Filha da guerra
36 34. Os primeiros presentes • Renesmee Cullen
A imensa mesa da sala de jantar parecia um campo de batalha disfarçado sob louças de porcelana importada, talheres de prata e taças de cristal. Jacob ocupava a cabeceira principal como o indiscutível patriarca de Seattle, enquanto os chefes de facções, juízes, o prefeito Jim Gordon e a cúpula dos Cullen se acomodavam pelas laterais.
Eu estava sentada à direita de Jacob. Logo em frente, posicionada com uma insolência estudada, estava Leah.
O aroma do assado e dos molhos condimentados preenchia o ar, mas o meu estômago embrulhava a cada segundo. O estresse acumulado da noite, o cheiro forte da comida e a pressão dos dois bebês mexendo-se no meu ventre começaram a cobrar o seu preço. Minha respiração ficou pesada, e uma onda súbita de calor fez minha pele arder sob a seda verde-esmeralda.
Quando os travessões começaram a circular, estendi a mão para me servir de uma porção leve de vegetais e assado. Antes que o prato se aproximasse de mim, Leah soltou um estalo alto de língua, reclinando-se na cadeira com um sorriso carregado de veneno.
— Olha só... — debochou Leah, a voz suficientemente alta para fazer as conversas ao redor diminuírem. — A garotinha dos King resolveu se juntar à mesa. Cuidado para não vomitar na porcelana, querida. Seria uma pena estragar a ceia do prefeito com seus dramas de dondoca.
Senti o olhar de Carlisle e Esme se tencionarem do outro lado da mesa. O ar no salão congelou.
— Leah, por favor — interveio Paul, baixo, tentando conte-la ao notar a sombra pesada que se formava no rosto de Jacob.
— O que foi, Paul? Só estou dizendo o óbvio — insistiu Leah, encarando-me com puro desdém. — Ela passa o dia inteiro trancada, mas na hora de usufruir do banquete do clã Black, é a primeira a se servir. Se fosse uma mulher de verdade da nossa família , aguentava a gravidez sem esse show todo. Mas claro... o sangue dela é fraco.
O insulto direto à minha família ecoou pela mesa. Soltei o talher de prata com um baque seco contra o prato, fazendo o cristal das taças tilintar.
— Limpe a sua boca para falar da minha família, Leah — respondi, sustentando o olhar dela com uma firmeza que fez o prefeito Gordon erguer as sobrancelhas em surpresa. Minha voz saiu fria, cortante e visceral. — Se eu estou sentada nesta cabeceira hoje, não é por caridade. É porque o seu chefe precisou do meu sangue e do meu nome para legitimar o império que ele construiu. Você é só uma serva que latia na porta do pai dele e continua latindo na dele.
— Sua vadia mimada! — Leah levantou-se num baque, apoiando as duas mãos na mesa, a fúria desfigurando seu rosto. — Você não é nada aqui!
A discussão acalorada e o esforço para manter a voz firme fizeram minha cabeça girar. Uma tontura forte e violenta me atingiu de golpe. O salão pareceu inclinar-se para o lado, o ar fugiu dos meus pulmões e a náusea me sufocou. Levei a mão à garganta, soltando um gemido abafado de dor enquanto me apoiava no braço da cadeira, a visão ficando completamente turva.
— Nessie! — exclamou Alice, levantando-se em sobressalto junto com Claire.
— Chega! — o urro de Jacob ecoou como um trovão pelas paredes da sala de jantar.
Ele se levantou em um golpe, a força do seu movimento empurrando a cadeira de madeira pesada para trás com um ruído ensurdecedor. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ninguém ousou respirar.
Em um segundo, a mão grande e quente de Jacob estava nas minhas costas, amparando meu corpo antes que eu desabasse da cadeira. Ele me puxou contra o seu peito, segurando meu rosto com uma firmeza protetora enquanto seus olhos escuros queimavam em direção a Leah com uma fúria assassina.
— Calada, Leah! — vociferou Jacob, a voz descendo para um tom gutural e ameaçador que fez até os homens da guarda darem um passo para trás. — Se você pronunciar mais uma única palavra contra a minha esposa ou contra a saúde dos meus filhos na frente desta mesa, eu juro por Deus que coloco você para fora desta casa!
Leah deu um passo involuntário para trás, a palidez cobrindo seu rosto diante da humilhação pública e da raiva desmedida de Jacob.
— Jacob, ela é... — tentou intervir Rebecca, mas o irmão a cortou com um olhar mortal.
— Ela é a senhora desta casa! — bradou Jacob para que todos os convidados, aliados e inimigos ouvissem com clareza. — A Renesmee carrega o futuro do clã Black no ventre. Quem desrespeitar a mãe dos meus filhos está desrespeitando a mim!
Jacob não esperou por nenhuma resposta. Sem importar-se com os olhares chocados do prefeito Gordon, dos Cullen ou das famílias do submundo, ele passou o braço forte por baixo das minhas pernas e me ergueu nos braços com facilidade.
Encostei a cabeça no peito dele, fraca, ouvindo o ritmo acelerado e descontrolado do seu coração enquanto ele me tirava do salão e me levava para longe daquela mesa de cobras.
— 09:15 PM
O teto de madeira escura girava devagar acima da cabeça enquanto a sensação de tontura começava a ceder. Jacob me deitara no meio de sua imensa cama de casal, afastando os travesseiros pesados com uma urgência bruta e desajeitada.
Diante do colapso no salão de jantar, Carlisle fora o primeiro a agir. Sendo o único médico presente entre os convidados naqueles primeiros minutos de pânico, ele ignorou qualquer protocolo ou rivalidade e subiu as escadas no encalço de Jacob.
Ele já estava ajoelhado ao lado da cama, mantendo os dedos gélidos e precisos sobre o meu pulso, medindo minha pressão arterial com um esfigmomanômetro portátil tirado da sua maleta de emergência. A expressão dele era uma mistura dolorosa de rigor profissional e um desespero paterno contido.
— A pressão dela está muito elevada, Jacob — declarou Carlisle, a voz grave e calma cortando o silêncio tenso do quarto. Ele ajustou o estetoscópio e escutou o meu peito. — A frequência cardíaca está acelerada, e a respiração, superficial. Ela sofreu um pico agudo de estresse no meio de um quadro de exaustão gestacional. Se ela continuar sendo submetida a esse tipo de hostilidade...
— Eu não pedi uma palestra, Carlisle — cortou Jacob, de pé aos pés da cama, a jaqueta do terno aberta, as mãos afundadas nos bolsos da calça e a respiração pesada. O olhar dele alternava entre a minha palidez e as mãos do meu pai. — Eu pedi para você garantir que ela não perca esses bebês até o meu médico chegar.
— Estou garantindo a estabilidade da minha filha e dos meus netos — rebati a voz de Carlisle, num tom gelado e firme que fez Jacob trancar o maxilar. — O que quer que esteja acontecendo nesta casa, precisa parar agora.
Puxei o ar com dificuldade, sentindo a mão trêmula de Carlisle apertar a minha com um carinho que quase me fez chorar.
Passaram-se vinte minutos sufocantes. A porta do quarto foi aberta bruscamente. O dr. Harrison entrou apressado, carregando sua maleta profissional, ainda recuperando o fôlego depois de ter sido trazido às pressas pela guarda de Jacob desde o centro da cidade.
Ao ver Carlisle ao lado da cama, o dr. Harrison hesitou por um segundo, ciente da reputação do homem que ocupava o espaço, mas aproximou-se rapidamente para assumir o exame.
— Licença, dr. Cullen — murmurou o dr. Harrison, retirando o ultrassom portátil da bolsa e preparando o gel sobre a minha barriga.
Carlisle deu um passo para trás com altivez, mantendo os braços cruzados, sem tirar os olhos do monitor que o médico particular dos Black ligava na cabeceira.
O som característico do Doppler cortou o quarto. O galope duplo e cristalino reverberou pelas paredes gélidas do cômodo.
O som dos dois corações batendo perfeitamente ritmados fez um suspiro coletivo rasgar o ar pesado do quarto.
O dr. Harrison moveu o transdutor com cuidado, examinando cada detalhe na tela esverdeada antes de desligar o aparelho e limpar o gel do meu ventre. Ele virou-se para Jacob, ajustando os óculos no nariz.
— Os bebês estão perfeitamente bem, senhor Black — atestou o dr. Harrison, aliviando a tensão que parecia petrificar o ombro de todos ali. — A frequência de ambos está forte e regular. Não há sinais de descolamento ou sofrimento fetal.
— Então por que ela desmaiou? — questionou Jacob, a voz exigente.
— Sobrecarga emocional e estresse extremo — respondeu o médico com firmeza, olhando de relance para Jacob. — A senhora Black atingiu o limite físico e psicológico nesta noite. O corpo dela simplesmente desligou para proteger a gestação. Se o senhor quer que esses gêmeos cheguem saudáveis ao terceiro trimestre, repouso absoluto não é mais uma opção... é uma ordem médica. Sem discussões, sem jantares e sem estresse pra ela.
Jacob fechou os olhos por um segundo, soltando o ar retido nos pulmões. O alívio na cara dele era palpável, mas o olhar que ele direcionou para o teto da sala revelava que as contas no andar de baixo seriam acertadas muito em breve.
— 10:15 PM
A porta do quarto se fechou com um clique seco, abafando o som distante da festa que ainda acontecia no andar de baixo. Carlisle e o dr. Harrison haviam saído juntos, deixando para trás apenas o odor acre de álcool antisséptico e o silêncio denso que sempre se instalava quando ficávamos a sós.
Jacob permaneceu encostado contra a madeira da porta por longos segundos. Ele tirou o paletó do terno, afrouxou o nó da gravata escura e desabotoou os dois primeiros botões da camisa social, revelando a tensão extrema que ainda enrijecia os músculos do seu pescoço.
— Você precisa mesmo me fazer passar por isso na frente da cidade inteira? — a voz dele saiu baixa, um sussurro rouco e cansado, desprovido do urro de raiva que ele usara no salão.
Girei a cabeça devagar no travesseiro, encarando-o com os olhos ardendo.
— Eu não fiz nada de propósito, Jacob — respondi no mesmo tom baixo, a voz ainda fraca, mas carregada de mágoa. — Você me colocou num salão cheio de cobras, me fez ouvir provocações da Leah e descobrir que você mandou matar o Royce. O meu corpo só não aguentou a podridão da sua casa.
Jacob caminhou devagar até a lateral da cama. Ele se sentou na borda do colchão, o peso do seu corpo fazendo o estrado ranger levemente. Ele encarou as próprias mãos calejadas por um instante antes de erguer os olhos escuros para mim. Não havia a habitual frieza de chefe da máfia, apenas uma inquietação pesada e crua.
— A Leah não vai mais encostar um dedo em você e nem abrir a boca nesta casa — disse ele, a firmeza na voz soando quase como uma promessa. — Se eu tiver que mandar ela embora de volta pra Forks, eu mando. Você não precisa gostar de mim, Renesmee... mas precisa ficar viva. Vocês três precisam.
— É só isso que importa para você, não é? — murmurei, puxando o edredom até a altura do peito. — Os dois herdeiros que vão garantir o seu nome.
Jacob travou o maxilar, mas não rebateu. Ele se levantou em silêncio, caminhou até o armário de madeira maciça do outro lado do quarto e pegou duas caixas médias embrulhadas em papel aveludado e laços elegantes. Ele voltou para ao lado da cama e colocou os pacotes sobre as minhas pernas cobertas.
Olhei para os embrulhos sem entender, franzindo o cenho.
— O que é isso? — perguntei.
— É Véspera de Natal — disse Jacob, desviando o olhar para a janela onde a neve caía sem parar. Ele parecia profundamente desconfortável com a própria atitude, como se demonstrar qualquer tipo de afeto ferisse o seu orgulho. — Eu mandei buscar no centro hoje cedo.
Com os dedos trêmulos, puxei a fita da primeira caixa menor. Ao abrir a tampa, encontrei dois pares idênticos de sapatinhos de bebê feitos de tricô macio, um em tom creme e outro em cinza claro, acompanhados por duas pequenas mantas de lã pura. Um nó doloroso se formou na minha garganta. Eram as primeiras coisas reais e concretas que meus filhos recebiam.
Na segunda caixa, mais comprida, repousava um estojo de veludo. Ao abri-lo, a luz do abajur refletiu em um colar de ouro branco com um pingente delicado em formato de gota, cravado com duas pequenas esmeraldas puras.
— O colar é seu — pontuou Jacob, a voz descendo para um tom quase imperceptível. — As pedras combinam com o verde do seu vestido... e são duas, para lembrar dos bebês.
Encarei as joias e os sapatinhos, sentindo lágrimas quentes e silenciosas escorrerem pelo meu rosto. Era um contraste doloroso: o mesmo homem que mantinha minha vida sob um punho de ferro e que carregava o sangue da minha família nas mãos era o homem que me dava presentes delicados na noite de Natal.
— Você acha que presentes compram o meu perdão, Jacob? — perguntei em um sussurro rasgado, olhando nos olhos dele.
Jacob estendeu a mão devagar, hesitando por um segundo antes de usar o polegar para limpar uma lágrima da minha bochecha. O toque da pele dele era quente, quase doloroso de tão suave.
— Eu não estou pedindo seu perdão, Renesmee — respondeu ele, a voz firme, mas impregnada de uma melancolia profunda. — Eu só quero que você saiba que, enquanto estiver sob o meu teto... nada e ninguém vai fazer mal a você ou aos nossos filhos. Nem mesmo a memória do que fomos antes.
Ele recolheu a mão, levantou-se da cama e caminhou até a poltrona no canto do quarto.
Olhei para a figura dele sentado na poltrona do canto, a sombra da penumbra cobrindo metade do seu rosto enquanto ele observava a neve cair do outro lado da janela.
— Eu quero ir para o meu quarto — murmurei, tentando me apoiar nos cotovelos para se sentar na cama. Minha voz saiu trêmula, mas carregada da pouca resistência que me restava. — Eu não vou dormir aqui, Jacob.
Jacob nem sequer se mexeu na poltrona. Ele apenas virou o rosto devagar na minha direção, os olhos escuros brilhando na luz fraca do abajur com uma determinação fria e inabalável.
— Você não vai para lugar nenhum, Renesmee — decretou ele, a voz baixa, calma e sem margem para qualquer discussão. — A partir de hoje, você dorme neste quarto. Na minha cama.
— O quê?! — reagi no mesmo instante, o choque me fazendo esquecer a fraqueza do corpo. — Ficou maluco? Eu não vou dormir no mesmo quarto que você! Eu tenho o meu espaço nesta casa!
— Aquele quarto fica no fim do corredor, longe da minha vista e perto demais de qualquer um que queira tentar uma besteira contra você — cortou Jacob, levantando-se da poltrona com passos lentos até parar novamente ao lado do colchão, impondo sua altura sobre mim. — Você ouviu o que os médicos disseram. Você quase desmaiou hoje por causa de estresse e exaustão. Se você passar mal de madrugada, se tiver um sangramento ou uma complicação com os gêmeos, eu preciso estar do seu lado para agir. Não vou arriscar a vida dos meus filhos deixando você isolada naquele quarto.
— Eu sei me cuidar! — enfrentei-o, cravando as unhas no edredom. — Eu posso chamar a guarda, posso ligar para o dr. Harrison...
— Não — disse ele, ríspido, aproximando o rosto do meu até que eu pudesse ver as veias saltadas no seu pescoço. — Você fica aqui. Ao menos até o fim do primeiro trimestre, até que os dois estejam totalmente fora de risco e o médico garanta que a gestação estabilizou. Depois disso, a gente conversa. Até lá, a sua rotina, o seu repouso e as suas noites são sob a minha supervisão direta.
— Você está me trancando no seu próprio quarto... — sussurrei, rasgada por uma mistura de pânico e indignação, sentindo o cerco se fechar ainda mais ao meu redor.
— Eu estou garantindo que os meus herdeiros cheguem vivos ao nono mês — corrigiu Jacob, a voz descendo para um tom rouco e denso. Ele puxou a coberta macia e a cobriu até os meus ombros, os dedos roçando suavemente o meu queixo por um segundo antes de se afastar. — A cama é grande e bem mais confortável, Renesmee. Eu vou dormir na poltrona. Mas você não sai deste quarto.
Ele deu as costas, caminhou até o abajur da cabeceira e desligou a luz, jogando o ambiente na penumbra cortada apenas pelo brilho fraco da neve que caía lá fora. Em seguida, ouvi o som do couro da poltrona ranger quando ele se acomodou no canto.
Encolhi-me sob as cobertas, o cheiro forte e amadeirado do perfume dele impregnado nos travesseiros me sufocando.
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