Filha da guerra
54 52. O Bunker • Renesmee King
03:42 AM
Um sobressalto repentino me fez despertar no meio da escuridão. Sentei-me na cama num pulo, a respiração curta e o coração martelando contra as costelas com uma violência dolorosa. Não havia nenhum som alto pela casa, mas um aperto denso no peito — um pressentimento gélido e quase instintivo — fez os pelos do meu braço se arrepiarem por completo.
Algo estava muito errado. Deslizei para fora da cama e caminhei a passos silenciosos até a grande janela de vidro do quarto, puxando a cortina de veludo apenas alguns centímetros para observar o jardim dos fundos. A iluminação fraca dos refletores cortava a penumbra da madrugada, refletindo na vegetação alta.
Forcei a vista para tentar entender o que estava vendo.
Parado rente ao muro lateral, um homem de porte pesado ajustava o cinto tático. Ele vestia jaqueta de couro surrada e segurava uma metralhadora preta de porte pesado, uma postura agressiva, desleixada e completamente diferente dos homens de terno impecável e tática militar que Jacob deixara vigiando a minha propriedade. O homem no jardim não era da máfia dos Black.
Era um invasor.
O ar sumiu dos meus pulmões por um milésimo de segundo enquanto a ficha caía com o peso de uma avalanche. A casa estava cercada.
Girando sobre os calcanhares, atravessei o quarto a passos rápidos e silenciosos, ignorando o frio do chão no meu pé descalço. Corri pelo corredor escuro até a porta do quarto das crianças, empurrando a madeira sem fazer barulho.
— Martha... Martha, acorda — murmurei em tom de urgência, chacoalhando o ombro da babá que dormia na poltrona ao lado dos berços.
Martha piscou os olhos, confusa com o sobressalto, e abriu a boca para falar, mas selei seus lábios com a minha mão instantaneamente.
— Calma. Preciso que você seja muito rápida e não faça nenhum barulho — instruí num sussurro cortante, encarando os olhos assustados da mulher enquanto a puxava pelo braço. — A casa tá sendo invadida.
Martha sufocou um arfar de pavor, cobrindo o próprio rosto com as mãos enquanto olhava em desespero para Noah e Sarah, que dormiam tranquilamente cobertos até o pescoço.
— Meu Deus, senhorita King... o que a gente faz?! — murmurou ela, a voz trêmula de pavor.
— Pega o Noah. Eu pego a Sarah — ordenei, mantendo a voz firme apesar do pavor que me consumia por dentro. — O Jacob preparou um bunker no meu closet para emergências como essa. A porta é blindada e só ele e eu temos o código. Vamos tirar meus filhos daqui agora.
Martha, apesar das mãos trêmulas e do pavor estampado no rosto, agiu com rapidez. Pegou Noah no colo, cobrindo a cabeça do menino com o pequeno edredom para que ele não despertasse.
Saímos do quarto das crianças como duas sombras, pisando leve no tapete do corredor extenso. Cada estalo natural da estrutura de madeira da Mansão King fazia meu coração disparar. Lá fora, o som abafado de um disparo com silenciador ressoou na calada da noite, seguido por um baque pesado no gramado.
Eles já tinham começado a neutralizar os seguranças do perímetro.
Apressamos o passo de volta à suíte principal. Entramos e passei a chave na tranca pesada da porta de madeira maciça. Sem perder um segundo, conduzi Martha para o interior do imenso closet. Afastei as araras de casacos pesados no fundo da parede esquerda, revelando um cofre de chapa metálica reforçada embutido na parede de alvenaria.
Deslizei a pequena tampa de ferro para o lado, expondo um disco giratório mecânico de combinação.
Minhas mãos tremiam, mas a memória do treinamento que Jacob me deu veio à tona. Girei o disco de metal com precisão para a esquerda, depois para a direita, contando os cliques mecânicos do segredo interno até ouvir o estalo seco da tranca pesada liberando. Puxei a manivela de ferro com força, e a pesada porta de aço reforçado abriu-se para dentro, revelando a sala de pânico.
— Entra, Martha! Vai, vai! — ordenei num tom urgente, porém abafado.
A babá passou primeiro, abraçando Noah com força contra o peito. Entrei logo em seguida com Sarah, puxando a espessa porta de aço e girando a alavanca interna até que os pinos maciços de ferro se encaixassem no batente de concreto.
O som metálico e pesado selou a entrada, isolando-nos por completo do resto do mundo.
O bunker era iluminado por uma lâmpada amarela conectada a um gerador de bateria independente. O ar tinha um cheiro leve de metal, soprado por um duto de ventilação simples instalado no teto. No canto, havia um rádio transmissor de frequência fechada, galões de água e suprimentos essenciais.
Encostei as costas contra a parede de concreto e deslizei até o chão, trazendo Sarah para o meu colo. Martha sentou-se ao meu lado no pequeno banco de madeira, sufocando o choro enquanto ninava Noah.
Estávamos trancadas e temporariamente salvas pela paranoia de Jacob, mas o silêncio pesado daquele abrigo blindado só tornava o pânico mais sufocante.
Com as mãos trêmulas e o peito arfando, ajeitei Sarah no colo e me arrastei pelo chão de concreto até a pequena bancada onde o telefone de linha direta — conectado a uma fiação subterrânea blindada — repousava ao lado do rádio.
Puxei o gancho do aparelho preto e disquei o número privado de Jacob, o único gravado na memória do aparelho.
O tom de discagem chamou uma, duas vezes, quebrando o silêncio sufocante do bunker. Ao terceiro toque, a chamada foi atendida com um clique seco.
— Nessie? — a voz de Jacob veio do outro lado da linha, imediatamente alerta, cortando a distância entre Seattle e Forks. — O que aconteceu? Por que você tá me ligando dessa linha?
No momento em que ouvi a voz dele, as lágrimas que eu segurava com tanto custo finalmente transbordaram, descendo quentes pelo meu rosto.
— Jacob... — a minha voz saiu num fio, entrecortada pelo choro sufocado. Ajoelhei-me no chão, abraçando Noah e Sarah juntos contra o meu peito enquanto segurava o fone firme contra a orelha. — Entraram na casa, Jacob... Tem homens armados no jardim... Eles mataram os seguranças lá fora...
Houve um segundo de silêncio absoluto do outro lado da linha — um silêncio denso, perigoso, onde pude quase sentir a atmosfera ao redor dele se transformar em puro gelo. Em seguida, ouvi o som brutal de uma cadeira sendo arrastada com violência e o ruído da chave de um carro.
— Escuta a minha voz, Renesmee — disse Jacob, a voz caindo para um tom perigosamente calmo, de uma autoridade absoluta que não admitia contestação. — Respira. Você tá com as crianças dentro do bunker? A porta tá trancada como te ensinei?
— Tô... tô com o Noah e a Sarah aqui... a Martha também tá aqui... — solucei, apertando meus filhos com mais força, sentindo o corpinho quente dos dois contra o meu. — O que tá acontecendo, Jacob? Quem são eles?
— Não importa quem são, porque nenhum deles vai sair vivo dessa propriedade — declarou ele, a frieza na sua voz carregada de uma promessa implacável. — Presta atenção em mim, garota. O Jared, o Quil e o Embry já estavam a cinco minutos da casa em patrulha. Eu acabei de acionar o alarme silencioso da sede. Tem três carros com homens armados indo para aí agora mesmo.
Ouvi o som de um motor potente urrando ao fundo da ligação, indicando que ele próprio já estava em alta velocidade.
— Ninguém entra nesse bunker, Nessie. Essa porta aguenta até explosão — continuou ele, mantendo o tom firme para me ancorar no meio do pavor. — Fica no chão com os nossos filhos, abraça os dois e fecha os olhos. Ninguém vai encostar um dedo em você ou nas crianças. Eu tô voltando para Seattle agora. Ninguém toca no que é meu.
O som abafado de passos pesados e pancadas fortes reverberou pelo teto de concreto do bunker, vindo direto do closet do meu quarto. Encolhi-me no chão, cobrindo os ouvidos de Noah e Sarah contra o meu peito, enquanto as lágrimas lavavam o meu rosto em um desespero cego.
— King! — a voz de um homem desconhecido ecoou abafada do outro lado da parede de aço, ríspida e cheia de escárnio. — A gente sabe que você tá aí dentro, garota! Não adianta se esconder! Facilita a sua vida! Entrega os filhos do Jacob pra gente e você sai inteira daqui! A nossa conta é só com o Don! Você não precisa se machucar!
Um solavanco de pavor travou o ar na minha garganta. Apertei o fone do telefone com as duas mãos trêmulas, sufocando o choro.
— Jacob... meu Deus, Jacob... — sussurrei em desespero puro, a voz falhando. — Eles tão no meu quarto... Tão gritando do outro lado da porta... Tão pedindo o Noah e a Sarah! Eu tô com muito medo... por favor...
— Não responde nada, Nessie! — a voz de Jacob rugiu do outro lado da linha, tão alta e feroz que quase distorceu no alto-falante do aparelho. Ouvi o som do pneu de seu carro cantando no asfalto em uma curva violenta. — Não dá ouvido para esses desgraçados! Eles não vão conseguir derrubar essa porta. Aquela estrutura foi feita pra aguentar explosivo tático, eles tão gritando só pra tentar te assustar e fazer você abrir no pânico!
Ouvi o estalo seco de uma arma sendo engatada do lado dele, seguido pelo respirar pesado e descontrolado do Don de Seattle.
— Segura os nossos filhos no seu colo e não solta por nada — continuou Jacob, a voz baixando para um tom sombrio, gutural, transbordando uma promessa mortal. — O Jared já tá entrando na propriedade. E escuta bem o que eu tô te dizendo, garota: eu vou pessoalmente mandar cada um desses desgraçados pro inferno. Mas antes, eu vou arrancar a pele de um por um com as minhas próprias mãos por terem feito você chorar e por terem chegado perto da minha família. Fica calma. Eu tô chegando.
Um estalo estático cortou a linha, seguido pelo tom contínuo e frio de ligação perdida.
— Jacob? Jacob! — chamei em desespero, apertando o fone contra a orelha, mas a linha estava completamente morta. Eles deviam ter cortado os cabos externos da casa.
O silêncio que se seguiu no bunker foi interrompido apenas pelo zumbido abafado do duto de ar e pelo choro descontrolado de Martha. A babá estava hiperventilando, o olhar fixo na alavanca de ferro da porta blindada, alternando a visão entre o metal e os dois garotos no meu colo.
Ela começou a se mover devagar no banco de madeira, o corpo inclinado para a frente numa postura tensa, os olhos arregalados encarando a saída.
— Senhlrit. King... eles disseram que só querem as crianças — sussurrou Martha, a voz trêmula de pavor desmedido, a mão se aproximando devagar do braço de Noah. — Eles não vão me machucar... Eu tenho família, senhorita King... Eu não posso morrer aqui...
Percebi a intenção dela antes mesmo que ela terminasse a frase. Martha estava tomada pelo pânico e cogitava abrir a tranca.
Um ódio cego e instintivo congelou o medo no meu peito. Ajeitei os gêmeos , mantendo-os firmes contra o meu corpo, e me ergui levemente no chão, a postura rígida como a de uma leoa defendendo a cria.
— Martha — rosnei, a voz saindo num tom baixo, gutural e perigosamente frio, como eu nunca me ouvira antes.
A babá parou o movimento no ar, encarando-me assustada.
— Nem pensa em dar mais um passo em direção a essa porta — continuei, encarando-a com os olhos faiscando. — Ficou louca?! Você acha mesmo que homens armados que acabaram de chacinar os seguranças lá fora vão te deixar sair viva só porque você pediu por favor? Se você encostar nessa alavanca, a primeira coisa que eles vão fazer é meter uma bala na sua cabeça e te jogar no chão do meu quarto!
— Mas... mas eu não tenho nada a ver com a máfia de vocês! — chorou a mulher, encostando as costas na parede, em pavor puro. — Eu sou só a babá! Eu não tenho nada a ver com isso!
— Mas você tá dentro dessa sala comigo e com os filhos do Don de Seattle! — rebati, o peito subindo e descendo rápido, a voz cortante como lâmina. — Você acha que eles se importam com quem você é? Para eles, você é uma testemunha.
Dei um passo na direção dela, reduzindo o espaço entre nós e apontando o indicador firme na sua direção, o semblante obscurecido pela mesma determinação implacável que eu tanto condenava em Jacob.
— Você não vai tocar nessa tranca. Se você tentar se mover para essa porta ou tentar entregar os meus filhos para salvar a sua pele, eu juro por Deus, Martha, você vai descobrir do pior jeito do que a esposa do Jacob é capaz antes mesmo daqueles homens entrarem aqui. Senta nessa cadeira, cala a boca e não se mexe!
Martha encolheu-se completamente no canto do banco, chocada e aterrorizada com a minha reação, cobrindo a boca para abafar o próprio choro. Voltei a me sentar no chão com Noah e Sarah, puxando meus filhos para o fundo do bunker e mantendo o olhar cravado na babá, garantindo que ninguém — nem de fora, nem de dentro — colocaria a vida dos meus filhos em risco até o pai deles chegar aqui.
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