Filha da guerra
44 42. Apelo emocional • Renesmee Black
— 02:00 PM
O ar no andar de baixo estava tão denso que parecia quase impossível de respirar. A notícia não demorou a chegar até mim; o silêncio tenso que tomou a casa desde o amanhecer, combinado com os sussurros apreensivos pelos corredores, acabou entregando a tragédia. Charlie Swan estava morto. E Bella, ferida e sozinha.
Embora eu nunca tenha tido convivência com Bella — fomos criadas em mundos completamente distantes e sem qualquer laço afetivo real —, saber que ela havia acabado de ver o próprio pai ser chacinado na rodovia fazia meu peito apertar com um peso doloroso. Eu não fui criada na frieza do submundo; não conseguia enxergar aquela tragédia apenas como uma perda de território . Para mim, tratava-se de uma filha que perdeu o pai de forma devastadora.
Quando ouvi o barulho dos passos pesados de Jacob no hall de entrada, me levantei devagar do sofá. Minhas mãos repousavam instintivamente sobre a curva da minha barriga de seis meses, buscando equilíbrio na gravidez avançada dos gêmeos.
Jacob passou pelo arco da sala com a expressão sombria, a gola da camisa entreaberta e os punhos da jaqueta de couro manchados de exaustão. Mas ele não estava sozinho. No ambiente já estavam reunidas suas irmãs, Rachel e Rebecca, além de Emily e da jovem Claire. Todas em silêncio, como estátuas de guarda.
— Nessie... — Jacob parou no meio do cômodo assim que me viu de pé, os olhos escuros brilhando com uma mistura instantânea de preocupação e culpa. Ele caminhou na minha direção, o tom de voz descendo para aquela doçura contida que usava apenas comigo. — Você não devia estar de pé. O que aconteceu?
— Eu já sei, Jake — murmurei, a voz embargada, mantendo o olhar cravado no dele. — Sei o que aconteceu na estrada... Sei do Charlie. E sei da Bella.
Jacob travou por uma fração de segundo, os maxilares endurecendo. Ele lançou um olhar gélido para as irmãs e para os cantos da sala, tentando identificar quem havia quebrado a ordem de silêncio, mas logo voltou toda a atenção para mim, aproximando-se e envolvendo meus ombros com a palma grande e quente.
— É uma guerra lá fora, Nessie. Mas meus homens já estão cuidando de tudo — disse ele, a voz firme — Você não precisa se preocupar com isso.
— Eu quero ver a Bella, Jacob — pedi, encarando-o nos olhos, desarmando sua postura dura com a minha insistência simples. — Ela é minha meia-irmã. Nós não temos história juntas, eu sei, mas ela acabou de perder o pai... Ninguém deveria passar por isso sozinha. Por favor, me leva até ela.
Um murmúrio abafado veio do canto da sala. Rebecca soltou um suspiro audível de desdém, trocando um olhar cúmplice com Rachel, enquanto Emily e Claire permaneciam em silêncio, observando a cena.
— Ver a Bella? — Rachel deu um passo à frente, os braços cruzados sobre o peito, a voz carregada daquela antipatia velada de sempre. — Jacob, você não pode estar considerando isso. A garota Swan é da cúpula de Seattle, uma garota da máfia que só atrai problemas. A Renesmee não tem nada que se meter no meio disso agora
— Rachel, cala a boca — rosnou Jacob, sem sequer se virar para a irmã, a aura de Don fazendo o ar da sala pesar no mesmo instante.
— Ela está certa, Jacob — interveio Rebecca, mantendo a postura fria. — A sua esposa devia focar na gravidez dos seus filhos em vez de sentimentalismos com a família do Charlie.
— Eu disse para vocês ficarem quietas! — o brado de Jacob cortou a sala como um tiro, fazendo as duas irmãs darem um passo atrás e se calarem na hora.
Jacob voltou a olhar para mim. Ele ergueu a mão grande e acariciou a minha bochecha com um cuidado extremo, os olhos transbordando um conflito profundo.
— Nessie... a Bella não é como você — disse ele, a voz baixa e rouca, tentando me proteger sem me desrespeitar. — Ela foi criada no meio disso tudo. A mente dela funciona de outro jeito, o mundo dela é outro.
— Eu sei que ela é diferente de mim, Jacob — insisti, segurando o pulso dele e mantendo a mão dele colada ao meu rosto. — Mas ela é o único pedaço de família da minha mãe biológica que sobrou. Me deixa ir até ela agora. Por favor.
Jacob fechou os olhos por um segundo, soltando um suspiro pesado que demonstrou toda a sua rendição. Diante de mim, a tirania do Don de Seattle simplesmente desmoronava.
— Tudo bem — cedeu ele, selando um beijo demorado na minha testa. — Eu te levo. Mas você não sai do meu lado por um segundo sequer.
— 03:30 PM
Seattle — Clínica da Família Black — Quarto Privativo
O ar condicionado da clínica soprava um vento gelado que fazia minha pele arrepiar sob o casaco pesado. Jacob manteve a mão firme na curva da minha cintura durante todo o percurso pelos corredores de concreto, o corpo tenso como uma mola prestes a explodir. Quando ele empurrou a porta pesada de metal do quarto, o som estridente da dobradiça fez a mulher na maca se virar num tranco.
Bella estava reclinada contra os travesseiros, o braço imobilizado por uma tipoia e a bochecha marcada por um hematoma arroxeado. Quando os olhos castanhos dela se cravaram em nós dois — mais especificamente na mão de Jacob espalmada com extrema proteção sobre o meu ventre de seis meses —, uma faísca de choque e incredulidade atravessou seu rosto.
— O que é isso? — a voz de Bella saiu ríspida, o olhar oscilando entre a minha presença ali e a postura rígida de Jacob. — Por que você trouxe ela até aqui, Jacob?
A frieza no tom dela me atingiu como um banho de água fria, mas tentei me apegar ao fato de que ela tinha acabado de passar por um trauma devastador. Dei um passo à frente, soltando-me suavemente do aperto de Jacob, embora ele tenha permanecido colado à minha sombra.
— Eu vim ver como você está, Bella — disse, com a voz embargada pela empatia. — Eu sei o que aconteceu na estrada... Sei do seu pai. Eu sinto muito, de verdade. Ninguém deveria perder a família de uma forma tão terrível.
Bella piscou devagar, o sobressalto inicial dando lugar a um cálculo rápido e visível por trás dos seus olhos. Ela avaliou a minha expressão — a preocupação genuína, o olhar sem malícia de quem não conhecia as cobras do submundo — e, num piscar de olhos, sua postura endureceu para se transformar numa fragilidade.
— O Charlie... ele se foi, Renesmee — disse Bella, a voz de repente vacilante, a garganta parecendo arranhar num soluço. Ela baixou o queixo, deixando uma lágrima solta escorrer pela bochecha ferida. — Eles destruíram tudo. Mataram meu pai e me deixaram sozinha nesse lugar frio, cercada de homens armados... Eu não tenho para onde ir. Não tenho ninguém.
O meu peito se comprimiu de dor ao ouvi-la.
— Chega de teatro, Bella — a voz de Jacob cortou o ar, cortante como um bisturi. Ele deu um passo à frente, me puxando sutilmente para trás do seu tronco largo. Os olhos dele queimavam numa fúria velada — Você sabe muito bem que a clínica é o lugar mais seguro para você até o casamento já acertado. Eu mesmo cuidarei disso pessoalmente, irei garantir que o acordo que Charlie iniciou se finalize, e você logo será Bella Cullen
— Jacob, por favor... — interrompi, tocando o braço dele. Olhei para ela, vendo apenas a minha meia-irmã desamparada num leito de hospital. — Ela não pode ficar aqui sozinha, ferida e correndo risco. É a minha irmã. A mansão é enorme, tem médicos, tem segurança... Ela precisa se recuperar em um lugar de verdade.
— Nessie, não — decretou Jacob, a voz baixa e perigosa, o tom exalando o desespero de quem tentava afastar o perigo da própria casa. — Ela não vai para a nossa casa. Isso está fora de questão.
Ela soltou um gemido fraco de dor, ajustando o ombro enfaixado e olhando diretamente para mim com os olhos marejados:
— Eu só queria um teto seguro para chorar o meu pai, Renesmee... Mas se o seu marido acha que eu sou um incomodo tão grande assim, eu fico aqui. Deixa os Volturi me acharem e terminarem logo o serviço.
— Ela não vai ficar aqui, Jacob — afirmei, erguendo o rosto para encarar o meu marido, a minha teimosia batendo de frente com a autoridade dele pela primeira vez em semanas. — Se você me ama, se você se importa com a minha paz de espírito, não vai deixar a minha irmã abandonada nesse momento. Por favor. Leva ela para a mansão.
Jacob travou a mandíbula com tanta força que os músculos do seu pescoço saltaram. Os olhos escuros dele foram de mim para Bella, e ele percebeu que havia perdido a batalha. Ele jamais negaria um pedido meu feito daquele jeito.
— Uma semana — rosnou Jacob, a aura de Don pesando no quarto a ponto de faltar ar. — Ela fica até os pontos fecharem. Nem um dia a mais.
Ele se virou para a porta, batendo no batente de ferro para chamar os guardas do lado de fora.
— Sam! Prepara o carro blindado. A Swan vai para a mansão.
Fale com o autor