Filha da guerra
39 37. Compras • Renesmee Cullen
15 de março de 2001 — 10:15 AM
Consultório do Dr. Harrison — Centro Médico Particular, Seattle
O ar condicionado da sala de atendimento soprava uma brisa gélida que arrepiava a minha pele, mas o ambiente cheirava a lavanda e limpeza. Sentada na maca reclinável, eu vestia um jaleco de pano leve e mantinha o vestido dobrado sobre a cadeira ao lado. Quatro meses de gestação. Dezesseis semanas em que o meu corpo mudara a passos largos: a saliência na minha barriga agora era uma curva nítida e arredondada, impossível de esconder sob tecidos folgados.
Ao meu lado, de pé, estava Jacob.
Ele usava um terno escuro sem gravata, com as mãos afundadas nos bolsos da calça. Desde o episódio na véspera de Ano Novo, a atmosfera entre nós havia se transformado em algo estranhamente mais brando. Ele continuava sendo o patriarca inflexível do submundo do Sul, mas dentro do nosso espaço — nas consultas, no quarto, no silêncio da noite —, ele se desarmava.
O dr. Harrison ajustou os óculos e girou a cadeira de rodinhas para ficar de frente para nós, segurando a minha prancheta de exames.
— Bem, os exames de sangue e a pressão arterial estão excelentes, Renesmee — começou o dr. Harrison, com um tom profissional e acolhedor. — A fase mais crítica ficou para trás. O risco de complicações por estresse diminuiu consideravelmente, embora o repouso relativo ainda seja necessário por se tratar de uma gestação gemelar.
.Jacob deu um passo à frente, a preocupação habitual vincando sua testa.
— Ela pode fazer caminhadas leves? Ou continuar presa naquele quarto? — perguntou ele, a voz grave preenchendo o consultório.
— Caminhadas curtas pelo jardim são altamente recomendadas agora — sorriu o médico. — Além disso, recomendo que reforcem a ingestão de ferro e cálcio, já que os dois bebês estão absorvendo muitos nutrientes. E quanto ao bem-estar emocional... mantenham esse ambiente calmo que construíram. Tem feito milagres para ela.
O dr. Harrison desligou as luzes principais da sala e ligou o aparelho de ultrassom. A tela preta e cinza acendeu na penumbra.
— Vamos ver como esses dois estão crescendo? — disse ele, espalhando o gel gélido sobre a minha barriga exposta.
O contraste do gel frio me fez soltar um pequeno arfar. No mesmo instante, a mão grande e quente de Jacob envolveu a minha. Olhei para ele por um segundo e vi seus olhos escuros fixos no monitor, brilhando com uma ansiedade mal dissimulada. Ele apertou meus dedos com cuidado, um gesto automático de apoio que eu já não repelia.
O som característico do Doppler inundou o consultório.
Dois ritmos acelerações e fortes ressoavam alto, sincronizados como uma sinfonia perfeita.
— Aqui estão eles — anunciou o dr. Harrison, movendo o transdutor com destreza. — O bebê A está posicionado mais à esquerda, e o bebê B logo acima. Ambos estão com o desenvolvimento perfeito.
O médico fez uma pausa, ajustando o contraste da imagem na tela até destacar os contornos delicados das espinhas dorsais, das cabeças e dos pequenos membros que se moviam ativamente dentro do meu ventre.
— Bom... pela posição favorável que eles estão hoje — continuou o médico, olhando para mim e depois para Jacob com um meio sorriso desafiador —, se vocês quiserem, já podemos confirmar o sexo dos bebês.
Meu coração deu um salto no peito. Sentada ali, segurando a mão do homem que dominava Seattle e que havia mudado o rumo da minha vida, olhei para a tela e depois para o rosto de Jacob, esperando pela resposta que mudaria nosso futuro para sempre.
Jacob olhou para mim por um segundo, os olhos escuros brilhando com uma intensidade que quase me tirou o ar, antes de virar o rosto bruscamente para o médico.
— Nós queremos saber, dr. Harrison — disse Jacob, a voz rouca e falhada pela ansiedade, o aperto na minha mão se tornando um pouco mais firme. — Diga logo.
O médico riu baixo com a impaciência dele e ajustou o transdutor na minha barriga, congelando a imagem do primeiro bebê que apareceu em destaque na tela.
— Vamos começar pelo bebê A, o que está localizado aqui do lado esquerdo... — o dr. Harrison apontou com a caneta para o monitor, ampliando a imagem entre as perninhas que se mexiam devagar. — Bem, aqui não há dúvidas. É um menino. Um garoto forte e muito ativo.
Um suspiro profundo e audível escapou do peito de Jacob. Ele fechou os olhos por um segundo, engolindo em seco, e senti o peitoral dele descer enquanto soltava a tensão acumulada. Ele me encarou com o início de um sorriso orgulhoso nos lábios.
— Um menino... — murmurou Jacob, a voz quase inaudível.
— Agora vamos para o bebê B, que está logo acima — continuou o dr. Harrison, deslizando o aparelho gélido com cuidado pela parte superior do meu ventre. A imagem mudou, revelando o segundo perfil. O médico manobrou o transdutor por alguns segundos até conseguir o ângulo perfeito. Ele sorriu, balançando a cabeça. — Que surpresa agradável. Vejam só... É uma menina. Vocês têm um casal a caminho.
O silêncio que caiu sobre a sala do consultório foi absoluto, quebrado apenas pelo som ritmado dos dois corações batendo no monitor.
Um menino e uma menina.
Minha visão embaçou no mesmo instante. Lágrimas quentes escorreram pelas minhas bochechas, caindo sobre o travesseiro da maca. Olhei para a tela, vendo aqueles dois pequenos contornos tão perfeitos, tão cheios de vida, crescendo dentro de mim.
Jacob permaneceu imóvel por alguns segundos, em absoluto choque. O homem mais temido do submundo de Seattle parecia ter perdido completamente a fala. Ele olhava da tela para a minha barriga e, finalmente, para o meu rosto banhado em lágrimas.
Devagar, sem se importar com a presença do médico, Jacob se inclinou sobre a maca. Ele usou o polegar grande e calejado para limpar gentilmente as lágrimas da minha bochecha, aproximando a testa da minha até que ficássemos a milímetros de distância.
— Um casal, Nessie... — disse ele, a voz embargada, falhando como eu nunca tinha ouvido antes. Uma emoção crua e desarmada transbordava em seus olhos. — Um menino e uma menina.
— Nós vamos ter um casal, Jacob... — respondi num sussurro trêmulo, sem conseguir conter a emoção que transbordava no meu peito.
Pela primeira vez desde que toda essa história começou, não havia mágoa, ressentimento ou rivalidade entre nós. Jacob se abaixou um pouco mais e selou um beijo demorado e carinhoso no topo da minha cabeça, mantendo a mão pesada e protetora sobre a minha barriga, celebrando o milagre de duas vidas que acabaram de mudar o nosso destino para sempre.
15 de março de 2001 — 03:30 PM
Boutique Petit Enfant — Galeria de Luxo do Centro, Seattle
A luz suave dos lustres de cristal refletia nas vitrines reluzentes do piso superior do shopping. O ar cheirava a tecido novo, baunilha e couro polido. Após a consulta, Jacob fizera questão de me levar para escolher as primeiras coisas do nosso casal de gêmeos. Ele caminhava um pouco atrás de mim, cercado por dois seguranças à distância que tentavam se misturar à multidão refinada.
Enquanto Jacob se afastou por alguns minutos para atender uma ligação urgente no corredor, entrei sozinha na Petit Enfant, a loja de artigos infantis mais exclusiva do complexo. As prateleiras exibiam berços esculpidos à mão, mantas de seda e roupinhas em tons pastéis com bordados minuciosos.
Aproximei-me de uma arara de vestidos infantis em tom rosa-chá, tocando o tecido delicado com a ponta dos dedos. A emoção de saber que vestiria minha garotinha ali ainda fazia meu peito aquecer.
— Pois não? — uma voz aguda e carregada de esnobismo cortou o silêncio da loja.
Uma vendedora de terno alinhado e maquiagem impecável aproximou-se, medindo-me dos pés à cabeça com um olhar desdenhoso. Eu vestia um casaco simples para cobrir o corpo e sapatos baixos por conta do cansaço. Para a métrica fútil do estabelecimento, eu não aparentava o perfil da clientela habitual.
— Pois não... — repeti, um pouco hesitante, tentando sorrir. — Eu gostaria de ver esse conjunto e algo em tom azul para recém-nascidos. Eu descobri hoje que vou ter um casal.
A vendedora cruzou os braços, sem fazer menção de pegar a peça. Ela soltou uma risadinha nasalada e falsa.
— Minha jovem, esta arara é de seda pura importada da França. As peças aqui custam mais do que o meu aluguel inteiro — disse ela, mantendo o tom baixo, mas carregado de veneno. — Se você quiser olhar coisas mais em conta, sugiro as lojas de departamento do primeiro piso. Aqui nós só atendemos com hora marcada para a elite da cidade. Por favor, evite tocar nos tecidos se não for comprar.
Senti o sangue subir quente para o meu rosto. A humilhação gratuita me fez dar um passo para trás, o nó de lágrimas se formando na minha garganta. Eu era uma King/Cullen, mas ali, sozinha e vulnerável com minha barriga de quatro, quase cinco meses, me senti encurralada pela estupidez daquela mulher.
— Eu posso pagar pelo que quiser nesta loja — respondi, tentando manter a voz firme, embora trêmula.
— Claro que pode — debochou a vendedora, virando as costas. — Por favor, a saída fica logo ali.
— Algum problema por aqui? — a voz grave e gutural de Jacob ressoou na entrada da loja como um trovão prestes a desabar.
O ar do ambiente pareceu congelar. Jacob avançou a passos lentos e pesados. Ele vestia o terno escuro e alinhado, a postura imponente e o olhar sombrio de quem podia demolir aquele prédio com um único gesto. Atrás dele, os dois seguranças pararam na porta, bloqueando a saída.
A vendedora empalideceu no mesmo segundo ao reconhecer a figura do homem que estampava as páginas de negócios e as notícias veladas da cidade.
— N-nenhum, senhor... — gaguejou a mulher, desfazendo a postura no mesmo instante. — Eu só estava explicando para a moça que...
— "A moça" é a minha esposa. E a senhora desta porcaria de loja — corrigiu Jacob, parando ao meu lado. Ele passou o braço forte ao redor da minha cintura, puxando-me com cuidado contra o seu corpo, e cravou os olhos escuros na mulher com uma fúria contida que fez a vendedora dar dois passos para trás. — O que você disse para ela?
— Jacob, por favor... não faz nada — murmurei em um sussurro aflito, apoiando a mão no peito dele. — Vamos embora, não vale a pena.
Jacob nem sequer piscou. Ele ignorou meu pedido, o maxilar trincado de tal forma que as veias do seu pescoço saltavam.
— Eu fiz uma pergunta — pressionou ele, a voz descendo para um tom perigosamente baixo. — O que você disse para a mulher que carrega os meus filhos?
— E-eu... eu só disse que as peças eram caras, senhor Black... Foi um mal-entendido! Eu peço desculpas! — a mulher tremia visivelmente, as mãos postas em frente ao corpo.
— Caras? — Jacob soltou uma risada fria e sem humor que deu arrepios. Ele olhou ao redor, passeando os olhos pelas prateleiras de luxo. Em seguida, chamou o gerente que corria desesperado do fundo da loja ao notar a movimentação. — Você é o responsável por esta merda?
— S-sim, Sr. Black! Como posso ajudar? — o gerente curvou-se levemente, limpando o suor da testa.
— Eu quero tudo o que a minha mulher gostar — decretou Jacob, sem hesitar.
— Como disse, senhor? — o gerente piscou, confuso.
— Você não ouviu? — Jacob tirou o cartão de crédito do bolso do paletó e o jogou sobre o balcão com força. — Eu estou comprando a loja inteira se assim a Nessie quiser. Cada roupinha, cada acessório deste piso. Mande entregar tudo na Mansão Black até o fim da tarde.
— Jacob! Ficou louco?! — intervi, puxando o terno dele, chocada com o absurdo da cena. — Nós não precisamos da loja inteira!
Ele finalmente olhou para mim, os olhos escuros abrandando por um segundo ao encontrar os meus, antes de voltar o olhar mortal para a vendedora humilhada.
— E você — apontou Jacob para a mulher, que parecia prestes a desmaiar. — Você está demitida. E garanto que não vai trabalhar em mais nenhum estabelecimento de Seattle. Se eu souber que você voltou a destratar a minha mulher ou qualquer outra pessoa, a conversa vai ser diferente.
— S-sim, senhor... me perdoe, por favor! — a mulher baixou a cabeça, engolindo os soluços.
Jacob pegou a minha mão com delicadeza, entrelaçando nossos dedos, e deu as costas para o balcão sem olhar para trás.
— Vamos, Renesmee — disse ele, conduzo-me para fora da loja enquanto os seguranças abriam o caminho. — Vamos achar um lugar calmo para você tomar um café ou um suco.
Caminhei ao lado dele ainda em choque, sentindo o coração acelerado. Olhei de relance para o perfil rígido de Jacob e, apesar do exagero absurdo e da brutalidade do seu gesto, um sentimento estranho e acolhedor aqueceu meu peito: pela primeira vez na vida, eu sabia que aquele homem perigoso usaria todo o seu poder para proteger a mim e aos meus bebês do mundo.
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