Filha da guerra
58 55. Espiões • Renesmee King
22 de Setembro de 2003
Ajeitei a alça da bolsa pesada no meu ombro enquanto apressava os passos pelo corredor movimentado do bloco acadêmico. Chequei o relógio de pulso pela terceira vez em menos de dois minutos, calculando mentalmente se conseguiria chegar à próxima aula antes que o professor fechasse a porta.
Por algumas poucas horas na semana, a universidade era o meu único refúgio. Ali, entre o burburinho de alunos conversando sobre provas, o cheiro de café passado e os livros de literatura, eu conseguia fingir que a minha vida era comum. Conseguia abafar a lembrança daquela madrugada terrível, do cheiro de sangue no mármore e da promessa fria que Jacob fizera sobre caçar os Volturi. Aqui, eu era apenas a Renesmee, e não a mulher do Don.
Mas a ilusão durou exatamente até eu dobrar a esquina do corredor principal. Dois corpos altos e de postura rígida bloquearam o meu caminho de forma abrupta, cortando o fluxo de estudantes que passava ao meu redor. Dei meio passo para trás, o coração saltando no peito ao reconhecer as figuras impecavelmente vestidas em ternos escuros sob medida. Ergui o rosto e dei de cara com dois dos homens de confiança de Jacob.
—Senhora King — disse o que estava à esquerda, a voz num tom baixo, audível apenas para mim, mas carregada de uma urgência que fez o sangue congelar nas minhas veias. — Precisamos ir. Agora. O carro já está aguardando no pátio dos fundos.
A bolsa quase escorregou do meu ombro. Um arrepio gelado subiu direto pela minha espinha, paralisando os meus pés no chão.
— O que aconteceu? — perguntei, sentindo a minha própria voz subir um tom, misturando pavor e incredulidade. — Por que essa pressa toda? As minhas aulas nem terminaram ainda...
— Recebemos ordens diretas e expressas para retirá-la do campus imediatamente — insistiu o homem, dando um passo discreto para o lado, cortando minha visão do corredor e indicando a saída de emergência com um movimento de cabeça. — Por favor, senhora. Não podemos perder nem mais um segundo aqui.
O pânico que eu tentara sufocar durante dias voltou de soco, queimando a minha garganta. O corredor pareceu girar ao meu redor, a luz fluorescente ficando turva enquanto o meu rosto perdia toda a cor.
— Meus filhos?! — a pergunta saiu num fio de voz rasgado, o desespero tomando conta de mim enquanto eu segurava o braço do segurança com força, cravando as unhas no tecido do terno dele. — O Noah e a Sarah... aconteceu alguma coisa com os meus bebês?! Me digam a verdade, pelo amor de Deus!
— As crianças estão bem e em perfeita segurança, Senhora King — o homem respondeu no mesmo instante, a voz firme para tentar estancar o meu pânico. — O Jared está com eles trancado na mansão. Ninguém encostou neles, eu garanto.
Soltei um arfar trêmulo, sentindo um alívio momentâneo me desarmar. Mas a trégua durou apenas o tempo de uma respiração. A minha mente conectou os pontos no mesmo segundo: se os meus filhos estavam intocados na mansão com o Jared, só havia um motivo no mundo para a escolta armada me arrancar da faculdade no meio da tarde com os rostos pálidos.
— E o Jacob? — a voz me faltou, saindo rouca, falhada, enquanto eu buscava desesperadamente qualquer sinal nos olhos daqueles dois homens. — O Jacob está ferido?! Me fala! Ele sofreu algum ataque?! Ele tá vivo?!
O guarda no comando engoliu em seco. A mandíbula dele se enrijeceu visivelmente e ele desviou o olhar do meu por uma fração de segundo, um intervalo miserável de tempo que pareceu durar uma eternidade. O segundo segurança apenas manteve a postura impecável, varrendo a movimentação dos alunos ao redor sem emitir um único som, o braço levemente posicionado perto da jaqueta.
Aquela ausência de uma resposta negativa imediata foi como um golpe de machado no meu estômago.
— Responde! — exclamei, a voz embargada enquanto as lágrimas queimavam e embaçavam completamente a minha visão. Avancei um passo na direção dele, segurando a lapela do terno. — O que aconteceu ele?!
— Nossas ordens são estritamente para levá-la para casa com segurança e sem alarde, senhora — limitou-se a dizer o segurança, a voz fria, sem me confirmar nem negar nada, mantendo os lábios colados numa linha dura enquanto abria a porta lateral que dava acesso ao estacionamento reservado. — O senhor Lahote nos instruiu a não dar nenhum detalhe na rua. Por favor, senhora King... entre no carro.
O trajeto até a mansão foi um borrão cinzento de pavor. O carro avançou em alta velocidade pelas ruas de Seattle, furando sinais e cortando o trânsito , a urgência no olhar dos homens no banco da frente era mais do que suficiente para me manter à beira de um colapso.
Assim que os portões de ferro se abriram e o veículo derrapou no cascalho do pátio, não esperei a porta ser aberta. Saltei do carro em movimento e corro em direção à entrada principal.
A cena lá dentro era de puro caos organizado. Todos os homens da guarda pessoal de Jacob estavam posicionados nos corredores, armados até os dentes, e a movimentação de médicos e empregados indo e vindo era frenética. Para minha surpresa, as irmãs de Jacob estavam reunidas no hall: Emily, Rachel e Claire. Os rostos de todas carregavam uma palidez assustadora e o peso de uma tragédia iminente.
— Mamãe! — a voz fina de Sarah ecoou do canto da sala de estar.
Senti minhas pernas fraquejarem ao ver os dois. Ignorei todos ao meu redor e me atirei no chão ao lado deles, puxando Noah e Sarah para os meus braços de uma só vez. Apertei meus filhos contra o meu peito com tanta força que quase os sufoquei, cobrindo os rostos pequenos de beijos, verificando cada centímetro da pele deles enquanto minhas lágrimas molhavam suas bochechas.
Eles estavam sorrindo. Graças a Deus, na inocência pura, eles não faziam a menor ideia da tempestade que desabava sobre aquela casa. Estavam apenas felizes em me ver chegar mais cedo.
— Lucy, Maria... por favor, levem os gêmeos para o quarto agora — ordenei, a voz embargada, chamando as babás enquanto me levantava com esforço. — Tranquem a porta e fiquem com eles até eu mandar saida
Assim que as elas guiaram as crianças escada acima, o meu olhar caiu sobre a figura encostada no arco da sala de jantar.
Paul estava ali, com a camisa rasgada e cheia de sangue seco. O peito e o ombro esquerdo dele estavam cobertos de ataduras brancas que já começavam a encharcar de um vermelho vivo. A expressão dele era fechada, sombria, encarando o chão como se estivesse processando um pesadelo.
— Paul... — chamei, a voz falhando enquanto me aproximava dele com as mãos trêmulas. — Meu Deus, Paul... o que aconteceu ? Cadê o Jacob?!
Ele ergueu os olhos para mim, mas antes que pudesse abrir a boca para emitir um único som, passos apressados ecoaram no andar superior.
Rebecca surgiu no topo da escadaria. Os cabelos dela estavam desalinhados e as mãos manchadas de sangue seco. Quando ela me viu no hall, desceu os primeiros degraus quase tropeçando, a voz cortando o ambiente com uma urgência desesperada.
— Renesmee! Graças a Deus você chegou! — gritou Rebecca, apontando para o corredor da suíte principal. — Corre para lá! O Jacob tá lá dentro e não deixa nenhum médico encostar nele! Ele tá expulsando todo mundo aos gritos e se tivesse alguma força agora teria quebrado o braço do doutor! Se apressa!
A porta do quarto principal se escancarou antes mesmo que eu pudesse raciocinar.
O cheiro de ferro e pólvora que impregnava o ar do corredor ficou insuportavelmente denso assim que cruzei o batente. No centro do quarto, Jacob estava sentado na borda da cama king-size, com o peito largo despido e manchado de um vermelho vivo e espesso. Havia dois ferimentos de bala visíveis: um no abdômen, perto das costelas, e outro atravessando o ombro esquerdo. O sangue jorrava de forma contínua, sujando os lençóis brancos e o tapete nobre.
Ao redor dele, dois médicos da família e um enfermeiro tentavam se aproximar com ataduras, garrote e bisturis, mas Jacob, teimoso e furioso, empurrava todos para longe com o único braço útil, rosnando palavrões e recusando-se terminantemente a deixar qualquer um tocar nele ou se deitar. A palidez do seu rosto era assustadora, o suor frio cobria a sua testa, mas os olhos negros continuavam acesos de uma ferocidade cega, recusando-se a apagar.
O choque inicial me paralisou na entrada. O ar faltou nos meus pulmões e a minha visão turvou por um segundo. Ver a força da minha vida, o homem que sempre pareceu imortal, ensanguentado e à beira de um colapso, foi como ter o coração arrancado do peito sem anestesia.
Mas o pavor durou apenas um estalo. A imagem dos meus filhos no andar de baixo e a promessa que fiz de ser a estrutura daquela casa me trouxeram de volta.
— Chega! — minha voz ecoou pelo quarto, alta, firme e cheia de uma autoridade que fez até os médicos pararem no meio do caminho.
Avancei a passos rápidos, ignorando o sangue que sujava a barra do meu vestido de faculdade. Empurrei o enfermeiro com cuidado e parei exatamente entre Jacob e a equipe médica.
— Vocês dois, limpem essas ferramentas e preparem a anestesia e a sutura agora! — ordenei, encarando os médicos com firmeza. — E você — virei-me diretamente para Jacob, segurando o rosto dele com as duas mãos tomadas de um tremor incontrolável, obrigando-o a olhar para mim. — Você cala essa boca e fica quieto. Você não vai morrer hoje, Jacob Black. Não na minha frente. Não depois de tudo .
Jacob piscou, a visão turva tentando se fixar no meu rosto. Um tremor leve passou pelos lábios dele e, mesmo com a cor desaparecendo da sua pele e a respiração saindo em arfadas curtas e dolorosas, ele tentou esboçar um sorriso torto e debochado no canto da boca.
— Olha só... — a voz dele saiu num fôlego arrastado, rouca, falhando pelo esforço de manter os olhos abertos. — A minha leoa... mandando até nos médicos..
— Não tenta brincar, seu idiota! — a minha voz quebrou em um soluço rasgado, e as lágrimas que eu segurava finalmente transbordaram, descendo sem controle pelas minhas bochechas enquanto eu pressionava uma gaze limpa contra o ferimento do peito dele. — Não faz isso comigo! Não ousa falar mais nada!
A raiva na minha voz era só um escudo esfarrapado para o pavor visceral que me corroía por dentro. Eu estava horrorizada, aterrorizada com a ideia de ver a luz daqueles olhos se apagar para sempre.
Aproximei minha testa da dele, sentindo a pele fria e suada do seu rosto, segurando a mão dele com toda a força que eu tinha na alma.
— Eu te amo, ouviu? — sussurrei contra os lábios dele, chorando copiosamente enquanto os médicos começavam a cortar o tecido e estancar o sangramento. — Eu te amo tanto que sou capaz de te trazer de volta do inferno se você ousar fechar os olhos. Fica comigo, Jacob... Por favor, fica comigo.
•••
A porta do quarto abriu-se devagar e Sam cruzou o batente com passos pesados. Ele trazia o terno manchado de fuligem , o rosto tenso cortado por uma exaustão sombria. Parou ao lado da cama, observando o peito de Jacob subir e descer num ritmo lento e pesado sob o efeito da anestesia ministrada pelos médicos, que finalizavam os últimos pontos de sutura no ombro dele.
Eu não soltei a mão de Jacob nem por um segundo. Mantive meus dedos entrelaçados aos dele, sentindo a pele grande e áspera lentamente esquentar conforme a medicação estabilizava seus sinais vitais.
— O que aconteceu, Sam? — perguntei sem erguer os olhos da cama, a voz rouca pelo choro represado. — Como isso foi acontecer?
Sam soltou um arfar pesado, passando a mão pelo rosto.
— A escolta principal foi interceptada na avenida intermunicipal. O carro do Jacob foi alvejado de múltiplos ângulos. Usaram munição pesada, perfurante... foi um massacre.
Franzindo o cenho, ergui o rosto para encará-lo, o sobressalto me fazendo apertar ainda mais os dedos de Jacob.
— Alvejado? Sam, o carro dele é totalmente blindado! Aquele SUV suporta até explosivos de baixo calibre, é impossível terem perfurado a lataria !
Sam desviou o olhar por uma fração de segundo, encarando o chão antes de responder num tom baixo e amargo.
— Ele não estava usando o SUV hoje, Renesmee.
— Como não?! Qual carro ele pegou então? — exigi, a voz falhando enquanto a dúvida começava a se transformar em um nó apertado no meu estômago.
— Ele pegou o conversível cinza — respondeu Sam, calmo e dolorosamente direto. — Aquele que você viu na concessionária mês passado. O que você comentou que achava lindo e charmoso. Ele fez questão de mandar buscar , mandou fazer uma revisão completa e guardou na garagem sem te contar.
O ar sumiu dos meus pulmões. Olhei de volta para o rosto pálido de Jacob, o peito nu coberto de ataduras brancas e garrotes.
— Ele... ele tava com aquele carro? — murmurei, caindo em si.
— Ele estava indo para a sua universidade — completou Sam. — Ele queria te fazer uma surpresa, te buscar na porta do bloco no meio da tarde para te levar pra almoçar fora. Ele não levou a escolta pesada de costume porque queria um momento comum com você.
Um silêncio ensurdecedor caiu sobre o quarto. O som constante do monitor cardíaco parecia martelar na minha cabeça.
Jacob tinha arriscado a própria vida, deixado a blindagem pesada e os carros de assalto de lado, apenas para tentar me dar uma nesga de normalidade. Para me fazer sorrir na saída da aula.
Mas, conforme o impacto emocional começava a se assentar, uma clareza fria e aterrorizante tomou conta da minha mente. As peças do quebra-cabeça se encaixaram com uma precisão matemática brutal.
Jacob não usava aquele carro. Ninguém sabia que ele estava com aquele modelo. Ele não tinha traçado a rota com a equipe de inteligência da mansão e tomou a decisão de ir me buscar poucas horas antes de eu sair da aula. Era um itinerário completamente fora do padrão de segurança da máfia.
Lentamente, soltei o ar pela boca, sentindo um arrepio espesso congelar a minha espinha enquanto encarava Sam.
— Ninguém sabia que ele ia usar aquele carro, Sam — disse eu, a voz saindo num tom terrivelmente calmo e perigoso. — Ninguém sabia que ele estava indo pra faculdade me buscar. Como os homens do Aro sabiam exatamente em qual cruzamento esperar?
Sam enrijeceu a postura no mesmo instante, os olhos negros se estreitando ao notar onde a minha mente tinha chegado.
— Renesmee...
— Alguém vazou a informação — declarei, olhando no fundo dos olhos dele sem piscar. — Alguém dentro dessa casa contou onde o Jacob ia estar.
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