Filha da guerra

62 59. Armadilha • Renesmee




O meu peito subia e descia numa frequência desgovernada. Eu continuava encolhida na beira da cama, encharcada de suor frio e lágrimas, pronta para me atirar na frente de Jacob para protegê-lo de Jared ou engatinhar para longe do massacre que achei que começaria ali.

Mas os segundos se passaram e o som dos tiros não veio.

O silêncio no quarto era absoluto. Foi então que o meu cérebro, num choque de lucidez, começou a registrar o absurdo da cena. Jared não tinha sacado a arma. Não tinha gritado por socorro para os homens do Volturi no corredor, não tinha recuado um milímetro sequer e nem mesmo parecia surpreso. Ele estava ali parado, de braços relaxados, encarando Jacob com uma calma cúmplice e respeitosa.

— Eu posso ser muitas coisas, Nessie, mas não sou um traidor muito menos um estuprador. — Jared murmurou

Paul deu dois passos à frente, sacou um canivete e cortou as amarras dos meus pulsos num movimento rápido. Levei as mãos ao peito, massageando a pele em carne viva, sem conseguir pregar os olhos.

Jacob se ajoelhou no chão à minha frente. A mão grande e quente dele segurou meu queixo com uma delicadeza absurda, obrigando-me a olhar para ele.

— Calma, meu amor... Respira — sussurrou Jacob, os olhos negros cheios de um carinho doloroso. Ele usou o polegar para limpar as lágrimas do meu rosto. — Me desculpa por isso, Nessie. Me desculpa por esse terror. Eu juro que vou te recompensar por cada segundo desse pesadelo... mas você precisava parecer apavorada de verdade.

Foi aí que o olhar dele desceu para os meus pulsos, notando a pele roxa e escoriada onde o nylon tinha cortado. A expressão suave de Jacob evaporou num estalo, dando lugar a uma carranca feroz ao se virar para o sobrinho.

— Que porra é essa, Jared? — rosnou Jacob, a voz tremendo de raiva contida. — Eu falei pra não machucar ela!

— Foi impossível evitar, chefe — respondeu Jared no mesmo instante, sem demonstrar medo, mantendo o tom profissional. — O Alec tava do meu lado no carro e o Aro veio pessoalmente. Se eu não apertasse as cordas ou agisse com brutalidade, eles iam desconfiar no ato. Ela tinha que parecer uma refém de verdade.

— O Aro tá lá fora? — interveio Paul, dando um passo à frente e cortando a briga com o foco afiado. — Ele veio mesmo para o galpão?

— Veio — confirmou Jared, olhando para Paul e Sam. — Ele trouxe a guarda de elite inteira. Tá crente de que o Don tá agonizando na mansão e que o cerco tá pronto.

A conversa fluía entre eles com uma rapidez e entrosamento assustadores. Sam checava o rádio, Paul ajustava o silenciador da pistola e Jared detalhava a posição dos homens do Volturi lá fora.

À medida que as frases se encaixavam na minha cabeça, a verdade me atingiu como um golpe de machado no peito. A tontura voltou, mas desta vez não era pelo clorofórmio.

O ataque no carro. A discussão sobre a traição. O show de autoridade de Jacob me nomeando no quarto. A teimosia dele em me mandar embora... Tudo. Tudo tinha sido uma encenação teatral grotesca e friamente calculada. Jared nunca tinha sido um traidor; ele era o bucha de canhão de Jacob infiltrado no ninho do Volturi. E eu... eu tinha sido a peça perfeita, a isca inocente e apavorada usada para atrair o próprio Aro Volturi para fora do seu esconderijo e jogá-lo direto numa emboscada.

Um nó de raiva e incredulidade rasgou a minha garganta. Sentindo-me profundamente traída, violentada e usada pelo meu próprio marido, abri a boca para gritar com ele.

— VOCÊ ME US...

Antes que a primeira palavra ecoasse pelo quarto, a mão grande e calejada de Jacob cobriu a minha boca com firmeza, abafando o meu grito contra a pele dele.

Ele se aproximou tanto que a sua testa encostou na minha. Os olhos dele, desesperados e intensos, cravaram-se nos meus. Ele não tentou se justificar com orgulho ou raiva; havia uma súplica crua no seu olhar.

— Psiu... Fala baixo, Nessie. Por favor — sussurrou Jacob contra a minha bochecha, a voz embargada e num tom terrivelmente sincero. — Me odeia depois. Me bate, me esfaqueia, faz o que você quiser comigo quando a gente voltar pra casa... Mas eu tive que fazer isso. O Aro nunca sairia do buraco dele se não achasse que tinha te dobrado.

Ele deu um beijo trêmulo na minha fonte, mantendo a mão na minha boca enquanto a outra segurava o meu nuca com força.

— Eu fiz isso pelos nossos filhos — continuou ele, a voz falhando num fio de desespero paternal. — Para matar a cobra de uma vez por todas e garantir que o Noah e a Sarah nunca mais precisem viver sob a sombra dessa guerra. Me perdoa... por favor, me perdoa.

Jacob lentamente retirou a mão da minha boca, mantendo os olhos cravados nos meus, apreensivo, esperando a minha reação.

A raiva borbulhava no meu peito de uma forma que eu nunca tinha sentido antes. Olhei para Jacob, depois para Sam, Paul e Jared, tentando montar aquele quebra-cabeça doentio na minha cabeça.

— Foi tudo armado? — perguntei, a voz saindo num sussurro trêmulo, mas afiada como uma lâmina. — A discussão, a nomeação na frente da Rebecca, o pânico na faculdade, o clorofórmio... tudo?

Ninguém respondeu de imediato. A confirmação no silêncio deles só fez o meu estômago embrulhar ainda mais.

— E os tiros, Jacob? — encarei-o, apontando para o peito dele coberto pelas ataduras limpas sob a camisa preta. — Se era um teatro perfeito, como você acabou gravemente baleado?! Como você quase morreu no chão daquela mansão na minha frente?!

Antes que Jacob pudesse abrir a boca, Sam deu um passo à frente, ajustando a postura pesada e encarando o chão por um segundo.

— Não era para ele ter se ferido gravemente, Renesmee — explicou Sam, a voz calma e racional. — O plano era simular a emboscada no conversível para fazer o Aro acreditar que o Don estava vulnerável e desarmado. Mas nenhuma operação na rua é cem por cento controlada. O comboio de escolta dos Volturi reagiu mais rápido do que prevíamos e o fogo cruzado intensificou. Sempre há chances de as coisas saírem errado.

— Ele quase levou um tiro no coração, Sam! — exclamei, a voz subindo de tom enquanto a raiva se misturava com o trauma de ter visto o sangue dele jorrando na nossa cama. — Você chama isso de “as coisas saírem errado”?! Ele podia ter morrido!

Jacob soltou um suspiro pesado, dando um meio sorriso torto e desdenhoso, tentando amenizar a gravidade da situação como sempre fazia.

— Mas eu não morri, Nessie — soltou ele, num tom quase divertido, dando um passo na minha direção. — Tô vivinho aqui. E o plano funcionou.

Aquela resposta foi a gota d’água. A fúria que queimava dentro de mim explodiu.

— Não ironiza, Jacob Black! — rosnei, me levantando da cama num salto e empurrando o peito dele com toda a força que me restava, ignorando o fato de que ele ainda estava se recuperando. — Você acha graça?! Você me fez chorar de desespero! Me fez sentir o pior pavor da minha vida achando que você ia morrer, me jogou no meio de um cativeiro, me fez ser carregada por um psicopata, e agora você tem a audácia de agir como se fosse só mais um dia de trabalho?!

Jacob cambaleou meio passo para trás com o impacto das minhas mãos, a expressão divertida sumindo no mesmo instante ao ver as lágrimas de pura raiva descendo pelo meu rosto.

— Você brincou com a minha sanidade! — continuei, a voz embargada, apontando o dedo no rosto dele enquanto Paul e Sam trocavam olhares tensos ao fundo. — Eu nunca, me ouviu bem?, nunca vou te perdoar por ter me feito passar por isso!

As batidas na madeira pesada da porta soaram bruscas e impacientes, cortando a minha fúria no meio de um suspiro.

Três pancadas secas. O silêncio no quarto foi imediato e absoluto. Sam e Paul congelaram com as mãos nas pistolas, enquanto a tensão no ambiente subia a níveis sufocantes.

— Jared! — a voz de Alec abafada pela porta ecoou do corredor. — Que demora é essa, porra? O meu avô quer você lá fora agora para alinhar o ataque à mansão! Deixa essa garota para depois!

Jared nem piscou. Ele deu dois passos em direção à porta e respondeu com um tom de voz perfeitamente irritado e arrastado, encenando sem o menor esforço:

— Já tô quase terminando aqui, Alec! Me dá mais dois minutos! Ela tá dando trabalho!

Jacob virou o rosto lentamente para mim. Os olhos negros dele se cravaram nos meus com uma ordem silenciosa, desesperada e cristalina. O Don de Seattle sumira por um segundo; ali estava o homem exigindo que eu bancasse a atriz para mantermos a nossa pele a salvo.

Engoli a raiva visceral que queimava no meu peito por ter sido usada, apertei os punhos e deixei o desespero encenado tomar conta da minha voz.

— Não! Me solta, seu nojento! — gritei a plenos pulmões, deixando um choro rasgado e soluçado ecoar em direção à porta. — Jared, por favor! Me deixa ir embora! Socorro! Alguém me ajuda!

Lá fora, ouvi o riso curto e debochado de Alec antes que os passos dele começassem a se afastar pelo corredor do galpão.

— Ele engoliu.

Quando os passos de Alec sumiram por completo, Jacob deu um passo lento na minha direção. A expressão dele era implacável, esculpida na mais pura determinação de um predador que finalmente encurralara a sua presa. O cheiro de pólvora e a promessa de sangue pareciam cercá-lo.

Ele segurou o meu queixo, não com força, mas com uma firmeza que me impediu de desviar o olhar, ignorando a raiva que ainda faiscava nos meus olhos.

— O Aro morre hoje à noite, Renesmee — disse Jacob, a voz num tom baixo, grave e aterrorizantemente calmo. — A guarda de elite dele tá cercada neste galpão sem nem desconfiar. Tudo termina aqui. Hoje. Depois, você pode decidir se você ainda me ama, ou se você me odeia. Mas vai fazer isso sabendo que nossos filhos estarão seguros.