Filha da guerra
27 25. Perseguição • Jacob Black
04 de novembro de 2000 — 03:40 AM
O impacto brusco na porta do quarto me tirou do sono em uma fração de segundo. Antes mesmo de abrir os olhos, meu braço esquerdo já se estendia pelo colchão para cobrir o corpo de Renesmee, enquanto a mão direita buscava a Glock sob o travesseiro. Mas os meus dedos encontraram apenas o linho frio e vazio.
A luz do corredor invadiu o quarto quando a porta foi escancarada.
— Jacob! Levanta agora, porra! — a voz de Sam veio carregada de um pânico contido, algo extremamente raro para o meu cunhado. Logo atrás dele, o chefe da segurança do perímetro externo trazia o rosto pálido e a respiração descontrolada.
Sentei-me na cama, a arma já empunhada, o peito subindo e descendo acelerado.
— O que aconteceu caralho? — rosnei, a voz rouca de sono, mas com todos os sentidos em alerta máximo.
— Elas fugiram — soltou o chefe da segurança, engolindo em seco diante do meu olhar. — Uma das câmeras dos fundos interceptou o movimento. Um veículo secundário estava esperando na estrada de terra atrás do jardim. A senhora Black e a Rosalie acabaram de cruzar o limite da propriedade.
O tempo parou no quarto.
A frase ecoou como um zumbido ensurdecedor. Olhei para o lado da cama que ela ocupava. Para a poltrona onde o casaco dela não estava mais. Para o vazio do quarto onde, poucas horas antes, ela havia me olhado nos olhos com aquela promessa silenciosa de rendição.
Fugiram.
Não fora uma invasão. Não fora um sequestro dos King ou dos Volturi. Ela tinha esperado eu dormir. Tinha contornado a minha vigilância e caminhado por vontade própria para fora da minha vida.
Uma risada baixa, seca e desprovida de qualquer traço de humanidade escapou da minha garganta.
A dor da traição durou exatamente um segundo antes de ser completamente incinerada por algo incomparavelmente mais escuro. Algo perverso, frio e monstruoso, que eu havia passado dias tentando soterrar para bancar o marido compreensivo. O homem gentil que se ajoelhou aos pés dela, que cedeu o controle da casa, que aceitou suas exigências e colocou a reputação do próprio império em risco no conselho... esse homem morreu no instante em que o lado frio da cama me respondeu.
Lentamente, fiquei de pé. O silêncio que emanava de mim fez até Sam dar meio passo para trás, percebendo a mudança drástica no ar do quarto.
Caminhei até o closet sem pressa. Vesti uma camisa preta, ajustei o coldre de couro no peito e encaixei a Glock no lugar. Passei pelas caixas de lingerie intactas sobre a poltrona, e um sorriso perverso, carregado de uma malícia sombria, puxou o canto dos meus lábios.
— Ela acha que isso é um jogo — murmurei, a voz descendo para um tom tão calmo e gélido que parecia vir do fundo de uma sepultura. — Acha que pode brincar de barganha comigo, aceitar meu sobrenome e depois fugir pela porta dos fundos como uma criança mimada.
Virei-me para Sam, e os meus olhos escuros não traziam mais qualquer vestígio de dúvida ou fraqueza.
— Bloqueiem todas as estradas vicinais — ordenei, cada palavra cortando o ar como uma lâmina. — Acordem o Paul, o Solomon e a matilha inteira. Eu não quero a Rosalie de volta, mas a minha esposa... a minha esposa vai aprender hoje o que acontece quando se tenta enganar o chefe desta família.
A névoa de qualquer consideração pela mãe dela evaporou no exato momento em que encarei o espelho do closet e ajustei o coldre no peito. Se Rosalie pensou que poderia usar a minha casa como refúgio e depois roubar a minha mulher na calada da noite, ela cometeu o último erro da vida dela.
Voltei para o quarto com a passada pesada e pausada de quem acabou de assinar uma sentença de morte. Sam permanecia congelado na porta, acompanhado por Paul e Jared, que acabavam de chegar apressados pelo corredor, trazendo as armas já em mãos e a fisionomia fechada.
— Ouçam bem — ordenei, a voz caindo para uma calma absoluta, cavernosa, desprovida de qualquer vestígio de piedade. — A proteção que eu dei à Rosalie morreu na hora em que ela pisou naquele jardim com a minha esposa.
Paul ajeitou o cano da própria arma , os olhos faiscando com a promessa de execução.
— E qual é o plano para o veículo delas, tio? — perguntou Jared, a voz firme, mas com o suor frio escorrendo pela testa.
Encarei meu sobrinho com um olhar tão gélido que o fez dar um passo involuntário para trás.
— Você vai liderar a frente de interceptação, Jared — declarei, cada palavra dita com uma precisão mortal. — Quero que metam bala naquele carro. Matem quem estiver dirigindo, metam um tiro no meio da cabeça da Rosalie e limpem o terreno. Não quero que sobre nenhum cúmplice para contar história.
Jared engoliu em seco, assimilando a ordem direta para executar a sogra do chefe, mas assentiu sem ousar questionar.
— E a senhora Black? — perguntou Sam, com os braços cruzados, a voz grave medindo a gravidade da situação
— A Renesmee vem de volta — respondi, o sorriso perverso e retorcido surgindo nos meus lábios. — Arrancada daquele carro pelos cabelos se for preciso. Quebrem os vidros, matem quem estiver ao redor dela, mas tragam a minha esposa à força para esta mansão.
Caminhei até a mesa lateral, peguei o carregador sobressalente da Glock e o encaixei com um estalo seco e definitivo.
— Ela achou que eu era o marido manso que se ajoelhava aos pés dela — continuei, encarando meus homens um a um. — Hoje ela vai descobrir o que acontece quando se traí o chefe do império Black. Quando ela pisar de volta nesta casa, o corpo da mãe dela vai ser a primeira lição sobre quem é que manda aqui.
Virei-me em direção à saída, a fúria e o desejo de domínio absoluto acelerando o meu pulso.
— Vão. E não voltem sem a minha mulher.
04 de novembro de 2000 — 04:15 AM
O urro do motor V8 da minha SUV cortava o asfalto molhado das ruas de Seattle como um demônio à solta. A chuva fina batia contra o para-brisa, refletindo os néons borrados dos prédios comerciais do centro. Paul estava no banco do passageiro ao meu lado, segurando um fuzil de assalto M16 com a coronha firme contra o ombro, enquanto na SUV de trás Sam e Jared lideravam o resto do comboio equipados com submetralhadoras MP5 e espingardas calibre 12.
A ordem era clara: destruição total. A traição de Renesmee havia queimado qualquer ponta de compaixão que restava no meu peito.
— Estou vendo o sedã delas dobrando a quarta avenida! — gritou Paul pela janela, o vento cortante arrastando sua voz. — Estão tentando pegar o acesso para o viaduto!
— Encosta nessa desgraça! — ordenei, pisando fundo no acelerador, ignorando o sinal vermelho no cruzamento deserto.
Antes que meu comboio pudesse fechar o cerco sobre o carro onde elas estavam, o som de tiros pesados cortou o barulho da chuva. Das alamedas laterais entre os edifícios surgiram dois SUVs pretos, blindados, cortando a pista e se posicionando em formação de combate para proteger o sedã de fuga.
— Posição de ataque! — esbravejou Sam pelo rádio. — Tem escolta!
— É uma emboscada! Não importa quem seja, estraçalhem tudo! — ordenei, mantendo o pé cravado no pedal.
A zona industrial de Seattle virou um inferno de chumbo. Paul colocou meio corpo para fora da janela e descarregou o M16 contra o pneu do primeiro SUV de escolta, os estampidos ensurdecedores ecoando nas paredes de concreto dos galpões. Do teto do outro carro da nossa escolta, um dos meus homens abriu fogo com uma espingarda calibre 12, estilhaçando o para-brisa do segundo veículo inimigo. O fogo cruzado era impiedoso. Rajadas de submetralhadoras ecoavam pela noite, projéteis perfurando a lataria e faíscas voando pelos trilhos de bonde desativados no asfalto.
— Eles estão dobrando em direção aos galpões do porto! — alertou Paul, trocando o carregador do M16 com agilidade impressionante. — É território sob o domínio dos Cullen!
— Eu não dou a mínima para quem é o dono desta porra de rua! — gritei, o olhar fixo no sedã preto que tentava fazer a curva acentuada rente às docas.
Forcei a minha SUV contra o último carro da escolta deles, prensando-o contra um poste de iluminação até que o veículo rival perdesse o controle, rodando e batendo violentamente contra uma estrutura de tijolos.
Livre do bloqueio, acelerei direto na traseira do sedã. O motorista costurava as ruas estreitas do porto com habilidade, mas o peso e a tração da minha SUV pesada eram implacáveis. As luzes altas da minha frente iluminavam o vidro traseiro do sedã; consegui ver a silhueta em pânico de Rosalie no banco do passageiro e a de Renesmee encolhida no banco de trás.
A raiva me cimentou os sentidos.
— Segura! — avisei Paul.
No exato instante em que cruzamos o portão de acesso às docas do clã Cullen, manobrei bruscamente para a esquerda e dei uma pancada seca com o para-choque de aço reforçado contra a lateral traseira do sedã.
O impacto foi devastador. O carro delas perdeu a aderência no asfalto molhado pela névoa do Puget Sound, derrapou de lado e bateu no meio-fio de um galpão abandonado. O veículo decolou por alguns metros, capotando de lado duas, três vezes, destruindo a lataria e o teto sob o estalo aterrador de metal e vidro se contorcendo, até parar finalmente de rodas para o ar perto do cais.
O silêncio que se seguiu foi quase irreal, quebrado apenas pelo chiar da chuva sobre o metal em chamas e pelo som distante das ondas na baía.
Puxei o freio de mão da minha SUV, parando a poucos metros do destroço. Peguei a Glock no coldre do peito, destravei-a com um estalo frio e saí do veículo, caminhando devagar sobre os cacos de vidro espalhados pelo chão molhado.
O cheiro acre de gasolina, borracha queimada e óleo de motor impregnava o ar gelado do cais. A chuva fina caindo sobre o asfalto quente do acidente criava uma cortina de fumaça densa ao redor do veículo retorcido.
Aproximei-me a passos lentos e calculados, a Glock apontada para a carcaça fumegante. O impacto violento da capotagem havia sido forte o suficiente para estilhaçar completamente os vidros e arrancar as portas laterais.
Renesmee e Rosalie haviam sido arremessadas para fora do carro durante as rotações.
O corpo de Rosalie jazia a alguns metros de distância, inerte sobre o concreto molhado, metade do rosto coberto pelo cabelo ensopado de chuva e sangue. Um pouco mais à frente, jogada contra uma pilha de paletes de madeira quebrados, estava Renesmee. Ela não se movia. A visão da minha esposa desacordada, a pele manchada de fuligem e a roupa rasgada, fez meu peito dar uma fisgada dolorosa, mas a fúria no meu sangue me manteve impassível.
— Paul, checa o perímetro! Sam, segura as pontas no portão caso o resto da escolta apareça! — ordenei, sem desviar o olhar dos destroços.
Dei mais dois passos e me aproximei da cabine destruída. O motorista não fora arremessado; ficara preso pelo cinto de segurança e pela coluna de direção amassada. Ele estava desacordado, com a cabeça caída sobre o volante ensanguentado, após ter sofrido um impacto brutal contra o para-brisa.
Com a canhota, segurei o sujeito pelo colarinho da jaqueta e o puxei para trás brutalmente, para encarar o rosto do homem que havia ousado entrar na minha cidade e tirar a minha mulher da minha casa.
A luz dos faróis da minha SUV iluminou as feições do sujeito.
Pisquei, travando o movimento.
— Mas que porra...? — murmurei, o choque cortando parte da minha adrenalina.
Eu conhecia aquele rosto. Era Emmett McCarthy. O sobrinho de Carlisle Cullen. O lutador de elite que o clã Cullen usava para execuções e resgates de alta complexidade.
A peça final do quebra-cabeça se encaixou na minha mente com uma clareza aterrorizante. Rosalie não tinha agido sozinha, e aquela fuga não fora simplesmente um plano improvisado de duas mulheres desesperadas.
Ajoelhei-me ao lado da porta destruída e encostei dois dedos no pescoço de Emmett, logo abaixo do maxilar ensanguentado. A pulsação era errática, quase imperceptível. A respiração dele vinha em estertores fracos e ruidosos, o tórax mal se movendo sob o peso do estresse traumático. Ele estava morrendo.
— Ele está vivo, Jacob? — perguntou Paul, aproximando-se com o fuzil M16 em riste, encarando o homem desacordado. — É um dos homens do Carlisle. Se a gente der o tiro de misericórdia agora, os Cullen nunca vão provar que fomos nós.
Encarei o rosto inconsciente de Emmett por alguns segundos. A vontade de puxar o gatilho e terminar o serviço era gigante, mas a mente estratégica do chefe da família falou mais alto.
— Não — decretei, soltando o colarinho dele com desprezo. — Ele vale mais vivo.
Virei-me bruscamente em direção ao ponto onde Renesmee estava jogada. Caminhei até ela, abaixando-me para pegá-la nos braços. O corpo dela estava frio e leve, a cabeça pendendo contra o meu peito.
— Peguem a Rosalie e o McCarthy. Trancem os dois no porão da mansão e chamem o nosso médico — ordenei para Paul e Sam, enquanto ajeitava minha esposa nos meus braços, encarando o rosto desacordado dela com uma possessividade sombria. — A guerra com os Cullen começou hoje. E a minha esposa vai assistir a tudo de camarote assim que abrir os olhos.
Antes que Paul pudesse sequer dar o primeiro passo em direção a Rosalie, o som gélido do acionamento em massa de armas automáticas ecoou por todos os cantos do cais.
Luzes de alta intensidade se acenderam simultaneamente do teto dos galpões ao redor, cegando nossa visão e transformando a penumbra da chuva em um palco iluminado.
— ABAIXA! — o grito de Sam veio acompanhado por uma saraivada ensurdecedora de chumbo.
Vários atiradores posicionados no topo das estruturas de concreto abriram fogo de uma só vez. Dúzias de veículos pretos surgiram das sombras das ruelas laterais, bloqueando completamente todas as saídas das docas. Éramos uma força de ataque móvel, mas havíamos caído em um cerco milimetricamente planejado pelo clã Cullen em seu próprio território.
Um projétil perfurou o ar e atingiu meu corpo, do lado esquerdo.
A força do impacto me fez cambalear para trás, soltando Renesmee no asfalto molhado. A dor queimou como ferro em brasa, e o sangue quente começou a jorrar, ensopando a camisa preta em segundos.
— Jacob! — urrou Paul, correndo na minha direção e disparando ríspidas rajadas do seu M16 contra a linha dos galpões para nos dar cobertura.
— Me solta, porra! Pega a Renesmee! — ordenei, a voz entrecortada pela dor, tentando avançar com a Glock na mão direita para alcançar minha esposa, que continuava desacordada a poucos metros.
— Não dá! Eles estão em maior número, é um massacre! — esbravejou Sam, surgindo do meu outro lado e me segurando com força bruta pelo braço bom.
A chuva de projéteis estilhaçava o concreto ao redor dos meus pés. Homens vestidos com táticas militares e o brasão dos Cullen avançavam em linha, criando um paredão de fogo que nos separava fisicamente do ponto onde Renesmee e Rosalie estavam jogadas.
Dois dos meus seguranças caíram ao nosso lado, atingidos no peito.
— A gente tem que sair agora ou o senhor morre aqui! — gritou Jared, puxando-me com desespero para trás da SUV blindada enquanto os tiros perfuravam os vidros do nosso veículo.
— Eu não vou embora sem a minha mulher! — esbravejei, o sangue fervendo de raiva e desespero. Tentei me soltar do aperto de Sam, mas a perda de sangue e a dor lancinante reduziram minha força.
— Se o senhor morrer, o império Black acaba hoje! — Sam rebateu com uma firmeza brutal, empurrando-me para dentro do banco traseiro da SUV em movimento.
Paul pulou para o banco do motorista, engatando a marcha ré e cantando pneu enquanto descarregava o fuzil pela janela.
Pela janela traseira quebrada, no meio da fumaça, da chuva e do clarão dos disparos, vi a cena que me rasgaria por dentro: homens dos Cullen se posicionando ao redor do carro destruído, erguendo os corpos inconscientes de Renesmee e Rosalie para colocá-las em segurança em um dos seus blindados.
Tentei me levantar, mas minha visão começou a embaçar. A imagem da minha esposa sendo levada para o território dos Cullen foi a última coisa que vi antes de as forças me abandonarem e a escuridão tomar conta.
Fale com o autor