Filha da guerra

59 56. No comando • Renesmee King



24 de Setembro de 2003


Os bipe lentos do monitor cardíaco eram o único som a quebrar o silêncio abafado da suíte master. Eu não tinha saído do lado da cama um segundo sequer. Minha mão continuava firme sobre a dele, sentindo o calor do seu corpo retornar aos poucos, enquanto a luz acinzentada da alvorada começava a invadir o quarto pelas frestas da cortina.

Quando Jacob finalmente piscou os olhos, a transição entre a sedação e a consciência foi quase imediata. Ele soltou um rosnado baixo, a mandíbula se enrijecendo pela dor fisgante no ombro e no abdômen, e tentou se apoiar nos cotovelos para se levantar.

— Nem pense nisso — ordenei no mesmo segundo, empurrando o ombro bom dele de volta contra os travesseiros com firmeza. — Você quase morreu, Jacob Black. Vai ficar exatamente onde está.

Ele piscou a névoa dos remédios para longe, os olhos negros me mapeando com uma intensidade faminta antes de soltar uma respiração pesada

— Eu preciso me levantar, Nessie... — a voz dele saiu rouca, raspando a garganta. — O porão precisa ser limpo, a segurança da cidade tá uma bagunça e eu preciso saber quem vazou a porra do meu itinerário...

— Você não vai a lugar nenhum — cortei, num tom de voz que não deixava espaço para negociação. — Os médicos disseram que qualquer esforço agora vai rasgar a sutura do seu abdômen. É repouso total, total!. E se você tentar dar um passo fora desta cama hoje, eu mesma te dou outra dose de sedativo.

Jacob me encarou por alguns segundos, a teimosia nos olhos dele travando uma batalha silenciosa com a autoridade que eu exercia naquele quarto. Ele soltou um riso curto, quebrado por uma careta de dor.

— Você tá gostando de mandar em mim, né? — provocou, a voz falhando de leve.

— Alguém precisa ter juízo nesta casa — respondi, sem sorrir, embora tenha deslizado o polegar pela bochecha dele.

A porta do quarto se abriu sem cerimônia. Rebecca entrou a passos largos, seguida por Sam e Paul. Ela trazia uma pasta de couro preta debaixo do braço, a expressão fechada e o rosto duro de quem não dormia há vinte e quatro horas.

— Ótimo, você acordou — disse Rebecca, parando aos pés da cama. — Jake, temos contratos de carga parados no porto e a segurança dos distritos do norte precisa de uma assinatura imediata para movimentar os homens. Como você vai ficar fora de combate por alguns dias, eu vou assumir o comando da linha de frente e assinar as ordens de rua.

Jacob franziu o cenho, o olhar tornando-se sombrio no mesmo instante.

— Ninguém assina nada sem a minha autorização.

— Você tá sedado e preso a uma cama, Jacob! — rebateu Rebecca, a voz subindo de tom enquanto ela cruzava os braços. — A organização não para porque você levou dois tiros.

— Eu disse, não!

— Eu sou a mais velha, sempre fui a segunda no comando e conheço essa estrutura melhor do que qualquer um. Se o cargo não é meu por direito de sangue só porque nasci mulher, o mínimo que você deve fazer agora é me deixar tomar as decisões operacionais até você se levantar.

O quarto enrijeceu. Sam e Paul permaneceram em silêncio perto da porta, sabendo melhor do que ninguém que não se devia entrar no meio da briga dos irmãos Black.

Jacob encarou Rebecca em silêncio por um longo momento. Depois, virou o rosto devagar na minha direção, a mão dele apertando a minha com força.

— Renesmee assume — declarou ele, a voz baixa, calma e irrevogável. — As decisões diárias, as assinaturas não estratégicas e a liberação de recursos passam por ela a partir de agora. O que ela aprovar, tá aprovado. O que ela vetar, tá vetado.

Rebecca soltou uma risada debochada e incrédula, dando um passo à frente com os olhos faiscando de raiva.

— Você ficou louco?! Passar a autoridade da família Black pra ela?! A Renesmee é a sua ex-mulher, Jacob! Ela nem deveria estar decidindo o que a gente come no jantar, quanto mais administrando a organização!

Jacob nem piscou. O olhar dele permaneceu cravado no de Rebecca com uma frieza que fez a sala congelar.

— Isso é só questão de tempo para eu corrigir formalmente — respondeu ele, num tom arrastado e perigoso. — Ela é a Senhora desta casa, é a mãe dos meus filhos e é a única pessoa no mundo em quem eu confio de olhos fechados para não me apunhalar pelas costas.

Rebecca travou o maxilar, o rosto queimando de raiva contida. Ela olhou para mim com puro desprezo, depois voltou a encarar o irmão, percebendo que não haveria recuo.

— Você tá cometendo um erro enorme — rosnou ela, batendo a pasta de couro sobre a mesa lateral antes de se virar de costas e marchar para fora do quarto, batendo a porta com força.

No silêncio que sobrou, olhei para a pasta sobre a mesa e depois para o homem deitado na cama.

— Você acabou de me colocar no alvo da sua irmã, Jake — murmurei, o peito apertado pela responsabilidade repentina.

Jacob puxou a minha mão levemente, obrigando-me a me inclinar sobre ele até que seus lábios tocassem a minha testa.

— Você é a rainha deste lugar, Nessie — sussurrou ele contra a minha pele. — Já passou da hora de todos eles lembrarem disso.

A fumaça invisível da tensão que acabara de se desdobrar ali ainda pairava no ar, misturando-se ao cheiro forte de antisséptico e remédios.

Puxei uma cadeira para mais perto da cama e me sentei, sem soltar a mão dele. Me inclinei para a frente, diminuindo a distância até que nossas testas quase se tocassem, garantindo que o meu tom de voz fosse baixo o suficiente para não ultrapassar a madeira da porta.

— Precisamos falar sobre o que aconteceu, Jacob — comecei, a voz saindo firme, mas carregada de um peso sombrio. — E não estou falando das suas suturas.

Jacob franziu o cenho, os olhos negros me varrendo com atenção enquanto a respiração dele ainda saía um pouco pesada pela medicação.

— Fala, Nessie.

— Como eles sabiam? — perguntei, encarando-o no fundo dos olhos. — Como os homens do Aro sabiam exatamente qual rua você ia dobrar e, mais do que isso, como sabiam que você estava naquele conversível sem blindagem? Você não traçou essa rota com a inteligência. Você tomou essa decisão poucas horas antes de ir me buscar na faculdade.

A expressão de Jacob enrijeceu instantaneamente. As feições dele, já pálidas pela perda de sangue, pareceram esculpidas em pedra. A constatação que ele vinha tentando sufocar na própria mente desde que acordara acabava de ser dita em voz alta por mim.

— Existe um x9 — murmurei, a palavra queimando na minha língua como veneno. — Alguém dentro dessa mansão, alguém do nosso círculo interno, está alimentando os Volturi.

Jacob fechou os olhos por um segundo longo, soltando uma praga pesada entre os dentes. Quando voltou a me encarar, não havia mais rastro de deboche ou provocação. Apenas o olhar sombrio de um homem que via a sua fortaleza ser invadida por cupins.

— Eu sei — a voz dele saiu grave, num rosnado baixo que fez seu peito enfaixado vibrar. — Eu passei a noite em claro antes de apagar pelo remédio pensando nisso. Não foi coincidência, Nessie. Foi um serviço encomendado. Alguém vendeu o meu itinerário.

— E se esse alguém sabia onde você estava ... — segurei a mão dele com mais força, sentindo um arrepio gelado subir pela minha espinha — ...essa mesma pessoa sabe a rotina dos nossos filhos. Sabe os horários da escola, os turnos da segurança, sabe cada passo que eu dou.

A menção aos gêmeos acendeu um estopim visível no olhar de Jacob. O monitor cardíaco ao lado da cama deu dois bipes mais rápidos. Ele tentou se sentar na marra, ignorando a fisgada violenta no abdômen que o fez arfar e fechar os olhos de dor.

— Jacob, não! Fica parado! — ordenei, segurando o ombro bom dele para contê-lo.

— Porra, Renesmee! — rosnou ele, a respiração cortada, os olhos faiscando de uma raiva desesperada. — Você tem noção do que tá me dizendo?! Se tem uma cobra criada comendo na minha mesa, essa casa deixou de ser um bunker. Virou uma armadilha!

— Eu sei, por isso mesmo...

— Não! Você não entende! — interrompeu ele, a voz num tom terrivelmente urgente, agarrando o meu pulso com a mão grande e quente. — Eu achei que podia controlar a situação mantendo vocês sob a minha vista, sob a guarda do Jared e dos outros. Mas se a ameaça tá aqui dentro, eu não posso proteger você e as crianças nem do meu próprio teto!

— Jacob...

— Você vai embora, Renesmee — declarou ele, e a autoridade na voz dele era tão esmagadora que parecia faltar ar no quarto. — Você vai pegar o Noah e a Sarah e vai sair desta cidade. Hoje.

— Eu já te disse que não vou te abandonar no meio de uma guerra! — rebati, o peito subindo e descendo acelerado enquanto a raiva e o medo se chocavam dentro de mim.

— Isso não é uma discussão sobre coragem ou lealdade, caralho! — ele esbravejou num tom baixo e feroz, a dor do ferimento cobrando seu preço na cor do seu rosto, mas o desespero nos olhos dele superando qualquer dor física. — Se eu morrer nesta cama por causa de uma emboscada, o império rui, mas os meus filhos continuam vivos! Se vocês ficarem aqui enquanto eu caço esse espião, o Aro vai usar você e os gêmeos para me dobrar antes de me matar! Eu não posso lutar essa guerra olhando por cima do ombro o tempo todo com medo de ver o sangue de vocês no chão da minha casa!

As lágrimas queimaram meus olhos, mas não deixei que caíssem. Encarei o homem à minha frente: enfraquecido pela anestesia, mas usando cada gota da sua força restante para tentar me erguer uma parede de proteção.

— Se eu for embora agora — sussurrei, a voz tremendo de dor —, a pessoa que vazou a informação vai saber que nós descobrimos. E se você ficar sozinho nesta casa com um traidor, quem vai garantir que você vai acordar amanhã?

Jacob segurou o meu rosto com a mão grande, cravando o olhar no meu com uma promessa sombria e implacável.

— Eu sou o Don deste território, Nessie. Eu sei lidar com traidores desde que aprendi a andar. Mas eu só consigo fazer essa limpeza se eu souber que aquilo que eu tenho de mais sagrado no mundo tá longe do alcance do fogo. Escolha o lugar. Por favor... E eu prometo eu sempre que puder eu vou visitar vocês. Vamos fazer isso dar certo de alguma forma, a distância.

— Não! — rosnei, a voz rasgando a minha garganta num misto de raiva e desespero, enquanto tentava me soltar do aperto da mão dele. — Eu não quero... Eu não *posso* fazer isso, Jacob! Não posso pegar nossos filhos, virar as costas e fingir que você não está aqui, sangrando e cercado por traidores!

— Isso não é uma porra de uma opção, Renesmee! — esbravejou ele, a voz num tom terrivelmente grave e definitivo que fez a sala inteira enrijecer.

O esforço arrancou um arfar doloroso do peito dele, e o monitor cardíaco apitou de forma desordenada ao lado da cama. Jacob ignorou a dor dilacerante no abdômen e me encarou com os olhos negros cravados nos meus, transbordando uma ferocidade cega, mas desarmada pelo terror absoluto de nos perder.

— Eu não vou colocar a vida dos meus filhos em risco por causa da sua teimosia, porra! — continuou ele, o hálito quente e acelerado batendo contra o meu rosto. — Esta casa não é mais segura. O ar que a gente respira aqui dentro tá envenenado por um desgraçado que vendeu a minha cabeça! Escolha a porra do lugar. Agora.

As lágrimas que eu prendia finalmente transbordaram, queimando minhas bochechas. A sensação de impotência me sufocava, me esmagava contra o peito dele.

— Jake... por favor... — sussurrei, a voz quebrando em um soluço rasgado enquanto segurava o rosto dele com as duas mãos trêmulas. — Não faz isso comigo... Não me manda embora de você no meio desse inferno...

— Escolha — repetiu ele, a voz caindo para um sussurro ríspido, frio e implacável, sem ceder um milímetro. Ele segurou meus pulsos com força, colando a testa na minha até que não restasse nenhum espaço entre nós. — Pra que eu não tenha que fazer isso.

— Eu escolho ficar com você, escolho ser sua esposa. Eu e os nossos filhos não vamos a lugar nenhum sem você. Me colocou no comando Jacob, e essa é a minha decisão agora.