Filha da guerra
50 48. O dia dela • Jacob Black
O calendário apontava para onze de setembro. Os presentes da mãe dos meus filhos já estavam dentro do meu cofre há duas semanas, só esperando o dia certo de serem entregues a ela.
Servi uma dose de uísque no copo de cristal, olhando para a baía de Seattle pela vidraça do meu escritório no topo do prédio. O sol da manhã mal tinha surgido e a minha cabeça já estava inteiramente ocupada por Renesmee. Vinte e um anos. Minha garota estava ficando mais mulher a cada dia, mais independente, e isso me deixava orgulhoso e possesso na mesma proporção.
O divórcio e a distância que ela fazia questão de impor eram feridas que eu engolia a seco diariamente. Saber que ela dormia numa casa que não era a minha me corroía por dentro, mas eu jogava o jogo longo. Deixava ela ter a ilusão de controle, a ilusão de liberdade, contanto que continuasse debaixo da minha sombra de proteção.
A porta do escritório se abriu e Paul entrou, jogando uma pasta sobre a mesa.
— Tudo pronto para as entregas de hoje, Don — disse ele, ajeitando a postura. — A segurança da Mansão King foi reforçada para o dia, como o senhor mandou.
— E os presentes? — perguntei, sem me virar de costas para a janela.
— As caixas de joias já estão separadas. A encomenda da Itália chegou no início da semana.
Dei um gole lento no uísque, sentindo o líquido queimar na garganta.
— Ótimo.
O problema é que eu conhecia a Renesmee melhor do que qualquer um nesta cidade. Sabia que joias, carros ou qualquer extravagância que o meu dinheiro pudesse comprar não iam amolecer a postura gélida que ela adotou comigo desde que saiu da Mansão Black. Ela queria provar que não precisava de mim.
A batida na porta não me surpreendeu. Quando ela passou pela recepção, os meus homens na porta nem precisaram me avisar pelo rádio, eu soube que era ela no instante em que o perfume doce inundou o corredor.
Quando a vi entrar, ereta, linda e cheia de uma atitude que tentava mascarar a ansiedade, precisei de cada gota de autocontrole para não caminhar até ela e puxá-la para o meu colo ali mesmo. O papo sobre a boate Velvet me subiu o sangue instantaneamente. A ideia de Renesmee cercada por música alta, bebida e olhares de outros homens me dava vontade de botar a cidade abaixo.
Mas ela usou a cabeça. Foi inteligente. Jogou com o fato de a Velvet ser minha casa, de os homens da porta responderem a mim. E eu cedi. Cedi porque prefiro ter minha mulher sob a visão dos meus próprios soldados do que correndo o risco de ela tentar me peitar e ir para um lugar onde eu não controle cada centímetro do chão.
[...]
Agora, ali na boate, à uma da manhã, vendo a forma como o corpo dela reagia ao meu contato enquanto dançávamos no camarote VIP, eu sabia que tinha tomado a decisão certa.
Senti o peito dela subir e descer rapidamente contra o meu, a respiração entrecortada pelo álcool e pela nossa proximidade. A mão dela, pequena e quente, continuava presa na minha, enquanto a minha outra mão afundava na curva macia da sua cintura, colando o quadril dela no meu sem dar espaço para qualquer fuga.
Renesmee podia apontar armas para o meu peito, podia gritar que nunca mais voltaria para mim e erguer quantos muros quisesse entre a Mansão King e o meu império. Mas a forma como o corpo dela estremecia inteiro quando eu me inclinava no seu pescoço provava a única verdade que importava em Seattle: ela ainda era minha.
A batida grave e abafada do r&b continuava ecoando pelo camarote, mas para mim, todo o resto da Velvet tinha simplesmente deixado de existir. A única coisa real naquele andar era o corpo de Renesmee colado ao meu, a quentura da pele dela queimando através do tecido fino do vestido.
Apertei mais a minha mão na parte baixa das suas costas, puxando o quadril dela com uma pressão firme, erótica, moldando cada curva da minha mulher contra o meu corpo. Renesmee tentou manter a postura rígida por dois segundos, mas o álcool e a proximidade perigosa começaram a dobrar a resistência dela. Senti os dedos pequenos dela, que antes me seguravam com hesitação, cravarem com mais força no meu ombro.
— Jacob... — ela sussurrou, a voz saindo falhada, uma mistura de aviso e entrega que só fez o meu sangue ferver.
— Fica quieta, Nessie — murmurei contra a pele quente da sua bochecha.
Deslizei meus lábios devagar até a curva do seu pescoço. O perfume doce dela me embriagava mais do que qualquer dose de uísque do meu estoque. Sem dar margem para ela recuar, encostei a boca na sua pele macia, distribuindo beijos lentos e profundos ao longo da sua saboneteira. Senti o pulso dela acelerar contra os meus lábios, desordenado, desmascarando a mentira de que ela não me queria mais.
Puxei o ar com força, sentindo o corpo dela estremecer inteiro nos meus braços, e passei a língua devagar pela extensão sensível do seu pescoço, subindo até a curva abaixo da orelha.
O resultado foi imediato: um gemido baixo, manhoso e sufocado escapou dos lábios dela, ressoando bem perto do meu ouvido. Aquele som quase me fez perder a cabeça ali mesmo, no meio da boate. A vontade que deu foi de pegar Renesmee nos braços, passar por cima de qualquer segurança e levá-la direto para o meu carro.
Mas eu sabia jogar. Sabia o limite exato entre atiçar e quebrar a corda.
Antes que ela pudesse se recuperar do choque ou tentar erguer o escudo do orgulho outra vez, me afastei devagar. Soltei o quadril dela, mas mantive apenas os meus dedos roçando suavemente o seu queixo, obrigando seus olhos ligeiramente nebulosos a encontrarem os meus.
Minha morena estava arfando levemente, com os lábios entreabertos e o rosto corado.
Dei um meio-sorriso calmo, ajeitando o colarinho da minha camisa com a maior naturalidade do mundo, como se não estivesse prestes a perder o controle segundos atrás.
— A sua música acabou, aniversariante — disse eu, a voz rouca e carregada de uma satisfação absoluta. — Aproveite o resto da sua noite. Os meus homens vão te levar para casa às três em ponto.
Dei um passo para trás, deixando-a paralisada no centro do camarote, e caminhei em direção à saída sob o olhar atento dos meus soldados.
•••
Desci a escada privativa e segui em direção ao mezanino reservado da diretoria, um espaço isolado por vidros fumê unidirecionais de onde eu tinha visão total da boate sem ser visto por ninguém.
Servi uma dose dupla de uísque no balcão de mármore e encostei o corpo na mureta, mantendo os olhos fixos na área VIP do andar superior.
Eu conhecia Renesmee melhor do que ela mesma. Ela tentaria provar para si mesma — e para as amigas — que estava no controle, que nada daquilo a tinha abalado. E o resultado seria um só: ela ia passar do ponto.
Nem fodendo eu deixaria a mãe dos meus filhos ser levada para casa apenas sob os cuidados dos meus homens, por mais leais que fossem. Embry era o meu braço direito e o chefe da guarda, mas a responsabilidade de carregar a minha mulher alcoolizada pelas ruas de Seattle continuava sendo estritamente minha.
Gole por gole, vi o tempo passar. Vi as garrafas esvaziarem na mesa do camarote, vi as amigas rindo descontroladamente e vi Renesmee perder aos poucos a postura firme , encostando a cabeça no ombro de Alice enquanto tentava se manter de pé nos saltos.
Quando o relógio de ouro no meu pulso marcou 03:00 AM em ponto, virei o resto do uísque na garganta e saí do mezanino.
Subi as escadas do camarote a passos firmes. Quando atravessei a cortina de veludo, a cena já era de impasse. Embry estava parado a dois passos de Renesmee, mantendo as mãos para trás em sinal de respeito, com uma expressão visivelmente desconfortável.
— Dona Renesmee, por favor — dizia Embry, a voz paciente, mas firme. — O chefe deu ordens expressas. Já deu o horário e o carro está esperando na porta dos fundos. A senhora precisa ir.
— Eu não vou a lugar nenhum com você, Embry! — protestou ela, a voz ligeiramente enrolada pelo álcool, ajeitando a alça do vestido com uma graciosidade desajeitada. Ela apontou um indicador trêmulo no peito do meu segurança. — A noite é minha! Eu só saio daqui quando eu quiser! Fala pro seu chefe que ele não manda em mim!
— Ele não precisa falar nada, Renesmee — disse eu, cortando a fala dela e surgindo logo atrás de Embry.
O meu segurança se afastou no mesmo instante, dando um passo para o lado e abaixando a cabeça em respeito.
Renesmee piscou devagar, tentando focar os olhos ligeiramente nebulosos na minha figura. As bochechas dela estavam coradas pela bebida e os cabelos escuros ligeiramente desalinhados.
— Você... — resmungou ela, cruzando os braços e tentando se manter ereta, embora estivesse claramente oscilando sobre os saltos. — Eu sabia que você tava espionando... Seu ditador de uma figa...
Dei dois passos para a frente, diminuindo a distância entre nós dois até sentir o cheiro doce misturado com bebida que emanava dela.
— As três horas chegaram, aniversariante — murmurei, mantendo o tom calmo, mas carregado de uma autoridade que não aceitava contestação. — E como você tá mal conseguindo se parar em pé, quem vai te levar para a Mansão King sou eu.
— Eu não vou a lugar nenhum com você! Me solta, Jacob! — protestou Renesmee, a voz arrastada e um tom acima do normal, tentando em vão se esquivar do meu alcance.
— Chega de teimosia — decretei, perdendo a pouca paciência que me restava.
Antes que ela pudesse ensaiar outro protesto ou tropeçar nos próprios saltos, passei o braço direito com firmeza por trás das suas coxas e a dobrei sobre o meu ombro num movimento rápido e preciso.
— Jacob! Me põe no chão agora! Seu bruto! — gritou ela, esmurrando as minhas costas com os punhos sem força alguma.
A barra do vestido curto de festa subiu perigosamente na mesma hora. Com a mão esquerda livre, passei o casaco de couro escuro sobre o quadril e as pernas dela, cobrindo tudo da cintura para baixo. Nenhum dos meus homens, nem qualquer curioso no corredor da boate, teria o direito de ver um milímetro a mais da minha mulher.
— Embry, abre a passagem dos fundos e garante que o elevador privativo esteja limpo — ordenei, mantendo o braço firme ao redor das pernas dela para que não se machucasse enquanto se debatia. — Ninguém entra, ninguém olha.
— Pode deixar, Don — respondeu Embry, tomando a frente e fazendo sinal para que os seguranças isolassem o corredor de serviço.
— Eu te odeio, Jacob Black! — resmungou ela contra a minha calça, a voz abafada pelo tecido do meu paletó, dando um chute fraco no ar que fez o salto alto ameaçar voar longe.
Com cuidado, segurei o tornozelo dela com a mão coberta pelo casaco, impedindo que o sapato caísse e ajustando a dobra para não apertar sua pele. Atravessei a porta de emergência mantendo a postura ereta, segurando o corpo quente e mole de Renesmee contra o meu como se ela não pesasse absolutamente nada.
Quando as portas do elevador privativo se fecharam, deixando o som alto da Velvet para trás, ela finalmente parou de se debater, exausta do esforço.
— Você é um tirano... — murmurou ela, encostando a cabeça na minha cintura, o hálito doce do espumante subindo até o meu rosto.
— Sou o tirano que tá garantindo que você chegue inteira na sua cama, Nessie — respondi baixo, deslizando a mão por cima do casaco para segurá-la com mais firmeza. — Agora cala a boca e colabora.
Descemos direto para a garagem subterrânea, onde o meu SUV preto já nos aguardava com as portas abertas. Ajeitei o corpo dela nos meus braços ao sair do elevador, mantendo o casaco perfeitamente posicionado até que pudesse acomodá-la no banco traseiro, longe de qualquer olhar.
[...]
Ajustei a barra da camisola de algodão em Renesmee com todo o cuidado do mundo. Depois de um banho demorado em que precisei segurá-la debaixo do chuveiro para tirar o cheiro de bebida e o suor da boate — mantendo meus olhos e pensamentos sob um controle estrito —, ela finalmente parecia entregue ao cansaço.
Peguei-a nos braços mais uma vez e a carreguei do banheiro até o quarto principal da Mansão.
Deitei o corpo macio de Renesmee sobre os lençóis limpos da cama de casal. Ajeitei o travesseiro sob sua cabeça e puxei o cobertor até a altura do seu peito. O rosto dela estava corado, os cabelos escuros ainda levemente úmidos espalhados sobre a fronha, e a respiração ritmada indicava que o sono profundo já a vencia.
Quando me curvei para me afastar e deixá-la descansar, a mão pequena de Renesmee se ergueu devagar e segurou com firmeza o colarinho da minha camisa preta.
Parei no mesmo instante.
Ela abriu os olhos ligeiramente, o olhar nebuloso e dócil como eu não via há anos, despido de qualquer guarda, orgulho ou ressentimento.
— Jake... — murmurou ela, a voz fraca e manhosa, arrastada pelo resto do efeito do álcool.
— Fica calma, Nessie. Você já tá na sua cama — respondi baixo, apoiando uma das mãos no colchão ao lado do corpo dela.
— Não vai... — pediu, puxando fraco a minha camisa para me trazer para mais perto, o rosto se afundando no travesseiro enquanto as pálpebras pesavam. — Eu te amo... seu grosso...
Aquelas palavras bateram no meu peito como um soco direto. O cômodo pareceu ficar em silêncio absoluto. Havia tanto tempo que eu não ouvia aquela confissão sair da boca dela, e ouvi-la assim, na sua forma mais pura e sem as barreiras da razão, destruiu o resto da minha postura de Don implacável.
Deslizei a mão pelo rosto macio dela, afastando uma mecha de cabelo da sua testa e deixando os meus dedos parados na sua bochecha quente.
— Eu também te amo, garota — murmurei na penumbra, a voz rouca carregada de uma promessa silenciosa. — Mais do que tudo nessa vida.
Renesmee soltou um suspiro profundo, a mão relaxou sobre o meu peito e ela finalmente adormeceu, com um semblante tranquilo que eu não via há muito tempo.
Fiquei ali parado por mais alguns minutos, apenas observando o subir e descer ritmado do seu peito. Inclinei-me e deixei um beijo demorado na sua testa, sentindo o cheiro de sabonete que tinha substituído o aroma da boate.
Levantei-me devagar para não fazer barulho, ajustei o ar-condicionado do quarto e caminhei em direção à porta. Antes de sair, dei uma última olhada para a cama, fechei a porta de carvalho sem produzir um único ruído e me posicionei no corredor, pronto para guardar o sono da mulher da minha vida até o amanhecer. Mas no quarto ao lado.
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