Filha da guerra
26 24. Fuga • Renesmee Black
— 19:00 PM
O som das nossas risadas e dos passos apressados ecoou pelo hall de entrada assim que cruzamos a porta principal da mansão. O ar frio da rua parecia não ter efeito sobre o meu bom humor. Eu estava acompanhada por Claire, Rachel e Rebecca, enquanto Jared e a equipe de segurança entravam logo atrás, carregados de sacolas de grifes elegantes, caixas de sapatos e pacotes impecavelmente embrulhados.
Ver Jacob de pé perto da grande escadaria fez meu peito aquecer de uma forma gostosa. Ele vestia uma camisa escura levemente aberta no colarinho e trazia uma expressão séria que se suavizou no instante em que nossos olhares se cruzaram. Entreguei algumas sacolas para um dos seguranças e caminhei até ele a passos rápidos.
— Jake! — chamei, aproximando-me sem hesitar.
Ele me envolveu pela cintura com seus braços fortes, puxando meu corpo para junto do seu.
— Vejo que a tarde foi proveitosa — murmurou ele, tentando disfarçar o cansaço na voz, a respiração quente roçando minha pele.
— Foi maravilhosa — respondi, rindo baixo enquanto minhas cunhadas subiam para guardar as outras compras. Ajustei minha postura, erguendo-me nas pontas dos pés para alcançar o ouvido dele. Deslizei minhas mãos pelo seu peito e murmurei com a voz aveludada, carregada de intenção: — E eu fiz questão de comprar lingerie nova... Vários conjuntos de renda e transparência. Todos pensando em você.
Senti o corpo dele tensionar instantaneamente e a respiração engatar. O sorriso de canto que surgiu nos lábios de Jacob era puro desejo. Ele desceu as mãos para a curva da minha cintura, apertando-me com firmeza.
— É mesmo? — murmurou ele, a voz caindo para uma oitava grave e perigosa. — Pois saiba que eu vou fazer questão de ver cada uma delas no seu corpo.
Soltei uma risada melodiosa, selando nossos lábios num beijo rápido e provocante. No entanto, o momento durou pouco. Pelo canto do olho, notei a presença silenciosa de Rosalie no canto da sala. Ela estava encostada no batente da porta, com o rosto excessivamente pálido e o olhar perdido, como se estivesse carregando um peso insuportável.
Afastei-me de Jacob devagar, sentindo uma fisgada de preocupação no peito.
— Rose? Você está bem? — perguntei, dando alguns passos na direção dela. — Você parece que viu um fantasma...
— É apenas uma dor de cabeça forte, meu amor — mentiu ela, a voz trêmula esforçando-se para soar natural. — Toda essa mudança, o cansaço... acho que me pegou.
— Eu vou te acompanhar até o seu quarto — disse, pegando na mão fria dela. Virei-me para Jacob com um olhar terno. — Me dá alguns minutos? Vou ajudar a Rose a se deitar e já desço.
— Claro — respondeu Jacob, embora eu tenha notado a troca de olhares rápida e enigmática que ele teve com a minha mãe. — Leve o tempo que precisar.
No quarto de Rosalie, o silêncio era denso e opressivo.
Fechei a porta atrás de nós e a ajudei a se sentar na beirada da cama, tirando seus sapatos com cuidado.
— Vou pedir para a governanta trazer um chá e um remédio para você — falei, ajeitando as cobertas ao redor dela.
Mas quando tentei me levantar, a mão gelada de Rose segurou meu pulso com uma força desesperada. Estanquei. Ao olhar para ela, o meu coração congelou no peito: lágrimas contidas brilhavam nos olhos dourados de Rosalie, e os ombros dela tremiam levemente.
— Rose... o que está acontecendo? O que é isso? — perguntei, sentindo uma onda de pânico se espalhar pelo meu corpo.
Rosalie olhou fixamente para a porta trancada, o medo mais cru e visceral estampado em cada traço do seu rosto de porcelana. Ela me puxou para perto, baixando a voz para um sussurro urgente e sufocado:
— Renesmee... me escute com atenção. Nós não podemos ficar aqui. O Royce conseguiu uma audiência com o conselho das famílias hoje... ele quer que eu volte para ele, e as famílias apoiaram. O Jacob não vai conseguir me proteger da lei deles por muito tempo.
Senti o chão sumir sob os meus pés. Minha mente entrou em parafuso com a menção daquele nome.
— O quê? — balbuciei, sem conseguir assimilar. — Como assim o Royce...?
— Nós precisamos fugir, Nessie — interrompeu Rosalie, apertando minhas mãos com um desespero trágico, as lágrimas finalmente rolando pelo seu rosto. — Nós duas. Juntas. Precisamos ir embora desta cidade, desta casa, de tudo isso... antes que seja tarde demais para nós duas!
Olhei para as mãos de Rosalie segurando as minhas com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. A menção do nome de Royce King fez um calafrio percorrer a minha espinha, mas a ideia de abandonar tudo o que havíamos acabado de construir ali parecia um delírio.
— Não, Rose... isso é loucura — murmurei, balançando a cabeça e tentando soltar meus pulsos de leve. — O Jacob prometeu que nos protegeria. Nós selamos um acordo , ele me deu o controle da casa, me deu garantias... Ele enfrentaria o conselho inteiro por mim se fosse preciso!
— Você não entende, Renesmee! — o sussurro de Rosalie veio trêmulo, desesperado, cortando as minhas palavras. As lágrimas agora corriam livremente pelo seu rosto . — No mundo deles, a palavra do conselho é absoluta. Se o Jacob rasgar o pacto , as outras famílias se união para destruí-lo. Ele pode ser o homem mais forte da cidade, mas não é invencível.
— A gente dá um jeito, Rose! A gente luta, a gente...
— Se eles me fizerem voltar para o Royce, eu me mato! — interrompeu ela em um solavanco, a voz embargada por uma dor tão crua que fez o meu ar sumir.
Estanquei. O quarto pareceu diminuir ao nosso redor.
— Rose... não fala isso — balbuciei, a voz falhando.
— É a verdade, Nessie — ela olhou fundo nos meus olhos, com a expressão rasgada por um pavor trágico. — Eu passei anos sendo torturada por aquele homem. Eu prefiro colocar uma bala na minha própria cabeça do que permitir que o Royce coloque as mãos em mim de novo... ou que ele te use para me atingir. Eu prefiro morrer a ficar longe de você.
O peso daquelas palavras caiu sobre o meu peito como uma rocha. A imagem da minha mãe definhando nas mãos de Royce King, ou cumprindo a promessa de tirar a própria vida, fez o meu mundo girar. O carinho recente por Jacob, a aliança ... tudo aquilo empalideceu diante da urgência brutal de salvar a mulher que havia me criado.
Gastei alguns segundos encarando o rosto banhado em lágrimas de Rosalie, sentindo o conflito rasgar as minhas entranhas. Mas não havia escolha real.
— Tudo bem — murmurei, apertando as mãos dela de volta, sentindo meu próprio coração disparar em pânico. — Tudo bem, Rose. Eu vou com você.
Rosalie soltou um suspiro entrecortado de alívio, puxando-me para um abraço apertado.
— Nós vamos sair desta cidade — continuei em um sussurro, encarando a porta do quarto sobre o ombro dela, ciente de que, no momento em que desse aquele passo, eu estaria declarando uma guerra pessoal contra o homem com quem acabara de me casar. — Vamos planejar cada detalhe. Ninguém pode desconfiar... nem o Jacob, nem os seguranças.
04 de novembro de 2000 — 03:30 AM
O peso do ar de madrugada era quase sufocante. A respiração profunda e ritmada de Jacob ao meu lado no colchão indicava que ele estava mergulhado num sono pesado. Devagar, centímetro a centímetro, deslizei o corpo para fora dos lençóis de linho, segurando o fôlego a cada pequeno estalo da cama. Encarei o rosto dele adormecido pela penumbra do quarto. A calmaria nas feições do homem que comandava aquela parte da cidade contrastava brutalmente com o nó de culpa que dava nós na minha garganta. Peguei o casaco escuro sobre a poltrona, vestindo-o por cima das roupas simples que eu já havia deixado preparadas.
Pisei descalça no piso de madeira fria, contornando a cama com passos de fantasma. Girei a maçaneta com extremo cuidado e saí para o corredor deserto.
A mansão dormia, mas a vigilância do império Black nunca desligava totalmente. Eu conhecia o mapa das rondas, havia decorado cada troca de turno e cada ângulo das câmeras durante os últimos dois dias. Desci a escadaria lateral, evitando os degraus que rangiam, e me esgueirei pela porta de serviço que dava para os fundos da propriedade.
O vento frio da noite atingiu meu rosto assim que pisei na grama molhada pelo orvalho. O cheiro de terra úmida misturava-se com o aroma das hortênsias que ladeavam o caminho de pedra.
Caminhei rente ao muro de pedra da propriedade, mantendo-me sob a sombra densa dos salgueiros. Alguns metros à frente, escondida entre os arbustos altos onde a luz dos refletores do pátio principal não alcançava, estava Rosalie.
Ela vestia um sobretudo escuro e segurava uma bolsa pequena contra o peito. Assim que ouviu o sussurro dos meus passos na grama, Rose se virou bruscamente, o rosto tenso iluminado apenas pelo brilho fraco da lua.
— Você conseguiu — sussurrou ela, a voz trêmula de alívio e adrenalina, puxando-me rapidamente para o ponto cego atrás da estufa de vidro desativada. — Ele não acordou?
— Não — respondi em um sopro, olhando involuntariamente para a janela do segundo andar, onde ficava o nosso quarto. O coração batia tão forte contra as minhas costelas que parecia ecoar no jardim silencioso. — O caminho até aqui estava limpo. Os homens do Solomon estão concentrados no portão principal.
Rosalie apertou as minhas mãos geladas, os olhos azuis fixos nos meus com uma urgência quase dolorosa.
— As mochilas com o dinheiro estão escondidas do outro lado da cerca de ferro — murmurou ela, indicando com a cabeça a pequena abertura na vegetação aos fundos. — O carro com o meu amigo está nos esperando na estrada secundária. É agora, Nessie. Não há mais volta.
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