Filha da guerra
25 23. O conselho • Jacob Black
02 de novembro de 2000 — 14:00 PM
O salão do antigo conselho cheirava a mofo, madeira velha e pólvora impregnada no piso. O local neutro, escolhido a dedo para a audiência que Royce King havia exigido desesperadamente, permanecia exatamente como há décadas: uma mesa circular de carvalho escuro, pouca iluminação e um silêncio sufocante que antecedia qualquer derramamento de sangue.
Eu entrei à frente, com passos firmes e o queixo erguido, representando o sobrenome Black com o peso de todo o nosso império. Logo atrás de mim veio Rosalie. A presença dela era uma jogada calculada; vestida em um conjunto impecável de alfaiataria escura, com o rosto impassível de porcelana, ela exalava uma frieza estratégica. Renesmee não sabia de nada disso. Naquela mesma tarde, ela havia saído para compras acompanhada por Claire, minha irmã mais nova, e sob a vigilância cerrada de uma equipe de segurança de elite liderada por Jared, com Rachel e Rebecca acompanhando a comitiva.
Ao meu lado no salão, a minha linha de frente trazia a força que sustentava a minha liderança. Sam Uley, meu cunhado e marido da minha irmã Emily, mantinha a postura ereta e os braços cruzados. Solomon, marido de Rebecca, trazia o olhar atento do homem que gerenciava a nossa inteligência. E Paul, que namorava minha irmã Rachel, estava encostado na parede lateral, a mão sutilmente repousada sobre o coldre oculto sob a jaqueta, com os olhos faiscando.
Ao redor da mesa, as peças da alta cúpula já estavam dispostas. Os Swan, liderados por Charlie, ocupavam a ala leste do salão. Os Cullen ocupavam o lado oposto, em silêncio absoluto. Apenas os Volturi faltavam naquele cenário; após os ataques devastadores e o caos recente na mansão, o clã simplesmente evaporara, deixando um vácuo de poder que todos ali tentavam digerir.
E então, no centro das atenções, estava Royce King.
Ele estava acompanhado por apenas quatro homens de confiança. O desespero de Royce não era por territórios, armas ou herança; a fúria que queimava nos olhos dele tinha um único alvo.
— Você acionou o conselho por isso, King? — cortei o silêncio, a minha voz grave ecoando pelas vigas de madeira enquanto me acomodava no centro da bancada. Sam e Solomon pararam logo atrás da minha cadeira. — Fale rápido.
Royce deu um passo à frente, ignorando a mim e a todos os líderes na sala. Os olhos dele estavam cravados exclusivamente em Rosalie.
— Eu não vim aqui discutir os seus negócios ou o seu casamento com a minha filha, Black — vociferou Royce, a voz trêmula de uma possessividade doentia, apontando o dedo na minha direção. — Eu vim buscar o que é meu! A Rosalie é a minha esposa! Você não tem autoridade, poder ou direito de se meter em questões entre marido e mulher!
A acusação dele reverberou pelas paredes de madeira, fazendo com que Charlie Swan franzisse o cenho e Carlisle Cullen permanecesse tenso no seu lugar.
Soltei um riso baixo, seco, reclinando-me na cadeira e encarando Royce como se ele fosse um inseto incômodo.
— Marido e mulher? — rebati, o tom caindo para uma gravidade mortal. — Você passou anos mantendo a Rosalie sob ameaças, calando a voz dela e usando o nome da sua família para estrangulá-la. Mas a dinâmica nesta região mudou, Royce.
— Ela assinou o meu nome! Pertence à minha casa! — esbravejou Royce, tentando dar mais um passo na direção de Rose, mas Paul imediatamente deu meio passo à frente, com a mão pronta no cabo da pistola. — O conselho não pode aceitar que um líder de clã interfira no matrimônio alheio! Se você proteger uma esposa fugitiva, estará quebrando o pacto fundamental entre as famílias!
Rosalie, que até então mantinha o olhar frio fixado na parede, deu um passo lento à frente, posicionando-se exatamente ao meu lado. Ela encarou Royce com um desgosto tão profundo que o homem quase vacilou no lugar.
— Eu nunca fui sua, Royce — a voz de Rose cortou o ar como lâmina de gelo. — E o tempo em que você mandava na minha vida terminou no segundo em que o Black me tirou da sua casa.
Inclinei-me para a frente, apoiando os cotovelos na mesa de carvalho, e olhei bem nos olhos de Royce.
— Escute com atenção, King — ordenei, cada palavra proferida com uma lentidão calculada. — A Rosalie está sob a minha proteção e sob o teto da minha família. Se você acha que a sua 'questão de marido e mulher' te dá o direito de encostar um único dedo nela, tente a sorte.
O silêncio que se seguiu à minha ameaça não durou muito. A tensão no salão atingiu o ponto de ebulição, mas no mundo da máfia tradicional, a palavra escrita e as leis arcaicas do conselho ainda tinham um peso sufocante.
Carlisle Cullen pigarreou, ajeitando a gola do sobretudo. Ele não sabia — nem remotamente — que Renesmee era sua filha biológica, e seu olhar para Rosalie era de uma frieza estritamente diplomática.
— Jacob tem a força das armas, mas o conselho foi erguido sobre leis — declarou Carlisle, a voz calma e pausada ecoando pelo recinto. — Se permitirmos que os laços matrimoniais sejam rasgados pela interferência de terceiros, criaremos um precedente perigoso para todas as famílias aqui presentes. Rosalie é, perante o código das famílias, esposa de Royce King. O clã Cullen não apoia a quebra de um contrato de casamento sem a resolução devida entre as partes. Ela deve se resolver com o marido.
A fala de Carlisle caiu como uma pedra sobre a mesa. Rosalie ergueu o queixo, o rosto pálido de raiva, mas naquele ambiente dominado por homens da velha guarda, a voz de uma mulher tinha o peso de um sussurro contra um vendaval. Ela tentou abrir a boca para intervir, mas o patriarca dos Swan a interrompeu antes que ela pudesse proferir uma palavra.
— Concordo com o Carlisle — pronunciou-se Charlie Swan, mantendo os braços cruzados sobre o peito. O olhar do velho delegado/mafioso era duro e inflexível. — Não nos metemos em assuntos de casal. Se abrirmos espaço para que chefes de clãs acolham esposas de outros líderes por rivalidades pessoais, o conselho perde o propósito. A tradição precisa ser mantida, ou não haverá ordem na cidade.
Um murmúrio de aprovação correu entre os poucos conselheiros neutros presentes. Royce King esboçou um sorriso presunçoso, ajeitando a postura ao perceber que a maré da diplomacia arcaica virava a seu favor.
— Vocês ouviram — esbravejou Royce, a voz cheia de uma arrogância renovada. — A lei do conselho é soberana! Ela é minha esposa e deve retornar à minha casa para resolvermos nossas pendências sem a interferência dos Black!
Eu permaneci em silêncio por longos segundos, medindo cada homem naquela sala. Eu não tinha uma aliança formal com os Cullen, a relação entre o meu clã e o deles ainda era de uma trégua frágil e desconfiada.
Senti o olhar desesperado de Rosalie queimando sobre mim, exigindo a proteção que eu havia prometido. Mas o jogo ali era político, e uma jogada precipitada poderia colocar tudo a perder, inclusive a segurança de Renesmee.
— O conselho falou — murmurei por fim, a voz grave e pausada, reclinando-me na cadeira enquanto encarava Royce com um desprezo mortal. — Mas prestem bem atenção ao que vou dizer...
Aproximei-me da mesa, olhando nos olhos de cada um dos líderes presentes.
— O conselho pode reconhecer o papéis e as tradições de vocês. Mas a partir do momento em que Rosalie pisar fora deste salão neutro, a diplomacia acaba. Se um único fio de cabelo dela for tocado com violência, eu não vou invocar leis de conselho... eu vou caçar você, Royce. E não haverá contrato ou conselho no mundo que impeça o clã Black de cobrar essa conta.
Rosalie travou o maxilar, percebendo que a estrutura patriarcal do conselho a havia encurralado, enquanto Royce, apesar de triunfante com o apoio dos outros clãs, engoliu em seco ao ver o olhar prometido de morte que Sam, Paul e eu sustentávamos contra ele.
•••
— Eu não vou voltar com ele, Jacob! — a voz de Rosalie quebrou o silêncio, afiada, trêmula e carregada de um pavor sepulcral. Ela parou no meio do estacionamento deserto, recusando-se a dar mais um passo em direção aos carros. — Eu prefiro morrer a colocar os pés naquela casa de novo! Você prometeu que me protegeria!
Parei de costas para ela, fechando os punhos com tanta força que senti a pele das articulações estalar. Dei meia-volta devagar, sentindo a raiva me sufocar.
— E você acha que eu quero te entregar para aquele desgraçado?! — rosnai, a voz desaindo num rugido contido que fez os dois seguranças de plantão darem um passo atrás. — Eu devia ter metido uma bala no meio da testa do Royce quando tive a chance! Devia ter deixado o corpo dele apodrecer na mansão antes que ele inventasse de invocar esse conselho de velhos mofados!
Dei um passo agressivo para o lado, chutando o pneu dianteiro do SUV com força suficiente para acionar o alarme do carro.
— Mas se eu avançasse lá dentro contra a decisão dos Swan e dos Cullen e do restante do conselho — continuei, a respiração pesada —, eu estaria declarando guerra a todas as famílias da cidade de uma vez só. O império Black ruiria antes mesmo de eu conseguir me nomear Don
Sam deu um passo firme à frente, colocando a mão pesada sobre o meu ombro, puxando a minha atenção.
— Respira, Jacob — disse Sam, a voz calma e inflexível do homem que conhecia o peso de liderar. — O Paul e o Solomon estão certos em manter a guarda levantada, mas você não pode perder a cabeça agora. O conselho deu um prazo diplomático para a transição. Nós não fomos derrotados; só fomos encurralados pela burocracia do código.
— A lei deles só vale enquanto eles tiverem homens para aplicá-la, cunhado — interveio Paul, com a mão ainda repousada sobre a jaqueta, os olhos faiscando de raiva. — A gente arranja um emboscada no trajeto. O Royce não chega vivo à casa dele.
— Não — cortou Solomon, cruzando os braços e encarando Paul com severidade. — Se o Royce morrer a caminho, a responsabilidade cai direto na nossa conta. Os Cullen e os Swan atacam a nossa família no mesmo dia por quebra de trégua. O Jacob tomou a decisão certa lá dentro, por mais amarga que seja.
Senti o olhar fixo de Rosalie sobre mim. A mulher forte, imponente e calculista que havia me instruído no quarto de Renesmee horas atrás parecia prestes a ruir diante do fantasma do seu passado. Ver a mãe da minha esposa tomada pelo desespero me causou um nó amargo no estômago.
Aproximei-me dela devagar, reduzindo a postura agressiva. Olhei nos olhos azuis e marejados de Rose, mantendo a voz o mais firme e reconfortante que consegui.
— Escute bem o que vou te dizer, Rosalie — murmurei, segurando-a suavemente pelos ombros. — Você não vai voltar para as mãos do Royce. Não hoje, não amanhã e nem nunca. Eu dei a minha palavra no conselho para não criar um massacre dentro daquele salão, mas você é a mãe da Renesmee e está sob o teto da minha casa.
Rosalie engoliu em seco, a respiração entrecortada.
— Ele tem a lei do conselho ao lado dele, Jacob... — sussurrou ela.
— O conselho tem leis de papel. Eu tenho homens, armas e a porra do controle desta cidade — rebatia, o tom caindo para uma promessa sombria. — Vamos voltar para a mansão. Vou reforçar a segurança do perímetro e pensar em uma jogada que destrua a reputação do Royce antes que o prazo do conselho expire. Você não dá um passo fora do meu território sem a minha escolta. Entendido?
Rosalie encarou meu rosto por longos segundos, buscando a certeza que precisava. Devagar, ela assentiu com a cabeça, soltando um suspiro trêmulo de alívio.
— Agora entrem no carro — ordenei para Sam e Solomon. — Precisamos chegar em casa antes que a Renesmee volte das compras. A última coisa de que preciso hoje é ter que explicar a ela por que o conselho tentou entregar a mãe dela para um monstro.
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