Filha da guerra

49 47. Aniversário • Renesmee king



11 de Setembro de 2003 — 02:30 PM


Seattle — Sede dos Empreendimentos oficiais Black — Cobertura


Passei pelas portas de vidro temperado da recepção da sede administrativa no centro de Seattle, sentindo o olhar atento dos seguranças que guardavam o andar executivo. Eu me recusei a pôr os pés na Mansão Black para ter aquela conversa; não queria reviver as memórias sufocantes daquele lugar. Se eu precisava negociar com o Don, faria isso no terreno profissional dele.

Caminhei a passos firmes pelo corredor acarpetado em direção à sala da presidência. Secretários e homens de terno escuro abriam passagem ao me reconhecer.

Sem bater, empurrei a porta dupla de madeira nobre.

Jacob estava de pé junto à imensa parede de vidro que dava vista panorâmica para a baía de Seattle, com um copo de uísque em uma das mãos e o paletó pendurado na cadeira de couro atrás da mesa. Ele trazia as mangas da camisa social preta dobradas até os antebraços. Ao ouvir o barulho da porta, virou-se devagar.

— Nessie — disse ele, a voz grave ressoando pelo cômodo amplo. Ele não demonstrou surpresa; seus olhos escuros apenas me varreram de cima a baixo com a intensidade de sempre. — O que te traz até o meu escritório numa tarde de quinta-feira? O Noah e a Sarah ficaram na Mansão ?

— Ficaram com a Lucy e a babá — respondi, parando no meio da sala e mantendo a postura ereta, a uma distância segura da mesa dele. — Eu vim conversar sobre hoje à noite.

Jacob ergueu uma sobrancelha, levando o copo aos lábios para um gole lento antes de voltar a me encarar.

— O que tem hoje à noite?

— É o meu aniversário de vinte e um anos, Jacob. Caso tenha se esquecido.

Um brilho enigmático passou pelos olhos dele, mas a expressão permaneceu indecifrável.

— Eu sei exatamente que dia é hoje — disse ele, num tom mais baixo. — E pretendo mandar entregar o seu presente mais tarde.

— Eu não quero presentes — cortei, respirando fundo para ir direto ao ponto. — Eu quero sair hoje à noite. A Alice está na cidade e organizou uma comemoração com algumas amigas da faculdade de enfermagem da UW. Nós queremos ir à Velvet, no centro.

A menção ao nome da boate fez o ambiente congelar no mesmo segundo. O olhar de Jacob escureceu instantaneamente e a mandíbula dele travou com força. A Velvet era a casa noturna mais exclusiva e luxuosa de Seattle e, acima de tudo, era propriedade direta da família Black.

— Não — a resposta dele veio seca, imediata e cortante, sem abrir margem para dúvidas.

— Jacob, me escuta...

— Eu disse não, Renesmee — interrompeu ele, colocando o copo sobre a mesa e caminhando na minha direção com a imponência física que sempre usava para intimidar. Ele parou a poucos passos de mim. — Você não vai para uma casa noturna cheia de bebida, música alta e gente que eu não conheço. O nosso acordo foi claro quando você saiu da minha casa.

— O nosso acordo dizia que eu não me envolveria com nenhum outro homem, e eu continuei cumprindo isso à risca! — rebati, a raiva fazendo meu peito subir e descer rapidamente, mas sem recuar um centímetro. — Eu tenho vinte e um anos, passei os últimos anos dedicada exclusivamente aos gêmeos e aos meus estudos. Eu tenho o direito de ter uma noite para comemorar com a minha prima e com as minhas amigas!

— A Velvet é um ambiente do clã, frequentado por empresários, políticos e homens que não valem o ar que respiram — rosnou ele, os olhos queimando em mim com o ciúme descontrolado que ele nunca aprendeu a domar. — Você acha que eu vou deixar a minha ex-mulher exposta naquele lugar?

— É EXATAMENTE POR ISSO QUE EU VIM AQUI! — apontei o dedo no peito dele, sustentando o olhar do Don de Seattle. — A boate é sua, Black! Se existe um lugar nesta cidade onde você tem controle absoluto de tudo e de todos, é lá! Eu não estou pedindo permissão para me esconder num bar barato de esquina. Eu quero que você libere o camarote VIP principal, aquele andar exclusivo com acesso restrito e seguranças próprios na porta.

Jacob piscou, pego de surpresa pela minha lógica direta.

— Com o espaço VIP liberado — continuei, a voz mais pausada e cheia de autoridade —, apenas eu, a Alice e as minhas amigas teremos acesso ao andar. Nenhum estranho vai se aproximar, os seus próprios homens estarão na porta garantindo a segurança e você terá a certeza absoluta de que tudo estará sob o seu controle.

Jacob ficou em silêncio por longos segundos. Ele se virou de costas, deu dois passos em direção à janela olhando para o movimento dos carros lá embaixo, enquanto a razão tática do líder começava a pesar contra o seu ciúme cego.

Ele voltou a se virar para mim, a voz baixinha e perigosa:

— Só a Alice e as suas amigas da universidade?

— Só nós — afirmei. — Sem convidados externos, sem homens no camarote. Apenas nós comemorando meu aniversário.

Ele deu mais um passo na minha direção, diminuindo o espaço até que eu pudesse sentir o calor vindo do corpo dele. Jacob baixou os olhos para os meus lábios por um segundo antes de voltar a encarar meus olhos.

— Se eu liberar o camarote VIP e a segurança exclusiva da casa... — murmurou ele, o tom carregado de um aviso velado —, a minha guarda pessoal vai acompanhar você desde a saída da Mansão King até a volta. E os meus homens na Velvet vão responder diretamente a mim sobre tudo o que acontecer naquele andar.

— Tudo bem — concordei sem vacilar. — É um termo aceitável.

Jacob suspirou pesado, balançando a cabeça com uma insatisfação evidente por estar cedendo, mas sabendo que não tinha como contornar a situação sem parecer um tirano irracional.

— O camarote principal tá liberado — decretou ele, a voz gélida. — Bebidas por conta da casa. Mas às três da manhã, os meus seguranças vão te trazer de volta para casa. Sem discussões.

— Três e meia — barganhei com um meio-sorriso vitorioso.

— Três horas, Renesmee. Não estica a corda — rebateu ele, encarando-me com tanta intensidade que fez meu pulso acelerar por um segundo. — Feliz aniversário. Agora sai da minha frente antes que eu mude de ideia.

Ajustei a alça da minha bolsa sobre o ombro e me virei para a saída da cobertura, sabendo que tinha conquistado a primeira noite de liberdade em anos, mesmo que sob os olhos atentos do Don.


— 11:45 PM — Boate Velvet — Camarote VIP


As luzes de neon roxas e azuladas cortavam a penumbra do camarote exclusivo, refletindo no vidro temperado que nos separava da pista de dança lotada no andar inferior. O som grave dos alto-falantes fazia o chão de madeira polida vibrar sob os meus saltos, mas ali em cima, cercada por homens do clã discretamente posicionados em cada acesso, o ambiente parecia um refúgio inteiramente nosso.

— Um brinde à mulher mais incrível, à mãe mais dedicada e à futura enfermeira mais brilhante de Seattle! — gritou Alice, erguendo sua taça de espumante sob o brilho dos refletores.

— Aos vinte e um anos da Nessie! — completaram Kim e as meninas da faculdade, fazendo um tilintar alegre de taças ecoar pelo espaço reservado.

Engoli um gole generoso da bebida gelada, sentindo uma sensação quase esquecida de leveza se espalhar pelo meu peito. Há quanto tempo eu não me permitia apenas sorrir, dançar e esquecer as responsabilidades pesadas que carregava?

Kim puxou minha mão, nos levando para o centro do camarote enquanto o DJ iniciava uma sequência de r&b contagiante. Rimos juntas enquanto Alice ensinava passos desengonçados para minhas duas colegas da UW, transformando a área VIP em uma pista privada sem qualquer cerimônia.

Pela primeira vez em anos, eu não era a ex-esposa protegida do Don de Seattle ou a mãe apreensiva cuidando do bem-estar dos gêmeos. Ali, sob as luzes da *Velvet*, eu era apenas Renesmee: jovem, livre e comemorando meu aniversário ao lado das pessoas que realmente me queriam bem.

— Olhe só para você! — disse Alice, aproximando-se com os olhos brilhando enquanto jogava os cabelos curtos para trás. — Essa cor de vestido ficou perfeita em você, Nessie. E o melhor de tudo: nenhuma cara feia de homem pra estragar o nosso momento!

Dei uma risada alta, balando a cabeça.

— O Jacob garantiu que o único homem que entrasse aqui fosse o garçom servindo as garrafas — comentei, olhando de relance para um dos seguranças da organização de terno escuro parado junto à escada de acesso, que fingia não prestar atenção na em nós enquanto mantinha o rádio de comunicação perto do colarinho.

— Deixa os homens cuidarem da porta! Hoje a noite é nossa! — celebrou Kim, entregando novas taças abastecidas para nós.

— Preciso retocar o batom e usar o banheiro antes da próxima rodada! — gritou Alice por cima da música grave, deixando sua taça sobre a mesa de centro. — Não sumam sem mim!

Ela piscou para nós e caminhou em direção ao corredor privativo do camarote, passando pelo segurança de terno escuro que abriu a porta com um aceno respeitoso.

Com a saída de Alice, Kim deu um passo para mais perto de mim, encostando o ombro no meu enquanto acompanhava o ritmo suave da música. Ela deu um gole na sua bebida, deu uma olhada discreta para a pista de dança lá embaixo e se virou com um sorriso cúmplice no rosto.

— Nessie... preciso te contar uma coisa — disse ela, inclinando a cabeça para que a voz não se perdesse no som alto. — Sabe o Gabriel? O garoto do terceiro período de enfermagem, aquele alto de cabelos escuros que senta na primeira fileira nas aulas de anatomia?

— Sei quem é — respondi, despretensiosa, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — O que tem ele?

— Ele tá completamente caidinho por você. Passa o bloco inteiro te olhando e tomando coragem pra puxar assunto. — Kim deu uma risadinha, tocando meu braço.

— Kim, eu já te falei mil vezes... eu não tô interessada em ninguém — murmurei, mantendo o tom calmo, mas direto. — Minha cabeça tá 100% focada nas crianças e na faculdade.

— Ah, qual é, Nessie! — insistiu ela, aproximando-se ainda mais e apontando sutilmente com o copo para a pista inferior. — Ele tá bem ali embaixo! Veio com o pessoal da turma porque sabia que você vinha. Você não precisa namorar o garoto, não precisa assumir nada pra ninguém. É só dar uns beijos, se divertir uma noite só! Você tem vinte e um anos, é linda e tá solteira. Qual é o problema de ter uma noite de curtição?

Olhei para a pista iluminada por luzes estroboscópicas e cheguei a ver o tal Gabriel perto do balcão do bar, olhando casualmente para o camarote de tempos em tempos.

Uma noite de curtição. A proposta de Kim parecia algo absolutamente comum e inofensivo para qualquer jovem na Universidade de Washington. Mas a minha realidade não tinha nada de comum.

Embora não dissesse uma única palavra em voz alta para não estragar a noite de comemoração ou assustar Kim, a verdade nua e crua queimava na minha mente. Se eu desse a mínima esperança para aquele garoto, se ele subisse aquelas escadas e ousasse colocar as mãos em mim para um único beijo... Jacob não apenas descobriria em questão de minutos através dos homens espalhados pela boate, como o Gabriel nem sequer sairia vivo daquele prédio. O Don de Seattle arrancaria a vida do rapaz sem hesitar no instante em que soubesse que ele ousou me tocar.

Um arrepio frio percorreu minha espinha, trazendo de volta o peso da gaiola invisível em que eu ainda vivia.

— Não, Kim — disse eu, assumindo uma postura firme e cortando o assunto de vez. — A resposta é não. Eu vim aqui pra ficar com vocês e curtir o meu aniversário. Não insiste com isso, tá bom?

Kim levantou as mãos em sinal de rendição, embora tenha feito um biquinho de decepção.

— Tá bom, tá bom! Não tá mais aqui quem falou.

Ela voltou a dançar, mas meu olhar se desviou inevitavelmente para o segurança parado no topo da escada, que mantinha o rádio de comunicação colado ao ouvido. O aviso de Jacob no escritório ressoou perfeito na minha memória: meus homens vão responder diretamente a mim sobre tudo o que acontecer naquele andar.


— 01:10 AM


A música grave ressoava pelo camarote enquanto eu acompanhava o ritmo com os olhos fechados, me deixando levar pelo momento.

De repente, senti duas mãos grandes e firmes segurarem minha cintura por trás, puxando meu corpo com uma força possessiva e inconfundível.

O alarme no meu peito disparou na mesma hora. Tomada por uma onda instantânea de pânico e raiva — imaginando que algum tonto da pista tinha conseguido furar a segurança —, tentei me soltar rapidamente, virando o corpo com brutalidade e empurrando o peito do invasor com os dois braços.

— Me solta! Que porcaria é essa...

— Sou eu, Renesmee. Relaxa — a voz grave e rouca soprou bem perto do meu ouvido, cortando o barulho da boate.

Parei no mesmo segundo. O perfume amadeirado e o calor intenso que emanavam dele não deixavam dúvidas: Jacob.

Ele vestia uma camisa preta com os primeiros botões abertos e casaco de couro escuro. Sua presença ali, em pleno camarote VIP, fez o ar ao nosso redor parecer instantaneamente escasso. Kim e as outras garotas congelaram a poucos metros, encarando o Don de Seattle com os olhos arregalados de puro temor e admiração.

Jacob baixou os olhos escuros para o meu rosto, o olhar queimando em mim com uma mistura de possessividade e reprovação enquanto o cheiro do álcool na minha respiração se denunciava.

— Você bebeu demais — reclamou ele, a voz baixinha e ríspida, a mão ainda pesada na curva das minhas costas. — Não deveria estar bebendo assim.

Toda a adrenalina do susto se transformou em uma raiva fria e pura. Com um solavanco firme, dei dois passos para trás, arrancando as mãos dele do meu corpo e sustentando seu olhar sem vacilar um milímetro. Eu odiava quando ele me tocava, ao menos era isso que eu insistia eu tentar me convencer.

— E você não deveria estar me tocando — rebati, a voz cortante como lâmina de aço, audível o suficiente para sobressair à música.

Jacob travou a mandíbula, os olhos faiscando pela audácia do meu tom diante de seus próprios homens.

— Chega de cena, Renesmee — disse ele, dando um passo na minha direção.

— Eu não estou fazendo cena nenhuma, Jacob! — dei mais um passo para trás, encarando-o com uma firmeza que o fez estancar. — É bom você se lembrar muito bem da última vez que ousou encostar em mim ou me encurralar sem a minha permissão...

Fiz uma pausa de um segundo, deixando a lembrança daquela manhã terrível na suíte flutuar entre nós dois.

— Da última vez que você fez isso, eu apontei uma arma para o seu peito e te expulsei do meu quarto.

Jacob estancou. Por um milésimo de segundo, o fantasma daquela manhã na Mansão Black — com o cano frio do revólver pressionado contra o peito dele — pareceu cruzar o olhar escuro. A lembrança era uma ferida aberta, um divisor de águas que nem a autoridade dele conseguia apagar.

Mas Jacob não era o tipo de homem que deixava o controle escapar por muito tempo.

Ele relaxou a postura devagar, soltando uma risada baixa e rouca que soou quase divertida, amenizando a tensão sufocante que mantinha Kim e as outras garotas paralisadas ao redor. Jacob ergueu as duas mãos na altura do peito, em um gesto calculado de rendição.

— Que drama, Nessie — murmurou ele, dando meio passo à frente, mas mantendo uma distância respeitosa para não me atiçar de novo. — Eu já te perdoei por aquilo há muito tempo. Você sabe que aquela arma nunca me assustou de verdade.

— Eu não pedi o seu perdão, Jacob — retruquei, mantendo os braços cruzados sobre o peito e a guarda erguida.

Ele deu um sorriso de canto, aquele meio-sorriso petulante que sempre usava para desarmar qualquer um. Os olhos dele varreram meu vestido antes de voltarem para os meus.

— Relaxa — disse ele, a voz baixando para um tom mais suave e intimista, cobrindo o som da música que ecoava no camarote. — Eu só passei aqui para ver como as coisas estavam. E achei que tinha o direito de tentar dançar uma música com a aniversariante. É pedir demais querer dançar com a mulher mais bonita desta boate no dia do aniversário dela

— Uma música, Jacob — cedi, a voz baixa, impondo o limite. — Apenas uma.

O sorriso dele se alargou, triunfante. Ele deu o passo decisivo para cobrir a distância entre nós, segurando minha mão direita e puxando-me para o centro do camarote.

No mesmo instante em que nossos corpos se alinharam, a intenção de Jacob ficou clara: não era apenas uma dança cortês. Ele colou o corpo quente no meu sem deixar um único milímetro de espaço. Sua mão esquerda desceu firme pela minha cintura, espalmando-se na parte baixa das minhas costas com uma pressão erótica e possessiva, puxando o meu quadril para se encaixar com precisão milimétrica ao dele.

Um arrepio forte subiu pela minha espinha. Senti a respiração dele, pesada e quente, roçar a pele sensível do meu pescoço enquanto ele inclinava a cabeça. O cheiro de uísque e o perfume marcante de Jacob me envolveram por inteiro, tornando o ar ao redor denso e difícil de respirar.

— Você não tem ideia de como fica linda quando tá brava comigo — murmurou ele no meu ouvido, a voz rouca provocando uma vibração que correu por todo o meu corpo.

A mão dele nas minhas costas subiu devagar, os dedos roçando a pele descoberta pelo decote do vestido, enquanto a outra mão mantinha a minha presa junto ao peito dele, onde o coração batia forte e descompassado. Ele se movia devagar, num ritmo lento e sensual que acompanhava a batida grave da música, conduzindo meu corpo como se eu ainda pertencesse a ele.