Filha da guerra
28 26. Consequências
O barulho ensurdecedor dos motores de alta cilindrada quebrando o silêncio da propriedade dos Cullen anunciou o retorno da comitiva de resgate. As luzes dos blindados cortavam a neblina densa da madrugada enquanto a equipe médica de emergência da família já aguardava a postos na entrada principal do casarão.
A porta do primeiro blindado se escancarou, revelando o cenário caótico. Três corpos desacordados foram retirados às pressas sobre macas portáteis. O cheiro de metal queimado, fumaça e sangue impregnou o ar limpo da propriedade.
Entre os feridos, o estado de Emmett McCarthy era, sem dúvida, o mais crítico. O teto do sedã esmagado havia atingido seu tórax e crânio; sua respiração era um chiado fraco e arrastado, e os monitores cardíacos acoplados pelos paramédicos apitavam em um ritmo perigosamente lento e descompassado. Rosalie e Renesmee vinham logo atrás, amparadas por enfermeiros: a primeira apresentava múltiplos machucados e fraturas, enquanto a mais jovem carregava uma contusão forte na cabeça, permanecendo mergulhada em um coma profundo.
Edward Cullen, desceu a grande escadaria de mármore a passos largos, com a fisionomia fechada e o olhar tomado por um choque contido. Ele observou os médicos correrem com as macas em direção à ala hospitalar privativa construída no subsolo da mansão.
— O que aconteceu aqui, pai? — questionou Edward, a voz grave e cortante carregada de indignação ao se aproximar de Carlisle. — Que loucura foi essa?
Carlisle mantinha a postura ereta, mas o cansaço e a gravidade da situação se estampavam nas linhas fundas do seu rosto. Ele tirou o sobretudo manchado pelo orvalho da noite e soltou um suspiro pesado, encarando o filho com o olhar rígido de um patriarca que via o próprio império à beira do abismo.
— O Emmett fez uma grande besteira, Edward — respondeu Carlisle, com uma frieza preocupada. — Ele agiu pelas nossas costas, atendeu ao apelo da Rosalie, sua antiga paixão, e envolveu a nossa família em uma guerra direta contra o clã Black.
Antes que Edward pudesse rebater, o som de passos apressados ecoou pelo corredor de entrada. Esme Cullen, com a fisionomia tomada pela apreensão, surgiu acompanhada por Alice, esposa de Jasper Whitlocke, que também era sobrinho de Carlisle e um dos homens de confiança na segurança da família. As duas haviam sido despertadas pela movimentação atípica dos veículos e da equipe médica.
— Carlisle, pelo amor de Deus! — exclamou Esme, levando a mão ao peito ao ver as marcas de sangue no piso do hall. — De quem é aquele sangue lá fora? Onde está o Emmett?
— O Emmett está entre a vida e a morte na UTI, Esme — explicou Carlisle, virando-se para a esposa e para a nora. — A operação de resgate virou um confronto direto. Houve troca de tiros pesada com os homens do Jacob Black nas docas.
Alice deu um passo à frente, os olhos arregalados de preocupação, pensando imediatamente no marido e na gravidade do que aquilo representava.
— E são as duas mulheres que vieram com ele? — perguntou Alice, com a voz vacilante. — A Rosalie e a garota...
— Estão sendo atendidas — concluiu Carlisle, o tom caindo para uma gravidade sombria. — Mas o estrago já foi feito. Jacob foi ferido, mas sobreviveu. A partir desta madrugada, não existe mais trégua ou conselho nesta cidade. Estamos oficialmente em guerra com a família Black.
04 de novembro de 2000 — 05:15 AM
Ala Médica Privativa do Clã Black — Seattle, Washington
O som intermitente dos monitores cardíacos e o chiar dos cilindros de oxigênio preenchiam o ar gélido do subsolo. A ala médica, projetada para atender emergências táticas da família, havia se transformado num verdadeiro cenário de massacre. Macas ocupavam os corredores, cobertas por lençóis ensanguentados que escondiam os corpos de sete homens de confiança mortos na emboscada do porto. Outros oito seguranças, gravemente feridos por disparos de fuzil e estilhaços, recebiam atendimento de urgência sob os gritos e ordens da equipe médica.
No leito principal de UTI, Jacob Black permanecia desacordado, com a pele pálida e fria tomada por uma camada fina de suor. O líder do clã sangrara abundantemente até a perda de consciência; o projétil perfurara a região infraclavicular esquerda, atingindo vasos calibrosos.
Dois cirurgiões trabalhavam contra o tempo sob o foco de luz intensa. O monitor apitava em um ritmo rápido e fraco.
— A pressão sistólica caiu para seis! — alertou a enfermeira, ajustando a infusão do expansor plasmático enquanto o primeiro cirurgião extraía o projétil deformado da cavidade com um estalo metálico sobre a bandeja de inox.
— Sutura vascular agora, ele está entrando em choque hemorrágico! — ordenou o médico, a voz embargada pelo pavor diante da possibilidade de perder o chefe do império.
Do outro lado do vidro blindado que separava a sala cirúrgica da antessala, o desespero destruía a estrutura da família.
Billy Black, encurvado em sua cadeira de rodas, mantinha os olhos fixos na mesa onde o filho lutava pela vida. As lágrimas escorriam silenciosas pelas rugas fundas do seu rosto. Ao seu lado, Rachel e Rebecca seguravam suas mãos com força, incapazes de conter o choro diante de tanta devastação. Emily e Claire envolviam o próprio corpo em silêncio, rogando para que o irmão saísse dessa mais uma vez.
— Meu filho... meu garoto... — balbuciava Billy, a respiração cada vez mais curta e entrecortada.
De repente, o velho patriarca sufocou. Sua mão esquerda agarrou o próprio peito com violência, os dedos cravando-se no tecido da camisa. Os olhos de Billy arregalaram-se em pânico enquanto a cor sumia de seu rosto.
— Papai?! Papai, o que foi?! — gritou Claire, ajoelhando-se ao lado da cadeira ao ver a boca do pai se abrir em busca de ar que não chegava.
— É o coração dele! Meu Deus, alguém ajuda! — desesperou-se Rebecca, tentando segurar a cabeça de Billy no momento em que seu corpo convulsionou e tombou para o lado, desacordado.
— Doutor! O Billy tá tendo uma parada! — urrou Sam Uley, correndo pelo corredor da ala médica enquanto Paul desferia um soco violento contra a mureta de concreto, tomado pelo desespero impotente.
Enquanto a equipe de socorristas iniciava manobras de reanimação cardiopulmonar em Billy no piso da antessala, do outro lado do vidro o monitor de Jacob emitia uma linha quase plana. O império Black sangrava em todas as frentes, mergulhado no caos absoluto daquela madrugada.
— 06:00 AM
Ala Hospitalar da Residência Cullen — Seattle, Washington
O bipe longo, contínuo e estridente do monitor cardíaco rompeu o silêncio tenso do subsolo, ecoando pelas paredes brancas como uma sentença irrevogável.
Carlisle Cullen deu dois passos lentos para trás, abaixando as mãos manchadas de sangue. Diante dele, sobre a mesa cirúrgica principal, o corpo de Emmett McCarthy permanecia inerte. As manobras de reanimação, as descargas do desfibrilador e as injeções diretas de adrenalina haviam sido em vão; o trauma craniano severo e a hemorragia interna provocados pela capotagem destruíram qualquer chance de sobrevivência do jovem sobrinho do patriarca.
No leito ao lado, separado apenas por uma cortina cirúrgica, o cenário era igualmente devastador. Rosalie jazia sem vida, o rosto pálido e sereno contrastando com a linha plana que cortava a tela do equipamento cardíaco. As lesões internas decorrentes do impacto da SUV contra o sedã haviam sido fatais antes mesmo que a equipe médica pudesse intervir com eficácia.
Edward Cullen permaneceu imóvel na porta da sala, os punhos fechados ao lado do corpo e o olhar paralisado nos dois corpos cobertos por lençóis brancos.
Ao fundo, Esme abafou um soluço doloroso, caindo de joelhos no chão da ala médica enquanto Alice a amparava, em lágrimas, sem conseguir encarar a tragédia que acabara de se consolidar.
— Não sobrou nada que pudéssemos fazer — declarou Carlisle, a voz grave e embargada por uma dor profunda, virando-se devagar para encarar o filho. — O Emmett e a Rosalie... estão mortos.
Edward travou o maxilar, e uma fúria sombria e gélida começou a tomar o lugar do choque em suas feições. O sobrinho de Carlisle e a mulher que pedira socorro à família haviam sido exterminados pela perseguição implacável de Jacob Black.
— E a garota? — perguntou Edward, a voz caindo para um tom perigosamente calmo. — A esposa do Black?
Carlisle olhou em direção ao último leito do fundo, onde Renesmee permanecia inconsciente, conectada ao soro e aos monitores de sinais vitais, alheia ao massacre que custara a vida de sua mãe e do homem que tentara salvá-las.
— Ela sobreviveu apenas com uma contusão leve — respondeu Carlisle, puxando o lençol para cobrir completamente o rosto de Emmett. — Mas o preço que pagamos por esse resgate foi a vida do meu sobrinho.
Edward caminhou até a janela que dava para os jardins enevoados da propriedade, observando o nascer do sol gélido sobre Seattle. A tentativa de fugir da influência do império Black havia terminado no pior banho de sangue da história dos Cullen.
— O Jacob tentou matá-los no nosso território — murmurou Edward, com os olhos fixos na névoa da manhã, selando a declaração que mudaria o destino da cidade. — Ele tirou o Emmett de nós. Não existe mais espaço para diplomacia nesta cidade, pai. Nós vamos destruir o clã Black até o último homem.
Carlisle assentiu devagar para Edward, embora a dor de perder o próprio sobrinho lhe pesasse no peito como uma armadura de chumbo.
— Você está certo, Edward — concordou Carlisle, a voz grave e fria de um patriarca ferido. — Mas não agiremos pelo impulso da raiva. O clã Black está sangrando, mas Jacob é perigoso quando encurralado. Precisamos planejar cada passo com calma estratégica antes de atacar.
Antes que pudessem deixar a sala cirúrgica, Jasper atravessou a porta de vidro com a farda tática manchada de fuligem e chuva. Ele trazia nas mãos uma mochila de couro escuro, visivelmente danificada e rasgada pelos estilhaços do acidente.
— Encontramos isso nos destroços do sedã — explicou Jasper, entregando o objeto a Carlisle. — Pertencia à Rosalie. Não havia documentos de valor, apenas uma pasta lacrada com o seu nome.
Carlisle pegou o envelope de papel pardo de dentro da mochila. Com os dedos trêmulos de exaustão, ele rompeu o lacre e tirou algumas folhas dobradas. A caligrafia elegante e apressada de Rosalie preenchia as páginas com uma urgência trágica.
Edward, Carlisle e Esme se aproximaram. Carlisle começou a ler o texto em voz alta, a voz falhando a cada linha:
”Carlisle,
Se você está lendo esta carta, significa que o meu passado me alcançou e eu não sobrevivi para ver o fim desta guerra. Mas preciso que você saiba da verdade antes que destrua a única pessoa inocente no meio deste massacre.
Renesmee não é minha filha.
Anos atrás, para me proteger das chantagens de Royce e garantir um herdeiro que mantivesse o nome da família protegido, assumi a guarda da garota. Mas a mãe biológica de Renesmee é Renée Swan... e o pai biológico dela é você, Carlisle.
Ela traz o seu sangue, a sua herança e o seu nome. Eu a criei como se fosse minha, e a amo mais do que a minha própria vida. Se algo acontecer comigo nesta fuga, imploro que você a proteja de Royce King. Não permita que a sua própria filha viva na gaiola de ouro que me destruiu. Ou em um casamento por obrigação e medo, como o meu.
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