Filha da guerra
51 49. Ressaca moral • Renesmee King
12 de Setembro de 2003 — 10:00 AM
A luz do sol que atravessava as frestas da cortina parecia rasgar as minhas pálpebras. Antes mesmo de abrir os olhos, a primeira coisa que senti foi uma dor de cabeça, ritmada, como se houvesse uma britadeira funcionando dentro do meu crânio.
Minha boca estava seca como um deserto e um gosto amargo de bebida barata impregnava minha garganta. Gemi baixo, enfiando o rosto no travesseiro para me esconder da claridade, sentindo cada músculo do meu corpo pesar toneladas. A ressaca veio com força total, cobrança inevitável pela inconsequência da noite anterior.
Passei as mãos pelo lençol macio e paralisei por um segundo. A textura das roupas no meu corpo não era a mesma do vestido de festa justo que eu tinha usado para ir à Velvet. Olhei para baixo devagar, piscando várias vezes para focar a visão nebulosa: eu vestia uma camisola leve de algodão que costumava deixar na gaveta.
Sentada na cama, levei as mãos à cabeça, tentando desesperadamente resgatar os pedaços da noite passada.
Nada. Um apagão completo.
A última memória clara que eu tinha era de estar no camarote VIP da boate, rindo com a Alice e a Kim enquanto o DJ tocava... e depois disso, névoa pura. Lembrei-me vagamente do Jacob aparecendo, do toque firme dele na minha cintura, de uma discussão boba e de ter aceitado dançar uma música. Mas depois? Como eu tinha saído da Velvet? Como tinha passado pelos seguranças da porta? E, principalmente... como diabo eu tinha chegado até a minha cama, banhada e trocada ?
O pânico começou a subir pela minha garganta, gelando meu sangue e fazendo a dor de cabeça piorar.
Teria sido a Alice que me trouxe? Não, ela também tinha bebido. A Kim? Impossível.
A resposta para todas as minhas perguntas veio como uma onda fria de pavor. Só havia uma pessoa em Seattle com autoridade suficiente para me tirar daquele camarote sem alarde, me colocar em um carro e me deixar no meu quarto em segurança
— Não... — murmurei para mim mesma, a voz rouca e falhada.
Puxei o cobertor para o lado e me sentei na borda da cama, segurando a têmpora que latejava. Minha mente tentava, em vão, remontar a linha do tempo das últimas horas. O que eu tinha dito a ele? Eu tinha passado vergonha? Eu tinha brigado, chorado ou, pior, cedido às provocações dele? A sensação de falta de controle me deixava angustiada, presa a uma incerteza torturante.
Respirei fundo, tentando reunir forças para ficar de pé. Eu precisava ir até a cozinha, beber meio litro de água, tomar um analgésico forte e, acima de tudo, descobrir exatamente o tamanho do estrago que o Don de Seattle tinha presenciado na noite do meu aniversário.
Arrastei os pés pelo corredor, segurando a parede enquanto cada passo fazia minha cabeça latejar em um eco doloroso. O cheiro de café recém-passado e o som suave de risadas infantis vinham da cozinha, guiando meus passos hesitantes.
Assim que atravessei a porta do cômodo amplo e iluminado, parei no lugar, piscando para processar a cena.
Jacob estava encostado no balcão de granito, vestindo apenas uma calça jeans escura e uma camiseta cinza simples, com as mangas dobradas. Ele segurava uma xícara de café fumegante e mantinha a postura relaxada de quem estava em sua própria casa. Ao redor da mesa baixa, Noah e Sarah riam enquanto Lucy e a babá os ajudavam a comer pedaços de morango e banana picados em potinhos coloridos.
— Mamãe! — gritou Sarah, os lábios sujos de fruta, acenando para mim com a colher de plástico.
— Bom dia, dorminhoca — cumprimentou Lucy, lançando-me um olhar cúmplice e cheio de diversão enquanto servia mais suco para Noah.
Tentei esboçar um sorriso para os meus filhos, mas a dor nas têmporas me fez franzir o cenho quase instantaneamente.
— Bom dia, meus amores... — murmurei com a voz rouca, caminhando devagar até a mesa para deixar um beijo na testa de cada um dos gêmeos.
Quando me ergui, meu olhar encontrou o de Jacob. Ele não disse uma palavra de imediato. Apenas levou a xícara aos lábios, dando um gole lento enquanto seus olhos escuros me varriam de cima a baixo com um divertimento silencioso e possessivo que fez meu peito apertar. Ele sabia perfeitamente o estado em que eu me encontrava.
— Você está bem, querida? Parece um pouco pálida — perguntou Lucy, levantando-se para pegar um copo d’água no filtro.
— Só uma dor de cabeça forte... — respondi, evitando olhar diretamente para o Don de Seattle enquanto me encostava no balcão, a poucos passos dele.
Jacob colocou a xícara sobre o granito com um estalo suave.
— O suco de laranja tá fresco — disse ele, a voz grave e baixa ressoando perto de mim. — E deixei um analgésico forte do lado da pia. A ressaca não costuma perdoar quem passa do ponto.
Minhas bochechas queimaram na hora. Olhei de relance para Lucy e a babá, que pareciam ocupadas demais com as crianças para prestar atenção na nossa conversa, mas a minha vergonha era palpável.
— Eu não passei do ponto — menti descaradamente em um sussurro, pegando o copo de água e o remédio sobre o balcão. — Eu só... dormi pesado.
Jacob deu meio passo na minha direção, diminuindo o espaço entre nós o suficiente para que apenas eu pudesse ouvi-lo. Ele curvou a cabeça levemente, com um sorriso de canto provocante que destruiu qualquer resquício da minha tentativa de manter a dignidade.
— É mesmo? — debochou ele baixinho, o tom impregnado de uma satisfação irritante. — Porque não foi bem essa a versão que você me deu às três da manhã, quando precisei te carregar no ombro até o carro porque você se recusava a andar.
Engoli o comprimido com um gole longo de água, sentindo a ardência descer pela garganta enquanto absorvia o choque da provocação dele. As lembranças continuavam nebulosas, mas a menção de ter sido carregada no ombro fez o resto do meu orgulho desmoronar.
Antes que eu pudesse formular uma resposta para rebater o deboche de Jacob, meu olhar desviou para a imensa porta de vidro que dava acesso ao jardim dos fundos.
Através da janela, percebi uma movimentação atípica. Mais homens de terno escuro e postura rígida caminhavam pelo gramado, enquanto outros estavam posicionados perto do portão lateral, conversando discretamente pelo rádio de comunicação. Não eram os seguranças habituais da Mansão; a postura, o porte e os ternos alinhados deixavam claro de onde eles vinham.
Franzindo o cenho, virei-me para Jacob, esquecendo a ressaca por um instante.
— Por que tem tanto homem lá fora? — perguntei, apontando discretamente com o queixo para a área externa. — Essa casa nunca teve essa quantidade de seguranças.
Jacob pegou a xícara de café novamente, ostentando uma calma exasperante enquanto dava mais um gole.
— São os meus homens — respondeu ele, a voz firme e natural. — Reforcei o perímetro da Mansão King. Enquanto eu estiver debaixo deste teto, a segurança vai ser no meu padrão, não no seu.
Olhei para ele com desconfiança, sentindo um arrepio incômodo.
— Enquanto você estiver aqui? — rebati, estreitando os olhos. — E quanto tempo seria isso, exatamente? Você vai ficar muito?
— Vou passar o dia com os meus filhos — declarou ele, sem hesitar um segundo ou abrir margem para discussão. — É sexta, eu não tenho reuniões e passei a semana inteira sem ver os dois direito. Hoje o dia é nosso.
— Crianças, hora do banho para tirarmos a sujeira de fruta antes de ir brincar no jardim! — anunciou Lucy com voz animada, interrompendo o clima pesado que começava a se formar.
A babá se aproximou, limpando as mãos pequenas de Sarah com um guardanapo, enquanto Noah já se levantava da cadeira num pulo. As duas recolheram os potinhos e conduziram os gêmeos para fora da cozinha. Lucy deu um sorriso rápido para mim, pegou o avental e seguiu atrás deles, deixando o ambiente em absoluto silêncio.
A porta da cozinha se fechou suavemente, isolando-nos por completo.
Ficamos a sós.
O silêncio do cômodo amplo parecia amplificar o som da minha respiração e o latejar na minha cabeça. Jacob deu um passo devagar, encostando o quadril no balcão e cruzando os braços sobre o peito. Seus olhos escuros e intensos me prenderam no lugar, despidos de qualquer plateia, prontos para a conversa que a minha amnésia alcoólica tinha adiado desde a madrugada.
— Tá bom, Jacob. Agora me fala a verdade — exigi, largando o copo de água no balcão e cruzando os braços para tentar parecer minimamente firme. — Como foi que eu cheguei até aqui? Quem me trocou? O que... o que foi que aconteceu de verdade depois da boate?
Jacob deu um passo lento na minha direção. O olhar dele ganhou um tom de sarcasmo perigoso, e o canto da sua boca se curvou naquele sorriso de quem já tinha a armadilha perfeita montada.
— Você quer mesmo saber, Renesmee? — perguntou ele, a voz baixando para um tom aveludado e cínico. — Eu te trouxe nos meus braços, te dei banho, te troquei e te deitei na cama. Mas o problema não foi te trazer... foi tentar sair de lá.
Senti meu coração dar um baque no peito.
— O que você quer dizer com isso? — murmurei, o estômago embrulhando de pavor.
— Quero dizer que você não queria me deixar ir embora de jeito nenhum — continuou ele, soltando um suspiro dramático e balançando a cabeça como se estivesse decepcionado. — Você me puxou pela camisa, colou o corpo no meu e começou a implorar por sexo. Disse que estava com saudade, que me queria de qualquer jeito e começou a tentar tirar a minha roupa. Se não fosse pelo meu autocontrole e por respeitar o seu estado alcoólico, nós teríamos transado ali mesmo. Fui eu quem precisei te negar e dizer 'não', Nessie. Fui eu quem tive que me segurar para não aproveitar de você.
O ar sumiu dos meus pulmões por um milésimo de segundo. Meu rosto queimou de um calor escaldante, mas, conforme olhava para a postura dele, a sobrancelha levemente erguida, o peito estufado de deboche, a ficha começou a cair.
Aquilo era ridículo. Eu podia estar bêbada, podia ter passado do ponto na bebida e ter dito besteiras, mas implorar por sexo para o Jacob no estado em que eu estava? Jamais.
De repente, Jacob não aguentou sustentação da própria encenação e soltou uma gargalhada alta e rouca, o som ecoando por toda a cozinha.
— Você devia ver a sua cara! — debochou ele, rindo com vontade, os olhos brilhando de pura satisfação ao ver o meu desespero momentâneo.
A vergonha evaporou no mesmo instante, dando lugar a uma raiva quente e descontrolada. Ele estava mentindo. Estava tirando sarro da minha cara e usufruindo da minha amnésia alcoólica para me desestabilizar.
— Seu idiota! — esbravejei, avançando um passo e dando um tapa forte no braço dele. — Você é um mentiroso nojento! Eu odeio quando você faz isso!
— Ah, qual é, Nessie, foi engraçado — disse ele, ainda rindo enquanto desviava do meu movimento.
— Não teve graça nenhuma, Jacob! Sai da minha frente! — gritei, tomada por uma irritação profunda, tentando empurrá-lo para passar e sair de perto dele.
Mas a brincadeira acabou para ele no segundo em que tentei afastá-lo. Num reflexo rápido e avassalador, a risada de Jacob sumiu. Ele segurou meus dois pulsos com uma única mão, prendendo-os com facilidade, e usou o outro braço para envolver minha cintura, puxando meu corpo de encontro ao dele com uma força bruta. As costas bateram contra a borda do balcão de granito, prendendo-me completamente entre o móvel e ele .
— Me solta, Jacob! Eu tô falando sério, me larga! — ordenei, me debatendo contra o abraço de ferro, tentando empurrar os ombros dele com o peito, mas era como tentar mover uma parede.
— Quer mesmo que eu te solte? — provocou ele, baixando o rosto até que sua boca ficasse a milímetros da minha, a respiração quente e o cheiro do café se misturando ao ar ao nosso redor. — Daqui você só sai quando se acalmar e admitir que, mesmo sem lembrar de nada, você adorou saber que foi o seu ex-marido quem cuidou de você a noite toda.
— Me solta, Jacob! — exigi de novo, a voz falhando enquanto tentava me contorcer contra o abraço de ferro, mas a diferença de força entre nós era um abismo.
Jacob apenas deu um risinho baixo e sombrio, um som que fez cada poro da minha pele se arrepiar. Ele não recuou um milímetro. Em vez disso, usou o peso do próprio corpo para me prensar com mais força contra o balcão de granito, encaixando a coxa direita entre as minhas pernas e separando-as sem qualquer cerimônia.
— Quer saber o que realmente aconteceu ontem à noite, Nessie? — murmurei ele, a voz caindo para uma frequência rouca, profunda, que vibrou direto no meu ventre. A mão dele que prendia meus pulsos os ergueu acima da minha cabeça, cravando meus braços contra a parede. — A verdade é que eu passei a noite inteira olhando para você naquele vestido ridiculamente curto, vendo a forma como o tecido marcava a sua bunda a cada passo na pista.
Tentei virar o rosto para o lado, mas ele usou a mão livre para segurar meu queixo com firmeza, obrigando-me a encarar os olhos escuros e famintos.
— Eu passei horas imaginando como seria te arrancar daquela boate, te jogar no banco de trás do meu carro e subir aquele vestido até a sua cintura — ele continuou, deslizando os dedos quentes pelo meu pescoço, descendo pela gola da minha camisola de algodão e roçando o topo do meu seio. — Se você não estivesse tão bêbada, caindo pelos cantos, a nossa noite não tinha terminado com você dormindo quietinha na cama, garota.
— Jacob... para... — tentei soar firme, mas a respiração pesada que escapou dos meus lábios me traiu por completo.
— Para? — ele debochou, roçando os lábios no meu queixo antes de morder a pele sensível logo abaixo da minha orelha, fazendo um arrepio violento rasgar a minha espinha. — Você sabe exatamente como eu teria terminado a noite. Eu teria te colocado de joelhos naquela cama, segurado o seu cabelo com força e te fodendo até você esquecer o próprio nome e parar com essa palhaçada de fingir que não me quer.
O choque daquelas palavras cruas e adultas fez meu sangue ferver. Senti um calor denso e úmido se espalhar entre as minhas pernas, uma reação involuntária ao tom possessivo e sem filtros com que ele falava comigo. Jacob percebeu a mudança no meu ritmo respiratório. Ele soltou meus pulsos, mas antes que eu pudesse tentar empurrá-lo, suas duas mãos desceram com violência para a minha cintura, levantando a barra da camisola até a altura do meu quadril.
— E você ia gostar — afirmou ele, a mão grande e áspera espalmando-se direto na minha pele nua, subindo pela minha coxa até apertar a minha bunda com força, moldando a carne na sua palmada. — Você ia gemer no meu ouvido do mesmo jeito que gemeu quando eu passei a língua no seu pescoço no camarote.
— Eu não... — tentei rebater, mas a frase morreu quando a mão dele deslizou para a frente, enfiando os dedos por baixo da minha calcinha.
Jacob não pediu permissão. Ele pressionou a palma inteira contra o meu sexo, descobrindo que eu já estava completamente molhada para ele. Um gemido baixo e involuntário escapou da minha garganta, e eu fechei os olhos, cravando as unhas nos ombros largos dele enquanto a vergonha e o tesão se misturavam no meu peito.
— Olha só para você — ele sussurrou perto da minha boca, a respiração entrecortada, enquanto dois dos seus dedos começavam a se mover com lentidão e precisão sobre o meu clitóris, afundando na minha umidade. — Dizendo que me odeia, que quer que eu vá embora, mas tá encharcada só de me ouvir falar o que eu quero fazer com você.
Ele enfiou dois dedos fundo dentro de mim num único impulso firme.
— Ah! — dei um salto no balcão, a cabeça tombando para trás, o corpo reagindo instantaneamente ao preenchimento bruto.
Jacob começou um ritmo ritmado, fodendo-me com os dedos enquanto o polegar pressionava o meu ponto sensível sem piedade. A perna dele firme entre as minhas coxas mantinha meu quadril aberto, totalmente exposto ao seu toque. A cada estocada rápida dos dedos dele, o som úmido ecoava na cozinha silenciosa, misturando-se aos meus gemidos descontrolados que eu mal conseguia abafar.
— Fala para mim, Nessie — ele exigiu, intensificando os movimentos, a mão livre subindo para apertar o meu peito por cima do tecido fino da camisola, beliscando o bico ereto. — De quem é essa buceta? De quem ?
— Sua... — deixei escapar num arfar desesperado, perdendo qualquer resto de orgulho enquanto o prazer acumulado começava a contrair minhas paredes internas ao redor dos dedos dele. — É sua, Jacob!
Ele soltou um rosnado baixo de satisfação e acelerou a fricção, aumentando a pressão do polegar até que uma onda avassaladora de orgasmo me atingisse em cheio. Meu corpo inteiro estremeceu, minhas pernas vacilaram e eu me agarrei ao pescoço dele enquanto me derramava contra a sua mão.
Jacob me segurou com firmeza durante toda a convulsão do orgasmo, mantendo-se colado a mim até que o último espasmo passasse. Quando finalmente puxou os dedos de dentro de mim, ele os levou à própria boca, lambendo a minha umidade sem tirar os olhos escuros e vitoriosos do meu rosto corado e arfante.
Ele ajeitou a minha camisola com um toque quase calmo, deixando um beijo rápido e estalado nos meus lábios inchados antes de se afastar um passo.
— Agora — disse ele, a voz voltando ao tom calmo e dominador, embora a respiração ainda estivesse pesada —, vai lá para cima, toma um banho de verdade e veste uma roupa descente. O café da manhã tá na mesa e os nossos filhos estão esperando.
— Cachorro, safado, canalha! — Rosnei, ofegante. Ele sorriu, o sorriso lateral, safado e perigoso.
— Sim, sou isso tudo e muito mais, e vou dormir na sua cama hoje. Estou a meses sem sexo, estou avisando pra se preparar.
Fale com o autor