Filha da guerra
55 53. Duas faces • Jacob Black
Notas iniciais
05:15 AM — Mansão King
O som abafado do motor do meu Porsche cortou a neblina da alvorada antes de eu jogar o carro de qualquer jeito sobre o gramado da entrada, sem me importar em parar na garagem. Saí do veículo sem nem fechar a porta, empunhando a Colt .45 na mão direita. O cheiro de pólvora, sangue e fumaça já impregnava o ar fresco da manhã de Seattle.
Toda a minha linha de frente já estava lá. Dezenas de homens de terno escuro cercavam o perímetro, empunhando fuzis e varrendo os cantos da propriedade.
Pisei no primeiro degrau da varanda e vi os corpos. Três dos meus melhores seguranças jaziam sem vida perto da porta de entrada, perfurados por tiros de silenciador. Mais à frente, perto da escadaria, o cenário era um campo de abate: corpos dos desgraçados que ousaram invadir a casa estavam espalhados pelo chão, com o mármore branco manchado de um vermelho escuro e espesso.
Jared veio na minha direção assim que cruzou o hall. Ele estava coberto de respingos de sangue no rosto e no peito, com a respiração pesada e a expressão de quem sabia exatamente o tamanho do monstro que tinha acabado de despertar em mim.
— Tio... a Renesmee e as crianças estão bem — disse Jared, a voz firme, mas com o cuidado de quem fala com um predador prestes a rasgar a garganta de qualquer um. — O bunker aguentou. Elas não saíram de lá. A Renesmee deixou bem claro pelo rádio interno que não vai colocar os pés fora do closet com o Noah e a Sarah até que a casa esteja completamente limpa. Ela não quer os meninos vendo esse mar de sangue.
Eu não disse uma única palavra. O ar nos meus pulmões queimava como ácido. A voz de Renesmee chorando no telefone, a voz dela trêmula dizendo que eles estavam pedindo pelos meus filhos, reverberava na minha cabeça em um eco ensurdecedor e sanguinário.
Eles tinham tocado no meu santuário. Tinham feito a minha mulher chorar de pavor e ameaçado os meus filhos.
— Limpem o corredor do quarto dela e a escadaria principal agora — ordenei, a voz saindo tão baixa e gutural que nem parecia humana. O som fez os homens mais próximos darem um passo involuntário para trás. — Enrolem esses corpos em lonas e joguem nos caminhões. Quero a limpeza do chão antes da minha mulher dar o primeiro passo fora daquela porta. Quil e Embry ficam na porta do closet montando guarda até eu mandar abrir.
— Entendido, tio — assentiu Jared rapidamente. — E quanto aos que sobraram?
— Quantos? — cravou meus olhos escuros nele.
— Quatro. Rendemos quatro no andar de cima antes que tentassem usar explosivos na porta do bunker. Eu mantive todos vivos porque sabia que você ia querer cada um deles.
— Onde eles estão?
— No porão. Amarrados.
Caminhei a passos pesados em direção ao acesso do porão, a sola das minhas botas deixando marcas de sangue pelo corredor enquanto os homens já se apressavam para arrastar os cadáveres e limpar a rota do andar superior. Jared, Embry e mais dois homens me seguiram em silêncio absoluto. Ninguém ousava respirar alto ao meu lado.
Desci os degraus de concreto e empurrei a porta de ferro. O ambiente era frio, iluminado apenas por uma lâmpada fraca pendurada no teto. No centro do cômodo, quatro homens estavam ajoelhados, com as mãos amarradas para trás com braçadeiras de plástico grosso. Todos estavam machucados, mas ainda conscientes.
Assim que a porta se fechou, passei o olhar por cada um deles. O silêncio no porão era sufocante, interrompido apenas pela respiração arfante dos mercenários.
Um deles, o que parecia ser o líder, com uma cicatriz feia na sobrancelha, tentou erguer o queixo, bancando o durão.
— Você demorou, Black — cuspiu ele, expelindo sangue no chão. — Não importa o que você faça com a gente. A ordem já foi dada. Seattle nunca mais vai ser...
Antes que ele terminasse a frase, guardei a Colt no coldre, dei dois passos rápidos e agarrei o pescoço dele com a mão esquerda, levantando o corpo de oitenta quilos do chão como se não pesasse nada e prensando-o com violência contra a parede de concreto bruto.
O som das vértebras dele estalando contra o concreto ecoou pela sala.
— Você achou que veio aqui para fazer política, seu merda? — murmurei, aproximando meu rosto do dele até que ele pudesse ver o reflexo do próprio inferno nos meus olhos. — Você entrou na casa da minha mulher. Você fez os meus filhos ouvirem a sua voz no escuro.
Apertei os dedos em volta da traqueia dele até o homem começar a se contorcer em pânico, os olhos saltando das órbitas enquanto sufocava. Soltei-o de repente, deixando-o desabar no chão tossindo desesperadamente.
Virei-me para Jared sem tirar os olhos do desgraçado no chão.
— Leva eles pro meu porão na mansão Black. Prepara o maçarico e o alicate de corte do galpão — ordenei, a voz fria, desprovida de qualquer traço de humanidade. — E manda andarem rápido com a limpeza lá em cima. A Renesmee só sai do bunker quando não houver um único pingo de sangue no caminho dos meus filhos.
— Tio... quem mandou eles foi o... — Jared tentou começar a falar, mas eu o cortei com um único olhar.
— Eu não quero saber quem mandou ainda — declarei, arrancando o paletó e dobrando as mangas da camisa social branca até os cotovelos. — Eu vou arrancar a pele de cada um deles pedaço por pedaço primeiro. Vou tirar os dentes, os dedos, e fazê-los engolirem a própria língua por terem pensado o nome da Renesmee. Quando eles não tiverem mais pele para sentir dor... aí você me diz quem pagou por isso.
O desgraçado da cicatriz cuspiu mais um pouco de sangue no concreto e soltou uma risada fraca, trêmula, mas carregada de uma provocação vil e desesperada.
— Você pode me esfolar vivo, Black... mas a sua mulher vacilou. Eu não vou dizer nada, só me arrependi de não ter derrubado aquela maldita porta. Ela chorou feito uma cadela assustada do outro lado daquela porta. E se a gente tivesse conseguido abrir... você sabe o que cinco homens teriam feito com ela e com aqueles bastardos nojentos antes de cortar a garganta de todo mundo. Eles já seriam cadáveres frios a esta hora.
A sala congelou por completo.
Pelo canto do olho, vi o Jared arregalar os olhos e dar meio passo para trás. Ele me conhece. Sabe exatamente o que aquelas palavras significavam. O meu plano inicial era arrastar esses vermes para o galpão isolado na zona industrial, longe o bastante para que o som do massacre não chegasse até o quarto onde a minha mulher estava.
Não mais.
Parei no meio do caminho. Lentamente, virei a cabeça na direção do mercenário. Não senti meu rosto esquentar, não senti raiva, senti apenas um vazio negro e absoluto tomar conta de mim. A versão humana de Jacob Black deu lugar ao predador mais sombrio do submundo de Seattle.
Eu não ia esperar pelo maçarico do galpão. Não ia esperar por porra de transferência nenhuma.
Puxei do bolso interno do colete a minha pequena faca de caça, aquela com lâmina serrilhada de dez centímetros, perfeita para cortes de precisão e sangria. Deslizei o aço entre os meus dedos. O brilho frio da lâmina sob a luz fraca do porão era a última coisa que aquele verme veria antes do inferno.
— Você achou mesmo que eles seriam cadáveres? — perguntei. Minha voz saiu num tom terrivelmente baixo, um sussurro calmo e macabro enquanto eu dava cada passo em direção a ele.
Antes que ele pudesse piscar, cravei a lâmina sem aviso direto na coxa direita dele. Afundei o metal até encostar no osso e girei a faca dentro da carne com um movimento lento, ritmado, calculado.
O urro de dor do desgraçado rasgou o porão, um grito desumano que ricocheteou pelas paredes de concreto bruto. Ele se contorceu em desespero, mas eu pisei com a minha bota pesada sobre o joelho dele, esmagando a articulação e travando a perna no chão enquanto mantinha a lâmina afundada na ferida.
— Você pronunciou o nome da minha esposa — murmurei, inclinando meu rosto sobre o dele até sentir a respiração descontrolada e o pavor puro nos olhos do invasor. Puxei a faca para cima de uma vez, rasgando o músculo em um traço cruento. — Você imaginou a minha família no chão do meu quarto.
O sangue quente e espesso jorrou, sujando a minha calça e os meus sapatos de couro. Eu nem pisquei. O mercenário gritava até a voz falhar e rasgar as cordas vocais, debatendo-se como um bicho no abatedouro, mas o meu aperto era uma prensa de ferro.
— A minha esposa tá viva. Os meus filhos tão salvos — continuei, encostando a ponta afiada da faca na pele da garganta dele, logo acima da jugular que pulsava em pânico. Não aprofundei para matar. Não ainda. — E você... você vai passar as próximas horas implorando para que eu corte a sua garganta. E eu não vou te dar esse privilégio até tirar cada pedaço da sua pele.
Puxei a lâmina da garganta dele e a cravei com toda a minha força na outra perna.
•••
Subi os degraus de concreto do porão um a um, com passos lentos e pesados. O silêncio que agora reinava lá embaixo era definitivo, quebrado apenas pelo eco abafado das minhas botas. Eu estava coberto de sangue.
Assim que cruzei o batente da porta de ferro no térreo, a claridade fraca do início da manhã me atingiu. E no fim do corredor, em frente à escadaria principal, eu a vi.
Renesmee.
Ela deu um passo em minha direção com o rosto pálido, os olhos arregalados e inchados de tanto chorar. Mas antes que ela pudesse correr até mim, Paul e Solomon se posicionaram na frente dela, erguendo os braços de forma firme, porém cuidadosa, bloqueando a sua passagem.
— King, não. Fica aqui — disse Solomon, a voz baixa e grave, sem tirar os olhos de mim.
— Não vá até lá, Nessie. Por favor — reforçou Paul, mantendo o corpo entre ela e a entrada do porão, sabendo exatamente a cena de abatedouro que tinha ficado para trás e o estado em que eu estava.
Renesmee travou no lugar. O olhar dela caiu diretamente para as minhas mãos, para a minha camisa encharcada de sangue ainda quente, e o pavor estampado no seu rosto se multiplicou por mil. O ar pareceu fugir dos seus pulmões. Ela cobriu a boca com as duas mãos, tremendo tanto que mal conseguia se manter de pé.
Caminhei na direção dela, devagar, sem me aproximar demais para não assustá-la ainda mais com o cheiro forte que me acompanhava.
— Jacob... — a voz dela saiu rasgada, num sussurro trêmulo, carregado de um desespero puro. Os olhos dela varriam o meu corpo em busca de ferimentos, me medindo da cabeça aos pés no meio de todo aquele vermelho. — Meu Deus... Jacob... você tá machucado?! Por favor... me diz que você não se feriu!
Parei a dois passos de distância, olhando no fundo dos olhos castanhos da minha mulher. Vi o medo, a fragilidade e a dor que aqueles desgraçados tinham causado nela, e isso fez o meu peito apertar de um jeito que lâmina nenhuma conseguiria fazer.
— Não — respondi, a voz saindo grave, ríspida e esgotada, mas absolutamente firme.
Olhei para as minhas próprias mãos ensanguentadas e depois voltei a encará-la, mantendo o tom frio que ainda me dominava por dentro.
— Não é meu.
Continuei parado a dois passos dela, sentindo o calor do sangue alheio secando na minha pele. A fúria que queimava no meu peito começou a dar lugar a um cansaço pesado, mas a única coisa que realmente importava no mundo ainda não estava diante dos meus olhos.
— Onde estão os meus filhos, Renesmee? — perguntei, a voz saindo grave e cortante. — Cadê o Noah e a Sarah?
Ela engoliu em seco, tentando controlar o tremor nas mãos enquanto me encarava.
— A Rachel veio buscar os dois... — explicou ela, com a voz um pouco mais calma, embora ainda embargada. — Assim que limparam o corredor do closet, ela veio com mais quatro seguranças. Ela levou o Noah e a Sarah para a Mansão Black. Eles já estão lá, Jacob... estão seguros com as suas irmãs. A Rebecca, a Emily e a Rachel não deixam ninguém chegar perto deles.
Soltei o ar devagar pelos lábios, sentindo o peso de uma tonelada sair das minhas costas. Meus filhos estavam no meu domínio mais protegido, cercados pela minha família. Eles estavam a salvo.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, digerindo a informação e me preparando para dar as ordens de limpeza final para Paul e Solomon, quando Renesmee deu um passo à frente. Ela ignorou os guardas, ignorou o cheiro nauseante de ferro e morte que emanava de mim e parou bem na minha frente.
— Vem comigo — disse ela, baixinho, olhando nos meus olhos.
Franzindo o cenho, encarei-a com dúvida.
— O quê?
— Vamos subir. Vem tomar um banho comigo — pediu ela, a voz saindo como um sussurro sincero, mas carregado de uma determinação dolorosa.
Arregalei levemente os olhos, genuinamente surpreso com o convite. Olhei para baixo, para a minha camisa encharcada de sangue, e depois para o rosto dela. Eu era a imagem do próprio diabo naquele momento, e a última coisa que esperava era que ela quisesse ficar perto de mim.
— Nessie... eu tô coberto de sangue. Do sangue daqueles desgraçados — murmurei, dando meio passo para trás para preservá-la. — Eu não quero te sujar. Não quero que você toque nisso.
Renesmee deu mais um passo, reduzindo a distância entre nós, e segurou a minha mão ensanguentada com as duas mãos dela, sem se importar em se sujar.
— Eu não me importo, Jacob — disse ela, olhando fundo nos meus olhos, com as lágrimas finalmente cessando. — Eu só quero me livrar de todos os rastros dessa madrugada nojenta. Quero tirar esse cheiro da casa, da sua pele, de mim... Por favor. Só vem comigo.
Fale com o autor