Filha da guerra

61 58. Armadilha • Renesmee



Minha cabeça latejava com uma dor lancinante. A sensação de desconforto na boca e na garganta era insuportável, um gosto amargo e químico de clorofórmio que fazia meu estômago revirar. Pisquei com dificuldade várias vezes até que a névoa escura começasse a se desfazer diante dos meus olhos.

Eu estava sentada, presa a uma cadeira de madeira pesada, com os pulsos e tornozelos firmemente amarrados por cordas grossas. O lugar era um galpão amplo e úmido, iluminado por lâmpadas amareladas e trêmulas penduradas no teto alto. Pelo eco abafado que vinha do lado de fora, ouvia o zumbido incessante de motores, buzinas e o fluxo intenso de veículos. Era um som alto e constante, uma rodovia movimentada ou uma via expressa passava bem perto dali.

O terror gelado subiu pela minha espinha. A lembrança do estacionamento da faculdade veio como um choque elétrico.

— Jared?! — gritei, a voz saindo rouca, falhada pelo produto químico. — Gabriel?! Cadê vocês?!

Passos pesados ecoaram sobre o concreto e duas figuras emergiram da penumbra. Jared caminhava à frente, com as mãos nos bolsos da jaqueta, exibindo uma postura descontraída que embrulhou meu estômago. Logo atrás vinha o estudante que eu julgava conhecer, mas cujo olhar agora era inteiramente frio e cortante.

— Pelo visto o efeito passou rápido — disse Jared, parando a poucos passos de mim, a voz desprovida de qualquer traço da lealdade que simulava na mansão.

— Por que você tá fazendo isso, Jared? — a minha voz tremeu, as lágrimas queimando meus olhos enquanto eu me batia contra as cordas. — O Jacob confiava em você! A nossa família te deu tudo! Nossos filhos... você cuidava da porta do quarto dos meus filhos!

Jared deu uma risada curta, sem um pingo de humor, e balançou a cabeça devagar.

— Você deveria ter escolhido melhor o seu marido, Renesmee. Ou pelo menos aproveitado a chance que teve quando ele mandou você ir embora do país. Você teve a porta aberta pra fugir dessa sujeira, mas preferiu bancar a leal. Azar o seu.

— Você é um nojento, um traidor! — cuspi as palavras, encarando o outro homem ao lado dele. — E você, Gabriel... quem é você? O que você quer comigo?!

O rapaz deu um passo à frente, soltando um riso debochado enquanto ajeitava o colarinho do casaco.

— “Gabriel” era só um nome conveniente para assistir de perto à rotina da esposa do Don — disse ele, o tom elegante e sádico fazendo meu sangue congelar. — Meu nome é Alec. Alec Volturi. Neto de Aro Volturi.

O ar sumiu dos meus pulmões. O nome Volturi ecoou pelas paredes do galpão como uma sentença de morte. A inteligência de Aro não estava apenas cercando a cidade; o neto do chefe da máfia rival estava sentado ao meu lado nas aulas durante meses, mapeando cada movimento meu.

— O Aro... ele quer o Jacob — balbuciei, o pânico tomando conta de mim enquanto a imagem de Noah e Sarah vinha à minha mente. — Meus filhos... por favor, o que vocês fizeram com meus filhos?! Eles são crianças! Não encostem neles, eu imploro! Por favor, Jared, me mata, faz o que quiser comigo, mas não machuca os meus bebês!

Eu chorava copiosamente, implorando sem nenhum orgulho, me debatendo na cadeira enquanto a dor das cordas cortava meus pulsos. O medo pelos meus filhos e por Jacob ferido na mansão era uma tortura física que me rasgava por dentro.

Jared deu dois passos longos e se inclinou sobre mim, agarrando meu queixo com força bruta, obrigando-me a olhar diretamente nos seus olhos frios e cheios de um ódio antigo.

— Não gasta o seu fôlego implorando pra mim, Nessie — rosnou Jared, a voz num sussurro cruel que me fez estremecer. — Você acha que eu esqueci? Você acha que eu esqueci a noite em que o seu marido me jogou naquele galpão e queimou grande parte do meu corpo com maçarico só porque ? O Jacob não teve piedade nenhuma de mim. Ele me marcou pra sempre.

Ele soltou meu rosto com violência, fazendo minha cabeça pender para o lado.

— O Jacob tirou a minha vida pedaço por pedaço — continuou Jared, ajeitando a jaqueta enquanto Alec sorria com desdém ao fundo. — Agora, eu vou assistir a família Volturi arrancar o coração dele. E a melhor parte de todas... é que a arma que vai destruir o Don de Seattle é você.

As horas se arrastavam como uma tortura lenta. Minhas pernas estavam dormentes pela pressão das cordas e meus pulsos queimavam a cada tentativa inútil de me libertar.

Daquele canto escuro do galpão, assisti em absoluto silêncio e pânico à movimentação frenética que se instalara. Dezenas de homens armados até os dentes entravam e saíam, carregando fuzis, caixas de munição e rádios comunicadores. Jared e Alec circulavam entre eles como maestros de uma orquestra da morte, alinhando posições, conferindo mapas da cidade e traçando o cerco final à Mansão Black. Cada detalhe planejado era um golpe no meu peito. Eu estava ali, impotente, assistindo à execução da minha família ser desenhada diante dos meus olhos.

Até que a atmosfera do lugar mudou de forma drástica.

Um silêncio pesado e repentino engoliu o barulho das armas e das vozes ríspidas. Os homens de guarda enfileiraram-se perto da entrada principal, abaixando a cabeça em sinal de respeito absoluto.

Dois SUVs pretos de grande porte estacionaram na porta do galpão. Primeiro, saltaram os seguranças da guarda de elit, homens altos, de feições frias e paletós escuros impecáveis. Em seguida, a porta traseira de um dos veículos se abriu devagar.

Um homem bem mais velho desembarcou. Ele vestia um sobretudo escuro de corte nobre, sob medida, e caminhava com uma postura ereta, elegante e assustadoramente serena. Seus cabelos grisalhos estavam perfeitamente alinhados, e seus olhos claros varreram o galpão com a autoridade de quem não conhecia limites para o próprio poder.

Ao seu lado, Alec deu dois passos à frente e curvou levemente a cabeça.

— Avô — cumprimentou Alec, a voz desprovida do deboche de antes, agora carregada de solenidade.

Jared também se adiantou, ajeitando a postura no mesmo instante.

O idoso caminhou devagar pelo concreto, os passos ecoando no espaço amplo até parar a pouca distância da minha cadeira. Ele me observou em silêncio por alguns segundos, mapeando cada detalhe do meu rosto choroso, do meu vestido amarrotado e das cordas que prendiam meus pulsos.

Em seguida, um sorriso suave, mas profundamente gélido e teatral, despontou em seus lábios. Ele deu mais um passo à frente, ajustando as luvas de couro negro nas mãos.

— Ora, ora... — a voz dele ressoou grave, polida e aveludada, preenchendo o galpão com um eco sinistro. — Então esta é a famosa joia da coroa de Seattle.

Ele curvou-se levemente em minha direção, num gesto de falsa cortesia que fez meu sangue virar gelo nas veias.

— É uma honra finalmente conhecê-la, Renesmee. Eu sou Aro Volturi.

Aro deu mais um passo à frente, ajustando as abotoaduras de ouro no pulso com uma calma exasperante. O olhar dele sobre mim não tinha raiva; era a curiosidade fria de um colecionador avaliando uma peça rara.

— É uma verdadeira pena, minha cara — disse Aro, a voz aveludada transbordando uma falsa lamentação —, que o nosso tempo juntos vá ser tão curto. Adoraria ter a oportunidade de conhecê-la melhor, de conversar sobre suas aspirações, sua vida... Mas temo que o destino traçado para você nesta noite não permita longas amizades.

O terror prendeu o ar na minha garganta. Antes que eu pudesse articular qualquer palavra, a voz ríspida de Jared cortou o silêncio do galpão, interrompendo o chefe da máfia com uma audácia que me fez franzir o cenho.

— Com todo o respeito, Sr. Volturi — interveio Jared, dando um passo à frente, a expressão carregada de uma ganância sombria. — O senhor me prometeu que ela seria minha antes de qualquer fim. Esse foi o ponto principal do nosso acordo.

Aro parou. Lenta e elegantemente, ele virou o rosto na direção de Jared, erguendo uma sobrancelha grisalha. Um sorriso debochado e teatral despontou no canto dos lábios do velho.

— Ah, sim... A promessa — debochou Aro, soltando um riso curto e seco. — Confesso que me impressiona essa sua fixação quase doentia pela mulher do seu próprio tio, Jared. Um traço peculiar de caráter, sem dúvida. Mas palavra de Volturi não volta atrás. Se isso faz parte da sua cota de pagamento pelo serviço prestado... ela é toda sua.

— Não! — gritei, desespero puro rasgando a minha garganta enquanto o choro me sufocava. — Seu nojento! Não encosta em mim! Me solta!

Jared não deu a menor importância aos meus gritos. Ele puxou um canivete do bolso, cortou as cordas que prendiam meus pés à cadeira de um só golpe e me arrancou do assento com força bruta. Debati-me violentamente, cravando os dentes no ombro dele e chutando o ar, mas as minhas mãos continuavam amarradas para trás e o efeito residual do clorofórmio minava as minhas forças.

— Cala a boca, Renesmee! — rosnou ele contra o meu ouvido, arrastando-me para o corredor lateral do galpão, ignorando os meus xingamentos e as minhas lágrimas de repulsa.

Ele empurrou uma porta de madeira pesada no fundo do corredor e me jogou sem piedade sobre um colchão desgastado no centro de um quarto escuro. Caí de lado, o impacto tirando o meu ar. Me gatinhei desesperadamente para trás, tentando me afastar dele, a respiração entrecortada pelo pânico.

— Fica quieta... — disse Jared, trancando a porta atrás de si com um estalo seco e virando-se para mim com um sorriso perverso.

Foi quando os meus olhos, acostumando-se à penumbra do cômodo, registraram os detalhes ao redor.

Encostados na parede lateral, de braços cruzados e feições completamente neutras, estavam Sam e Paul.

O meu cérebro travou. O choque foi tão violento que as palavras morreram na minha língua. Sam? Paul? Por que eles estavam ali? Por que estavam assistindo a tudo sem mover um único músculo para me defender? A sensação de desespero e abandono absoluto me atingiu como um soco no estômago.

— O... o quê? — balbuciei, a voz não passando de um sopro trêmulo. — Sam...? Paul...? O que tá acontecendo aqui?!

Antes que qualquer um dos dois desse um passo ou respondesse, o som de passos lentos e firmes ecoou vindo do banheiro anexo ao quarto, logo atrás de onde eu estava encolhida.

— Você fez um excelente trabalho, sobrinho — disse uma voz grave, profunda e terrivelmente familiar.

O meu coração errou as batidas. Girei o corpo no colchão com tanta pressa que quase me torci toda.

Jacob emergiu da penumbra.

Ele estava de pé, vestindo uma camisa preta sob medida , aberta no peito, revelando as ataduras brancas e limpas cobrindo perfeitamente os ferimentos de bala. Não havia rastro de fraqueza no seu olhar. Os olhos negros de Jacob queimavam com uma ferocidade cega, mas a postura dele era de absoluto controle.

Ele caminhou devagar até a beira da cama, parando ao meu lado, e estendeu a mão grande para me ajudar a sentar, sem tirar os olhos de Jared, que congelara no meio do quarto.

— Agora — continuou Jacob, a voz num tom baixo, calmo e mortalmente perigoso — deixa que eu assumo daqui.