Filha da guerra
53 51. Marcas na pele
16 de Setembro de 2003 — 14:30 PM
O som cadenciado do giz contra o quadro-negro e a voz monótona do professor de Farmacologia pareciam ecos distantes. À minha frente, o caderno espiral continuava em branco, a caneta azul presa entre os meus dedos sem rabiscar uma única linha nas últimas duas horas.
Minha mente simplesmente se recusava a focar na matéria. Tudo o que eu conseguia ouvir era o tom rasgado da voz de Jacob ressoando no meu ouvido com uma insistência dolorosa:
“Pensa bem no meu pedido, Renesmee. Pensa com calma antes de eu voltar de Forks no final de semana.”
Ele tinha viajado na manhã de segunda-feira para resolver pendências antigas dos Black naquela região, deixando uma calmaria incômoda para trás. Mas a ausência física dele não diminuía em nada o peso daquela cobrança. A sinceridade crua com que ele me pedira para voltar para casa tinha aberto uma fenda nas minhas certezas, criando uma guerra silenciosa no meu peito entre a mágoa do passado e a dependência inevitável que tínhamos um pelo outro.
Um suspiro pesado escapou dos meus lábios, e eu inclinei a cabeça para trás, encarando o teto da sala.
— Se continuar suspirando assim, o professor vai achar que você tá tendo uma parada respiratória — murmurou uma voz suave ao meu lado.
Pisquei, sobressaltada, e me virei para o lado esquerdo da bancada.
Gabriel estava inclinado na minha direção, ostentando um sorriso simpático e amigável. Ele era um colega de turma comum, um rapaz de cabelos claros, expressão leve e olhos calmos que cursava Enfermagem comigo. Gabriel era a definição perfeita de normalidade: não carregava ternos sob medida, não andava cercado por homens armados e sequer fazia ideia de que a cidade tinha um submundo, muito menos que a mulher sentada ao lado dele era a ex-esposa, quase atual novamente, do Don de Seattle.
— Desculpa — respondi, forçando um sorriso fraco e ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Eu só... me distraí um pouco.
— Um pouco? — Gabriel deu uma risadinha baixa, apontando com a caneta para a página inteiramente limpa do meu caderno. — Você tá encarando a parede há quarenta minutos. A prova da semana que vem vai cobrar esse assunto de hoje. Quer que eu te passe as anotações depois?
A gentileza simples e despretensiosa dele funcionou como um choque de realidade. Era uma sensação estranha e quase refrescante conversar com alguém que não tinha segundas intenções, que não exalava perigo e que vivia em um mundo onde os problemas se resumiam a notas de provas e horários de estágio.
— Eu aceitaria muito, Gabriel — admiti, soltando o ar devagar e sentindo os ombros relaxarem um pouco. — Minha cabeça tá uma bagunça essa semana.
— Sem problemas, Renesmee — disse ele, voltando a copiar o quadro, mas mantendo o tom ameno. — Aliás, um pessoal da turma vai se reunir na lanchonete em frente ao campus depois da aula para revisar o conteúdo e tomar um café. Você não quer ir junto? Ia ser bom para você distrair um pouco essa cabeça.
Olhei para ele por um segundo, hesitante. A oferta parecia inofensiva, um vislumbre da vida normal que eu sempre tentei construir fora dos muros da Mansão Black. Mas no fundo da minha mente, a imagem de Jacob e o aviso sobre a sua volta no final de semana continuavam pairando como uma tempestade iminente.
— Quer saber? Eu vou sim — respondi, fechando o caderno e sentindo uma necessidade quase desesperada de respirar um ar diferente. — Um café e um pouco de foco na matéria é exatamente o que eu preciso.
Gabriel sorriu, visivelmente animado com a resposta.
Assim que o sinal da última aula tocou, arrumei minha mochila e caminhei com ele e mais três colegas em direção à Campus Brew, uma lanchonete movimentada e aconchegante logo do outro lado da avenida. No entanto, conforme atravessávamos o pátio, a dinâmica do grupo começou a se desmantelar rapidamente. A garota da turma lembrou que tinha um plantão de estágio voluntário no hospital universitário e se despediu na entrada. Os outros dois rapazes pararam no balcão apenas para pegar copos para viagem, alegando que precisavam correr para pegar o ônibus.
Em menos de dez minutos, me vi sentada em uma mesa de canto, ao lado da janela da lanchonete, encarando duas xícaras fumegantes de cappuccino e um prato de rosquinhas de canela.
Apenas eu e Gabriel.
— Bom... parece que o “grupo de estudos” sofreu uma baixa drástica — brincou ele, puxando a cadeira e se sentando na minha frente.
Gabriel tirou a jaqueta de jeans e a pendurou no encosto da cadeira, ajeitando o cabelo com a mão. O olhar dele sobre mim não era agressivo ou invasivo, mas trazia um brilho diferente, uma atenção dedicada, um interesse sutil que ia muito além da camaradagem de sala de aula.
A forma como ele arrumou a mesa, puxando o sachê de açúcar para perto de mim e mantendo o tom de voz suave, fez uma luz de alerta acender no fundo da minha mente.
Não era um grupo de estudos.
A ficha caiu com o peso de uma pedra no meu estômago. Sem perceber, eu tinha acabado de aceitar o que parecia, sob todos os ângulos, um encontro informal.
— Fica tranquila, eu passei as anotações limpas para o meu tablet, a gente consegue repassar tudo rápido — disse Gabriel, abrindo a pasta de arquivos, mas sem tirar o sorriso do rosto. — Mas antes de entrar em farmacologia... eu queria dizer que fico feliz por você ter vindo. Você sempre parece tão reservada, Renesmee. É legal ver você fora daquele ritmo frenético de aula.
Engoli em seco, segurando a xícara quente com as duas mãos para disfarçar o nervosismo repentino que me envolveu.
— Obrigada, Gabriel — murmurei, tentando manter o tom estritamente cordial e neutro, enquanto uma pontada de pânico começava a surgir na minha garganta.
A normalidade daquela situação, que minutos atrás parecia um alívio, de repente se transformou em um campo minado. Enquanto Gabriel me olhava com a admiração simples de um garoto comum da faculdade, a minha mente dava voltas dolorosas.
O que eu estava fazendo ali?
Se Jacob estivesse em Seattle, se os homens dele estivessem monitorando meus passos pela cidade, ver o Don da máfia descobrir que a esposa dele estava tomando café a sós com um colega de turma seria uma tragédia anunciada. O contraste entre a inocência de Gabriel e o perigo mortal que a minha vida real carregava era assustador.
— Você tá bem? — perguntou Gabriel, inclinando-se um pouco para a frente, percebendo a minha rigidez. — Ficou quieta de repente.
— Tô bem, sim — forcei um sorriso, ajeitando a postura na cadeira. — Só... lembrando da quantidade de matéria que a gente tem para revisar. Vamos começar?
Gabriel não olhou para as anotações sobre a mesa. Em vez disso, ele deu um sorriso tímido, sustentando o meu olhar com uma coragem que claramente tinha demorado a reunião inteira para juntar.
— Na verdade, Renesmee... eu nem tava preocupado com a matéria de farmacologia — admitiu ele, a voz calma e sincera. — Eu só queria uma chance de ficar a sós com você. Você é incrível e faz tempo que eu queria...
Antes que eu pudesse raciocinar ou erguer as mãos para detê-lo, Gabriel se inclinou rapidamente por cima da pequena mesa de madeira, fechando os olhos e buscando a minha boca em um impulso desajeitado.
O pavor congelou meu sangue. Num reflexo puro de preservação, virei o rosto com violência para o lado, e os lábios dele tocaram apenas a minha bochecha.
— Gabriel, não! — soltei num sussurro desesperado, empurrando o peito dele para trás. — O que você tá...
O som estridente do sino acima da porta de entrada cortou a minha frase no meio, seguido por um estalo seco quando a porta foi empurrada contra a parede com força bruta.
O ar da lanchonete pareceu congelar.
Três figuras altas e imponentes cruzaram o ambiente, cortando o murmúrio do café como uma lâmina. Jared tomava a frente, o maxilar travado em uma linha dura e os olhos completamente injetados de raiva. Logo atrás, Embry e Quil se posicionavam estrategicamente perto da saída, bloqueando a porta.
Jared, como sobrinho de Jacob e seu homem de maior confiança —restaurada recentemente—, tinha ordem expressa para agir em nome do Don enquanto ele estivesse em Forks. E, pela expressão assassina no rosto dele, a cena do quase beijo tinha sido vista em perfeitamente através da vidraça da lanchonete.
Um pavor gelado subiu pela minha espinha. Gabriel era completamente inocente, um garoto normal que não fazia ideia do abismo onde acabara de pisar.
— A aula acabou, Renesmee. Levanta — ordenou Jared, parando ao lado da nossa mesa, a voz grave e cortante ressoando por todo o espaço.
— Jared, o que é isso?! — me levantei num pulo, a cadeira arrastando com barulho contra o piso. — Ficou louco? Me deixa em paz!
Gabriel, confuso e tentando demonstrar uma coragem ingênua diante da ameaça, levantou-se logo em seguida e deu um passo para a frente, tentando se colocar entre mim e Jared.
— Ei, cara, qual é o seu problema? — questionou Gabriel, a voz um pouco incerta, mas firme. — Você não pode falar assim com ela. Deixa ela em paz!
Ele estendeu a mão e segurou suavemente o meu braço, tentando me puxar para trás dele para me proteger.
Aquele toque, somado ao que Jared vira segundos atrás, foi o estopim.
— Não encosta na mulher do Don, seu bosta! — rosnou Jared.
Num movimento cego de fúria, Jared agarrou a gola da jaqueta de Gabriel e desferiu um soco brutal direto no rosto dele. O som do impacto fez os clientes da lanchonete gritarem. Gabriel cambaleou para trás, derrubando a cadeira e colidindo contra a mesa de madeira antes de desabar no chão, a boca sangrando e o olhar completamente desorientado.
— Jared, NÃO! PARA! — gritei em desespero, tentando me jogar entre ele e o garoto no chão. — Eu desviei! Ele não fez nada, é só um colega da faculdade! Por favor, Jared, para!
Jared me segurou pelo pulso com um aperto de ferro, puxando-me com força para longe de Gabriel antes que pudesse desferir outro golpe.
— O Jacob me deixou no comando enquanto estivesse em Forks, Renesmee — disse Jared, encarando-me com os olhos faiscando de uma raiva contida, o peito subindo e descendo rápido. — E ele deixou bem claro o que acontece com qualquer um que tente encostar na mulher dele. Você vem comigo. Agora.
Sem dar espaço para mais nenhum protesto, Jared me puxou com firmeza em direção à saída, enquanto Quil e Embry limpavam o caminho, deixando o caos e a violência para trás na Campus Brew.
Fui empurrada para o banco de trás do SUV de vidros fumê com força suficiente para fazer meu corpo colidir contra o estofado de couro. Jared entrou logo em seguida, batendo a porta com um estrondo que fez o veículo inteiro tremer. No banco da frente, Embry deu partida no motor sem dizer uma palavra, arrancando em alta velocidade, enquanto Quil mantinha os olhos fixos pelo retrovisor lateral, atento a qualquer movimentação.
O silêncio tenso dentro do carro durou apenas o tempo de sairmos do quarteirão da universidade.
— Você ficou completamente louco, Jared?! — esbravejei, virando-me para ele com o peito arfando de raiva e o rosto quente pelas lágrimas de frustração. — O garoto é um civil! Ele não sabe de nada, não faz parte desse mundo imundo de vocês!
Jared nem sequer piscou. Ele mantinha a postura rígida, a mandíbula tão contraída que os músculos do seu rosto pareciam prestes a rasgar a pele.
— Mal-entendido, Renesmee? — ironizou ele, a voz baixa, mas carregada de uma raiva perigosa. — Eu vi o desgraçado se inclinando para te beijar. Vi ele colocando a mão em você. Se eu não tivesse entrado naquela lanchonete, o tio Jacob não ia querer só a cabeça dele... ia querer a de todo mundo que tava escalado para te vigiar hoje.
— Eu desviei! — gritei, avançando um pouco sobre o espaço entre nós. — Eu não pedi nada daquilo, e você sabe disso! Mas você preferiu dar um show de violência gratuita só para mostrar serviço. Você é um monstro, Jared! Um covarde que adora bater nos outros para fingir que tem algum poder!
Jared soltou uma risada curta e amarga, balançando a cabeça.
— Você não faz ideia do que tá falando.
— Sei sim! — rebati, a voz cortante de desprezo. — Sei que você adorou fazer aquilo. E quer saber? Você fez muito pior do que uma simples tentativa de beijo quando era mais novo. Você fez e continua aí, inteiro e vivo, andando como se fosse o dono de Seattle!
Ao ouvir aquilo, o rosto de Jared mudou drasticamente. A fúria cega deu lugar a uma sombra escura e perturbadora.
Ele virou o corpo na minha direção e, num gesto bruto e repentino, puxou a gola da jaqueta e da camiseta preta que vestia, rasgando o tecido para baixo e expondo a parte superior do peito e do ombro esquerdo.
Prendi a respiração, o ar sumindo da minha garganta.
A pele de Jared era coberta por cicatrizes feias, disformes e retorcidas — marcas profundas de queimaduras antigas que nunca cicatrizaram direito, contrastando violentamente com o resto do seu corpo. Eram marcas claras de punição, feitas com ferro quente ou fogo, projetadas para causar uma dor insuportável e deixar um aviso eterno na pele.
— Você acha que eu tô vivo porque o Jacob me perdoou? — sussurrou Jared, com os olhos injetados cravados nos meus, a voz trêmula de uma memória dolorosa. — Você acha que eu saí impune do que fiz no passado, Renesmee? Olhe para isso aqui. O seu marido fez isso comigo com as próprias mãos no dia em que descobriu que eu tinha encostado em você. Ele me queimou, pedaço por pedaço, no porão da sede. Você acha que meu avô era cruel? Você não tem ideia de como o seu marido pode ser mil vezes pior!
Senti um arrepio gélido percorrer a minha espinha. Olhei para as marcas na pele dele, incapaz de desviar o olhar do horror implícito naquela revelação.
— O Don só não me deu um tiro na cabeça porque a minha mãe, a Rebecca, se ajoelhou nos pés dele chorando e implorou pela minha vida — continuou Jared, soltando a camisa e deixando o tecido cobrir o peito novamente, enquanto a voz dele voltava a ficar fria como o gelo. — Ele me deixou vivo para servir de exemplo e para garantir que eu nunca mais cometesse o mesmo erro. Então não me venha falar de misericórdia. Se aquele garoto da faculdade saísse ileso depois de tentar te tocar, o Jacob me queimaria de novo. E dessa vez, nem a minha mãe conseguiria me salvar.
O silêncio voltou a imperar no banco de trás, pesado e sufocante. Encostei a cabeça no vidro frio da janela, o peito apertado por uma mistura perturbadora de pavor, nojo e a lembrança aterrorizante do quão sombrio e implacável o homem com quem eu fui casada realmente podia ser.
— Ele pode ser bom pra você e seus filhos, mas essa versão só existe pra vocês. Por resto de nós, ele é o nosso Don, um assassino violento. E ele não vai ter piedade de nenhum filho da puta que se aproximar de você — Jared alertou
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