Filha da guerra
48 46. Nossos filhos • Renesmee Black
23 de Agosto de 2003 — 05:40 PM
Seattle — Universidade de Washington (UW) — Escola de Enfermagem
A brisa fria do fim de tarde em Seattle atingiu meu rosto assim que passei pelas portas duplas do prédio da Escola de Enfermagem da Universidade de Washington. Ajustei a alça da bolsa pesada de livros sobre o ombro e respirei fundo, sentindo o cheiro de chuva recente misturado ao aroma de café fresco que vinha das lanchonetes ao redor do campus.
Dois anos. Parecia uma eternidade e, ao mesmo tempo, um sopro.
Olhando para trás, a manhã em que apertei a arma contra o peito de Jacob na nossa antiga suíte foi o divisor de águas da minha vida. Aquele silêncio cortante que se seguiu não destruiu apenas a confiança fragilizada entre nós; ele escancarou que o amor, quando sufocado pelo medo, pela paranoia da máfia e pela amargura de uma família inteira, deixa de ser abrigo e vira cativeiro.
Nos meses seguintes àquele dia terrível, o nascimento dos meus gêmeos trouxe a luz que faltava nos meus dias, mas também a certeza de que eu não podia criá-los dentro da Mansão Black. Entre acusações silenciosas, o fantasma do passado e o peso sufocante que ser a esposa do Don impunha, fui me apagando aos poucos.
A separação não foi simples. Foram meses de conversas dolorosas, desgastantes e humanamente exaustivas. Jacob era o homem mais poderoso de Seattle, um líder implacável para o mundo exterior, mas a dor nos olhos dele quando me ouviu pedir o divórcio provou que ele ainda se importava. Demorou para ele aceitar que a nossa história tinha chegado ao fim. O processo de libertação exigiu concessões dolorosas de ambos os lados.
No fim, Jacob cedeu. Ele permitiu que eu saísse da Mansão Black e retornasse para o meu verdadeiro lar: a Mansão King, a casa onde cresci e onde as memórias da minha infância ao lado da minha mãe ainda me trazia paz.
Mas o Don nunca abdica totalmente do controle.
O acordo de saída veio acompanhado de regras rígidas e inegociáveis. Para preservar a honra do clã e garantir a segurança dos meus filhos, a guarda das crianças ficou compartilhada sob sua supervisão constante, com seguranças dele rondando os portões da minha casa 24 horas por dia. E a cláusula mais pesada de todas, dita com a voz firme e marcada pelo ciúme que ele jamais conseguiu extinguir: eu jamais poderia me envolver romanticamente com outro homem. Enquanto eu carregasse o sobrenome e a proteção indireta do clã Black, meu coração e meu corpo deveriam permanecer intocados.
Aceitei a condição sem hesitar. Minhas prioridades tinham mudado completamente. Eu não queria outro homem; eu queria a mim mesma de volta.
Retomar a minha vida significou reabrir a minha matrícula na Universidade de Washington e recomeçar o curso de enfermagem, um sonho que tinha ficado soterrado pela guerra e pelo casamento precoce. Dediquei cada hora vaga aos livros, aos estágios e, acima de tudo, aos meus dois meninos.
Caminhei a passos largos pelos corredores arborizados da universidade em direção ao estacionamento. À medida que me aproximava do meu carro, avistei a caminhonete preta estacionada logo atrás. Encostado na porta, usando óculos escuros e uma jaqueta escura, estava um dos soldados da guarda de Jacob, escalado para me acompanhar de longe e garantir que o acordo estivesse sendo cumprido à risca.
Não trocamos palavras, apenas um aceno sutil de cabeça. Entrei no meu veículo, liguei o motor e ajustei o espelho retrovisor, encarando meu próprio reflexo.
Não havia mais a garota ingênua e assustada que aceitava o peso do mundo em silêncio. No espelho, vi uma mulher de vinte anos, mãe de dois filhos, futura enfermeira pela UW e dona de seus próprios passos, mesmo que ainda sob a sombra protetora e vigilante do Don de Seattle.
Acelerei em direção à Mansão King, ansiosa para abraçar meus bebês e viver o resto do meu dia no único lugar onde eu finalmente podia respirar.
Estacionei meu carro na garagem da Mansão King e desci, ajeitando a bolsa de livros no ombro. De imediato, o brilho chamativo e impecável da SUV preta blindada de Jacob, estacionada bem no centro do pátio, denunciou a presença dele. O Don de Seattle estava na minha casa.
Respirei fundo, buscando a compostura que passei os últimos dois anos construindo, e cruzei a porta de entrada.
— Boa tarde, Dona Renesmee — cumprimentou Lucy, a governanta da casa, vindo ao meu encontro no hall com um sorriso acolhedor.
— Boa tarde, Lucy — respondi, retribuindo o gesto. — O Jacob está aqui?
— Está sim, senhora. Ele chegou há umas duas horas com as crianças. O Don está lá no quintal com o Noah e a Sarah, acompanhando a construção de uma casinha da árvore.
Agradeci com um aceno e caminhei pelos corredores até a grande porta de vidro que dava acesso aos jardins dos fundos. Assim que pisei na varanda, o som de risadas infantis misturado ao barulho de serras elétricas e martelos atingiu meus ouvidos.
A cena no quintal parecia uma verdadeira obra de construção civil. Havia quatro funcionários da mansão — homens da própria segurança e manutenção do clã — trabalhando duro ao redor do grande carvalho. Dois subiam correndo com tábuas de madeira nobre, outro cortava vigas sob medida e o quarto parafusava a estrutura da base lá no alto.
No centro de tudo, usando calça jeans e uma camisa escura com as mangas dobradas até os cotovelos, Jacob estava de pé com os braços cruzados, dando ordens com a autoridade natural de sempre. Ao lado dele, Noah e Sarah, meus gêmeos de dois anos, pulavam de alegria usando capacetes amarelos de brinquedo e apontando para a estrutura subindo no tronco da árvore.
Aproximei-me a passos firmes, cruzando os braços.
— Jacob? — chamei, cortando o barulho da serra.
Ele se virou devagar. Os olhos escuros me varreram de cima a baixo por um segundo — um hábito que ele nunca perdeu —, antes de sustentar o meu olhar com aquela calma calculada.
— Mamãe! — Noah e Sarah gritaram em coro, correndo na minha direção e agarrando as minhas pernas.
Abaixei-me rapidamente, beijando o topo da cabeça de cada um e abraçando-os com força, sentindo o alívio imediato que a presença dos meus pequenos me trazia depois de um longo dia de aulas na UW.
— Oi, meus amores — sorri para eles, antes de me levantar e voltar a encarar o pai deles. — O que é tudo isso, Jacob?
— Uma casinha da árvore — respondeu ele com a voz grave, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — O Noah e a Sarah me pediram no fim de semana passado. Prometi que faria.
Olhei para os quatro funcionários suando sob o sol do fim de tarde, carregando toras pesadas e executando todo o trabalho pesado enquanto Jacob apenas apontava onde queria cada tábua.
— Você me disse que você ia construir a casinha para os seus filhos — recriminei, franzindo o cenho com uma ponta de indignação. — A ideia de uma casinha da árvore é o pai colocar a mão na massa e fazer junto com as crianças, não mandar uma equipe de empreiteiros erguer um chalé no meu carvalho.
Jacob deu um meio-sorriso debochado, inclinando a cabeça de leve e colocando as mãos nos bolsos da calça.
— Eu sou o Don, Renesmee, não um carpinteiro — rebateu ele com total naturalidade. — É para isso que os funcionários são pagos. Meu trabalho é garantir que a estrutura não caia e que os meus filhos tenham o melhor. Eles queriam a casa, a casa está sendo feita.
— Você é inacreditável... — murmurei, balançando a cabeça, sem conter um suspiro derrotado diante da arrogância tática dele.
— O importante é que tá ficando pronta — disse ele, dando dois passos na minha direção e diminuindo a distância entre nós, a voz baixando de tom. — Como foi a aula na universidade?
Ajeitei a bolsa no ombro, mantendo a distância segura que passei os últimos dois anos aprendendo a cultivar. O ar abafado de agosto tornava a presença de Jacob ainda mais densa no quintal.
— O meu dia na universidade foi bom — respondi, o tom neutro e comedido. — Mas eu sei muito bem que você não tem o menor interesse nas minhas aulas de enfermagem.
Jacob deu mais um passo lento para a frente, diminuindo o espaço entre nós. O vento fraco do fim de tarde agitou a camisa escura dele, e os olhos pretos sustentaram o meu olhar com aquela intensidade perigosa de sempre.
— Tem razão, não tenho mesmo interesse na aula — admitiu ele, a voz baixando para um tom grave, audível apenas para nós dois enquanto as crianças brincavam perto do carvalho. — Mas eu tenho interesse em você.
Soltei um suspiro curto e amargo, balançando a cabeça.
— Poupe-me disso, Jacob. Eu leio os jornais.
Ele franziu o cenho de leve, inclinando a cabeça com uma sobrancelha erguida.
— Do que você tá falando, Renesmee?
— Da edição de ontem do Seattle Times — cortei, cruzando os braços sobre o peito. — Uma foto bem nítida na página de sociedade. O grande “empresário” de Seattle num jantar beneficente no centro da cidade, acompanhado por uma mulher deslumbrante na sua mesa VIP. Você parecia bem entretido para quem diz ainda ter algum 'interesse' em mim.
Jacob soltou uma risada baixa e rouca, um som carregado daquela petulância natural que sempre me tirava do sério. Ele colocou as mãos nos bolsos da calça jeans e deu mais meio passo.
— Aquilo é só fofoca de imprensa, escória de colunista social para vender jornal — rebateu ele com total serenidade, embora o olhar queimasse no meu. — A mulher é filha de um dos parceiros comerciais do cartaz. Tive que sentar na mesma mesa por diplomacia. Você sabe melhor do que ninguém que aquilo não significa nada.
— Não significa nada para você — retruquei, a voz firme. — Mas para o resto da cidade, mostra exatamente a vida que você continua levando.
— A única coisa que importa, Renesmee — disse ele, a brincadeira sumindo do rosto e dando lugar a uma seriedade quase intimidadora —, é que você sabe perfeitamente o que eu quero. Eu quero a minha mulher de volta. Quero você de volta na Mansão Black.
A menção àquela casa e ao passado fez meu estômago dar um nó, mas não deixei o tremor transparecer. Sustentei o olhar do homem mais temido de Seattle sem piscar um segundo sequer.
— Pois pode tirar essa ideia da cabeça — decretei, a voz gélida e inabalável. — Eu não vou voltar para você, Jacob. Nem hoje, nem nunca.
Noah e Sarah correram de volta para nós, interrompendo o ar tenso que ameaçava explodir entre nós dois. Jacob olhou para os filhos, depois voltou os olhos para mim com um meio-sorriso enigmático, deixando claro que aquela conversa estava longe de terminar.
— 07:15 PM
Ajeitei o pano de prato sobre o balcão enquanto ouvia os passos de Jacob se afastarem pelo corredor em direção à sala de estar. Poucos minutos depois, as gargalhadas altas de Noah e Sarah cortaram o silêncio da casa, misturando-se ao som da televisão ligada no canal de desenhos.
Expirei um ar quente que nem sabia que estava prendendo. Cozinhar na minha própria casa deveria ser um momento de paz, mas a presença de Jacob sempre transformava qualquer cômodo em um campo minado.
Terminei de refogar os legumes e tampei a panela para que a sopa apurasse em fogo baixo. Enquanto esperava, aproveitei para organizar a bancada, recolhendo as cascas e lavando a tábua de madeira na pia.
Da janela da cozinha, eu podia ver o reflexo das luzes do pátio e a sombra da casinha da árvore erguida no carvalho. Por mais que a arrogância dele em mandar os soldados da guarda fazerem o trabalho pesado me irritasse, era inegável a alegria nos olhos dos meus filhos ao verem a estrutura pronta. Jacob podia ser um homem implacável no comando e um pesadelo de ciúmes no passado, mas para o Noah e para a Sarah, ele ainda era o pai super-herói que realizava qualquer pedido.
O problema era que ele não conseguia separar as coisas. Para Jacob, estar ali como pai e tentar reaver o lugar de marido faziam parte do mesmo pacote.
— Dona Renesmee? — a voz de Lucy me tirou dos meus pensamentos. A governanta entrou na cozinha com uma bandeja de pratos infantis. — Precisa que eu ajude a colocar a mesa para o jantar?
— Não precisa, Lucy. Pode deixar que eu cuido de tudo por aqui — respondi com um sorriso leve. — Pode tirar o resto da noite para descansar.
— Obrigada, minha querida — disse ela, deixando a bandeja sobre o balcão. — Qualquer coisa, me chame.
Assim que Lucy saiu, servi duas tigelas pequenas com a sopa morna para os gêmeos e uma porção para mim. Preparei a mesa da copa, organizando os talheres coloridos das crianças.
Quando me virei para ir até a sala chamá-los, dou de cara com Jacob parado no batente da porta da cozinha, observando-me em silêncio. Ele já não usava os sapatos e estava com Noah nos braços, enquanto Sarah vinha agarrada na sua calça jeans.
— O cheiro tá bom — comentou ele, mantendo o olhar fixo no meu. — As crianças disseram que tão com fome.
— A mesa já está posta — declarei, mantendo o tom estritamente funcional. — Pode colocar o Noah na cadeira dele.
Jacob colocou Noah na cadeira alta com cuidado e se abaixou para suspender Sarah logo em seguida, acomodando os dois lado a lado. Por alguns instantes, o Don implacável de Seattle deu lugar apenas a um pai atencioso, limpando a mãozinha suja de poeira da filha antes de me entregar o guardanapo.
Sentei-me na ponta da mesa, bem em frente aos gêmeos, enquanto Jacob puxou a cadeira ao meu lado. Não havia um lugar posto para ele — eu fiz questão de servir apenas as três porções —, mas ele nem pareceu se importar. Ficou ali, com os braços cruzados sobre a madeira escura da mesa, observando a nossa dinâmica com uma calma que me deixava em alerta constante.
— Come devagar, Noah — pedi, ajeitando a colher na mão do meu filho.
— Tá boooomm, mamãe! — comemorou Sarah, com a boca suja de caldo, fazendo Jacob dar um risinho baixo.
— Sua mãe sempre foi boa nisso — comentou ele, o tom rouco e saudosista cortando o barulho dos talheres.
Olhei para ele de soslaio.
— Você pode tentar fingir que esse muro entre nós é inquebrável, Nessie — murmurou ele, a voz baixinha para que as crianças não prestassem atenção. — Mas nós dois sabemos que, no fundo, a única coisa que te impede de voltar pra mim é o seu orgulho.
Parei a colher no ar. Virei a cabeça devagar e encarei os olhos escuros dele, sentindo o sangue esquentar nas minhas veias.
— Orgulho? — repeti em um sussurro indignado. — Você acha que o motivo de eu ter saído daquela mansão foi orgulho, Jacob? Foi sobrevivência. Eu saí para não ser destruída pela sua paranoia, pela sua fúria e pelo veneno da sua família. Eu saí para dar uma vida normal para o Noah e para a Sarah.
— E você acha isso normal? — rebateu ele, apontando discretamente para a janela, onde a viatura dos seguranças dele podia ser vista no portão. — Você morando aqui, cheia de guardas meus na sua porta, estudando até tarde, sozinha? Você é a mulher do Don de Seattle, Renesmee. Seu lugar é do meu lado.
— Eu sou uma mulher livre, divorciada e terminando a minha faculdade na Universidade de Washington — decretei, sustentando o olhar dele com uma firmeza que o fez travar a mandíbula. — E a única razão pela qual aqueles homens estão no meu portão é porque você colocou como condição para a minha liberdade. Não confunda a sua necessidade de controle com o meu consentimento.
Jacob respirou fundo, os olhos queimando em mim com uma mistura de raiva contida e desejo frustrado. Ele sabia que não tinha mais o poder de me dobrar com gritos ou ameaças, como tentava fazer no passado.
— Papai, você não vai comer a sopa da mamãe? — perguntou Noah, interrompendo a tensão sufocante que se instalava na mesa.
Jacob piscou, desfazendo a expressão dura e olhando para o filho com um sorriso forçado.
— O papai já comeu mais cedo, amigão — respondeu ele, afagando os cabelos escuros do garoto. — Mas a sopa da mamãe de vocês é a melhor do mundo.
Fale com o autor