Filha da guerra

41 39. Só uma noite • Jacob Black



A porta pesada se fechou com um baque seco, abafando quase por completo o salão principal. O silêncio que se instalou no camarote VIP era denso, cortado apenas pelo zumbido distante e pelo estalo sutil das pedras de gelo derretendo no meu copo. A luz indireta, num tom vermelho-fechado, desenhava sombras compridas pelo sofá de couro negro.

Continuei largado ali, com as costas apoiadas no estofado e as pernas abertas, o peito subindo e descendo num ritmo pesado. Eu não fiz um único movimento para afastar as duas. O álcool deixava meu sangue quente, e a raiva contida no meu peito era um peso físico, quase insuportável.

A garota da direita foi a primeira a se mover. Ela se inclinou, o perfume doce e denso invadindo minhas narinas enquanto os dedos macios dela buscavam a abertura da minha camisa social. As unhas pintadas de escuro arranharam sutilmente a pele do meu peitoral, descendo com uma calmaria treinada pela firmeza do meu abdômen. A respiração dela vinha curta, quente contra a lateral do meu pescoço, mas sem a audácia de buscar meu rosto ou meus lábios, ela sabia exatamente a linha que não devia cruzar com o chefe do clã.

A outra garota subiu no meu colo com mais decisão. O peso do corpo dela assentou-se sobre as minhas coxas, o tecido fino do vestido colado roçando contra o jeans pesado da minha calça. Ela me encarou por um segundo, os olhos semicerrados na penumbra, antes de apoiar uma das mãos no meu ombro largo e usar a outra para deslizar devagar pelo meu quadril. O movimento do corpo dela sobre mim era cadenciado, um atrito lento e calculado que buscou, por puro instinto físico, a rigidez que o meu corpo não conseguia esconder.

Eu fechei os olhos e soltei o ar devagar pela boca, deixando que aquela sobrecarga sensorial me atingisse. A sensação era crua e puramente física. O calor de duas peles estranhas me prensando, a pressão das unhas na minha nuca, o peso e o ritmo cadenciado do colo que se movia contra mim. Era o tipo de distração anestésica que qualquer homem na minha posição usaria para descarregar o estresse de meses inteiros de guerra.

E, ainda assim, eu era como uma estátua de gelo por dentro.

Minhas mãos continuavam caídas e imóveis sobre os braços do sofá, os dedos espalmados no couro frio. Eu não as segurei pela cintura. Não apertei a carne de nenhuma delas, não inclinei o corpo para frente e nem guiei o ritmo daquela atração. O meu corpo respondia ao estímulo tátil com a reação inevitável da carne, mas a minha mente permaneceu distante, totalmente desconectada do que acontecia naquele camarote.

Por mais que o toque delas fosse provocante e o ambiente convidasse ao excesso, a verdade crua é que nenhuma daquelas carícias conseguia preencher a lacuna que me corroía. Quanto mais a garota no meu colo acelerava a pressão e o perfume sintético impregnava o ar, mais a imagem de um quarto silencioso na mansão — e da mulher que dormia nele — voltava para me assombrar.

O atrito constante começou a exigir mais do meu corpo do que eu estava disposto a entregar.

A garota no meu colo, encorajada pela minha falta de reação, deslizou a mão por baixo do meu cinto. Ouvi o estalo metálico da fivela se abrindo, seguido pelo barulho seco do zíper da minha calça sendo puxado para baixo. Quando os dedos macios e gelados dela passaram por cima do tecido da minha cueca, buscando o contato direto com a minha pele, um choque de rejeição pura e visceral percorreu a minha espinha.

Não foi um pensamento calculado. Foi um reflexo de repulsa.

Segurei o pulso dela com tanta força que vi a garota prender a respiração, os olhos arregalados de susto na penumbra vermelha do camarote. Com a outra mão, empurrei a morena da minha direita pelo ombro, afastando as duas de mim num tranco só.

— Chega — rosnei, a voz saindo tão grave e cortante que o ambiente pareceu congelar. — Vazem. As duas. Agora.

Elas não pediram explicações. O medo de contradizer falou mais alto. Ajeitaram as roupas às pressas, pegaram as bolsas sobre a mesa e praticamente correram pela porta, sem olhar para trás.

Fiquei sozinho no camarote por alguns segundos, arfando pesado enquanto fechei o zíper da calça e afivelei o cinto com as mãos trêmulas de raiva. Fechei os botões da camisa de qualquer jeito, passei a mão pelo rosto para afastar o suor e saí do camarote sem falar com ninguém. Passei por Sam, Paul e pelos seguranças na porta sem encarar nenhum deles. Entrei na minha SUV preta e pisei fundo no acelerador, cortando as ruas desertas de Seattle em alta velocidade rumo à mansão.


02:15 AM


Mansão Black — Quarto Principal


A casa estava em absoluto silêncio quando atravessei o hall de entrada. Subi as escadas a passos largos, mas extremamente silenciosos, empurrando a porta do meu quarto com cuidado.

A primeira coisa que me atingiu, antes mesmo de ver o ambiente, foi o cheiro barato e enjoativo de perfume de boate impregnado na minha camisa, colado à minha pele. A repulsa subiu pela minha garganta. Desviei os olhos da cama e caminhei direto para o banheiro.

Liguei o chuveiro na temperatura mais fria que consegui suportar. Arranquei a camisa, a calça e a cueca, jogando tudo direto no cesto do banheiro. Sob o jacto de água gélida, esfreguei a pele com força, usando o sabonete até ver a pele do peitoral e dos ombros ficar vermelha, arrancando cada vestígio, cada vestígio invisível daquele perfume e dos toques de há pouco.

Quando saí, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, o ar do meu peito parecia um pouco mais leve.

Aqueceu meu peito a vontade avassaladora de me deitar ao lado dela, de puxá-la para o meu peito e me afundar no cheiro doce e limpo de lavanda que saía dos cabelos dela. O desejo de me conectar com a mãe dos meus filhos era como um imã me puxando para o colchão.

Caminhei devagar até a cama king-size. A luz fraca do abajur de canto iluminava o contorno de Renesmee, encolhida entre os edredons pesados, dormindo de lado por conta da elevação arredondada da barriga de quatro meses. A visão dela acelerou meu peito de um jeito que nenhuma mulher no mundo jamais conseguiria.

Não resisti. A necessidade doentia e crua de me conectar com a mãe dos meus filhos falou mais alto do que qualquer orgulho ou hesitação.

Afastei o edredom com extremo cuidado e me deitei ao lado dela. O calor do corpo de Renesmee me envolveu no mesmo instante. Com a maior delicadeza de que minhas mãos brutas eram capazes, deslizei o braço por baixo do pescoço dela e puxei seu corpo devagar contra o meu peitoral, sentindo a curva da barriga tocar a minha cintura.

Colei meus lábios na pele macia da nuca dela, depositando ali um beijo longo e faminto. Minha mão grande espalmou-se sobre a sua barriga, subindo em carícias lentas pelo tecido fino do pijama até alcançar a curva da sua cintura.

— Nessie... — murmurei contra a sua pele, a voz rouca, embargada e carregada de uma vulnerabilidade que me rasgava por dentro.

Renesmee soltou um suspiro pequeno, despertando aos poucos do sono profundo. Ela se mexeu de leve no meu abraço, assustada pelo toque repentino e pelo calor intenso do meu corpo.

Antes que ela pudesse se afastar ou erguer as barreiras de sempre, virei seu rosto com leveza pela linha do queixo e pousei meus lábios nos dela. Foi um beijo profundo, desesperado, mas de uma doçura contida que pedia abrigo. Deslizei a língua com calma, provando o gosto dela, sentindo a respiração dela travar contra a minha boca.

O silêncio do quarto parecia amplificar cada batida desgovernada do meu peito.

Renesmee piscou devagar, os olhos claros e meio enevoados pelo sono tentando entender a penumbra e a intensidade do meu corpo prensado contra o dela. O calor do banho gélido já tinha dado lugar ao fogo ardente que me queimava por dentro, mas fiz de tudo para manter meus movimentos contidos. Sentia o cheiro limpo de lavanda nos cabelos dela e a incerteza que me corroía a alma: a simples possibilidade de ver o pavor na sua cara me destruiria.

Ela sentiu a respiração pesada que eu tentava segurar. A minha mão, espalmada na curva macia da sua cintura, tremia levemente, um sinal de fraqueza que eu jamais deixaria qualquer homem do meu clã presenciar, mas que ali, diante dela, era impossível de esconder.

— Jacob... — a voz dela saiu num fio fraco, rouca e roubada pelo sono.

— Eu sei... eu sei que não tenho o direito de pedir porra nenhuma — interrompi num murmúrio rápido, sem afastar minha testa da dela, os olhos cravados nos seus. — Eu sei do inferno que criei, do quanto estraguei tudo entre nós... Mas eu tô enlouquecendo, Nessie. Eu só preciso de você. Por favor.

Subi a mão com uma lentidão torturante pelas costas dela. Meus dedos se cravaram no tecido macio do seu pijama, puxando o corpo dela milímetro a milímetro, com um cuidado absoluto para não pressionar a elevação arredondada da sua barriga contra o meu quadril.

Ela me encarou em silêncio. Aqueles poucos segundos pareceram uma eternidade onde o meu destino estava sendo julgado. Eu conseguia ver as lembranças do dia passando pelo seu olhar: a nossa manhã no consultório ouvindo os corações dos nossos filhos, a fúria no shopping, e agora aquele desespero cru exposto na cama.

Então, sem quebrar o contato dos nossos olhos, Renesmee ergueu a mão trêmula e tocou o meu rosto. Os dedos macios dela pousaram na minha bochecha, sentindo a áspero da minha barba por fazer.

Aquele toque simples me fez travar a respiração. Parecia que todo o ar do meu peito tinha sido arrancado de uma vez.

— Cuidado com a barriga... — sussurrou ela.

As palavras dela caíram como uma bênção no meio do meu caos. Um aceite implícito que fez o meu sangue ferver e a minha alma se acalmar no mesmo segundo.

— Eu nunca machucaria você... nem eles — prometi, a voz falhando e embargada. — Eu te amo, Nessie.