Filha da guerra
38 36. Sozinhos • Renesmee Cullen
28 de dezembro de 2000 — 02:40 PM
A neve que caía lá fora parecia ter silenciado o mundo, mas dentro daquele quarto gigante, o único som que preenchia o vazio era a estática suave da televisão de tubo sobre a cômoda de madeira. Eu estava afundada no meio dos edredons pesados da cama de Jacob, com três travesseiros amontoados nas minhas costas para aliviar a tensão na lombar.
Na tela de catorze polegadas, passava uma reprise de Gilmore Girls que eu costumava assistir nas tardes de chuva, muito antes de a minha vida virar este pesadelo. O contraste entre as conversas rápidas, reconfortantes e fúteis da série e a realidade gélida do submundo de Seattle era quase doloroso, mas servir de distração era a única forma de não enlouquecer.
A porta do quarto se abriu com um ranger seco e lento.
Jacob entrou. Ele parecia ter saído direto de um campo de batalha. Vestia um sobretudo escuro salpicado de neve derretida, a camisa social amarrotada e a barba por fazer moldando o rosto cansado. Ele passara a noite inteira e a manhã completa fora, resolvendo os desdobramentos e os negócios sangrentos de Seattle.
Assim que pisou no cômodo, os olhos escuros dele varreram o espaço até se fixarem em mim. O alívio na fisionomia dele foi sutil, mas visível. Ele fechou a porta, tirou o sobretudo e o jogou sobre a poltrona do canto, soltando um suspiro pesado que carregava todo o peso do mundo nas costas.
— Como você está? — a voz dele saiu rouca, falhada pelo cansaço. Ele caminhou devagar até o pé da cama, parando ali enquanto desabotoava os punhos da camisa. — Você foi bem tratada hoje? Se alimentou direito?
— Estou bem — respondi, sem tirar os olhos da TV, mantendo a voz calma e distante. — Não saí do quarto o dia todo, mas trouxeram o almoço e as frutas para mim, como sempre. Ninguém me incomodou.
Jacob concordou devagar com a cabeça, assimilando a informação.
— Bom — murmurou ele. — É assim que tem que ser.
Ele girou os ombros rígidos e caminhou em direção ao banheiro. Ouvi o som do chuveiro ser ligado e, vinte minutos depois, o vapor quente voltou a escapar pela fresta da porta. Jacob saiu usando apenas uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta folgada. Os cabelos escuros estavam úmidos, caindo de forma bagunçada sobre a testa, e as olheiras fundas sob seus olhos entregavam que ele não dormia há mais de trinta horas.
Ele parou ao lado do colchão, observando o espaço vago ao meu lado. Pela primeira vez desde que cheguei àquela casa, não havia sombra de ameaça na postura dele. Apenas exaustão pura.
— A cama é grande... — começou Jacob, a voz quase sumindo num tom hesitante e baixo, apontando timidamente para o colchão. — Eu posso me juntar a você aqui um pouco? Prometo não te incomodar. Só preciso encostar a cabeça antes que eu desmaie neste chão.
Encarei-o por alguns segundos. O homem que destruíra o meu mundo parecia, naquele instante, apenas um homem quebrado pelo próprio poder.
— A cama é sua, Jacob — murmurei, desviando o olhar de volta para a tela da TV. — Você não precisa pedir permissão na sua própria casa.
Jacob não esperou uma segunda autorização. Ele se deitou devagar do outro lado do colchão imenso, mantendo uma distância respeitosa e cuidadosa do meu corpo, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse me assustar ou prejudicar a gestação. Ele afundou a cabeça no travesseiro com um gemido abafado de alívio e fechou os olhos por um instante.
O silêncio reinou por alguns minutos, quebrado apenas pelos diálogos abafados da televisão.
Lentamente, Jacob virou o rosto no travesseiro na minha direção. Ele abriu os olhos cansados e encarou a imagem borrada na tela do aparelho, visivelmente tentando buscar uma brecha de normalidade entre nós.
— O que você está assistindo? — perguntou ele, a voz rouca tentando puxar conversa de um jeito desajeitado, quase humano.
— É uma série... Gilmore Girls — respondi em tom baixo, ajeitando a coberta sobre a minha barriga sem olhar para ele, mas sentindo o calor do corpo dele preencher o vazio gélido daquele quarto.
Jacob continuou encarando a tela por alguns segundos, acompanhando a movimentação rápida dos personagens e as falas aceleradas que preenchiam o ambiente. Ele soltou uma respiração curta pelo nariz, quase um riso contido, que fez o seu peitoral afundar devagar contra o colchão.
— Elas falam rápido demais — murmurou ele, a voz tão baixa e rouca que parecia um sussurro arrastado pelo cansaço. — Como é que você consegue entender tudo sem se perder?
Não pude conter o início de um meio sorriso, que escondi cobrindo a boca com a barra do edredom.
— É só prestar atenção — respondi, virando o rosto devagar no travesseiro para encará-lo. — Se você assistisse desde o começo, saberia que esse é o charme da série. É sobre uma mãe e uma filha que vivem numa cidadezinha pequena do interior... Bem diferente da nossa realidade aqui em Seattle.
Jacob ficou em silêncio por um momento, absorvendo as minhas palavras. O olhar dele saiu da televisão e desceu para o meu rosto, pousando depois na curva ainda imperceptível que a coberta fazia sobre o meu ventre, onde a pequena elevação de apenas semanas começava a se moldar. A postura defensiva que ele sempre mantinha parecia ter se dissolvido por completo naquela tarde gélida.
Ele estendeu o braço devagar por cima da colcha. Hesitou no meio do caminho, os olhos escuros buscando os meus em um pedido silencioso de permissão. Quando viu que eu não recuei, ele pousou a mão grande e quente com extremo cuidado sobre a minha barriga.
O calor da pele dele atravessou o tecido pesado do edredom instantaneamente.
— Como você está se sentindo? — perguntou ele, o olhar fixo onde sua mão repousava, a voz impregnada de uma delicadeza que eu nunca imaginei que aquele homem pudesse ter. — A náusea diminuiu?
— Um pouco — murmurei, sentindo meu coração desacelerar em um ritmo estranhamente calmo. — O dr. Harrison disse que o segundo mês é assim mesmo...
Jacob deu um leve sorriso, o primeiro sorriso genuíno e sem sombras que vi no seu rosto em tempos. Ele fechou os olhos por um segundo, desfrutando daquele momento simples de paz, mantendo a mão pesada e protetora sobre o tecido.
— Quero que você fique tranquila, Nessie... Pelo menos enquanto estiver aqui dentro, comigo.
Jacob soltou uma bufada fraca contra o travesseiro, rindo de canto de boca enquanto encarava os créditos que subiam na tela da TV.
— Eu ainda acho essa tagarelice toda uma tortura — protestou ele, a voz rouca arrastando-se pelo cansaço, mas com um brilho divertido nos olhos escuros. — Como é que um cara consegue sentar para ver duas mulheres falando sobre café, romances bobos e dramas de escola por uma hora inteira? Isso é lavagem cerebral, Nessie.
— Ah, claro! Porque o seu conceito de entretenimento deve ser assistir a homens brutamontes se espancando por causa de território ou relatórios de carregamento de armas — rebati, ajeitando o travesseiro sob a cabeça e soltando um riso curto, leve, que saiu antes mesmo que eu pudesse conter. — Você simplesmente não tem bom gosto, Jacob. Aceite.
Ele virou a cabeça no meu travesseiro, ficando a poucos centímetros do meu rosto. A proximidade não me assustava mais como antes; o calor que emanava dele parecia afastar o frio cortante da tempestade que castigava as janelas do quarto.
— Não é questão de bom gosto — implicou ele, o tom provocativo e relaxado. — É questão de lógica. Se eu quisesse ouvir alguém me dar bronca sem parar, eu chamava a minha irmã Rebecca para vir aqui em cima.
Acabei gargalhando de verdade, uma risada gostosa que preencheu o quarto e me fez cobrir a boca, surpresa comigo mesma. Havia quanto tempo eu não ria daquela forma? Dias? Meses?
Jacob me encarou, os olhos atentos fixos nos meus lábios, e o sorriso dele se alargou, tornando-se mais suave, quase hipnotizante.
— Pelo menos a série serve para fazer você rir — murmurou ele, a mão dele ainda descansando quente sobre a minha barriga. Devagar, com um cuidado quase reverente, os dedos dele acariciaram o tecido do meu vestido por cima do edredom. — O que você acha que eles vão preferir assistir quando crescerem ?
— Espero do fundo do meu coração que eles puxem o meu bom gosto — brinquei, olhando para a mão dele na minha barriga e depois nos olhos dele. — Porque se puxarem o seu, o quarto deles vai ser decorado com peças de motor e vídeos de luta.
— E qual é o problema com peças de motor? — rebateu ele, dando uma risadinha baixa, o peitoral largo subindo e descendo devagar. — Um deles vai ter que aprender a cuidar do que é nosso. Mas... se for uma menina, ela pode ter o que quiser. Até assistir a essa série chata com você todo dia.
O comentário saiu de forma tão espontânea, tão carregado de uma visão de futuro simples e familiar, que o ar entre nós pareceu mudar de densidade. Olhei para Jacob e percebi que, por baixo da casca de homem perigoso e temido no submundo de Seattle, havia apenas um pai tentando desesperadamente encontrar o seu lugar naquele novo mundo.
— Você acha que vai ser um menino e uma menina? — perguntei em um sussurro, a conversa fluindo sem esforço, como se fôssemos apenas dois jovens comuns dividindo a mesma cama numa tarde de inverno.
— Eu não sei — admitiu Jacob, a voz descendo para um tom íntimo e confidencial. — O dr. Harrison disse que com dois meses é cedo demais para saber. Mas... desde a noite em que soube que eram dois, não consigo tirar da cabeça a imagem de um garoto com o seu olhar teimoso. Ou de uma garotinha com o mesmo sorriso que você acabou de dar.
Senti meu peito dar uma volta completa. O calor subiu pelas minhas bochechas e, pela primeira vez, não desviei o olhar.
Sem nos darmos conta, a barreira invisível do ódio, da guerra de clãs e do ressentimento havia sido reduzida a cinzas naquele canto de cama. Estávamos nos divertindo, conversando besteiras aleatórias como se a tempestade lá fora não pudesse nos atingir, aproximando-nos a cada respiração compartilhada naquele espaço.
Jacob deslizou o polegar de forma sutil pela curva da minha cintura, um movimento quase involuntário enquanto seus olhos desciam para a minha boca e voltavam para os meus olhos. A exaustão dele parecia ter dado lugar a um magnetismo denso, mas profundamente acolhedor.
— Renesmee... — chamou ele, a voz tão baixa que era quase um murmúrio sobre a minha pele.
— Hum? — respondi, o coração batendo um pouco mais rápido, mas não de pavor.
— Obrigado — disse ele, a sinceridade crua transbordando no olhar. — Por me deixar ficar aqui hoje.
Antes que eu pudesse formular qualquer resposta, Jacob diminuiu a pouca distância que nos separava. O calor do corpo dele me envolveu por inteiro quando ele apoiou o peso do cotovelo no colchão, inclinando o rosto na minha direção. O tempo pareceu desacelerar. Pude sentir a respiração quente dele roçar os meus lábios, um convite silencioso, hesitante e carregado de uma entrega que nenhum dos dois esperava.
Seus olhos se fecharam devagar enquanto a sua boca roçava a minha num toque quase imperceptível, a milímetros de selar aquele beijo. Minha respiração travou na garganta e o meu corpo fraquejou, prestes a ceder ao magnetismo daquele momento.
Mas o som estridente e alto de um trovão cortou o céu do lado de fora, fazendo as janelas do quarto tremerem e me tirando bruscamente do transe.
Pisquei em sobressalto, o choque da realidade me atingindo como uma onda de água fria. Apoiei a mão contra o peito largo de Jacob, travando o avanço dele no último segundo.
— Não!
Jacob abriu os olhos devagar, a respiração pesada e desajeitada, encarando-me a milímetros de distância. Ele viu o pânico sutil e a dúvida hesitante voltarem ao meu olhar. Com um suspiro contido de frustração, ele não me forçou. Em vez disso, apenas encostou a testa suavemente contra a minha por alguns segundos, aceitando o limite, antes de se afastar um pouco e me deixar respirar.
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