Filha da guerra
35 33. Véspera de Natal • Renesmee Cullen
24 de dezembro de 2000 — 06:00 PM
Residência do Clã Black — Sul de Seattle, Washington
O movimento na mansão dos Black começou nas primeiras horas da manhã, mas ao cair da tarde, o ar pesava com uma agitação quase sufocante. Pela primeira vez desde a morte de Billy Black, a casa se preparava para o tradicional Banquete de Véspera de Natal. Não era apenas uma ceia familiar; era a grande exibição de poder de Jacob como o novo patriarca irrefutável de Seattle.
Naquela noite, o submundo e a alta sociedade da cidade se fundiriam na mesma sala. Lideranças de facções aliadas sentariam lado a lado com juízes, empresários e figuras políticas intocáveis, pessoas que fingiam ignorar o sangue nos tapetes para garantir suas gordas contribuições de campanha.
Entre os convidados confirmados estava o prefeito Jim Gordon. Meu peito se apertou com um nó doloroso só de lembrar o nome dele. Jim fora um dos amigos mais próximos do meu “pai” nos tempos em que a minha família ainda reinava soberana como os King de Seattle. Ele me viu crescer, esteve nas minhas festas de aniversário de infância e me carregara no colo. Saber que ele estaria ali, brindando com o homem que destruiu a minha vida, tornava tudo infinitamente mais cruel.
Eu estava sentada na ponta da cama do meu quarto, encarando a janela gélida e a neve que começava a cobrir o jardim, quando a porta se abriu sem cerimônia.
Claire entrou no cômodo carregando uma capa protetora de veludo preto nos braços. A fisionomia dela era neutra, desprovida da hostilidade aberta de Rebecca, Rachel, Emily ou do desprezo de Leah, mas ainda assim marcada por uma distância prudente.
— O Jacob mandou entregar isso — disse Claire, colocando a peça pesada sobre a cama. Ela puxou o zíper devagar, revelando o tecido de seda verde-esmeralda que brilhava sob a luz fraca do abajur. — Ele quer você pronta às oito em ponto.
Aproximei-me da cama e toquei o tecido fino. O vestido era deslumbrante, de um corte clássico e elegante, desenhado sob medida para acomodar o início da saliência da minha barriga de gêmeos sem perder a postura de nobreza. Era uma joia de costura, mas para mim parecia apenas uma farda de prisioneira lindamente ornamentada.
— Ele acha que vestir a prisioneira com seda vai fazer a cidade esquecer o que ele fez com a minha família? — perguntei, a voz carregada de um amargor rasgado, sem tirar os olhos do vestido.
Claire suspirou baixinho, cruzando os braços e me encarando com uma leve nota de aviso.
— O Jake não quer apenas que a cidade veja a esposa dele, Renesmee. Ele quer que o Jim Gordon e toda a elite de Seattle vejam que a herdeira dos King agora carrega o sangue dos Black no ventre. Ele quer a sua presença perfeita naquela mesa.
— E se eu me recusar a descer? — encarei-a, erguendo o queixo.
— Você não quer testar o Jacob — respondeu Claire, com a firmeza de quem conhecia o irmão melhor do que ninguém. — Ele garantiu a paz com a prefeitura e reuniu todos os clãs sob o mesmo teto. Se você tentar humilhá-lo na frente de homens como o prefeito Gordon, a fúria dele não vai cair só sobre você... vai cair sobre qualquer um que você ainda tente proteger.
Engoli em seco. A menção implícita à segurança dos bebês e aos poucos sobreviventes da minha antiga vida fez o meu orgulho recuar a contragosto.
— Ele quer um espetáculo? — murmurei, alisando a seda verde sobre o colchão. — Pois ele vai ter a Sra. Black impecável para o jantar.
Claire concordou com a cabeça em silêncio e caminhou até a porta. Antes de sair, olhou para trás uma última vez.
— O sapato e as joias estão na caixa ao lado. Não atrase, Renesmee. Os convidados já começaram a chegar.
O farfalhar suave da seda verde-esmeralda contra os meus pés era o único som que me acompanhava enquanto eu começava a descer a imponente escadaria de madeira da mansão. O vestido caía com elegância impecável, moldando o meu corpo e destacando a discreta elevação no meu ventre. As joias brilhavam sob a luz amarelada dos lustres de cristal, mas a armadura que eu vestia por baixo daquela seda era de puro ferro.
Na base da escada, conversando em um tom baixo e reservado, estava Jared. Com seus dezoito anos recém-completados — a mesma idade que a minha —, ele parecia desconfortável no terno escuro e bem cortado, mantendo a postura ereta ao lado de Leah, que usava um vestido vermelho justo e provocativo.
Eu não conseguia escutar uma única palavra do que eles diziam sobre o burburinho de vozes dos convidados no hall, mas no instante em que o som seco do meu salto alto ressoou pelos degraus, o silêncio começou a se espalhar.
Um a um, os rostos da elite de Seattle e dos líderes do submundo se viraram na minha direção. Conversas sobre política, negócios e guerras territoriais foram interrompidas. Vi o olhar atento do prefeito Jim Gordon se fixar em mim do outro lado do salão.
Jared parou de falar no mesmo segundo, arregalando os olhos e acompanhando a minha descida com um respeito involuntário.
Mas foi a reação de Leah que fez meu sangue congelar.
Ao ver os olhares de admiração e os murmúrios surpresos da sala se voltarem inteiramente para mim, a fisionomia de Leah se contorceu em uma máscara de pura inveja e veneno. Ela trincou os dentes, os olhos faiscando de fúria ao perceber que, mesmo como prisioneira, eu ainda dominava aquele espaço.
Sem pensar duas vezes, Leah deu as costas a Jared e marchou a passos firmes na direção do centro do salão, onde Jacob conversava com dois juízes influentes.
Diante de todos os convidados, Leah colou o corpo ao dele com uma intimidade ostensiva. Ela deslizou a mão de forma sutil pelo peito de Jacob, ajustando a lapela do seu terno com um sorriso sedutor e falso desenhado nos lábios. Era uma demarcação de território desesperada e descarada, uma tentativa de mostrar ao prefeito e à cidade que, independentemente do bebê no meu ventre, ela ainda exercia algum poder sobre o novo patriarca.
Uma fisgada aguda de ciúmes atingiu o meu peito antes que eu pudesse evitar. Um ardor quente e incômodo que me pegou desprevenida, lembrando-me de um tempo em que o toque de Jacob pertencia apenas a mim.
Mas o ciúme desvanesceu tão rápido quanto surgiu, esmagado por uma onda avassaladora de raiva e desprezo.
Raiva de Leah por se humilhar daquela forma diante da elite da cidade. Raiva de mim mesma por sentir qualquer fagulha em relação a ele. E, acima de tudo, raiva do espetáculo ridículo que Jacob permitia no meio do seu salão.
Não dei o braço a torcer. Recusei-me a franzir a testa ou demonstrar um único milímetro de fraqueza. Ergui o queixo, mantendo o olhar frio e altivo, e terminei de descer o último degrau como a senhora daquela casa, a única que carregava o futuro do clã Black no ventre.
Terminei de descer o último degrau e o salão pareceu desacelerar. O farfalhar da seda verde-esmeralda e a compostura impecável que eu sustentava atraíam todos os olhares. Mantive o queixo erguido, ignorando a encenação patética de Leah ao fundo, e deixei que o peso da minha presença dominasse o ambiente.
À medida que avançava pelo hall, fui cercada por figuras de prestígio, empresários e membros influentes da alta sociedade de Seattle. Os cumprimentos eram polidos, quase reverentes. Risos contidos e felicitações cordiais pela minha gestação ecoavam ao meu redor. Todos me parabenizavam pelo “herdeiro do clã Black”, bajulando a aliança entre o sangue dos King e a força dos Black como se fosse um conto de fadas moderno, e não uma prisão ornada em ouro.
Mas o meu mundo parou por um segundo quando meus olhos cruzaram o salão e encontraram os Cullen.
Eles estavam posicionados perto das grandes janelas de vidro. Edward e Carlisle mantinham expressões terrivelmente rígidas e contidas sob os ternos sob medida, enquanto Alice e Esme me encaravam com uma dor angustiante nos olhos. Havia um pacto de silêncio sepulcral no ar entre as famílias; uma trégua tensa e frágil comprada a preço de ouro e território. Ver a minha própria família ali, impotente, obrigada a assistir à minha exibição como troféu de Jacob, fez meu peito queimar em uma angústia sufocante.
Antes que eu pudesse respirar fundo, uma voz grave e profundamente familiar me chamou:
— Renesmee... minha querida.
Virei-me e dei de cara com o prefeito Jim Gordon. Suas feições ostentavam a marca do tempo e uma sinceridade genuína que parecia deslocada no meio de tanta falsidade. Ele segurou minhas duas mãos com carinho, examinando meu rosto com uma melancolia paterna.
— Prefeito Gordon... — murmurei, tentando sustentar um sorriso caloroso. — É tão bom ver o senhor.
— É uma honra ver você tão forte, minha jovem — disse ele, a voz baixando para um tom de respeito e afeição. Ele olhou sutilmente para a pequena saliência sob a seda do meu vestido e sorriu fraco. — Parabéns pela nova vida que vem por aí. Seu pai ficaria orgulhoso de ver você como a grande senhora desta casa.
— Obrigada, Jim. Significa muito vindo do senhor.
O prefeito suspirou, apertando minhas mãos com um pouco mais de força, e seu semblante se fechou em uma expressão de sincero pesar.
— E eu não poderia deixar de lhe prestar meus mais profundos pêsames... — continuou ele, em tom respeitoso. — Sei o quanto deve estar sendo difícil para você. Lamento do fundo do meu coração pelo que aconteceu com a Rosalie e o Royce.
O chão sumiu sob os meus pés. Franzindo o cenho, dei um meio passo para trás, completamente desnorteada pela menção ao Royce.
— O que...? O Royce? — gaguejei, encarando o prefeito sem entender nada. — Jim, do que o senhor está falando?
— Da tragédia, minha querida — explicou Gordon, surpreso com a minha reação, mas mantendo a voz calma. — Eles falecerem de maneira tão repentina e Lamento muito pela perda.
O ar simplesmente fugiu dos meus pulmões. O silêncio do meu sobressalto fez o prefeito hesitar, mas antes que eu pudesse articular uma única pergunta , uma presença esmagadora se colocou exatamente às minhas costas.
O calor ardente do corpo de Jacob me envolveu. A mão dele pousou de forma pesada e possessiva sobre a minha cintura, colando o peito dele contra a minha espinha.
— A morte dos meus sogros foi uma fatalidade lamentável. Um infeliz... acidente de percurso.
Girei o rosto devagar para olhar para Jacob.
O semblante dele era uma máscara de calma e cortesia para o prefeito, mas a escuridão nos seus olhos entregava tudo. O brilho cruel e implacável no seu olhar não deixava margem para qualquer dúvida.
Não fora um acidente. Não fora uma fatalidade.
Jacob mandara matar Royce. Executando a vingança em silêncio enquanto me mantinha trancada sob o seu teto. E agora, usando a seda verde que ele mesmo me dera, ele fazia questão de me fazer sorrir e agradecer os pêsames da cidade diante do assassino.
O aperto da mão de Jacob na minha cintura intensificou-se de forma imperceptível para o prefeito Gordon, mas dolorosa para mim. Com uma cortesia impecável e um sorriso falso desenhado nos lábios, ele se despediu de Jim, alegando que eu precisava descansar um pouco antes de o jantar ser servido.
Ele me guiou com passos firmes em direção a um recanto reservado no fundo do salão, parcialmente escondido por uma pesada cortina de veludo e uma imponente palmeira ornamental. Assim que ficamos fora do campo de visão direto dos convidados, Jacob me pressionou suavemente contra uma poltrona de veludo escuro.
— Sente-se — ordenou ele, a voz descendo para um tom baixo e gutural. — Você já ficou em pé por tempo demais com esses saltos.
— Me solta, seu desgraçado! — rosnei entre os dentes, empurrando o peito dele com toda a força que me restava e me recusando a sentar. Minha voz tremia de ódio contido. — Eu sei me cuidar! Não preciso do seu teatrinho de marido preocupado na frente da cidade!
Jacob nem sequer balançou com o meu empurrão. Ele travou o maxilar, os olhos escuros faiscando na penumbra do canto.
— Eu não estou preocupado com você, Renesmee — desferiu ele, a voz fria e cortante como uma lâmina de gelo. — A minha única preocupação é com a saúde dos meus filhos. Agora sente a porra da bunda nessa cadeira.
Engoli em seco, cravando as unhas na seda do vestido. A raiva queimava tão forte no meu peito que por um segundo esqueci a presença dos convidados a poucos metros dali.
— Quando é que você pretendia me contar o que fez com o Royce?! — questionei em um sussurro furioso, inclinando o corpo na direção dele, a voz embargada pela indignação. — Você o executou como um covarde e me fez passar por idiota recebendo os pêsames do prefeito!
Jacob ajustou as abotoadeiras do terno com uma lentidão exasperante. Ele ergueu os olhos para mim e soltou uma risada curta, seca e profundamente cínica.
— Do que você está falando, querida? — debochou ele, aproximando o rosto do meu com uma calmaria assustadora. — O prefeito acabou de te dizer. Foi um trágico acidente. A pista estava molhada, o carro perdeu o controle... coisas que acontecem no inverno de Seattle. Eu não fiz nada.
— Deixa de ser cínico, Jacob! — rebati, o ódio transbordando pelos meus olhos em lágrimas quentes que me recusei a deixar cair. — Você o assassinou!
— E por que essa comoção toda por aquele verme? — cortou Jacob, a voz descendo para um tom perigosamente grave e ríspido, o cinismo dando lugar a um desprezo cru. — Você está chorando pelo homem que agredia a própria esposa entre quatro paredes? Por um desgraçado que, no primeiro sinal de crise no , procurou o meu clã nos bastidores e vendeu a sua cabeça para salvar a própria pele?
O chão pareceu oscilar sob os meus pés. Encarei-o em choque, sem conseguir articular uma palavra.
— O Royce não passava de um lixo negociável, Renesmee — continuou Jacob, dando um passo final para selar a distância entre nós, a sombra dele me cobrindo por completo. — Ele te vendeu para mim por uma fatia da própria divida antes mesmo de a guerra estourar. Ele teve exatamente o fim que merecia. Então não venha fazer papel de moralista na minha casa. Sente-se nessa cadeira agora... pelos nossos filhos.
A respiração ainda falhava no meu peito enquanto eu absorvia o impacto das palavras de Jacob. Antes que eu pudesse rebatê-lo, a cortina de veludo se moveu ligeiramente.
Alice surgiu no pequeno recanto. Ela usava um vestido justo de tom cinza-chumbo, sustentando uma postura impecável, mas seus olhos revelavam a dor contida de quem via a própria família desmoronar. Nas mãos, carregava uma pequena caixa aveludada, embrulhada com uma fita prateada.
— Boa noite — disse Alice, a voz suave, mas firme o suficiente para cortar a tensão sufocante. — Espero não estar interrompendo. Trouxe um presente para a Renesmee, em nome dos Cullen.
Jacob virou o rosto devagar, encarando a esposa de Jasper com extrema desconfiança. Ele mediu a caixinha com o olhar antes de se colocar de forma protetora entre nós duas.
Antes que ele pudesse ditar qualquer ordem, Sam apareceu no corredor ao lado.
— Chefe — chamou Sam em tom baixo e urgente. — O juiz Miller e o promotor chegaram. Precisam falar com você na biblioteca antes do jantar ser servido.
Jacob travou o maxilar. Olhou de Alice para mim, a escuridão dos seus olhos deixando claro que a trégua duraria pouco.
— Não demore aqui, Renesmee — decretou ele, ríspido, antes de se afastar com Sam pela penumbra do salão.
Assim que a figura de Jacob sumiu no meio dos convidados, o peso nas minhas costas pareceu ceder por um segundo. Alice deu dois passos rápidos na minha direção, soltou a caixa sobre a mesa lateral e segurou minhas duas mãos com força.
— Meu Deus, Nessie... — murmurou ela, os olhos brilhando em lágrimas contidas. Como prima e esposa do meu primo Jasper, Alice sempre fora uma das poucas pontes de afeto sincero dentro da nossa dinastia. — Como você está? De verdade?
Soltei um suspiro trêmulo, sentindo a armadura de seda verde rachar por um instante.
— Eu estou sufocando, Alice — desabafei em um sussurro rasgado, olhando para os lados para garantir que nenhum dos homens de Jacob nos escutava. — Esse homem é um monstro. Ele acabou de me confessar, do jeito mais cínico possível, o que fez com o Royce... Ele me mantinha presa, me exibe como um troféu diante da cidade e agora eu tenho que aguentar as irmãs dele e a Leah me tratando como lixo
Alice apertou minhas mãos com mais firmeza, sustentando o meu olhar com uma determinação afiada.
— Ouça bem o que eu vou te dizer, Nessie — disse ela, a voz baixando para um tom firme e visceral. — Eu sei o quanto tudo isso dói. Sei o peso de ver tudo ser desmantelado. Mas você não é mais a garotinha que precisava da proteção dos King ou dos Cullen. Olhe para você.
Os olhos de Alice desceram por um segundo para o meu ventre.
— Você está carregando os herdeiros do clã Black. Querendo ele ou não, querendo as irmãs dele ou aquela mulher podre de inveja ou não, o futuro de toda essa cidade está crescendo dentro de você — continuou Alice, cravando os olhos nos meus. — A Leah se humilha tentando marcar território porque sabe que perdeu. Ela é uma sombra perto de você. Não permita que ela ou qualquer outra pessoa nesta casa te humilhe ou te faça baixar a cabeça.
— Eu tenho medo, Alice... pelas crianças — confessei, a voz falhando.
— Use o poder que você tem nas mãos, Nessie — aconselhou Alice, deslizando os dedos pelas minhas costas e me ajudando a manter a postura ereta. — O Jacob pode até mandar em Seattle, mas ele precisa de você para dar continuidade ao nome dele. Seja a senhora que você foi criada para ser, e não deixe ninguém pisar em você.
O som de risos na entrada do salão indicava que a movimentação para o jantar estava prestes a começar. Alice deu um passo para trás, recuperando a compostura impecável de uma Cullen diante dos convidados, e piscou para mim com um leve sorriso de cumplicidade.
— Agora erga esse queixo — sussurrou ela. — Mostre a eles de quem é o sangue que manda aqui.
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