Filha da guerra
24 22. Ciúmes • Jacob Black
A sensação da madeira fria do piso sob os meus joelhos era um lembrete incômodo da posição em que eu me encontrava. Nunca, em toda a minha vida, eu tinha me curvado diante de um homem, de um rival ou de uma autoridade. No meu mundo, ajoelhar-se significava sentença de morte. Eu era o homem que ordenava execuções com um aceno de cabeça, que mantinha o império sob um punho de ferro e para quem a fraqueza era um luxo mortal.
Mas para Renesmee? Eu me prostrava de bom grado, mesmo que a minha mente calculista gritasse que aquilo era um erro tático.
Senti o peso do olhar dela sobre a minha cabeça. Ela não se moveu. Não colocou as mãos nos meus cabelos como costumava fazer, nem diminuiu a distância que agora parecia um abismo entre nós. A seda preta do robe dela roçava contra a minha pele, mas a mulher por baixo daquele tecido estava fria como o aço que eu recém tinha deixado sobre a mesa.
Passei os últimos anos construindo minha reputação sobre cadáveres e decisões implacáveis. O tiroteio na mansão mais cedo tinha sido uma tentativa direta de minar o meu poder. A resposta lógica, a resposta que o meu império exigia, fora acelerar o casamento. Trancá-la sob a minha proteção, sob o meu nome, sob o meu domínio total. Era uma jogada de poder perfeita.
O problema era que, no meio de todas as minhas equações frias, a variável Renesmee tinha saído completamente do meu controle.
Ergui o rosto devagar, mantendo-me de joelhos, e encarei a mulher que agora carregava o meu sobrenome. Ela estava impecável, bonita demais, mas os olhos dela... os olhos estavam totalmente desprovidos de calor. Não havia pavor ali, o que seria mais fácil de lidar. Havia apenas uma frieza calculada, um ressentimento silencioso que me perturbava mais do que qualquer ameaça de morte que já recebi.
— Você pode achar que foi uma jogada para te prender, Nessie — murmurei, a minha voz soando mais rouca do que o normal, lutando para manter o tom firme que a minha posição exigia. — E talvez tenha sido. No meu mundo, quando algo é valioso demais, a gente protege a qualquer custo. Eu não podia arriscar te ver na linha de tiro outra vez.
Ela continuou em silêncio, o queixo erguido com uma soberba que ela certamente não tinha aprendido comigo, mas que me fascinava de um jeito doentio. A ideia de que aquela garota doce estava rapidamente se transformando em algo tão duro e impenetrável era um reflexo direto do mundo em que eu a tinha jogado.
Subi minhas mãos devagar pelas pernas dela, cobrindo o tecido da seda, sentindo o calor do corpo dela em contraste com a sua postura distante. Ela não se esquivou, mas o seu corpo permaneceu rígido.
— Eu sei matar, sei comandar e sei dobrar qualquer um que se atravessar no meu caminho — continuei, subindo o olhar para encarar a imensidão escura dos seus olhos. — Mas eu não sei como consertar o estrago que fiz no seu peito hoje.
Eu odiava a sensação de vulnerabilidade. Odiava saber que a única pessoa capaz de desarmar o chefe da maior organização da região estava ali, parada, usando o próprio silêncio e o próprio corpo como uma fortaleza que eu não sabia como invadir.
— Me diz o que você quer de mim — pedi, o tom quase imperceptível de súplica queimando na minha garganta. — O império é seu. As ordens da casa são suas. Mas não me olha como se eu fosse um estranho que te comprou.
Encarei a mulher que agora carregava o meu sobrenome, sentindo cada centímetro da distância que ela impunha entre nós. Ela deu um passo lento para trás, forçando-me a me erguer do chão. A madeira fria sob os meus joelhos deixou de ser um apoio, mas a minha devoção por ela permaneceu intacta.
Eu, o homem que comandava um império de sangue e ferro, estava completamente aberto, esperando o veredito da minha própria esposa.
— Você quer um acordo, Jacob? — a voz dela soou firme, cortando o silêncio pesado do quarto como uma lâmina afiada. — Então escute com atenção, porque eu não vou repetir.
Acompanhei cada movimento dela com o olhar. Havia algo de perigosamente fascinante na forma como ela se erguia diante de mim, usando a seda preta e a própria mágoa como uma armadura. Assenti devagar, mantendo a atenção absoluta no que ela diria.
— Primeiro — começou Nessie, dando um passo em direção à cama —, eu exijo liberdade dentro e fora desta casa. Chega de homens me seguindo como se eu fosse uma prisioneira ou um troféu fragilizado. A segurança fica do lado de fora dos meus passos.
— Não posso te deixar sem proteção, mas podemos negociar a quantidade de homens... — respondi sem piscar. A ideia de afrouxar o cerco ao redor dela me causava uma pontada de ansiedade pontiaguda no peito, mas eu preferia adaptar meus homens a uma guarda discreta e à distância do que sufocá-la e alimentando seu ódio por mim. — O que mais?
— Minha palavra é final com a equipe e com os negócios da casa — continuou ela, sustentando o meu olhar sem vacilar. — E se você voltar a tomar decisões sobre a minha vida sem me consultar... eu vou embora, e não haverá homens ou armas no mundo que me trarão de volta.
O meu maxilar travou por um segundo. A ameaça crua fez o meu sangue gelar mais do que qualquer emboscada de gangue rival. Eu sabia que ela falava sério. A dor de saber que ela cogitava me deixar era um golpe direto no meu ego, mas a perspectiva de perdê-la de verdade era simplesmente inaceitável.
Aproximei-me devagar, sentindo o calor radiante do meu corpo voltar a cercá-la. Aos poucos, reduzi a distância até ficar a poucos centímetros da sua pele, inebriado pelo perfume dela.
— Eu aceito as suas condições, Nessie — murmurei, estendendo a mão para tocar a curva suave do seu rosto. Ela não recuou, embora estivesse rígida como uma estátua. — Eu cedo em tudo o que você me pedir. Dou o controle da casa, a sua liberdade e a minha palavra. Mas há uma regra que você precisa respeitar.
Ela ergueu o queixo, me desafiando com aquele olhar escuro e indomável.
— Qual?
— Na frente dos meus homens, dos capitães e de qualquer outro mafioso... a minha palavra é soberana — minha voz desceu para um tom frio e sombrio, o tom do chefe que precisa manter a matilha na linha para não ser devorado. — O que aconteceu na casa do Charlie não pode se repetir. Você me confrontou e me desautorizou diante dos meus aliados, e no meu mundo, demonstrar fraqueza é uma sentença de morte. Se você me desrespeitar em público, o meu domínio rui. E se o meu domínio ruir, nós dois caímos.
Colei meu corpo ao dela, envolvendo a sua cintura sobre a seda macia do robe, puxando-a para junto do meu peito até sentir a respiração descompassada dela contra a minha pele.
— Entre quatro paredes, eu sou seu e me ajoelho aos seus pés quantas vezes você quiser — sussurrei contra a curva do seu pescoço, sentindo o pulso dela acelerar sob os meus lábios. — Mas da porta para fora, nós somos uma frente única. Ninguém pode ver uma rachadura entre nós. Entendido?
Senti as mãos pequenas dela subirem hesitantes até o meu peito, repousando exatamente sobre o meu coração descontrolado. O toque dela era o único alívio na minha tempestade.
— Fechado — ela murmurou, a voz aveludada trazendo uma ponta de barganha vitoriosa. — Mas lembre-se, Jacob... da porta para fora, você só terá o meu apoio se cumprir cada palavra do que prometeu aqui dentro.
•••
01 de novembro de 2000 — 06:00 AM
O frio do colchão ao meu lado me despertou antes do alarme. Estendi o braço por instinto, procurando o calor do corpo de Renesmee, mas meus dedos encontraram apenas o linho áspero e vazio. Abri os olhos de golpe, a névoa do sono desaparecendo no mesmo segundo para dar lugar ao alerta constante que operava no meu cérebro.
Sentei-me na cama, avaliando o quarto à meia-luz. A caixa de lingerie continuava sobre a poltrona, mas a presença dela havia evaporado. O silêncio da mansão às seis da manhã era espesso, quebrado apenas pelo chiado sutil da chuva contra os vidros.
Levantei-me rápido, vestindo uma calça cinza, e saí pelo corredor carpetado a passos silenciosos.
À medida que me aproximava da grande escadaria de madeira nobre que dava para o hall principal, o som de sussurros ríspidos cortou a penumbra. Parei no meio dos degraus, mantendo o corpo oculto pela sombra da estrutura, e apurei os ouvidos.
Na sala de estar, bem ao pé da escada, estava Renesmee. Ela vestia apenas uma camisola clara com alças finas e o robe solto sobre os ombros, o cabelo caindo em ondas bagunçadas pelas costas. O contraste do tecido delicado contra a luz fria da manhã a deixava vulnerável, mas a postura dela era pura rigidez.
Na frente dela, a poucos centímetros de distância, estava Jared, meu sobrinho.
A tensão entre os dois era quase palpável, uma carga elétrica perigosa no ar. Jared mantinha o corpo inclinado sobre ela, a gola da jaqueta de couro erguida, com um olhar que misturava audácia e uma cobrança sufocante.
— Você acha mesmo que vai aguentar fingir essa farsa com o meu tio depois de tudo?
— Mede as suas palavras, Jared — rebateu ela, a voz velada por uma raiva contida, dando um passo firme para a frente em vez de recuar. O robe de seda deslizou ligeiramente pelo seu ombro. — O que eu faço ou deixo de fazer no meu quarto não é da sua conta. Se toca e sai da minha frente antes que eu faça você se arrepender.
— Não tenta bancar a dona da casa para cima de mim — sussurrou ele, dando um passo ainda mais próximo e segurando-a pela linha da cintura com uma intimidade que fez todo o meu sangue ferver. — Você não engana ninguém com esse teatrinho.
O ar nos meus pulmões congelou. Minhas mãos se fecharam em punhos com tanta força que as articulações estalaram na penumbra da escada.
A tensão congelou no ar no exato milissegundo em que o estalido seco da trava da minha arma ecoou pelo hall.
— Tira a mão da minha mulher agora, Jared.
Minha voz desceu tão grave e profunda que parecia vir do próprio chão. Não precisei pensar; o movimento foi puro instinto e fúria. Desci os últimos degraus com a passada rápida de um predador e apoiei o cano gélido da Glock exatamente contra a têmpora de Jared.
O silêncio na sala virou um vácuo sufocante.
Jared estancou. O descaro no rosto do meu sobrinho deu lugar a um pavor contido quando ele sentiu o peso do metal na cabeça. Ele ergueu as mãos devagar, soltando a cintura de Renesmee como se o tecido da camisola dela estivesse em chamas.
— Tio... calma, não é nada disso — murmurou Jared, a voz falhando por um fio.
— Se você respirar fundo de novo perto dela, eu espalho o que tem nessa sua cabeça pelo papel de parede da sala — rosnei, a visão turva pelo ciúme e pelo sangue fervendo. A vontade de puxar o gatilho era uma vibração física nos meus dedos.
— Jacob, abaixa essa arma! — o grito de Rebecca veio do topo da escada oposta.
Em questão de segundos, o hall virou uma praça de guerra. Os passos pesados de Paul e Sam ecoaram enquanto eles entravam apressados pelo corredor lateral, já com as mãos nos coldres. Rebecca desceu os degraus quase tropeçando no próprio sobretudo, enquanto Solomon, alertado pela gritaria, surgiu do escritório com a fisionomia fechada.
— Ficou louco, Jacob?! É o seu sobrinho! — vociferou Rebecca, tentando intervir.
— Ele estava com as mãos nela! — esbravejei, sem desviar o cano da pistola. — Na minha frente, na minha casa!
— Ninguém vai atirar em ninguém aqui! — Solomon interveio, impondo o peso da sua voz.
O caos era absoluto. Ameaças cruzadas, o pânico de Rebecca e a respiração descontrolada dos meus homens preenchiam a sala. Eu estava a um milímetro de cometer uma chacina no meio da minha própria família.
— JACOB, CHEGA!
O grito de Renesmee cortou a bagunça como um chicote.
Ela se colocou suavemente, mas com firmeza, entre o cano da minha arma e o rosto de Jared. O robe de seda preta fluía ao redor do seu corpo enquanto ela espalmava a mão quente contra o meu peito nu.
— Você ficou maluco? — disse ela, a voz incrivelmente calma, suave, encarando-me com olhos bem abertos e uma expressão de genuína confusão e reprovação. — O que você pensa que está fazendo?
— Eu vi o que ele estava fazendo, Renesmee! — desabafei, o maxilar travado, o pulso descontrolado. — Eu vi ele com as mãos em você!
Renesmee soltou um suspiro profundo, balançando a cabeça devagar, como se estivesse lidando com um absurdo completo. Ela deslizou a mão pelo meu braço, tocando o meu pulso com uma delicadeza que contrastava brutalmente com a arma na minha mão.
— Você não viu nada do que está imaginando, amor — disse ela, o tom aveludado e ajeitado com uma convicção impecável. — Eu acordei tonta, com uma queda de pressão horrível por causa de todo o estresse dos últimos dias. Estava descendo a escada para pegar um copo d'água quando quase desmaiei no último degrau. O Jared só me segurou para eu não bater a cabeça no chão!
Pisquei, apanhado de surpresa. O desconcerto atingiu minha mente como uma ducha fria. Olhei de relance para Jared, que, embora pálido pelo cano da arma, assentiu rapidamente, engolindo em seco.
— E-é verdade, tio... — gaguejou Jared, captando o movimento de Renesmee instantaneamente. — Ela quase caiu... eu só segurei ela.
— Ele estava me amparando porque eu não conseguia parar em pé, Jacob — continuou Renesmee, aproximando-se mais e mantendo os olhos cravados nos meus, sem piscar, sem vacilar. — E você desce a escada parecendo um louco, apontando uma arma para o seu próprio sobrinho por causa de um mal-entendido? Você prometeu que confiaríamos um no outro e que agiria como o líder desta casa. É assim que você cumpre sua palavra?
A dúvida se instalou no meu peito como um veneno lento. Minha mente, antes cega de fúria, começou a questionar o que meus próprios olhos tinham presenciado. A luz da manhã era fraca... o ângulo da escada... a tontura dela...
A respiração pesada de Paul, o olhar atento de Solomon e a tensão de Rebecca me cobravam uma atitude imediata. Se eu disparasse agora, pareceria um tirano paranoico diante de todos.
Devagar, cedi à pressão do toque dela. Recuei o braço, travando a Glock e guardando-a no cós da calça.
— Se foi só isso... — murmurei, a voz ainda rouca, o olhar fixo em Jared com uma ameaça velada —, que não se repita. A partir de hoje, se ela passar mal, chame a equipe médica ou a Rebecca.
— Sim, senhor... desculpa, tio — Jared murmurou, de cabeça baixa, recuando dois passos antes de se afastar apressado.
Renesmee olhou para os outros com a postura impecável e a cabeça erguida.
— O espetáculo acabou. Foi só um susto com a minha saúde e uma reação exagerada do meu marido. Podem voltar aos seus afazeres.
Rebecca e Solomon trocaram um olhar desconfiado, mas o clima sufocante finalmente se dispersou. Sem esperar mais nada, Renesmee segurou minha mão firme e me puxou em direção aos degraus da escada.
Enquanto ela me conduzia de volta para a penumbra do nosso quarto, encarei as costas dela sob o robe de seda. Ela havia dobrado a mim, ao meu sobrinho e à família inteira em questão de segundos, fazendo-me duvidar da minha própria visão. E o pior de tudo: eu não sabia se sentia alívio ou um fascínio perigoso pela mulher com quem eu tinha acabado de me casar.
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