. Se havia um homem capaz de andar pelo inferno e sair ileso do outro lado, esse homem era Jacob Black.

— E as crianças, Jacob? — perguntei, a voz falhando em um sussurro desesperado, minhas mãos segurando com força os lapelas da jaqueta dele. — Noah e Sarah... por favor, me diz a verdade. Onde eles estão? O Aro ele ..

— Os gêmeos estão seguros, Nessie — interrompeu Jacob no mesmo instante, o olhar amolecendo por uma fração de segundo com um amor paternal feroz. — Eles estão na mansão, dormindo em suas camas, cercados pela melhor guarda que o dinheiro e a lealdade podem comprar. Eles não fazem ideia do que está acontecendo aqui. Não viram nada, não ouviram nada e nunca vão saber se você não quiser que eles saibam. Eu limpo essa sujeira para que eles nunca precisem tocar nela.

Ele pressionou um beijo demorado na minha boca, um selo silencioso de proteção, antes de me soltar devagar.

— Agora vai — disse ele, dando um passo para trás enquanto Paul destravava a arma ao fundo e Sam ajustava o rádio comunicador. — Está na hora de terminar esta guerra.

Jared me puxou pela manga do casaco com força, guiando-me às pressas pelo corredor escuro do galpão em direção à saída de emergência dos fundos. O ar parecia mais denso a cada passo, carregado com a promessa iminente do massacre que estava prestes a explodir.

Assim que atravessamos a porta de ferro e alcançamos o pátio interno, escondidos atrás de uma pilha de contêineres enferrujados, a escuridão da noite foi rasgada pelo primeiro tiro.

Um único disparo ecoou, seco e ensurdecedor, seguido pelo estilhaçar de lâmpadas e pelo caos absoluto.

— Abaixa! — rosnou Jared, me empurrando para o chão atrás da blindagem de aço de um SUV preto.

Encolhi-me contra o metal gelado, cobrindo as orelhas enquanto o som de dezenas de fuzis automáticos começava a pipocar sem parar. O estalo de tiros de grosso calibre misturava-se a gritos de pânico, ordens urradas em italiano e ao som de corpos caindo contra o concreto. Eu estava completamente vulnerável, sem armas, sem treinamento de combate, incapaz de fazer qualquer coisa a não ser assistir ao horror se desdobrar através da fresta entre os contêineres.

E foi aí que eu o vi

Jacob não lutava como um homem comum. Ele não se escondia nem hesitava. Ele era uma tempestade de violência pura, movendo-se com uma velocidade e uma precisão que beiravam o inumano. A dor das suturas recentes no peito e no ombro parecia ter sido completamente anulada pela adrenalina e pela sede de sangue.

Pela primeira vez na vida, vi a versão do meu marido de que todo o submundo falava em sussurros amedrontados. A versão que os jornais chamavam de monstro e que seus inimigos temiam mais do que a própria morte. Um psicopata armado, frio e absolutamente implacável.

Jacob avançava pelo corredor principal de fuzil em riste, o rosto sujo de fuligem e respingos vermelhos. Ele disparava à queima-roupa sem piscar. Um homem do Volturi tentou empunhar uma escopeta no meio do corredor, mas Jacob esquivou-se do disparo por uma fração de segundo, prendeu o braço do sujeito e descarregou três tiros na cabeça dele antes mesmo de o corpo atingir o chão.

Não havia piedade no olhar dele. Não havia espaço para negociação ou rendição. Os homens de Aro imploravam por misericórdia, mas Jacob executava um a um, com tiros certeiros na cabeça e no peito, caminhando sobre a poça pesada de sangue que começava a lavar o chão do galpão.

Alec tentou correr para a saída dos fundos, o rosto pálido transbordando terror, mas Jacob o alcançou como um predador caçando uma presa ferida. Ele agarrou o neto de Aro pelo colarinho, jogou-o brutalmente contra a lataria de um caminhão e, sem hesitar um único segundo por causa da juventude do rapaz, disparou à queima-roupa.

Ver a pessoa com quem eu compartilhava a cama, o homem que me abraçava com tanta delicadeza e que beijava os nossos filhos antes de dormir, transformar-se naquele carrasco impiedoso fez o meu estômago revirar em puro pavor. Era fascinante de uma forma sombria e terrivelmente aterrorizante.

Ali, no meio da fumaça de pólvora, da poeira e do cheiro ferroso de sangue que tomava conta do ar, entendi com uma clareza avassaladora: Jacob Black não apenas reinava em Seattle. Ele era o próprio inferno daquela cidade.

No meio daquele cenário de carnificina, o pavor cegante assumiu o controle do meu corpo. Ver Alec cair sem vida e o cheiro denso de pólvora e sangue impregnando o ar disparou uma resposta primitiva dentro de mim. Esqueci a ordem de Jacob. Esqueci a mão de Jared no meu ombro.

Instintivamente, tentei me afastar daquela cena, dando dois passos desajeitados para trás no pátio escuro.

Aro Volturi, acuado e ensanguentado, viu no meu movimento a sua última e desesperada cartada.

— Renesmee! — o grito de alerta de Jared cortou o ar, mas era tarde demais.

Com um movimento rápido de um animal encurralado, Aro sacou uma pequena pistola prateada do coldre oculto e disparou na minha direção antes mesmo que Jacob pudesse fechar o cerco sobre ele.

O impacto do tiro no meu abdômen pareceu um golpe de marreta incandescentemente quente. O ar fugiu dos meus pulmões num estalo violentíssimo. Cambaleei para trás, as pernas virando geléia enquanto o teto de poeira e ferro do galpão parecia girar ao meu redor.

A reação de Jacob foi um espetáculo de pura demência e desespero.

Ele não deu a Aro a chance de um discurso, de uma negociação ou de um último suspiro. O urro que saiu do peito de Jacob foi algo inumano, quebrando o som dos tiros. Em uma fração de segundo, ele atravessou o espaço que o separava do chefe dos Volturi, agarrou o pescoço do homem velho e o executou à queima-roupa com uma sequência brutal e frenética de disparos, finalizando a guerra e o líder da máfia rival em questão de piscar de olhos.

O corpo de Aro caiu sem vida contra o concreto, mas Jacob nem sequer olhou para ele.

Ele se atirou no chão ao meu lado no mesmo segundo em que minha costas bateram no piso do pátio externo. A jaqueta preta dele já estava suja de sangue, mas as mãos grandes que seguraram o meu rosto tremiam como se ele estivesse congelando.

— Nessie! Não, não, não... Olha pra mim, porra! Olha pra mim! — implorou ele, a voz rasgada, Embargada por um pavor infantil e desarmado.

Apontei os olhos para ele com dificuldade. A névoa da inconsciência começava a fechar as bordas da minha visão, mas a luz dos refletores externos da garagem iluminava o rosto dele.

O monstro sem sentimentos, o carrasco frio e implacável que havia massacrado uma dezena de homens segundos atrás, tinha desaparecido por completo. Ali, ajoelhado sobre o meu sangue, estava apenas o meu marido. O homem que me amava com uma intensidade doentia e desesperada, o pai dos meus filhos, implorando pela minha vida com lágrimas nos olhos.

— Fica comigo, meu amor... Por favor, não fecha os olhos! Sam! Jared! Prepara a porra do carro agora! — gritou ele, a voz ecoando como se estivesse debaixo d’água.

Jacob me ergueu nos braços com um cuidado angustiado, me colando contra o peito dele enquanto corria em disparada. Senti meu corpo sacolejar a cada passo rápido que ele dava rumo ao utilitário, o calor do peito dele pressionado contra o meu corpo que esfriava rapidamente.

— Fica acordada, Nessie... Eu tô aqui. Eu não vou te deixar ir — ele sussurrava contra o meu cabelo, a voz falhando em um choro descontrolado.

Tentei erguer a mão para tocar o rosto dele, para dizer que eu estava ali, mas meus dedos perderam o rumo. Minha cabeça pendeu para o lado enquanto Jacob me acomodava no banco do carro em movimento.

Pela janela aberta do veículo acelerando na noite, a última coisa que meus olhos registraram antes de a escuridão me engolir por completo foi a imensidão fria do céu estrelado sobre Seattle.