Filha da guerra
40 38. Cunhados • Jacob Black
15 de março de 2001 — 11:45 PM
Camarote VIP da Boate Obsidian — Centro de Seattle
O grave do subwoofer fazia o piso de vidro sob as minhas botas tremer. Lá embaixo, no salão principal, corpos se prensavam sob as luzes estroboscópicas e a fumaça sintética, mas aqui em cima, no camarote reservado, o ar estava denso de fumaça de charuto, álcool e de uma tensão sufocante que emanava inteiramente de mim.
Eu estava largado no sofá de couro negro, a camisa social preta desabotoada até o peito, sentindo o suor frio da raiva me queimar por dentro. Girava o copo pesado de cristal na mão, vendo o conhaque ambarino rodar contra as pedras de gelo. Meus olhos encaravam a multidão lá embaixo, mas eu não enxergava ninguém.
A porra da cena do shopping não saía da minha cabeça. O jeito que aquela vendedora de merda destratou a minha mulher, a incerteza nos olhos da Renesmee e, acima de tudo, a forma como o meu corpo reagiu a ela o dia inteiro... O toque do meu rosto no dela no consultório do médico, a mão dela na minha camisa, a curva arredondada da barriga que agora carregava o meu sangue. Aquela aproximação forçada estava me desgraçando a cabeça. Eu estava espumando de raiva, tentando sufocar um desespero biológico e possessivo em goles largos e amargos daquela bebida.
Sam Uley estava sentado ao meu lado, observando o meu estado em silêncio há quase uma hora. Paul e Jared riam com duas dançarinas no canto do camarote, mas Sam me conhecia bem demais para não ver a tempestade que eu estava prestes a descarregar em qualquer um.
Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, e soltou uma risada baixa, desprovida de qualquer humor.
— Você vai quebrar essa porra de copo se continuar apertando assim, Jacob — disparou Sam, a voz grave cortando a fumaça. Ele deu um gole no uísque puro e me encarou de lado. — Que diabo tá acontecendo com você? Tá parecendo a porra de um bicho enjaulado desde que pisou aqui.
Nem me dei ao trabalho de me mexer. Apenas virei o resto do líquido goela abaixo, sentindo o conhaque queimar a garganta.
— Não fode o meu juízo, Sam.
Ele deu um sorriso de canto, reconhecendo exatamente o que estava estampado na minha cara. Como meu cunhado e homem de confiança, Sam usou da pouca intimidade que alguém no mundo ainda tinha comigo e se aproximou, baixando o tom de voz para que só eu ouvisse.
— Eu conheço essa cara de longe, cara — provocou Sam, com uma brutalidade calma. — Fala a verdade... Há quanto tempo você não come uma puta, cunhado?
Travei o copo no meio do ar. A minha mandíbula estalou com tanta força que senti a musculatura do rosto enrijecer por completo. Virei o rosto devagar na direção dele, cravando meus olhos escuros nos dele com um veneno capaz de matar.
— Há meses, caralho — desferi, a voz saindo da minha garganta como um rosnado carregado de uma raiva acumulada que fez até o Sam erguer as sobrancelhas. — Desde que a Renesmee colocou os pés de volta naquela casa.
Bati a porra do copo de cristal na mesa de centro com violência, quase fazendo a madeira rachar e o vidro estilhaçar, sem conseguir arrancar da cabeça a imagem da única mulher no mundo que eu desejava feito um animal, mas que a porra do meu próprio orgulho e a saúde dos meus filhos me proibiam de tocar.
Encostei a cabeça para trás no encosto de couro do sofá, fechando os olhos enquanto limpava os cacos de vidro da mão com um guardanapo. O sangue estancava devagar na pele arranhada, mas a queimação no meu peito só piorava.
— Nem a Leah — vomitei as palavras, a voz rouca e azeda. — Eu não encosto em mulher nenhuma desde que a Renesmee pisou no meu quarto. Se eu quisesse qualquer uma, não tinha mandado a Leah de volta para Forks feito um cão sarnento.
Sam soltou uma baforada densa do charuto, soltando a fumaça cinzenta no ar antes de apontar com a ponta acesa na direção da pista de dança. Lá embaixo, pelo vidro do camarote, duas mulheres de roupa vermelha e salto alto nos encaravam, esperando apenas um sinal para subir a escadaria do camarote reservado.
— Você tá se torturando à toa, Jacob — disse Sam, a voz fria, pragmática, a voz de quem administrou a sujeira das noites de Seattle muito antes de mim. — Olhe lá para baixo. Tem dezenas de mulheres nesta boate que fariam qualquer coisa para passar uma hora com o chefe do clã. Mulheres que não vão te fazer perguntas, não vão pedir presente e nem vão te olhar como se você fosse um monstro.
Ele virou o resto do uísque e me encarou de frente, o olhar firme e sem rodeios.
— A garota dos King tá trancada na sua casa, dormindo no seu quarto com a barriga cheia dos seus filhos — continuou Sam, dando um tapinha pesado no meu ombro. — Ela tá sob ordens médicas de repouso absoluto. A Renesmee nunca vai saber se você pegar uma ou mais dessas garotas aqui em cima e tirar essa porra dessa tensão das costas antes de voltar para casa. O que os olhos dela não veem, o seu império não sente, cunhado.
Olhei para o salão, depois para a fumaça do charuto de Sam, sentindo o conflito primitivo moer a minha carne por dentro.
Sustentei o olhar de Sam por um longo segundo, sentindo o ar entre nós ficar denso. A provocação dele queimou no meu peito, mas a pergunta que me veio à mente saiu da minha boca antes que eu pudesse frear.
— E você, Sam? — perguntei, a voz grave e perigosamente baixa, inclinando-me na direção dele. — Quantas vezes você subiu a escada dessa boate e se deitou com uma dessas vadias desde que se casou? Você já traiu a Emily?
Sam travou no mesmo instante. A postura relaxada dele sumiu, e o sorriso sumiu do seu rosto, dando lugar a uma expressão rígida e sombria. Ele encarou o copo vazio na sua mão, o maxilar pressionado com força antes de voltar os olhos para mim.
— Nunca — respondeu Sam, sem piscar um único milímetro, a voz firme como uma rocha. — Nem uma única vez.
— Então não me venha com essa porra de conselho — rosnei, soltando um riso amargo e seco.
— Não é a mesma coisa, Jacob! — rebateu Sam, elevando o tom de voz pela primeira vez na noite, apontando o dedo na minha direção. — A Emily é a minha mulher! Ela me respeita, cuida da minha casa e nunca colocou em risco o nome do nosso clã! A Emily nunca fez o que a Renesmee fez com você!
Ele deu uma pausa, deixando as palavras pesarem no ar do camarote.
— A garota dos Cullen te desafiou, fugiu de você, cuspiu na sua cara e te humilhou na frente de todos os chefes de clã de Seattle — continuou Sam, o olhar transbordando uma verdade cruel que fez meu sangue ferver. — A Emily nunca pisou na minha honra. A Renesmee pisou na sua. Você não deve fidelidade a uma mulher que só está no seu leito porque você a arrastou de volta pela força.
Cada palavra de Sam entrou como uma lâmina quente na minha carne.
Sam levantou a mão no ar e fez um gesto rápido de dois dedos na direção da balaustrada.
Lá embaixo, as duas mulheres que nos observavam entenderam o comando no mesmo segundo. Sem hesitar, as duas mulheres de vestidos colados e saltos vertiginosos subiram a escadaria privativa do camarote, caminhando com a sensualidade calculada de quem sabia exatamente a quem devia agradar.
— Sam, não fode... — rosnei, tentando me levantar, mas a fúria e o álcool pesavam nas minhas pernas.
— Fica sentado aí, Jacob — ordenou Sam, a voz dura, sem espaço para discussão.
Ele se inclinou para as duas garotas assim que elas pisaram no piso de vidro do camarote e murmurou algo no ouvido de cada uma. Os olhos das duas brilharam ao encarar a minha figura no sofá. Sem pedir licença, tomadas por uma audácia alimentada pelo poder do meu nome, uma delas se acomodou sobre a minha coxa direita, passando os braços macios ao redor do meu pescoço, enquanto a outra se sentou na minha perna esquerda, deslizando as unhas acrílicas pela minha nuca.
O cheiro de perfume doce e sintético delas invadiu minhas narinas no mesmo instante. Um cheiro barato. Um cheiro que não era o de lavanda, nem a essência doce e natural de Renesmee que estava impregnada nos meus lençóis.
— Paul, Jared, vazem. Todo mundo para fora do camarote agora — bradou Sam, fazendo um sinal de cabeça para os homens de guarda. — Ninguém entra aqui pelos próximos trinta minutos.
— Pode deixar — murmurou Paul, puxando as outras dançarinas e saindo pelo corredor, acompanhado de Jared, que fechou a porta pesada de isolamento acústico atrás de si.
Sam caminhou até a saída, parando com a mão na maçaneta. Ele olhou para trás uma última vez, encarando-me travado no sofá, com duas mulheres me rodeando, alisando meu peitoral desabotoado e sussurrando promessas imorais no meu ouvido.
— Limpe a cabeça, Jacob — disse Sam, o olhar gélido e prático de sempre. — Tire essa raiva do peito com quem não vai te custar nada. Se divirta, cunhado.
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