Filha da guerra

60 57. Gabriel • Renesmee King



30 de Setembro de 2003


O barulho ambiente da universidade parecia pertencer a um universo paralelo, completamente desconectado da tensão sufocante que dominava a Mansão Black.

Cheguei ao bloco do curso de Enfermagem cercada por quatro homens armados. A presença ostensiva da escolta atrai olhares curiosos de alunos de jaleco e professores, algo que só aumentava a minha ansiedade. Eu precisava daquela prova de Anatomia Humana e Fisiologia. Precisava daqueles noventa minutos de concentração acadêmica para não enlouquecer pensando no espião que rondava a minha casa ou no olhar intransigente de Jacob mandando eu escolher um país para fugir.

— Fiquem aqui fora — ordenei, parando no início da escadaria do prédio da Enfermagem e me virando para o chefe da escolta.

— Senhora, as ordens do Sr. Black foram claras... — o homem começou, mas cortei sua fala erguendo a mão.

— As ordens do Jake também dizem que eu respondo pela organização enquanto ele se recupera — rebati, num tom frio e polido. — Ninguém vai entrar armado no corredor do laboratório antes de um exame prático. Vocês ficam no pátio, cobrindo as saídas. Eu sei me virar aqui dentro, passei os últimos meses neste campus.

Sem esperar por uma réplica, passei pelas portas de vidro do prédio. O alívio de caminhar sem dois homens no meu encalço durou pouco.

A sala de aula e os laboratórios já estavam metade cheios. Procurei uma bancada perto da janela e, ao puxar a cadeira, percebi uma figura sentada duas fileiras ao lado, folheando um atlas de anatomia. Era Gabriel. Ele mantinha os olhos fixos nas ilustrações do livro, parecendo estranhamente distante e alheio à minha presença, o que não era do seu feitio habitual.

Ajeitei meu jaleco, coloquei meu estetoscópio sobre a mesa e tentei focar no conteúdo. Faltando cinco minutos para o início do exame, Gabriel finalmente se ergueu, caminhou até a minha fileira e sentou-se na carteira vaga ao meu lado.

— Achei que você não viria hoje — disse ele, num tom baixo, sem olhar diretamente para mim enquanto organizava suas canetas e o crachá de estudante de Enfermagem. — Ouvi boatos de que as coisas andavam turbulentas pelo seu lado da cidade.

— A vida não para por causa de boatos, Gabriel — respondi, mantendo a voz neutra enquanto virava a folha do meu rascunho de revisão de dosagem de medicamentos. — Eu não perco uma prova.

— Admiro sua determinação, Renesmee — comentou ele, soltando um riso curto e sem humor. — Às vezes parece que nada consegue te tirar do trilho.

O professor distribuiu os questionários e o silêncio tomou conta da sala. Durante a hora seguinte, o único som audível foi o rasgar de canetas contra o papel e os sussurros ocasionais sobre os casos clínicos da prova. Troquei poucas palavras com Gabriel ao longo do teste, apenas o essencial para conferir a contagem de páginas da folha de respostas, mas a presença dele ali trazia uma sensação estranha de normalidade que eu desesperadamente buscava.

Quando entregamos as folhas na mesa do professor, uma onda de alunos de jaleco branco começou a esvaziar a sala simultaneamente. Arrumei minha bolsa rapidamente, guardando o estetoscópio e pronta para voltar ao ponto onde havia deixado os seguranças no pátio principal.

Gabriel caminhou ao meu lado pelo corredor denso, engajando-me em uma conversa detalhada sobre uma das questões mais complexas da prova, sobre fisiologia cardíaca e procedimentos de emergência. A discussão sobre o tema acadêmico me prendeu a atenção de tal forma que não percebi o fluxo da multidão de estudantes nos empurrando para a saída lateral do bloco de laboratórios, o lado oposto ao pátio onde a escolta me aguardava.

— ...e foi por isso que o protocolo de atendimento inicial mudou na última atualização — explicava Gabriel, a voz calma e ritmada.

Parei subitamente no meio da calçada externa, piscando para afastar a distração. O pátio arborizado e o SUV preto da escolta não estavam ali. Em vez disso, eu estava no estacionamento secundário da faculdade de saúde, uma área arborizada, vazia e mal iluminada entre os blocos de laboratório e o necrotério acadêmico.

Um arrepio gelado subiu pela minha espinha. A sensação de segurança evaporou num estalo.

— Espera... — disse, dando meio passo para trás e ajeitando a alça da bolsa com a mão trêmula. — A gente saiu pelo bloco B. Meus seguranças estão do outro lado, no pátio principal. Preciso voltar agora.

Girei o corpo para retornar ao corredor do prédio, mas Gabriel deu um passo rápido, posicionando-se exatamente no meu caminho. A expressão amigável e descontraída que ele mantivera durante a prova e os plantões práticos havia desaparecido por completo, dando lugar a um olhar frio, rígido e minuciosamente calculado

— Você não vai voltar para lá, Renesmee — disse ele, a voz num tom terrivelmente plano, sem qualquer alteração.

Franzindo o cenho, o choque inicial travou meus passos.

— O que você disse? Ficou maluco, Gabriel? Sai da minha frente.

Tentei desviar pelo lado, mas ele segurou meu braço com um aperto de ferro. A força era desproporcional, e o pavor tomou conta do meu peito no mesmo instante.

— Solta o meu braço! — ordenei, tentando puxar o corpo para trás, mas ele não moveu um milímetro.

— Tem alguém que quer muito ver você hoje — sussurrou ele, aproximando-se o suficiente para que apenas eu ouvisse, enquanto olhava para um furgão escuro que dobrava a esquina do estacionamento em baixa velocidade. — E eu definitivamente não posso deixar essa oportunidade passar.

Tentei raciocinar rápido, puxando o braço com toda a força que me restava e abrindo a boca para gritar por socorro, mas Gabriel foi drasticamente mais ágil. Num movimento rápido e ensaiado, ele passou o braço esquerdo pelo meu pescoço, imobilizando minha cabeça, enquanto a mão direita pressionava um pano embebido em um líquido de odor químico avassalador contra o meu nariz e minha boca.

Instintivamente, tentei prender a respiração, debatendo-me contra o peito dele, cravando as unhas no braço de Gabriel. O perfume forte do clorofórmio queimou minhas narinas logo no primeiro suspiro involuntário. A tontura veio como um golpe esmagador, fazendo minhas pernas fraquejarem instantaneamente.

— Calma, Renesmee... — sussurrou Gabriel ao meu ouvido, a voz distorcendo conforme a minha visão começava a escurecer nas bordas.

Nesse instante, através do embaçado das minhas lágrimas e da névoa pesada que tomava conta do meu cérebro, vi uma figura alta surgir entre os carros do estacionamento. Um rosto familiar.

Era Jared.

Um sopro de esperança e alívio desesperado me atingiu. Ele era da guarda pessoal do Jacob, o homem em quem confiávamos para cuidar da porta do quarto dos meus filhos. Ele estava ali. Ele ia me salvar.

— J-Jared... — tentei articular, mas o som não passou de um sopro inaudível atrás do pano. Puxei o ar de novo, lutando para manter os olhos abertos, estendendo uma das mãos trêmulas na direção dele. — Me... ajuda...

Mas Jared não sacou a arma. Não correu para cima de Gabriel.

Pelo contrário, ele caminhou a passos rápidos e calculados, olhando de um lado para o outro para garantir que nenhum aluno ou funcionário estivesse saindo do bloco de laboratórios. Ele abriu a porta lateral do furgão escuro com uma facilidade assustadora, puxou meu corpo que já perdia as forças e ajudou Gabriel a me empurrar para o interior do veículo antes que qualquer um notasse.

A traição caiu sobre mim mais fria e cortante do que a própria droga. Não era Gabriel agindo sozinho. Jared — o homem que comia na nossa mesa, que sabia cada passo da família — era o espião. A peça que faltava para entregar Jacob naquela emboscada.

— Rápido, fecha essa porra — rosnou Jared para Gabriel, a voz completamente desprovida de qualquer remorso. — Os seguranças da entrada não vão demorar a perceber que ela sumiu.

A última imagem que vi antes de o mundo apagar por completo foi o olhar frio de Jared encontrando o meu, seguido pelo baque ensurdecedor da porta do furgão se fechando, me submergindo na escuridão total.