Filha da guerra
37 35. Visita surpresa • Jacob Black
Notas iniciais
O silêncio do meu quarto na madrugada pesava como chumbo.
Sentado na poltrona do canto, o couro gélido estalava sutilmente a cada pequeno movimento que eu fazia. Mantenho meus olhos fixos no leito. Na minha cama, encolhida sob a montanha de edredons pesados, Renesmee dormia um sono agitado. A luz pálida da neve acumulada na janela refletia no perfil do seu rosto, revelando a marca do choro seco que deixei em sua pele antes de apagar as luzes.
Minha mente era um nó cego de puro caos.
Eu deveria odiá-la. Odiava o sangue Cullen que corria em suas veias, odiava a postura altiva com que ela me encarava e a arrogância de quem cresceu no topo de Seattle. Mas, quando a vi desmaiar na mesa de jantar, sentindo o corpo dela ficar mole e frio nos meus braços diante de todos aqueles ratos da elite, um pavor primitivo e avassalador rasgou o meu peito.
Não era só o medo de perder os meus filhos. Era algo pior, algo subterrâneo e doentio que eu tentava sufocar desde a noite em que tomei tudo: a incapacidade visceral de vê-la sofrer sob o meu teto.
Aos poucos, o som suave da sua respiração começou a se alinhar ao padrão ritmado que eu precisei escutar a noite inteira para ter certeza de que ela continuava viva. Dois bebês. A vida do meu clã se multiplicava no ventre da mulher que eu jurara destruir. Eu passei a madrugada em claro, vigilante feito um maldito cão de guarda no escuro, dividindo-me entre a raiva por ela me dobrar e uma necessidade brutal de mantê-la em segurança.
Quando os primeiros raios fracos do sol de 25 de dezembro romperam a neblina de Seattle, me levantei em silêncio. Minhas costas estalaram pelo cansaço. Caminhei até o banheiro, fechei a porta e liguei o chuveiro no modo mais quente. Precisava que a água tirasse a tensão dos meus ombros antes que a casa acordasse.
A água fervente mal tinha começado a esquentar minha pele quando um grito agudo e assustado rasgou o ar, atravessando a porta do banheiro.
O som do pânico na voz de Renesmee ativou todos os meus instintos de ataque de uma só vez.
Desliguei a torneira num golpe violento. Sem perder um segundo para me vestir, puxei a primeira toalha que vi pela frente, enrolando-a às pressas na cintura, e arranquei a porta do banheiro com um estrondo, a pele ainda molhada e o vapor d’água invadindo o quarto.
— Renesmee! — bradei, com a mão em rasteira pronta para alcançar a arma na cabeceira.
A cena que encontrei no meio do quarto fez meu sangue ferver instantaneamente.
Renesmee estava sentada no meio da cama, sobressaltada, com as cobertas puxadas até o peito, os olhos bem abertos em puro choque e a respiração descontrolada.
E parada exatamente ao lado do colchão, a poucos centímetros dela, estava Leah.
Leah vestia apenas uma lingerie de renda preta e provocativa. Ela mantinha os braços cruzados abaixo dos seios, exibindo uma postura insolente, como se aquele quarto pertencesse a ela.
— O que porra você tá fazendo aqui dentro, Leah?! — vociferei, a voz ressoando como um trovão pelas paredes do quarto.
Avancei a passos largos na direção das duas, os dentes trincados com tanta força que senti a mandíbula estalar, pronto para arrancar qualquer ameaça do meu território antes que o dia mal começasse.
Leah nem sequer piscou com a minha aproximação. Em vez de recuar diante da fúria que emanava de mim, ela deu um passo audacioso na direção da cama, apontando um dedo acusador para Renesmee.
— O que essa vadia está fazendo na sua cama, Jacob?! — questionou Leah, a voz estridente carregada de uma indignação venenosa e desesperada. — Eu vim até aqui de manhã cedo para tentar fazer as pazes depois daquela cena ridícula do jantar! Pensei que você estivesse sozinho no seu quarto, e quando entro me deparo com a garotinha dos King deitada no seu lençol?!
A respiração de Leah estava descontrolada, os seios subindo e descendo sob a renda fina.
— Você enlouqueceu de vez? — continuou ela, a voz subindo de tom enquanto me encarava de cima a baixo, devorando meu corpo molhado com o olhar. — Você colocou a filha do seu pior inimigo para dormir no lugar onde devia ser meu? Você deu o seu quarto e o seu espaço para ela, Jacob?!
— Calada, Leah! — tentei cortar, dando um passo à frente com a mandíbula rígida. — Ninguém te deu autorização para...
— Não, Jacob, deixa ela falar! — interrompeu Renesmee, cortando a minha fala no meio antes mesmo que eu pudesse terminar a sentença.
Ela piscou o sono dos olhos. A expressão de pânico e susto de segundos atrás desapareceu por completo, dando lugar a um sorriso calmo, afiado e terrivelmente altivo. O sangue dos Cullen fluía nela com uma soberba magnética.
— Você devia ter batido na porta antes de entrar, Leah — disparou Renesmee, a voz suave carregada de um veneno elegante que cortou o ar como uma lâmina afiada. — Mas acho que etiqueta é pedir demais para alguém que anda pelos corredores da mansão de lingerie, feito uma cadela no cio, tentando cavar uma atenção que não tem mais.
— Fecha a sua boca, sua vadia mimada! — esbravejou Leah, avançando um passo com as unhas prontas, mas eu me pus imediatamente entre as duas, a estrutura massiva do meu corpo bloqueando qualquer aproximação. — Jacob, você vai deixar ela me insultar na sua frente?!
— Escuta aqui, Renesmee, eu não...— tentei intervir de novo, virando-me para a cama para tentar controlar a situação. — A Leah não tem permissão para entrar no meu quarto assim, eu nem sabia que ela...
— Ah, por favor, Black! Não venha me dar explicações como se você fosse o santo dessa história! — disparou Renesmee, erguendo a mão no ar e me cortando com um desdém implacável, recusando-se a me deixar concluir qualquer justificativa. — Se essa mulher entra no seu quarto de lingerie a hora que quer, é porque você deu espaço para ela se achar a dona do pedaço! Mas o cirquinho dos dois acabou.
— Como é que é?! — gritou Leah, bufando de raiva ao lado do meu ombro. — Quem você pensa que é para falar assim do Jacob ou de mim?!
— Eu sou a mulher que ele colocou nesta cama — devolveu Renesmee no mesmo instante, elevando a voz para sobrepujar a de Leah, sem dar brecha para eu dar uma única palavra. — Não me importa o que vocês dois faziam antes dele me trazer de volta. Não me importa se você achava que tinha algum direito sobre esse quarto. Olhe para mim, Leah! Olhe para este quarto!
Renesmee fez uma pausa dramática, deslizando os dedos devagar pela saliência da sua barriga por cima do tecido verde, e encarou Leah e eu com puro nojo.
— Quem dormiu nesta cama, do lado dele, usando o sobrenome dele e carregando os herdeiros do clã Black no ventre, fui eu — proferiu Renesmee, a voz firme ecoando como uma sentença de morte. — Querendo você ou não, a senhora desta casa sou eu. E você, Leah, não passa da amante frustrada que bate na porta errada logo cedo para recolher as sobras de um homem que querendo ou não é meu marido.
— Jacob, você vai aceitar isso?! — esbravejou Leah, histérica, segurando meu braço.
Arranquei o braço do aperto de Leah com violência, encarando-a com uma fúria mortal.
— Fora do meu quarto. Agora! — ordenei, apontando a porta. — Se você colocar os pés aqui dentro sem a minha autorização de novo, Leah, eu mesmo te coloco num carro de volta para Forks. Suma da minha frente!
Leah engoliu em seco, os olhos marejados de fúria e vergonha. Ela olhou para mim, depois para Renesmee — que mantinha a postura impecável e o olhar vitorioso na cama —, deu meia-volta e bateu a porta do quarto com uma violência que fez a madeira estalar.
O silêncio que se seguiu foi denso, pesado e carregado de uma eletricidade perigosa.
Virei-me devagar para encarar Renesmee. Tentei dar um passo na direção dela, abrindo a boca para falar:
— Renesmee...
— Não gaste a sua saliva, Jacob — cortou ela imediatamente, virando o rosto para a janela e cobrindo-se até os ombros com o edredom, calando a minha boca antes mesmo que eu pudesse me defender. — A sua amante já foi embora. Pode voltar para o seu banho.
•••
Antes mesmo de alcançar o corredor principal, o som de vozes alteradas vindo da cozinha ampla e gélida entregava a situação. Leah estava lá, rodeada por quem deveria impor ordem naquela casa.
Ao cruzar o portal de arco da cozinha, deparei-me com a cena. Leah estava sentada na ponta da mesa de granito, ainda enrolada num sobretudo que cobria às pressas a lingerie preta, com o rosto manchado de lágrimas de humilhação e raiva. Ao redor dela estavam minhas irmãs, Rebecca e Rachel, além de Sue, que mantinha uma xícara de chá fumegante entre as mãos com uma expressão dura e protetora. Encostados na bancada, observando a cena em silêncio tenso, estavam Paul e Jared.
— Ele perdeu a cabeça! — vociferava Leah, a voz embargada, batendo a mão na mesa. — Ele colocou a garotinha dos Cullen no próprio quarto, no próprio lençol! A vadia me destratou como se eu fosse um nada na frente dele, e o Jacob simplesmente me ameaçou de expulsão!
— Calma, Leah... o Jake só pode estar ficando louco com essa história — consolou Rebecca, massageando os ombros da garota e encarando o teto. — Aquela Cullen está manipulando ele por causa dessa gravidez...
— A única pessoa ficando louca aqui é você, Leah! — bradei, invadindo a cozinha feito um animal enfurecido.
A minha voz fez a xícara na mão de Sue tremer. Rachel soltou um arfar assustado.
Avancei a passos rápidos e pesados direto na direção de Leah, as mãos fechadas em punhos, os músculos do pescoço retorcidos de pura fúria. Mas antes que eu pudesse alcançar a mesa e arrancá-la daquela cadeira, uma barreira de músculos se colocou no meu caminho.
Paul e Jared saltaram da bancada no mesmo segundo, interpondo-se entre mim e Leah.
— Jacob, segura a onda! — urrou Paul, apoiando as duas mãos espalmadas contra o meu peito para conter o meu avanço. O impacto do meu corpo contra o dele fez o chão de piso frio ranger.
— Sai da minha frente, Paul! — rosnei, a voz descendo para um tom monstruoso, tentando empurrá-lo para o lado.
— Não fode, Jacob! Esfria a porra da cabeça! — gritou Jared, agarrando meu braço esquerdo para ajudar Paul a segurar o meu peso. — Você tá cego de raiva! Não vai avançar em mulher aqui dentro!
— Ela invadiu o meu quarto de manhã cedo! — esbravejei, travando o corpo contra a força dos dois, o olhar cravado em Leah por cima do ombro de Paul. — Ela desrespeitou a mim e à mulher que carrega os meus filhos no ventre!
— E você queria o quê, Jacob?! — levantou-se Sue, a voz firme e materna impondo um peso que fez até Paul vacilar por um segundo. — A Leah cresceu com você! Ela sempre esteve do seu lado quando o seu pai ergueu o clã! Você trouxe a herdeira do nosso maior inimigo para dentro de casa, deu o seu sobrenome a ela e agora quer escorraçar a Leah como se ela fosse um cachorro!
— Você tá cego por causa dessa gravidez, Jacob! A menina dos Cullen tá fazendo você virar as costas para a sua própria gente!
— Chega! — berrou Leah, levantando-se da cadeira, as lágrimas escorrendo pelo rosto, mas os olhos faiscando de veneno. — Eu só fui até lá para tentar entender o que tá acontecendo! Eu sangrei por esse clã tanto quanto você! E você me troca por uma garota mimada que odeia tudo o que você é?!
A cozinha virou um caos de vozes sobrepostas. Minhas irmãs gritavam me acusando, Sue tentava puxar Leah para trás, e Paul e Jared fincavam os pés no chão, fazendo uma força descomunal para me manter afastado enquanto eu empurrava a linha de defesa deles.
— Você não tem o direito de pisar no meu quarto! — desferi, a voz cortando o barulho das mulheres como uma lâmina de aço. — Você cruzou a porra da linha, Leah!
— Jacob, deu! Porra, escuta! — bradou Paul, me empurrando com mais força contra a parede lateral, os olhos arregalados de tensão. — Você é o chefe desta merda, mas tá agindo feito um descontrolado! Respira fundo antes que você faça uma besteira que não dá para voltar atrás!
Dei um tranco forte para trás, me soltando do aperto de Paul e Jared com ignorância. Ajustei a camisa no peito, respirando fundo, o ar queimando nos meus pulmões enquanto a fúria congelava numa determinação gélida e irreversível.
Olhei para Leah por cima dos ombros de Paul. O silêncio que se instalou na cozinha foi instantâneo e sepulcral.
— Acabou, Leah — decretei, a voz baixando para um tom firme, calmo e absolutamente mortal. — Eu não vou falar duas vezes.
— Jacob... — tentou intervir Rebecca, mas um único levantar do meu indicador a fez calar a boca.
— Você pega as suas coisas agora — continuei, cravando os olhos nos de Leah, vendo a cor sumir do seu rosto ao perceber que as desculpas e a proteção da minha família não mudariam o meu veredito. — Jared vai colocar você num carro em vinte minutos. Você está fora de Seattle.
— O quê...? — murmurou Leah, a voz falhando em puro choque.
— Você vai voltar para Forks — ordenei, sem piscar um milímetro. — E só pisa de volta em Seattle quando eu mandar. Se eu ver a sua cara nesta cidade antes do nascimento dos meus filhos, eu garanto que você vai ganhar uma cova rasa.
Virei as costas sem esperar qualquer resposta, deixando a cozinha em um silêncio estarrecido, quebrado apenas pelo soluço abafado de Leah ao perceber que a guerra contra a nova senhora da casa já estava perdida.
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