Filha da guerra
56 53. Duas faces II • Jacob Black
Segurei a mão dela com cuidado, com o mínimo de força possível, com medo de que a sujeira na minha pele a contaminasse, e deixei que Renesmee me guiasse.
Subimos a escadaria em silêncio absoluto. Cada passo de Renesmee era calmo, calculado, mas eu sentia a vibração trêmula que vinha dos dedos dela entrelaçados aos meus. Ela me conduziu para o interior da suíte principal e, em seguida, para o banheiro espaçoso de mármore.
O som da água forte caindo do chuveiro começou a preencher o ambiente, espalhando uma cortina de vapor quente pelo cômodo.
Fiquei parado no centro do banheiro, estático como uma estátua, enquanto ela se aproximava de mim para desabotoar a minha camisa. Os dedos de Renesmee roçavam no tecido encharcado de sangue. Foi ali, a poucos centímetros do rosto dela, que eu vi.
Ela estava com os lábios comprimidos numa linha fina. Os olhos castanhos, normalmente tão expressivos e quentes, evitavam cruzar com os meus por mais do que uma fração de segundo. Cada movimento que ela fazia, cada puxada de tecido, cada gesto de me despir, cada palavra dita num tom baixo e doce demais, era terrivelmente medido.
Ela estava escolhendo como se mover. Estava escolhendo exatamente o que falar.
Não era apenas o trauma da invasão ou o choque de ver a casa cercada de mortos. Renesmee estava pisando em ovos. Ela olhava para mim não como o marido ou o ex-marido que tinha acabado de salvá-la, mas como o monstro descontrolado que saíra daquele porão coberto da cabeça aos pés com o sangue de homens torturados.
Ela estava com medo de mim.
A percepção me atingiu no peito com a força de um soco no estômago, mais dolorosa do que qualquer lâmina. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o vapor quente do banheiro misturar-se ao cheiro nauseante de ferro que ainda saía da minha pele.
Eu tinha protegido a minha família, tinha destruído cada verme que ousou ameaçar a vida dos meus filhos. Mas, no processo, tinha deixado a sombra da minha verdadeira natureza se projetar sobre uma das pessoas que eu jurara proteger.
Não me mexi enquanto ela puxava a camisa ensanguentada pelos meus ombros e a deixava cair no chão com um baque úmido. Quando o tecido pesado saiu do meu corpo, o cheiro de ferro ficou ainda mais denso no ar quente, mas Renesmee não recuou. Ela apenas deu meio passo para trás, ligando a torneira da banheira para acelerar o fluxo da água antes de me puxar suavemente para debaixo do chuveiro.
A água quente atingiu minha cabeça e meus ombros, e no mesmo instante uma corrente vermelha e espessa começou a escorrer pelo meu peito, escorrendo pelos meus pés e tingindo o mármore branco do box.
Renesmee pegou o sabonete, espalhando a espuma branca nas próprias mãos antes de tocar a minha pele.
O primeiro contato dos dedos dela no meu peito foi hesitante. Senti um pequeno espasmo passar pelo corpo dela, um tremor involuntário quando a espuma cobriu o sangue. Ela esfregava com firmeza, mas seus olhos continuavam fixos no meu tórax, evitando a todo custo encarar o meu rosto.
— Nessie... — murmurei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia, rouca e cansada
Ela travou por um segundo. A mão parou sobre o meu peito, coberta pela espuma avermelhada.
— Não fala nada, Jacob. Por favor — pediu ela, a voz num fio trêmulo. — Só... deixa eu tirar isso de você.
Ela voltou a me esfregar, pegando o chuveirinho manual para enxaguar a minha pele. A água levava a sujeira embora, revelando a minha pele ilesa, mas a distância invisível entre nós só parecia aumentar. Renesmee agia com a precisão de quem cuida de uma fera ferida que pode avançar a qualquer momento se der o passo errado.
Ver o terror que aqueles invasores causaram nela já tinha sido um inferno. Mas ver o tremor na mão da minha esposa enquanto ela limpava o sangue das minhas mãos, sabendo que parte daquele pavor agora era endereçado a mim, me corroía por dentro.
— Eu não ia deixar ninguém encostar em você — disse, incapaz de ficar em silêncio, encarando o topo da cabeça dela enquanto a água cobria nossos corpos. — Nem no Noah, nem na Sarah.
Renesmee parou o chuveirinho. Ela fechou os olhos por alguns segundos, engolindo em seco, e finalmente ergueu o rosto para me encarar. As lágrimas se misturavam com a água do chuveiro caindo sobre a sua testa, mas a dor no seu olhar era cristalina.
— Eu sei, Jacob. Eu sei que você fez isso por nós — sussurrou ela, a voz embargada, levando a mão limpa ao meu rosto e tocando minha bochecha com um carinho doloroso. — Mas me deixa ter medo por alguns minutos... Por favor. Eu passei a madrugada achando que ia ver meus filhos morrerem, e depois vi você virar um estranho. Só me deixa absorver isso.
Ela encostou a testa contra o meu peito ensopado, soltando o choro abafado que guardara a noite inteira. Fechei os braços em volta dela, apertando-a contra mim com todo o cuidado do mundo, deixando a água quente lavar o resto daquela madrugada enquanto o silêncio do banheiro nos cobria.
Apertei meus braços ao redor dela, sentindo o corpo pequeno tremer violentamente contra o meu. A água continuava caindo pesada sobre nós, levando os últimos vestígios da carnificina pelo ralo, mas a tempestade real estava acontecendo ali, no choro convulso da minha esposa.
Afundei o rosto nos cabelos molhados dela, beijando o topo da sua cabeça repetidas vezes, tentando ser a âncora que ela precisava.
— Eu tive tanto medo, Jacob... — o desabafo saiu rasgado, abafado contra a minha pele molhada. Os dedos dela se cravaram nos meus ombros, buscando sustentação. — Quando eles bateram na porta... quando gritaram que queriam o Noah e a Sarah... eu achei que ia morrer ali dentro.
— Shh... acabou, meu amor. Eles nunca mais vão chegar perto de vocês — murmurei, acariciando as costas dela com firmeza.
Renesmee soluçou, balançando a cabeça em negativa contra o meu peito, como se o pesadelo ainda estivesse passando diante dos seus olhos.
— Não foi só lá fora — ela continuou, a voz falhando, carregada de uma exaustão absoluta. — A Martha... a babá... ela entrou em pânico. Ela queria abrir a porta, Jacob. Ela ouviu os homens dizendo que não iam machucá-la se entregasse as crianças, e ela olhou pra alavanca. Ela ia entregar os nossos filhos pra salvar a própria vida.
Meu sangue gelou instantaneamente. A imagem daquela mulher — alguém que eu pagava e confiava para estar dentro da minha casa — prestes a destrancar a porta blindada e entregar os meus filhos para o abate fez um ódio novo e letal acender no meu estômago. Eu a mataria. Martha não veria o fim do dia.
Mas antes que eu pudesse deixar essa fúria transparecer, Renesmee apertou o meu pescoço, chorando ainda mais forte.
— Eu ameacei ela... Eu rosnei pra ela feito um bicho, Jacob. Eu disse que se ela tocasse naquela tranca, eu mesma ia acabar com ela antes dos homens entrarem. — Renesmee ergueu o rosto, os olhos castanhos transbordando lágrimas misturadas com a água do chuveiro, procurando os meus com um desespero infantil. — Mas eu tava tremendo tanto por dentro... Eu tive tanto medo de não ser forte o suficiente pra impedir se ela tentasse alguma coisa física. Eu tive medo de não conseguir proteger os meus bebês sozinha.
Ouvir aquilo quebrou o que restava da minha frieza. A minha mulher, a garota doce e delicada que eu arrastei para o meu mundo manchado de sangue, teve que se transformar em uma leoa encurralada no escuro para proteger as nossas crias.
Envolvi o rosto dela com as minhas mãos grandes, enxugando as lágrimas com os polegares, obrigando-a a me olhar.
— Você foi a mulher mais forte do mundo hoje, Renesmee. Você salvou a vida dos nossos filhos — falei, com a voz embargada pela emoção crua que me invadia. Colei a minha testa na dela, olhando no fundo dos olhos castanhos assustados. — Você não é fraca. Você dominou aquela sala e manteve o Noah e a Sarah seguros quando o inferno desabou em cima dessa casa. Você foi perfeita.
Ela soltou um suspiro trêmulo e longo, fechando os olhos enquanto o peso das minhas palavras parecia finalmente afrouxar o nó na garganta dela. Renesmee escondeu o rosto na curvatura do meu pescoço de novo, desmoronando de alívio e exaustão, chorando até não ter mais lágrimas. Segurei o corpo dela com força contra o meu debaixo da água quente, sabendo eu passaria o resto da minha vida garantindo que ela nunca mais precisasse ser forte daquele jeito de novo.
Renesmee travou nos meus braços. O choro convulsivo deu lugar a uma respiração curta e dolorosa, e quando ela se afastou o suficiente para olhar no fundo dos meus olhos, a dor e o horror no seu rosto eram quase palpáveis.
— Foi o Aro Volturi... — o nome saiu da boca dela num tom rasgado, carregado de um pavor antigo que ela pensou que nunca mais sentiria. Os dedos dela se apertaram no meu peito, cravando as unhas na minha pele molhada. — Foi ele, Jacob... O Aro mandou aqueles desgraçados entrarem na nossa casa. Ele mandou sequestrar o Noah e a Sarah...
Um silêncio pesado caiu sobre o banheiro, cortado apenas pelo som contínuo da água do chuveiro caindo no chão.
Não desviei o olhar.
Apenas continuei encarando a minha mulher com a mesma expressão fria e sombria que trouxera do andar de baixo, deslizando as mãos pelas costas molhadas dela para mantê-la firme diante de mim.
— Eu sei — respondi, com a voz saindo num tom baixo, grave e perigosamente calmo.
Renesmee piscou, surpresa, engolindo em seco enquanto as lágrimas continuavam descendo.
— Você... você já sabia?
— Gritaram o nome dele no porão — declarei, e a lembrança da lâmina cortando a carne do mercenário voltou à minha mente com uma clareza cristalina. — Antes de eu tirar a pele daquele desgraçado da cicatriz, ele abriu a boca.
Envolvi o rosto dela de novo, sentindo o tremor leve da sua pele contra as minhas palmas.
— O Aro achou que podia mandar homens até Seattle e arrancar de mim o que eu tenho de mais sagrado — continuei, encarando os olhos castanhos dela com uma promessa implacável. — Ele achou que podia fazer comigo o que fez no passado com Charlie e com Carlisle, quando tirou você de Renée.
Renesmee fechou os olhos, soltando um arfar doloroso ao ouvir a confirmação, encostando a testa no meu peito mais uma vez. O pesadelo dos Volturi, que a assombrava desde que era criança, tinha batido à nossa porta para pegar os filhos dela.
— O que você vai fazer, Jacob? — sussurrou ela, a voz trêmula pelo medo da guerra sangrenta que ela sabia que estava por vir.
— O que eu deveria ter feito há muito tempo — murmurei contra os cabelos molhados dela, apertando-a contra o meu corpo. — Vou caçar cada um dos homens que o Aro mandou. E depois, eu mesmo vou colocar um fim naquela dinastia. Ninguém toca na minha família e vive para contar história. Eu vou queimar Aro Volturi vivo.
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