Filha da guerra
43 41. Cunhada • Jacob Black
20 de abril de 2001 — 09:15 AM; Mansão Black — Escritório Principal
Um mês se passou desde que baixei as armas com a Nessie, e o clima na mansão continua equilibrado sobre uma trégua tensa. Minhas irmãs, continuam sem engolir a presença dela. O desdém no olhar das quatro é nítido a cada refeição, mas elas mantêm a boca fechada e uma distância rigorosa. Não por afeição, mas pelo medo explícito da minha fúria e pelo respeito à barriga de seis meses que a Nessie carrega, proeminente, pesada e evidente com a gestação dos nossos gêmeos.
Eu estava trancado no meu escritório desde o amanhecer, cercado por rotas de carregamento, contabilidade do cartaz e relatórios do clã espalhados pela mesa de imbuia.
A porta dupla de carvalho foi aberta sem o bater de praxe. Ergui os olhos, pronto para soltar os cães contra a audácia, mas travei ao ver a cara do Sam. Ele passou pelo batente com a expressão mais soturna que já vi na vida. Atrás dele, Paul vinha com os olhos fixos no chão e os punhos cerrados ao lado do corpo, queimando numa tensão que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem no mesmo segundo.
— O que foi? — perguntei, a caneta-tinteiro pausada no meio de uma assinatura. — Se for outra disputa de território da guarda na fronteira sul de Seattle, resolvam sem me encher o saco.
— Não é território, Jacob — a voz de Sam saiu pesada, grave como o som de uma pá jogando terra sobre um caixão.
Soltei a caneta sobre a madeira. O tom dele fez meu sangue congelar de imediato
— Fala de uma vez, caralho.
— Nosso batedor enviou a confirmação de Forks há vinte minutos — disse Sam, engolindo em seco antes de disparar o projétil na minha mesa. — O carro do Charlie Swan foi interceptado na rodovia de saída da cidade, durante a madrugada. Ele estava na estrada com a Bella.
O ar sumiu dos meus pulmões num golpe só. Fiquei de pé num tranco, empurrando a cadeira de couro com tanta força que ela colidiu contra a parede do fundo num baque seco.
— Quem fez a merda dessa vez? — rosnei, a voz descendo uma oitava, carregada de toda a brutalidade que me mantinha no topo da máfia desta cidade.
— Uma patrulha de execução dos Volturi — respondeu Paul, o ódio fazendo a voz dele tremer. — O comboio dos vermes Italianos pegou o carro deles em movimento. Foi uma emboscada pesada... O velho Charlie levou três tiros no peito. Não resistiu aos ferimentos e faleceu no local, antes do resgate chegar.
O impacto da notícia me atingiu em cheio no peito, fazendo minhas mãos espalmadas na mesa travarem até os nós dos dedos ficarem completamente brancos.
Charlie Swan estava morto. O homem que eu vinha mantendo vivo às escondidas para não estraçalhar o resto da sanidade da Nessie fora chacinado pelos fuzis de Volterra.
— E a Bella? — perguntei, o tom perigosamente baixo.
Uma gota de suor frio escorreu pela minha nuca. A lembrança do passado voltou como um fantasma inconveniente. Anos atrás, antes de eu assumir o comando definitivo e tomar Renesmee para mim, Bella e eu tivemos um caso denso em segredo e terminado antes que virasse guerra. Ela era filha de Renée com Charlie; Renesmee era filha de Renée com Carlisle. As duas eram irmãs por parte de mãe, mas criadas em mundos tão distantes que nunca tiveram um contato real, quase duas estranhas compartilhando o mesmo sangue.
— A Swan tomou estilhaços e uma bala de raspão no ombro, mas não parou de lutar — explicou Sam, cruzando os braços no peito. — Os homens do nosso destacamento secreto que vigiavam o velho ouviram o tiroteio e intervieram a tempo. Houve troca de tiro cruzado pesado. Conseguiram balear dois soldados dos Volturi e resgatar a Bella viva. Ela perdeu muito sangue, mas já está sob custódia e cuidados médicos na nossa clínica no centro.
Passei a mão pesada pelo rosto, sentindo o peito arfar de fúria e complicação. Bella estava viva, sangrando numa maca sob o meu teto. Charlie estava num necrotério. Os Volturi haviam cruzado a mais uma linha do meu estado.
Ergui o rosto e olhei fixamente para o teto de gesso. No andar de cima, a minha mulher grávida dormia tranquila no nosso quarto, sem fazer a menor ideia de que a irmã que ela mal conhecia estava ferida sob meus cuidados.
— 10:30 AM ; Seattle — Clínica Clandestina da Família Black — Centro
Deixei a mansão sob a guarda reforçada de Sam e Paul, ordenando que nenhum deles deixasse escapar uma única palavra sobre a emboscada na rodovia. Como o Don incontestável do submundo de Seattle, a minha obrigação era manter o controle absoluto antes que a cidade inteira entrasse em combustão. O trajeto até o centro foi um borrão de alta velocidade, a fúria e o cálculo político disputando cada espaço da minha mente.
A clínica clandestina funcionava no subsolo de uma oficina mecânica de fachada. O cheiro de graxa e gasolina da superfície dava lugar ao odor penetrante de antisséptico, anestésico e sangue fresco assim que desci as escadas de concreto.
O médico particular do clã me esperava na porta do leito privativo, ajustando as luvas cobertas de manchas vermelhas.
— Ela perdeu muito sangue, Don Jacob — disse ele, a voz baixa. — Tivemos que retirar cacos de vidro do ombro e fechar um ferimento de raspão na costela. Mas a garota tem o sangue frio dos Swan. Já acordou e está estável.
Apenas assenti com a cabeça e empurrei a porta de metal.
O quarto era pequeno, iluminado por uma lâmpada fluorescente que zumbia no teto. Deitada na maca, vestindo um avental hospitalar verde e com o braço esquerdo imobilizado por uma tipoia, estava Bella. O rosto pálido trazia escoriações na bochecha, mas os olhos castanhos queimavam com uma fúria perigosa, desprovida de qualquer fragilidade.
— Jacob... — a voz dela saiu rasgada, ríspida e carregada de adrenalina.
Caminhei a passos lentos até a beira da cama, parando com as mãos nos bolsos da calça. A visão dela ali, ferida e armada de ódio, trouxe à tona o fantasma de anos atrás. Antes do acordo histórico em que Charlie me ajudou a ter o controle total de Seattle e me consolidou como Don.
— Como você tá? — perguntei, o tom grave e sem floreios.
— Desgraçados... — Bella cuspiu a palavra, tentando se sentar na maca a custo, ignorando a fisgada no ombro ferido. — Os Volturi pegaram o nosso comboio de surpresa na saída da cidade. O Charlie lutou até a última bala, Jacob. Descarregou dois pentes antes daqueles italianos de merda levarem ele.
— Eu sei — respondi, a mandíbula travada. — Meus homens resgataram você no meio do fogo cruzado e abateram dois soldados deles. O Charlie morreu como o chefe respeitado que sempre foi, defendendo o império que me ajudou a construir.
Bella cravou os olhos nos meus, a respiração curta e ruidosa. Não havia lágrimas ali; havia o cálculo sangrento de uma mulher criada na alta cúpula da máfia.
— Eu quero a cabeça do desgraçado que puxou o gatilho — declarou ela, a voz trêmula de puro ódio. — Não me interessa a diplomacia dos clãs. Eles invadiram o seu território, mataram o homem que dividiu Seattle com você e tentaram me matar. Você é o Don desta porra de cidade, Jacob. Vai deixar a máfia italiana cuspir na sua cara?
— Abaixa o tom, Bella — ordenei, dando um passo à frente e me inclinando sobre a grade da maca, a aura de autoridade fazendo o ar do quarto pesar. — Você não vai agir no impulso. Se eu avançar sem estratégia, coloco todo o nosso império em risco.
Bella sustentou o meu olhar com a mesma audácia perigosa do passado. Ela esticou a mão boa e segurou a minha fivela de couro, puxando-me de leve para mais perto, os olhos queimando numa mistura de veneno e sedução.
— Não faz isso por política, faz por nós — sussurrou ela, a voz descendo uma oitava, carregada de uma provocação explícita. — Lembra do que a gente construiu juntas nessas ruas? Do sangue que a gente derramou lado a lado? Você sabe do que eu sou capaz ao seu lado, Jacob... Vinga o meu pai. Acaba com os Volturi em meu nome, e você sabe muito bem que pode ter de volta tudo o que tínhamos antes. Se você quiser, eu sou sua de novo.
Soltei um riso seco e sem humor, puxando a minha cintura para trás e arrancando a mão de Bella da minha fivela de um tranco só.
— Você só pode estar de brincadeira com a minha cara — respondi, o tom carregado de um desprezo frio que fez o sorriso provocante dela vacilar. — Você acha mesmo que eu vou entrar numa guerra às cegas por causa de uma fantasia antiga? Eu sou um homem casado, Bella. Esqueceu que a minha esposa é a sua própria irmã?
Bella soltou uma gargalhada curta e debochada, reclinando-se contra os travesseiros com um meneio de cabeça indignado.
— A garotinha? Por favor, Jacob — desdenhou ela, torcendo os lábios com puro veneno. — Aquela menina mimada não tem a menor ideia do que é o submundo. Ela não combina em nada com você, não sabe o que é segurar uma arma, não sabe o peso que é comandar uma cidade. Ela é só uma sombra sem graça que você trancou numa mansão.
A fúria começou a subir pelo meu pescoço como uma onda de fogo. Dei um passo à frente, espalmando a mão na grade da maca e me projetando sobre ela, a sombra da minha estatura cobrindo o corpo ferido de Bella por completo.
— Mede a porra da sua língua para falar da minha mulher — rosnei, a voz tão baixa e gutural que fez o zumbido da lâmpada do teto parecer sumir. — A Renesmee é dez vezes mais mulher do que você jamais vai ser. E tem mais um detalhe que a sua arrogância parece ter esquecido: ela está grávida dos meus filhos. Os herdeiros do clã Black estão no ventre dela.
Bella nem piscou. Manteve os olhos cravados nos meus, com a insensibilidade fria que a máfia cravou na sua alma, e deu de ombros com total desdém:
— Crianças? Crianças se criam com babás e preceptores, Jacob. Isso nunca foi obstáculo para homem nenhum no nosso meio...
— Chega! — o berrado cortou o ar como um tiro de doze.
Acertei um soco violento na estrutura de metal da maca, fazendo o ferro estalar alto e a cama inteira chacoalhar. Bella deu um salto na maca, soltando um ganido de dor ao impactar o ombro baleado, a palidez do choque finalmente atingindo o seu rosto ao ver o monstro que ela tinha acabado de despertar.
Aproximei meu rosto do dela até ficarmos a milímetros de distância. Meus olhos estavam escuros de pura tirania.
— Você perdeu completamente a noção de onde está e com quem está falando — disse, cada palavra saindo mastigada e mortal. — Você não é minha parceira, não é minha amante e não apita nada no meu império. Você é apenas a filha do meu falecido sócio, e a sua existência aqui virou um problema que eu vou resolver agora.
Respirei fundo, ajeitando a gola da minha jaqueta com uma calmaria assustadora.
— Você vai sair dessa maca, vai fechar esses pontos e vai se casar com o Edward Cullen. O acordo de aliança com o clã dos Cullen já estava na mesa e agora vai ser selado com você.
Os olhos de Bella se arregalaram em horror absoluto.
— O quê? Ficou louco? Eu não vou me casar com aquele...
— Você vai se casar com o Cullen o mais depressa possível — decretei, a voz cortante como uma lâmina. — Vai assinar a transferência das terras do seu pai para mim, vai botar um vestido branco e vai sumir de Seattle antes que a poeira desta guerra baixe.
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