Filha da guerra
52 50. O pedido • Renesmee King
O olhar de Jacob continuava em mim, carregado de uma satisfação vitoriosa e arrogante. Antes que eu pudesse articular qualquer palavra de protesto para tentar juntar os cacos da minha dignidade, o som agudo da campainha ressoou pela casa, quebrando o transe denso que dominava o cômodo.
Ajeitei o cabelo rapidamente, lançando um olhar fuzilante para Jacob, e passei por ele a passos rápidos em direção à porta de entrada.
Puxei a pesada porta de carvalho de uma vez, mas a frase ríspida travou na minha garganta no instante em que vi quem estava parado na varanda.
— Surpresa, aniversariante! — anunciou Claire, abrindo um sorriso radiante.
Ela segurava uma grande sacola elegante de uma grife italiana, enquanto ao seu lado, segurando duas caixas maiores perfeitamente embrulhadas em papel aveludado e laço de fita, estava Quil Ateara.
Minha ex-cunhada usava um vestido leve de verão e óculos escuros levantados na cabeça. Quil, impecável como sempre ao lado dela, me deu um aceno de cabeça respeitoso, embora o canto dos seus lábios revelasse que ele sabia exatamente de quem tinham vindo aqueles embrulho.
— Claire? Quil? — pisquei, surpresa, cobrindo o peito instintivamente ao lembrar que vestia apenas uma camisola e estava descalça. — O que... o que vocês estão fazendo aqui tão cedo?
— Tão cedo? Já são quase onze da manhã, Nessie! — brincou Claire, dando um passo para dentro e deixando um beijo carinhoso na minha bochecha antes de me entregar a sacola menor. — E na verdade, era para você ter recebido isso tudo ontem à noite, na nossa casa. O Jacob tinha planejado um jantar e a entrega dos seus presentes lá, mas como você preferiu ir para a Velvet com as suas novas amigas , ele mandou o Quil passar na sede hoje cedo para buscar tudo no cofre.
Senti minhas bochechas queimarem novamente. Olhei para as caixas nas mãos de Quil e depois para a sacola elegante na minha mão.
— Ele mandou buscar no cofre? — murmurei, tentando processar.
— Sim — respondeu Quil, entrando na sala e colocando as caixas cuidadosamente sobre a mesa de centro da sala de estar. — O Don fez a encomenda dessas peças há mais de duas semanas, Renesmee. Ele quase enlouqueceu o pessoal da alfândega para garantir que chegassem a Seattle a tempo do seu aniversário.
— E pelo visto a entrega atrasou só algumas horas, mas chegou — a voz grave de Jacob ressoou logo atrás de mim, vindo do corredor da cozinha.
Ele caminhou com a calma habitual, os braços cruzados sobre o peito, a camiseta cinza ainda ligeiramente amassada onde eu tinha cravado as unhas minutos atrás. Ele deu um aceno curto para Quil e Claire.
— Bom trabalho, Quil. Deixem as coisas aí.
Claire olhou de Jacob para mim, notando a minha camisola, meus lábios inchados e a atmosfera carregada que ainda pairava no ar. Um sorriso cúmplice e ligeiramente maldoso surgiu no rosto dela, mas ela foi inteligente o suficiente para não fazer nenhum comentário em voz alta na frente do irmão mais velho, ele só era gentil e paciente comigo e com os filhos.
— Bom, a nossa missão está cumprida — disse Claire, dando dois tapinhas no ombro de Quil. — Viemos só entregar e desejar parabéns de novo, Nessie. Vamos deixar vocês aproveitarem o dia com as crianças.
— Obrigado, Claire... Quil — respondi com a voz um pouco falhada, tentando disfarçar o constrangimento.
Quil assentiu com a cabeça em despedida, e Claire me deu mais um abraço rápido antes de os dois se virarem e caminharem de volta para o carro.
Fechei a porta devagar, encostando a testa contra a madeira fria por um segundo. Quando me virei, dei de cara com Jacob parado a dois passos de mim, ele descruzou os braços devagar, e a expressão descontraída de segundos atrás desapareceu, dando lugar àquela carranca escura e possessiva que eu conhecia tão bem.
— Eu não gostei nem um pouco de você ter aberto a porta vestida desse jeito — disse ele, a voz baixando para um tom grave, perigosamente controlado. — O Quil é meu homem de confiança, mas continua sendo um homem. Eu não quero outro cara olhando para você com essas roupas, Renesmee. Ninguém tem que te ver assim além de mim.
O ar na sala pareceu pesar instantaneamente. A pouca paciência que me restava depois de toda a manipulação na cozinha simplesmente evaporou. A petulância dele, o tom de proprietário, a audácia de achar que ainda tinha qualquer direito de ditar o que eu vestia ou como eu atendia a porta da minha própria casa... tudo aquilo fez meu sangue ferver de raiva.
Sustentei o olhar dele sem recuar um único milímetro.
— Vai se foder, Jacob! — soltei, a voz firme e cortante, ressoando com clareza pelo ambiente.
Jacob travou o maxilar, os olhos faiscando diante do meu xingamento direto, mas eu não dei tempo para ele intervir.
— É exatamente por isso! — continuei, apontando o indicador no peito dele, com o peito subindo e descendo rápido. — É por esse seu ciúme doentio, por essa sua mania nojenta de achar que é meu dono e que pode controlar cada passo que eu dou que eu nunca, ouviu bem?, nunca vou voltar para você! Você pode me dar os presentes que quiser, pode lotar a minha casa de seguranças e usar o sexo para me desestabilizar, mas a minha liberdade você não compra e não controla mais.
Dei um passo para trás, virando-me de costas para ele e ignorando as caixas aveludadas sobre a mesa de centro.
— Agora se dá ao respeito e me deixa subir para tomar um banho em paz — finalizei sem olhar para trás, pisando firme em direção às escadas, deixando o Don de Seattle sozinho no meio da sala com a sua possessividade e a sua raiva contida.
•••
O banho quente ajudou a lavar o resto da névoa alcoólica e o calor incômodo da cozinha. Vesti um jeans confortável, uma camiseta branca simples e prendi o cabelo ainda úmido num coque alto. Enquanto descia os degraus da escada, já me preparava psicologicamente para encontrar o clima tenso e fechado que deixara na sala minutos atrás.
No entanto, a cena que me esperava no andar de baixo fez meus passos travarem no último degrau.
Jacob estava sentado no tapete felpudo da sala, exatamente em frente à mesa de centro de madeira nobre. As caixas aveludadas e luxuosas de joias que ele trouxera haviam sido empurradas de qualquer jeito para o canto, dando lugar a dezenas de potes coloridos de massinha de modelar espalhados por toda a superfície polida.
Noah estava ajoelhado de um lado da mesa, rindo enquanto tentava esmagar um bloco azul, enquanto Sarah estava sentada praticamente no colo do pai, o pequeno rosto concentrado enquanto manuseava um pedaço de massinha rosa.
— Não, papai! Assim não! — protestava Sarah, com a voz miúda e mandona, pegando as mãos enormes e calejadas de Jacob para guiá-las. — Tem que fazer uma minhoquinha fina pra ser a perna do dinossauro!
— Mas a perna do meu T-Rex é forte, Sarah — respondeu Jacob, com uma paciência e uma suavidade que pareciam irreais vindo do Don de Seattle. — Se for fina, ele cai.
— O meu dinossauro voa! — anunciou Noah, jogando um pedaço disforme de massinha verde no ar.
— Voa nada, Noah! Dinossauro verde não voa! — rebateu a irmã, indignada.
Jacob soltou uma risada baixa e genuína, o tipo de som que eu raramente ouvia fora do nosso antigo círculo íntimo. Ele pegou a massinha rosa com os dedos gigantescos e começou a moldar com todo o cuidado do mundo a tal “minhoquinha” que a filha pedira, completamente alheio à sujeira colorida que grudava no verniz da mesa e no seu jeans escuro.
Fiquei ali parada, em silêncio, observando a cena com o peito apertado.
Aquilo estava totalmente fora de cogitação. Ver um homem daquele tamanho, com aquela posição social e com a reputação temida por toda a cidade, abaixado no chão da sala de estar para brincar de massinha com duas crianças pequenas era uma imagem que eu nunca imaginei presenciar.
Por um instante, o chefe da máfia imperdoável e possessivo desapareceu, dando lugar apenas ao pai dos meus filhos. E ver aquela faceta dele, tão crua e desarmada, era infinitamente mais perigoso para o meu coração do que qualquer uma das suas provocações na cozinha.
Enquanto eu continuava paralisada no último degrau da escada, tentando processar aquela cena absurda e tocante, o olhar de Jacob se ergueu da mesa e encontrou o meu. A expressão dura e possessiva de antes tinha dado lugar a um brilho calmo, quase acolhedor, embora o fundo dos seus olhos ainda carregasse aquela intensidade inevitável.
— Vai ficar aí parada assistindo ou vai vir ajudar a salvar a engenharia desse dinossauro? — chamou ele, a voz grave ressoando tranquila pela sala enquanto ele apontava com o queixo para a massinha rosa nas suas mãos.
— Vem, mamãe! — reforçou Noah no mesmo instante, levantando os bracinhos sujos de massa verde e dando um pulinho no tapete. — O papai não sabe fazer a asa do meu! Vem ajudar a gente!
Engoli em seco, sentindo a resistência no meu peito fraquejar diante do entusiasmo dos meus filhos. Respirei fundo, dei os últimos passos até o centro da sala e me sentei no tapete felpudo, do lado oposto a Jacob, mantendo uma distância segura do corpo dele.
— Me dá isso aqui, Noah — disse, tentando focar a atenção no meu filho e ignorar a presença esmagadora do homem do outro lado. — Deixa eu ver essa asa.
Sarah deu uma risadinha e se encostou mais no peito de Jacob, satisfeita por ver a família inteira reunida ali no chão. Por alguns minutos, o único som na sala era o falatório animado dos gêmeos, os comentários bobos de Noah sobre monstros voadores e as ordens exigentes de Sarah sobre quais cores deveriam ser misturadas.
Eu me concentrei em moldar as peças de massa, evitando ao máximo olhar para o rosto de Jacob. Mas era impossível não notar a facilidade com que ele interagia com os dois, o contraste cômico e bonito das suas mãos gigantescas manuseando brinquedos infantis sem o menor vestígio da brutalidade do seu dia a dia.
— Sabe, Nessie... — a voz de Jacob quebrou o ritmo das crianças, saindo num tom baixo, denso, destinado apenas aos meus ouvidos enquanto os gêmeos discutiam qual cor usariam em seguida. — Momentos assim deveriam ser a nossa rotina. Todos os dias. A gente acordando, tomando café juntos, vendo os nossos filhos crescerem sem essa distância ridícula entre a gente.
Ele apoiou os antebraços na mesa de centro, inclinando o corpo levemente para a frente. O olhar dele se cravou no meu, carregado de uma certeza inabalável e dolorosa.
— Isso aqui é o que a gente é, morena. Não aquela casa vazia onde eu durmo ou essa distância que você tenta inventar.
Senti o ar faltar no peito e uma fisgada incômoda me atingir em cheio. Aquela brecha de vulnerabilidade durara pouco; ele sempre encontrava uma forma de puxar a corda de volta para a nossa situação particular.
— Para, Jacob — cortei imediatamente, mantendo a voz baixa para não assustar os meninos, mas empregando toda a firmeza que consegui reunir, sustentando o olhar dele sem recuar. — Apenas para. Não estraga o momento das crianças com esse assunto.
Jacob não recuou. Em vez disso, ele largou o pedaço de massinha sobre a mesa, ignorando completamente os dinossauros disformes que os gêmeos continuavam a montar. Ele esticou a mão grande por cima da mesa de centro, cobrindo a minha mão que segurava um bloco de massa amarela.
O toque dele era quente, firme, e por um segundo o mundo ao redor pareceu desacelerar.
— Eu não tô brincando, Renesmee — disse ele, a voz baixando para um sussurro grave, rasgado, desprovido de qualquer sarcasmo ou arrogância. — Volta para mim. Volta para casa. Eu quero a minha família junta de novo.
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