Filha da guerra

47 45. Câmeras de segurança • Jacob Black



23 de abril de 2001 — 05:30 AM

Passei a madrugada inteira trancado no subsolo, isolado no ar condicionado congelante da sala de câmeras. O cheiro de café queimado impregnava o cômodo enquanto o brilho dos monitores refletia no meu rosto. Eu não consegui pregar o olho. A dúvida, combinada com a paranoia que me consumia desde a conversa com Bella, fez com que eu mandasse o chefe da segurança buscar todo o arquivo de imagens desde o dia em que Renesmee pisou nesta mansão.

Recusei qualquer ajuda. Fiquei sozinho, avançando e voltando gravações em alta velocidade, acompanhando cada passo da minha esposa.

Assisti a dezenas de cenas cotidianas: Nessie caminhando devagar pelo jardim, conversando com Claire, Rosalie, Rachel, Rebecca, Emily... Em toda a casa, cuidando das coisas do bebê no quarto... E também vi a frieza nojenta da minha família contra ela. Vi minhas irmãs virando as costas quando ela passava, vi os olhares de desdém na sala de jantar e vi minha esposa engolindo a seco o desamparo, encolhendo-se na própria solitude.

Mas foram as imagens gravadas há meses que fizeram meu sangue congelar e ferver no mesmo segundo.

No monitor Nessie aparecia na cozinha de péssima iluminação, descalça e usando uma camisola clara, buscando um copo de água. Jared estava lá. A princípio, parecia uma conversa casual. Mas então o vídeo mostrou o que me fez perder completamente o chão.

Jared se aproximou demais. Ele segurou o braço de Renesmee de forma repentina, puxando-a para perto do seu corpo e tentando prensá-la contra o balcão de granito.

O desgraçado realmente tinha colocado as mãos na minha mulher. Ele avançou na esposa do seu chefe , no sangue da família... e Renesmee escondeu isso de mim. Ela não me deu uma palavra sequer. Preferiu guardar aquele segredo, convivendo e sorrindo para o agressor na mesma mesa, enquanto eu confiava a segurança da mansão àquele desgraçado.

A fúria que me tomou foi cega, devastadora e descontrolada.

Deixei a sala de câmeras a passos pesados, subindo os lances de escada como um predador ferido. O dia estava apenas amanhecendo, e a névoa acinzentada de Seattle começava a cortar as janelas do segundo andar.

Empurrei a porta da nossa suíte com um baque surdo, sem me importar com o barulho.

Renesmee estava profundamente adormecida, encolhida entre os lençóis de cetim, com a mão repousada suavemente sobre o seu ventre de seis meses. A imagem da sua paz só fez o fogo no meu peito queimar com mais violência.

Avancei até o lado da cama. Segurei o coberta e o puxei num tranco violento, jogando-o no chão, e segurei o braço dela com uma firmeza excessiva, chacoalhando-a para que acordasse imediatamente.

— Acorda, Renesmee! — ordenei, a voz ressoando alta, grave e gélida pelo quarto.

Nessie deu um salto na cama, soltando um arfado de pavor ao ser arrancada do sono. Ela me encarou com os olhos arregalados, piscando por causa da luz fraca do amanhecer, a mão voando instintivamente para proteger a barriga.

— Jake?... Meu Deus, o que aconteceu?! — gaguejou ela, a voz trêmula ao ver o meu rosto transtornado e a veia saltada no meu pescoço.

— O que aconteceu? — repeti, soltando o braço dela e dando um passo para trás, a mão tremendo de pura raiva enquanto encarava a mulher à minha frente. — Eu é que te pergunto! O que porra aconteceu entre você e o Jared?

— Jacob... do que você está falando? Não aconteceu nada demais naquela noite, foi só... — tentou gaguejar, a voz falhando enquanto ajeitava a camisola de forma vacilante.

— NÃO MINTA PRA MIM! — o meu urro ecoou pelas paredes do quarto como uma explosão, fazendo as vidraças tremerem. Avancei um passo, o corpo rígido, as mãos fechadas em punhos tão apertados que as articulações estalavam. — Eu vi nas câmeras! Eu vi o Jared avançando em você! Vi ele colocando as mãos em você, tentando te prender contra o balcão! E você escondeu isso de mim, Renesmee? Você guardou o segredo daquele nojento na minha própria casa?!

— Eu não escondi por mal! Por favor, me escuta! — ela suplicou, as lágrimas finalmente derramando pelo rosto. Ela ergueu as mãos em um gesto apaziguador, tentando contornar a tempestade. — Se eu te contasse, você teria matado o Jared! A família já está despedaçada por minha causa, Jacob! Se você matasse seu próprio sobrinho, a guerra entre os Black destruiria tudo! Eu só quis proteger todo mundo!

— Proteger?! — dei uma risada sádica e sem um pingo de humor, dando mais dois passos largos em direção à cama, encurralando-a. O ciúme descontrolado e a sensação de traição obliteravam qualquer traço de racionalidade em mim. — Você preferiu o silêncio com ele do que a verdade comigo! Quem garante que foi só aquilo? Hein?! Quem garante o que mais aconteceu enquanto eu estava fora limpando a sujeira desta merda de família?!

— Chega, Jacob! Para com isso! Você está louco! — gritou ela, a respiração descompensada ao me ver totalmente fora de si, cego pela fúria.

Ela percebeu que a conversa e os apelos não adiantariam. A raiva desmedida em meus olhos a apavorou a ponto do instinto de sobrevivência falar mais alto.

Quando fiz um movimento brusco para segurar o braço dela novamente, Renesmee se esticou num impulso desesperado em direção ao criado-mudo do meu lado da cama. Com extrema agilidade, principalmente para uma mulher grávida como ela, ela puxou a gaveta superior, enfiou a mão no fundo e tirou a minha arma — uma Colt .45 pesada e carregada.

Num piscar de olhos, ela destravou e apontou a pistola diretamente para o meu peito, segurando o cabo com as duas mãos trêmulas, mas firmes.

— DÁ UM PASSO PARA TRÁS! — ela gritou com toda a força que tinha no peito, a voz embargada pelo choro, mas carregada de uma determinação feroz. — FICA LONGE DE MIM, JACOB! DÁ UM PASSO PRA TRÁS AGORA!

Parei no meio do movimento. O metal frio do cano brilhava sob a luz fraca da manhã, apontado exatamente para o meu coração. A mulher dócil e acuada que eu assustei segundos atrás havia desaparecido; no lugar dela estava uma mãe desesperada e armada, disposta a defender a si mesma e ao filho que carregava no ventre.

— Renesmee... — rosnei entre os dentes, surpreso com a audácia dela, mas ainda tremendo de raiva. — Você tá apontando uma arma pro seu marido?

— EU NÃO VOU SER MAIS UMA VÍTIMA COMO A ROSALIE! EU NÃO VOU ESPERAR VOCÊ VIRAR O ROYCE!

— Eu nunca machucaria você! — suas palavras me fizeram voltar a mim, recuei imediatamente.

— Eu estou mandando você me escutar! — rebateu ela, sem abaixar o cano um milímetro sequer, as lágrimas correndo sem parar, mas o olhar fixado no meu sem recuar. — Você não vai surtar comigo, você não vai me acusar de coisas nojentas e não vai encostar um dedo em mim! Agora me escuta de verdade, ou eu juro por Deus que não respondo por mim!

O silêncio tenso e pesado caiu sobre o quarto, quebrado apenas pela nossa respiração descontrolada e pelo clique sutil da arma engatilhada entre nós.

A arma continuava firme, apontada diretamente para o centro do meu peito. Os braços de Renesmee tremiam pela força do impacto emocional, mas os olhos dela — vermelhos, marejados e inflamados de dor — não vacilavam um milímetro sequer.

Recuei meio passo. Não por medo do aço na mão dela, mas pelo choque de ver a mulher que eu amava me encarando como se eu fosse o maior inimigo que ela já enfrentou.

— Abaixa isso, Nessie... — murmurei, a voz rasgada e rouca, tentando manter o controle sobre o incêndio que ainda queimava sob a minha pele.

— Você vai me ouvir primeiro! — gritou ela, a voz embargada cortando o ar frio do quarto. — O Jared deu em cima de mim, sim! Aconteceu meses atrás, naquela noite na cozinha. Ele me encurralou , tentou me agarrar e agiu como um idiota! Mas depois ele me procurou, Jacob! Ele me pediu desculpas, disse que tinha sido uma loucura, um surto por conta do alcool e que aquilo nunca, jamais deveria ter acontecido!

Minha mandíbula travou com tanta força que senti os dentes estalarem. O rosnado entalou na minha garganta, mas o olhar dela me manteve estático no lugar.

— Ele queria vir conversar com você! O Jared queria contar a verdade no mesmo dia! — continuou Nessie, o peito subindo e descendo descontroladamente sobre a curva da barriga de seis meses. — Fui EU quem não deixou! Eu proibi ele de abrir a boca!

— Por que porra você faria isso, Renesmee?! — vociferei, abrindo os braços num gesto de pura indignação. — Você acobertou uma falta de respeito!

— PORQUE EU FIQUEI COM MEDO DA SUA REAÇÃO, CARALHO! — o grito dela rasgou o silêncio da suíte, carregado de uma angústia reprimida por meses. — Eu me lembro de como o seu pai era! Eu lembro de como o Capo Billy castigou você com chicotadas na frente da cúpula inteira só por ter chegado bêbado em casa! Eu achei que, se você soubesse do Jared, o castigo dele seria dez vezes pior! Você ia matar o seu próprio sobrinho na frente da sua família!

Um silêncio pesado e sufocante caiu entre nós. As lembranças das punições brutais de meu pai ainda deixavam cicatrizes nas minhas costas, e ouvir aquilo da boca dela fez meu estômago dar um nó.

— E não era só por você ou pelo Jared! — a voz dela diminuiu de tom, mas ganhou um peso esmagador. — Eu fiquei apavorada com a retaliação da Rebecca! Naquela época, a Rosalie ainda estava aqui, sob a sua proteção aqui na mansão. Se a sua irmã descobrisse que o filho dela foi punido ou morto por minha causa, ela teria destruído a Rosalie! Ela teria feito da nossa vida um inferno ainda maior do que já é!

Nessie engoliu em seco, secando uma lágrima com as costas da mão, sem jamais desviar o cano da pistola de mim.

— Depois que o seu pai morreu... tudo mudou — disse ela, a voz baixinha, carregada de uma triste constatação. — A família inteira passou a me culpar pela morte do Billy. A Rebecca e a Rachel me olham todos os dias como se eu fosse um verme. Mas o Jared... o Jared fez um esforço gigantesco para não me odiar, Jacob. Ele engoliu o rancor, superou aquela estupidez da cozinha e o máximo de sentimento bom que ele consegue ter por mim hoje é o respeito. O respeito pela esposa do tio dele! É só isso!

Minha respiração, antes descontrolada e violenta, começou a desacelerar aos poucos. A névoa cega da paranoia plantada pelas palavras venenosas de Bella começou a se dissipar, dando lugar à realidade cruel que eu mesmo tinha ajudado a construir ao redor da minha mulher: um ambiente de medo, segredos e sobrevivência.

Olhei para a arma na mão dela, depois para o seu rosto banhado em lágrimas e, por fim, para a curva proeminente do seu ventre, onde meus filhos repousavam.

— Nessie... — dei um passo lento para a frente, estendendo a mão aberta, sem violência. — Abaixa a arma. Por favor.

Renesmee sustentou meu olhar por mais alguns segundos, a arma ainda firme e apontada entre nós. O tremor nos braços dela era visível, mas a decisão no seu rosto era irremovível. Quando dei mais um passo em sua direção com a mão estendida, o clique da pistola sendo ajustado com mais força fez o som ecoar feito um estalo seco pelo quarto.

— Não dá mais nenhum passo — disse ela, a voz baixinha, mas fria como o aço da arma. — Não chega perto de mim.

— Nessie, me escuta... — tentei pedir, sentindo o nó na minha garganta apertar pela primeira vez na vida. A raiva que antes me dominava tinha evaporado, dando lugar a uma sensação amarga e sufocante de estrago.

— Não, Jacob. Quem falou e gritou foi você — cortou ela, as lágrimas ainda descendo quentes pelas bochechas, mas sem abalar a firmeza da sua postura. — Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra. Não quero explicações, não quero pedidos de desculpas e não quero você perto de mim ou dos meus filhos hoje.

Ela deu um passo para o lado sem desviar a mira, abrindo passagem e apontando a pistola na direção da porta de saída da suíte.

— Sai do quarto. Agora.

— Renesmee, essa é a nossa suíte, nós precisamos resolver isso...

— SAI, JACOB! — o grito rasgou a garganta dela com tanta dor e desespero que o meu peito afundou. O cano da arma tremeu com a intensidade do solavanco. — Sai daqui antes que eu cometa uma loucura! Me deixa em paz!

Parei no meio do caminho. Olhei para o rosto da minha esposa, para o peito dela subindo e descendo descontroladamente sobre a barriga de seis meses e percebi que não havia mais espaço para o Don ali dentro. Qualquer insistência só machucaria ainda mais a mulher que eu devia proteger.

Ergui as duas mãos em um gesto de rendição, dando passos lentos para trás sem tirar os olhos dela.

— Eu tô saindo — murmurei, a voz rasgada. — Tô saindo... mas a gente vai conversar mais tarde.

— Não vai — respondeu ela, gélida.

Recuei até cruzar o batente da porta. No segundo em que meus pés pisaram no corredor, Renesmee avançou e bateu a porta de madeira pesada com tanta força que o baque reverberou por todo o segundo andar da mansão.

Ouvi o som seco da tranca girando por dentro e, logo em seguida, o estalo da chave. Segundos depois, abafado pela madeira, veio o choro compulsivo e doloroso dela, que desabou do outro lado.