Filha da guerra

29 27. O filho dele • Renesmee Cullen



04 de dezembro de 2000


Residência do Clã Cullen — Seattle, Washington


Um mês havia se passado desde a madrugada que destruíra o meu mundo. Trinta dias desde que o som dos tiros e o estalo de metal contorcido arrancaram a vida da minha mãe e me jogaram nesta gaiola de ouro no topo da montanha.

O luto por Rosalie era uma ferida aberta e crua que sangrava a cada segundo. Eu passava a maior parte do tempo encolhida no batente da janela do quarto, encarando a chuva incessante de Seattle caindo sobre a vegetação densa. A realidade na mansão dos Cullen não era muito diferente da que deixei no império Black, o mesmo cheiro velado de pólvora no ar, a paranoia constante de uma guerra iminente e homens armados rondando cada canto da propriedade. A única diferença, brutal e dolorosa, era que ali eu era encarada como uma prisioneira indesejada.

Ouvi três batidas suaves na porta antes que Carlisle a abrisse devagar, trazendo uma bandeja com chá e biscoitos.

— Renesmee? — chamou ele, com uma voz suave e contida, pisando no quarto como se temesse me quebrar. — Trouxe algo para você. Você mal tocou no almoço hoje.

— Não estou com fome, Carlisle — murmurei sem me virar, mantendo os olhos fixos no vidro embaçado pela névoa.

Ele suspirou, deixando a bandeja sobre a mesa lateral. Desde que acordei naquela cama de hospital, Carlisle tentava se aproximar a todo custo. Ele me olhava com uma mistura dolorosa de culpa, carinho e responsabilidade que eu não conseguia absorver por inteiro. Trazia livros, tentava puxar conversa e garantia que nada me faltaria. Mas a postura dele só tornava a atmosfera da casa mais pesada.

Para o resto da família, a minha existência era uma afronta viva. A revelação de que eu era o fruto da traição do patriarca com Renée Swan havia caído como uma bomba sobre aquele clã. Ninguém me atacava abertamente ou usava palavras brutas — eram nobres demais para isso —, mas a rejeição emanava de cada olhar desviado, de cada conversa interrompida quando eu entrava em um cômodo. Para Edward e os outros, eu era a prova viva da fraqueza do pai, o motivo do assassinato de Emmett e o pivô da guerra contra os Black.

Ao descer para o andar de baixo no fim da tarde, o peso desse desprezo me atingiu em cheio. Esme estava na sala de estar conversando com Alice perto da lareira. No exato instante em que meus pés tocaram o último degrau da escada, as duas se calaram imediatamente.

Esme nem sequer fez questão de mascarar a sua ojeriza. Ela virou o rosto na minha direção, os olhos frios e desprovidos de qualquer traço de compaixão, medindo-me dos pés à cabeça como se a minha simples presença naquela casa fosse um insulto diário à sua dor. Sem proferir uma única palavra, ela recolheu suas coisas e deixou o recinto, me dando as costas com uma elegância gélida que cortava mais fundo do que qualquer lâmina.

Apertei meus próprios braços contra o peito, sentindo o ar fugir dos meus pulmões. Longe de tudo o que conhecia, sem o abraço da minha mãe para me proteger e odiada pela família do meu próprio pai, percebi que não passava de uma sombra errante no meio da guerra deles.

Aproximei-me da grande parede de vidro que dava para os jardins enevoados, abraçando o meu próprio corpo na tentativa inútil de me aquecer. Alice deu alguns passos lentos, parando a uma distância respeitosa.

— Você não precisa se isolar tanto, Renesmee — disse ela, a voz baixa, sem o tom cortante que Esme costumava usar, mas ainda carregada daquela prudência distante.

— É difícil não me isolar quando cada cômodo desta casa parece me rejeitar — respondi, o olhar fixo na névoa densa lá fora. — Eu sei o que todos pensam de mim. Para vocês, sou a bastarda que arruinou a trégua e trouxe a morte do Emmett para a porta de vocês.

Alice não negou imediatamente, e o silêncio dela foi a confirmação de que eu precisava. Ela soltou um suspiro pesado, cruzando os braços.

— A morte do Emmett destruiu essa família, Nessie. O Carlisle tenta manter o controle, mas o Edward... o Edward só pensa em vingança. É difícil para a Esme olhar para você e não lembrar de tudo o que perdeu.

Virou-se devagar para me encarar. O olhar de Alice desceu do meu rosto e pousou, de forma sutil e significativa, sobre o meu ventre ainda plano.

— Como você está se sentindo? — perguntou ela, o tom caindo para algo estranhamente cauteloso, quase solícito. — Com tudo isso?

Siga com o meu próprio olhar para onde ela apontava. Instintivamente, levei a mão direita à parte inferior da minha barriga, espalmando os dedos sobre o tecido fino da minha blusa.

Um calafrio percorreu a minha espinha quando a memória daquela madrugada me assaltou com violência: o som do metal se contorcendo, o carro capotando no asfalto molhado e a sensação pavorosa de ser arremessada para fora do veículo antes que tudo se apagasse na escuridão.

Era um milagre absoluto que eu estivesse grávida. Um milagre inexplicável que a vida dentro de mim tivesse resistido ao impacto brutal do acidente, à queda no concreto frio e a todo o trauma que se seguiu na ala médica.

— Eu nem sei como ele ainda está aqui... — murmurei, a voz falhando enquanto sentia o peso daquela revelação. A mão trêmula apertou a barriga. — Depois do carro ter capotado, de eu ter sido jogada no asfalto... qualquer outra mulher teria perdido. Mas essa criança... ela simplesmente se recusou a ir embora.

Olhei de volta para Alice, e pela primeira vez vi uma rachadura na postura defensiva dela.

Aquela criança não era apenas o meu segredo mais profundo; era o sangue de Jacob Black crescendo silenciosamente dentro do território dos Cullen. O filho do homem que jurara exterminar aquela família, sendo gerado pela filha que Carlisle acabara de descobrir.

Eu estava prestes a completar dois meses de gestação. O meu corpo ainda não dava sinais evidentes para o mundo exterior, mas a consciência daquela vida pulsar dentro de mim mudava absolutamente tudo. Ninguém fora das paredes blindadas desta mansão sabia da gravidez. Apenas Carlisle, a família , os médicos da família guardavam o segredo, um segredo perigoso demais para cruzar os limites do território dos Cullen.

Encarei o meu reflexo no vidro da janela, cobrindo o ventre com as duas mãos.

Não havia qualquer certeza de que Jacob saberia um dia que seria pai. A cidade lá fora estava sob um estado de sítio velado, uma guerra implacável e sem trégua travada palmo a palmo nas ruas de Seattle. O pacto de sangue do conselho fora rasgado no instante em que o carro de Emmett capotou no porto.

E o pior de tudo era saber o peso do ódio que Jacob devia carregar por mim agora.

A notícia sobre a morte de Billy Black havia chegado aos ouvidos dos Cullen duas semanas após a minha fuga. O velho patriarca não resistira ao ataque cardíaco ao ver o filho baleado e o império ruindo diante dos seus olhos. Para Jacob, a minha traição não fora apenas uma afronta ao seu orgulho de chefe da máfia; fora a fagulha que desencadeara a morte do próprio pai.

Se antes ele me queria de volta por posse ou desejo de punição, agora a fúria dele devia ser um abismo cego. Eu havia me tornado a mulher que destruiu a casa dele, a mulher que causou a morte do patriarca dos Black.

— Ele nunca vai perdoar você, Renesmee — disse Alice em um tom baixo, quebrando o silêncio e lendo as sombras que cruzavam o meu rosto.

— Eu sei — murmurei, e uma lágrima solitária finalmente escapou, queimando a minha bochecha fria. — Eu sei o quanto ele me odeia agora.

Apertei a blusa sobre a barriga, sentindo o nó da culpa e do medo sufocar a minha garganta. O homem com quem me casara, o homem que me prometera proteção e que me fizera acreditar que poderíamos construir algo real, era agora o meu maior inimigo.


11h:00min


Algumas horas mais tarde, na biblioteca principal da mansão, Carlisle e Edward tentavam mapear as rotas de suprimentos da família enquanto eu permanecia sentada em um dos sofás de couro, fingindo folhear um livro. A atmosfera estava carregada, mas a presença constante de Carlisle ao meu lado tentava trazer um pouco de sobriedade ao caos.

O silêncio do cômodo foi bruscamente partido quando dois guardas armados da segurança dos Cullen bateram à porta e entraram apressados, com as mãos repousadas nas coronhas dos fuzis.

— Senhor Cullen — anunciou o homem da frente, com a voz tensa. — Há um veículo do clã Black no portão principal. Um dos homens de confiança do Jacob está exigindo entrada. Ele alega que veio sozinho e desarmado para entregar uma mensagem direta do chefe dele.

Edward se levantou no mesmo instante, o maxilar travado e os olhos faiscando de fúria.

— Não vamos receber ninguém daquela raça nesta casa — rosnou Edward, a mão descendo para o coldre.

— Deixe-o entrar — interferiu Carlisle com autoridade firme, erguendo a mão. — Se vieram sob bandeira de trégua para dar um recado, nós ouviremos. Traga-o até aqui.

Aguardamos em um silêncio sepulcral. Meu coração disparou no peito, batendo dolorosamente contra as minhas costelas, e instintivamente deslizei a mão para cima da minha barriga, buscando um amparo invisível.

Segundos depois, os passos pesados ecoaram pelo corredor. Quando a figura alta cruzou a soleira da biblioteca, o ar fugiu dos meus pulmões.

Era Jared.

Ele trazia uma cicatriz recente perto da sobrancelha e vestia uma jaqueta de couro escura do império Black. Assim que seus olhos cruzaram o ambiente e pousaram em mim, uma onda de ódio puro, cego e visceral transpareceu em seu rosto. Os punhos dele se fecharam ao lado do corpo com tanta força que a pele dos nós ficou esbranquiçada. Para Jared e para toda a família de Jacob, eu era a traidora nojenta que havia provocado a morte do velho Billy.

— Mantenha os olhos longe dela — advertiu Edward, dando um passo à frente de forma ameaçadora.

Jared nem piscou. Ele desviou o olhar com absoluto desprezo, cravando os olhos frios em Carlisle.

— Não vim para perder tempo conversando com vocês — disse Jared, a voz caindo como um rosnado seco. — Tenho uma mensagem direta do meu tio para o clã Cullen.

Ele colocou a mão dentro da jaqueta. Edward e os guardas tencionaram os corpos, mas Jared apenas tirou dois envelopes de papel encorpado e os estendeu na direção de Carlisle.

— O Jacob mandou entregar pessoalmente — completou ele, sustentando o olhar do patriarca dos Cullen.

Carlisle deu um passo à frente e pegou os envelopes.

Com dedos firmes, ele rompeu o lacre do primeiro envelope. Ao desdobrar o documento oficial com o timbre do cartório da cidade, os olhos de Carlisle percorreram a folha. Era os papéis de divórcio da minha união com Jacob, devidamente assinados por ele com uma caligrafia agressiva, rompendo qualquer vínculo legal ou diplomático que um dia existira entre nós.

Eu era oficialmente uma mulher descartada pelo império Black.

Em seguida, Carlisle abriu o segundo envelope. No momento em que ele leu o conteúdo em silêncio, sua fisionomia empalideceu sutilmente.

— O que é isso, pai? — questionou Edward, aproximando-se.

Jared deu um sorriso gélido, carregado de uma malícia vingativa, fixando seu olhar diretamente no meu rosto pálido e aterrorizado.

— O primeiro é o papel que oficializa que a traidora não vale mais nada para o nosso clã — declarou Jared, fazendo questão de pronunciar cada palavra para que rasgasse as minhas entranhas. — E o segundo é o convite oficial do casamento do Jacob. Na próxima semana, o chefe da família Black se une à Leah Clearwater.

As palavras de Jared ecoaram na biblioteca como uma bomba. O chão pareceu sumir sob os meus pés. Jacob não apenas havia me apagado da sua vida, mas estava se casando com outra mulher para erguer um novo império sobre as cinzas do nosso passado enquanto o filho dele crescia, em segredo, dentro do meu ventre.